Trancistas do Capão: fios de Ancestralidade e Resistência 

10/02/2026

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Por Cris Oliveira  e Sonia Lima*

No Capão Redondo, 
o território aprende a respirar 
pelas mãos das mulheres. 

Mãos que conhecem o peso do dia, 
o cansaço acumulado, 
a pressa do mundo 
e ainda assim desaceleram. 

O chão é duro, 
mas a vida insiste. 
Insiste nos corpos que ficam, 
nas histórias que não foram embora. 

Entre uma rua e outra, 
entre o barulho do ônibus 
e o resto de conversa que sobra no ar, 
alguém começa a trançar um cabelo. 

O gesto nasce simples 
e se alonga no tempo. 

Não é só estética. 
Nunca foi. 
É memória em movimento. 
É um saber que atravessa gerações 
sem pedir licença. 

As Trancistas do Capão 
sentam juntas 
e criam um espaço 
que não aparece no mapa, 
mas existe. 

Existe no cheiro do creme, 
no som do pente, 
no riso que escapa, 
no silêncio que acolhe. 

Pode ser uma sala simples, 
uma casa emprestada, 
um canto improvisado. 
Quando as mãos se encontram nos fios, 
o território muda de sentido. 

Deixa de ser passagem 
e vira permanência. 

Vira abrigo. 
Vira escuta. 
Vira lugar 
onde ninguém precisa se explicar demais 
para ser aceita. 

Trançar é trabalho paciente. 
Exige tempo, 
presença, 
cuidado. 

Exige atenção ao couro cabeludo, 
respeito ao limite do outro, 
confiança construída fio a fio. 

Enquanto os fios se cruzam, 
as histórias aparecem: 
histórias de quem veio antes, 
de quem luta para ficar, 
de quem escolheu existir 
fora das normas. 

Histórias que não cabem nos registros oficiais, 
mas sobrevivem na oralidade, 
na troca, 
no toque. 

Mulheres periféricas, 
mulheres negras, 
mulheres trans, 
pessoas LGBTQIAPN+ 
encontram nas tranças 
um lugar de proteção. 

Ali, 
o corpo não é alvo — 
é território respeitado. 

Há mãos que ensinam mais que técnicas. 
Ensinam autonomia. 
Ensinam que empreender 
não precisa apagar a ancestralidade. 
Que um saber historicamente desvalorizado 
pode virar renda, 
dignidade, 
futuro. 

Mais de cinquenta mulheres 
carregam essa certeza: 
o território periférico 
produz conhecimento, 
produz beleza, 
produz caminhos possíveis. 

No Capão, 
resistir não é só confronto. 
Resistir é permanência. 

É estar todos os dias. 
É insistir no cuidado 
quando tudo empurra para o abandono. 

É ensinar e aprender ao mesmo tempo. 
É acolher sem prometer soluções fáceis. 
É criar rede 
onde antes havia isolamento. 

É dizer, sem levantar a voz: 
aqui também é seu lugar. 

A resistência mora no detalhe: 
no cuidado com o couro cabeludo, 
na escolha do desenho da trança, 
no tempo dedicado 
a cada pessoa sentada na cadeira. 

Há um saber antigo 
que guia essas mãos. 
Um saber que não veio dos livros, 
mas de mulheres que trançaram antes, 
em outros tempos, 
em outros territórios. 

As tranças sempre foram abrigo: 
nos navios, 
nas fugas, 
nos rituais, 
nos dias comuns. 

Trançar era proteger a cabeça 
e guardar a memória. 
Era esconder sementes. 
Era sustentar a dignidade 
quando tudo tentava arrancá-la. 

Esse cuidado atravessou gerações 
e chega hoje ao Capão 
como herança viva, 
adaptada ao presente, 
sem perder a raiz. 

Quando uma mulher cuida 
do cabelo da outra, 
cuida do que não se vê: 
da autoestima ferida, 
do medo acumulado, 
da solidão cotidiana. 

O tempo da trança 
desacelera o mundo. 
Suspende a urgência. 
Cria pausa. 

Ali, ninguém é descartável. 
Cada fio importa. 
Cada pausa é respeitada. 
Cada corpo é tratado 
como território sagrado. 

A ancestralidade não está só 
no desenho das tranças, 
mas na forma de estar junto. 
No aprendizado coletivo. 
Na paciência compartilhada. 
Na proteção que não pergunta demais. 

É um cuidado que não controla, 
não exclui, 
não diminui. 
É o cuidado que fortalece. 

Que diz, sem palavras: 
você pertence. 
Seu corpo é digno. 
Sua história tem valor. 

Cada trança feita 
é uma escolha política, 
mesmo quando não se diz em voz alta. 

É recusa ao apagamento. 
É afirmação de existência. 
É memória viva 
correndo pelos fios. 

Território, 
mulheres, 
resistência 
se entrelaçam. 

O território não é só bairro — 
é corpo, 
é vivência, 
é história compartilhada 
que se escreve no cotidiano. 

As mulheres sustentam, 
inventam, 
cuidam. 
Transformam o ordinário 
em espaço de proteção. 

E a resistência 
mora nesse gesto repetido 
que não se esgota, 
que não se rende, 
que segue. 

Quando uma trança termina, 
algo começa. 

Começa um caminho possível. 
Um saber reconhecido. 
Uma autonomia construída 
sem romper laços. 

Começa a ocupação do território 
com beleza, 
com respeito, 
com força coletiva. 

As Trancistas do Capão 
nos lembram: 

direitos humanos 
também se constroem assim — 
no toque, 
na escuta, 
na prática diária. 

Num território 
que se protege 
ao se reconhecer. 

Num território 
que aprende 
com as mulheres 
que o constroem, 
fio 
por fio. 

* Cris Oliveira  e Sonia Lima fazem parte das Trancistas do Capão.

Entre fios, mãos e histórias. 
A arte de tecer cabelos 
saberes ancestrais e práticas de cuidado. 
A imagem como expressão 
de identidade e autoestima. 


Este texto integra o projeto Direitos Humanos Para Todas as Pessoas, que acontece de 4 a 15 de março de 2026 em diversas unidades do Sesc São Paulo. O projeto propõe reflexões sobre territorialidades e fortalece redes locais em prol de uma sociedade mais justa e diversa.

Saiba mais em sescsp.org.br/direitoshumanosparatodasaspessoas

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