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A arte de aprender e de construir a cidadania

Qual o impacto de uma experiência de arte-educação na vida das pessoas? E na configuração do espaço urbano? Em um mundo cada vez mais multidisplinar, de que forma vivências que combinam arte e propostas pedagógicas se articulam para oferecer novos insights às crianças? E aos jovens? Educadores e especialistas em diversas áreas refletem sobre as possibilidades que um trabalho artístico fortemente ancorado em valores contemporâneos, como respeito pela Terra e valorização do coletivo, pode oferecer às crianças e aos jovens de hoje. Sobretudo aqueles que estão mais distantes dos recursos sofisticados que eventualmente dão a falsa ilusão de que a tecnologia seria uma resposta para todos os problemas. Afinal, como afirma Tom Lovejoy em seu depoimento “para a maioria (das crianças), a mágica das coisas vivas é tudo que precisam e é fascinante descobrir e entender como tudo funciona”. Explorar esses novos caminhos de criatividade e construção de conhecimento que a arte oferece é um desafio. As educadoras Carla Govêa, Regina Barros e Rosa Iavelberg avaliam as oportunidades que as performances urbanas oferecem de trabalhar a transdisciplinaridade. Laura Greenhalgh debruça seu olhar sobre os efeitos desses espetáculos na transformação das cidades. O Prêmio Nobel de Física Jerome Friedman discute o papel da cultura de arte na libertação dos jovens das condições difíceis em que vivem. E Vladimir Bulovic, professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), analisa as interseções entre o processo científico e a arte e imagina como o processo pedagógico se enriqueceria se essas disciplinas fossem melhor articuladas. 

 

“Os artistas são arquitetos do imaginário e agentes da transformação urbana”
Entrevista de Laura Greenhalgh a Naomi Moniz

De que forma a percepção do “espaço público” molda nossa relação com as cidades?
Laura Greenhalgh: Em geral, temos uma percepção atrofiada do espaço público, e vários fatores contribuem para isso. A cultura dos carros, por exemplo. Nossas cidades foram se expandindo e, em boa medida, se deformando para dar lugar a avenidas que se transformam em estuários de veículos. Passamos parte das nossas vidas trancados em carros e/ou bloqueados em congestionamentos. Isso é a negação do espaço público, que é feito de interações fluidas. O mesmo raciocínio se pode aplicar à “compulsão por se proteger do outro”. Em nome da segurança, criou-se toda uma parafernália de câmeras, alarmes, cercas eletrificadas, condomínios murados, empresas de vigilância, enfim, toda uma sorte de “trancas sociais” que, de novo, negam o espaço público. Assim, vamos perdendo aderência com a cidade que habitamos e que também nos habita.

De que modo iniciativas como o Espetáculo da Terra podem recriar o vínculo cidadão-cidade e reinventar o espaço público?
Iniciativas que propiciem ao indivíduo rever sua relação com o habitat são benéficas. O que chama atenção no caso do Espetáculo da Terra é que esse projeto, misto de performance urbana com arte pública, é construído pela comunidade, e não articulado em gabinetes. Por conta disso, pode alcançar um grau de eficácia que supera até as viradas culturais planificadas pelo poder público.

Cidades estão preparadas para absorver performances urbanas e manifestações populares?
Preparadas idealmente, nunca. Mas estão preparadas, sim, para abarcar os anseios da sua gente. Cidades são artefatos humanos, não nos esqueçamos. Como diz o economista americano Edward Glaeser, as cidades triunfaram como invenção: Florença nos deu o Renascimento, as ruas de Birmingham nos levaram à Revolução Industrial, de escritórios em Bangalore ou Tóquio colhemos inovação. Pensar cidade é pensar a evolução humana. Daí supor que elas continuarão a ser o espaço ideal para a expressão de seus habitantes. Estamos assistindo a esse fenômeno nos últimos anos e os exemplos são inúmeros. O movimento Occupy que desafiou o establishment americano em 2011 ao usar o reduto financeiro da cidade de Nova Iorque, Wall Street, como espaço para protestar contra as desigualdades econômicas e sociais ao redor do mundo; as “primaveras árabes” que explodem nas ruas do Oriente Médio desde 2010;  Paris inundada por milhões de pessoas em protesto contra o massacre dos jornalistas do Charlie Hebdo; as passeatas brasileiras de julho de 2013, contra um difuso “tudo que está aí”, e as de março deste ano,
contra o governo federal.

As pessoas usavam mais o espaço
público no passado?
Temos memória de que nossa vida foi mais compartilhada na praça, no coreto, à beira do rio, quando tínhamos praças, coretos e rios para curtir. Antítese desse passado “aberto” seria, por exemplo, a tragédia “fechada” na boate Kiss, da cidade gaúcha de Santa Maria, em 2013. Trancados ao longo de uma madrugada numa grande caixa de concreto e alvenaria, sem saída de emergência e com equipamentos de segurança inadequados e som nas alturas, 242 universitários morreram em decorrência de um incêndio que deixou outros 600 feridos. Curtiam a diversão típica da idade, só que num lugar encapsulado. A internet, de certa forma, também nos encapsula na virtualidade e uma reação a isso talvez sejam os movimentos “Vem Pra Rua” que proliferam com força. Sinal de que as trocas humanas no plano virtual não prescindem das trocas humanas no plano físico.

Quem melhor deflagra a transformação urbana hoje? O político?
O mercado? As ONGs? Os artistas?
O cidadão reivindica mais voz. O mercado age segundo suas regras específicas. As ONGs seguem lógica própria, às vezes atrelada à necessidade de manutenção de um contra-discurso.  Destaco uma figura no espectro político, o prefeito, que está mais perto do cidadão. Atuando como síndico da cidade, ele precisa dar respostas rápidas e eficazes. Além disso, pode se conectar com outros prefeitos, até de outros países, criando redes urbanas muito interessantes. Como diz Benjamin Barber, autor do livro If Mayors Ruled the World, enquanto presidentes divagam sobre princípios da Nação, prefeitos se preocupam com a coleta do lixo. Por fim, vale destacar o papel dos artistas que ousam lançar sua criatividade no espaço público. Estes são os arquitetos do imaginário.
Como Denise Milan.

 

Laura Greenhalgh é jornalista de formação e prática profissional. Formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP, atuou em importantes veículos e empresas de mídia. Foi editora-executiva do jornal O Estado de S. Paulo entre 2004 e 2014, onde fundou os suplementos “Aliás” e “Sabático”. Atualmente dirige o Arq.Futuro, plataforma internacional de discussão sobre arquitetura e urbanismo. Fez sua especialização como editora na Stanford University (EUA).

 

“Os processos criativos são parecidos na ciência e na arte”
Entrevista de Vladimir Bulovic a Naomi Moniz

Entrar no gabinete de Vladimir Bulovic, professor da cátedra Fariborz Masseh de Tecnologias Emergentes, diretor do Projeto MIT Nano e colíder da Iniciativa em Inovação do MIT é colocar o pé no umbral do futuro: um telão iluminado com as cores mais vibrantes da natureza e cujo gasto é uma fração do custo de energia atual; um aparelho auditivo movido a células solares transparentes nas lentes de óculos e lâminas de vidros com células solares que absorvem energia solar e podem revolucionar a construção civil misturam-se à coleção de “gizmos”, maquinetas que são resultados de seus experimentos de
ciência e engenharia.
O professor Bulovic possui 75 patentes de inovações em energia solar e detecção de fóton, diodos emitindo luz, lasers, iluminação e displays de televisores, sensores químicos, memórias programáveis e maquinetas micro-elétricas. Um verdadeiro professor Pardal com sua lampadinha de ‘brilhante ideia’ sempre iluminada.
A vida desse mestre da engenhosidade, no entanto, foi marcada pela necessidade de superação. Vladimir Bulovic  nasceu e cresceu em uma das regiões mais marcadas pela intolerância e por guerras seculares por questões territoriais, religiosas e étnicas, a Sérvia, antiga Iugoslávia, situada no epicentro do caldeirão de violência que marcou as guerras dos Balcãs, nos anos 1990. Mudou-se para os Estados Unidos antes da divisão do país em 1984 e, longe de se resignar a uma posição de outsider, tornou-se um educador inventivo e cheio de recursos.
A rotina do professor Vladimir também é marcada pela necessidade de ultrapassar limites. Junto com a mulher, o professor do MIT cria material didático e dá aulas para introduzir crianças do primeiro grau ao mundo fabuloso da matemática aplicada ao mundo real e tem um hobby no mínimo ‘diferente’, é mímico, mestre em pantominas, a arte dos gestos e das expressões que buscam expressar a universalidade dos sentimentos humanos. 

De que forma a experiência de colaborar em uma instalação da artista multidisciplinar Denise Milan se articula com seu trabalho?
VLadimir bulovic: Busco a inovação, sempre. Como muitos artistas da vanguarda busco a democratização da criação, venho todos os dias para o trabalho apaixonado e estimulado pelo que é novo e diferente. Minha missão, como líder do projeto MIT Nano, é construir um laboratório de nanotecnologia de ponta, criar uma oficina de trabalho transformadora e definidora de novos parâmetros para as próximas três décadas, até pelo menos 2050.  Para isso temos que criar um espaço de pesquisa que seja flexível e adaptável às circunstâncias.

Você é cientista, inventor, educador e praticante da arte da pantomima. Em que ponto arte e ciência combinam?
Os processos criativos nas ciências e nas artes são muito parecidos: o sentimento de experimentação, de criar novos conhecimentos, de trabalhar com várias disciplinas. A observação e a curiosidade para imaginar soluções. Como engenheiro, crio algo que seja tecnologicamente útil, mas na mímica atinjo as pessoas pela emoção e provoco uma faísca reveladora. 

Por que escolheu a pantomima como forma de expressão artística?
Participei do grupo de pantomima “Princeton Mime Theater”, muito atuante em performances na universidade de Princeton, onde estudei. Descobri que o riso une as pessoas. A habilidade de fazer rir, tocar emocionalmente as pessoas, me marcou profundamente e me deu confiança, era uma forma de comunicação universal. Depois, já professor no MIT, ofereci um curso aos alunos, na maioria de engenharia e ciências exatas, e, de modo geral, pessoas mais introvertidas, que se chamava “Mímica para o Intrigantemente Imaginável”. O curso prescrevia: “Inscreva-se e aprenda a explorar a expressão e o movimento. Aprenda a expressar-se sem usar uma só palavra. Abra seus olhos, use seu corpo e pense no espaço ao seu redor; sua imaginação vai colorir o resto”.


Vladimir Bulovic é professor da cátedra Fariborz Masseh de Tecnologias Emergentes, diretor do Projeto MIT Nano e colíder da Iniciativa em Inovação do MIT—Instituto de Tecnologia de Massachussetts. 

 

“A imersão das crianças na cultura da arte pode libertá-las das condições difíceis em que vivem”
Depoimento de Jerome Friedman

“A arte abre os horizontes culturais no presente e no futuro das crianças. Oferece também uma espécie de escada psicológica na qual podem se erguer acima das dificuldades e tristezas do meio em que vivem. Os temas abordados por Denise Milan podem oferecer-lhes um sentimento de respeito perante as maravilhas da natureza e as lições que ela nos ensina.
Meus pais eram imigrantes russos, chegaram aos Estados Unidos em 1914 e se estabeleceram em Chicago. Cresci durante os anos difíceis  da Grande Depressão. Meu pai ganhava vida vendendo e consertando máquinas de costura e minha família sofreu grandes dificuldades financeiras durante essa época. Embora meus pais não tivessem uma educação formal, nossa casa estava cheia de livros e meu irmão e eu éramos estimulados a nos dedicar aos estudos. Minha mãe gostava muito de música e tinha uma bela voz. Durante os verões nós sempre íamos aos concertos gratuitos ao ar livre no Parque de Grant, no centro de Chicago.
Eu queria ser artista. Quando era criança passava muitas horas desenhando e pintando. No colegial eu entrei num programa especial de artes que fazia parte do currículo normal. Nele eu passava duas a três horas por dia trabalhando com arte. Na verdade, eu até recebi uma bolsa de estudos para estudar na Escola do Museu do Instituto de Arte de Chicago quando terminasse o colegial. Durante esse período, como estudante de arte eu tomei poucos cursos de matemática. Fiz um curso de Física que foi muito mal ensinado e que não me inspirou nem um pouco. Eu estava cursando o segundo ano do colegial quando visitei o Museu da Ciência e Indústria de Chicago e perambulando  por lá  acabei entrando na  livraria. Vi um livro chamado Relatividade escrito por Albert Einstein e fiquei absolutamente fascinado por ele. Depois de ler e tentar entendê-lo me dei conta de que havia muito no mundo da Física que eu não conhecia e gostaria de conhecer e de que precisava  aprender mais. Acabei rejeitando a bolsa de estudos para as Artes no Art Institute muito a contragosto do meu professor e ingressei na Universidade de Chicago. O que me atraiu naquele livro?  Pensei que me ajudaria a entender alguns mistérios que tinha lido em artigos popularizantes sobre a ciência: como a régua encolhia e o relógio ficava mais lento quando eram movidos com maior velocidade. Li o livro com muito cuidado e fiz o melhor possível para entender. Mas realmente não entendia os conceitos básicos de relatividade. Isto me fez ficar mais curioso e mais teimoso na decisão de entendê-los. Tornou-se claro para mim que teria de estudar Física para conseguir compreender essas ideias.
Atualmente  fala-se muito em inovação tecnológica  na economia com ênfase em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Porém, tenho incentivado o papel da “Arte e ciência” como fundamental na educação. Os modelos imaginados podem ser a base de novas ideias conceptuais. Não é à toa que a palavra imaginação – que denota uma habilidade, é o berço da criatividade e é baseada
na palavra imagem.
De modo geral, o que falta nos processos educativos é a oportunidades para desafiar os alunos  em sua criatividade. É aí que os cursos de arte podem ter um papel importante. O “fazer” arte força os alunos a buscarem soluções que não são prescritas pelas regras e podem, portanto, ter um efeito libertador no modo de pensar.
A arte oferece oportunidades para eles correrem riscos no processo mental. Além de aulas, tomar contato com obras de arte abre novas formas de ver, ouvir e vivenciar. Isso caminha paralelamente com as revoluções na ciência e reforça a ideia de que nenhum modelo é sagrado, ao contrário, deve ser constantemente testado em termos de uma nova experiência. As artes visuais que alargam a habilidade dos alunos de visualizar podem exercer um papel especial porque a visualização é tão importante no desenvolvimento de ciência e tecnologia”.

Jerome Friedman  é professor titular da Universidade MIT e Prêmio Nobel Física de 1990 ao lado de Taylor e Kendall na descoberta de partículas subatômicas quarks.

 

“É na infância que se conhece a natureza”
Depoimento de Tom Lovejoy

“As mudanças pelas quais o planeta vem passando representam um dos maiores casos de injustiça social de todos os tempos porque os danos não estão restritos a essa geração. A chave para reverter esse quadro, além do otimismo, é a abertura para colaboração e aprendizado contínuos. As escolas são fundamentais na formação de jovens pesquisadores que ajudem a enfrentar os desafios e a encontrar caminhos para melhorar o planeta. 
As crianças tendem a ser mais otimistas e cabe às instituições incentivar esse otimismo, bem como o gosto pelo conhecimento e a criatividade. Devemos expor as pessoas, ainda na infância, à natureza. Nessa época elas são naturalmente curiosas e essa curiosidade se estende para todas as áreas: geologia, física, química, entre outras. Hoje em dia videogames, celulares, tablets e televisão podem ser uma distração muito séria. Mas também constituem ferramentas que favorecem o aprendizado, mesmo que não possam substituir a experiência. Eu mesmo iniciei há 33 anos um programa de televisão que continua sendo um sucesso.
Foi graças a um professor maravilhoso que me interessei por biologia, quando tinha apenas 14 anos. Depois me especializei nessa disciplina na Universidade de Yale [Estados Unidos] e fiz doutorado. Ainda na faculdade, queria ter aventuras científicas em qualquer parte do mundo. Meu orientador em Yale me convidou para passar um verão trabalhando com ele na floresta brasileira ao redor de Belém. Em junho de 1965 peguei um voo para o Pará. Depois trabalhei no Instituto Evandro Chagas e no Museu Goeldi. Imagine só trabalhar na maior floresta tropical do mundo, onde havia somente uma estrada. Era o sonho de qualquer biólogo.
Futuramente vim a estudar a fragmentação das florestas, ou seja, o quanto essa segmentação comprometia a biodiversidade. A discussão era se as reservas florestais deveriam ser grandes ou pequenas. O estudo de 2003 do qual participei demonstrou que um fragmento de 100 hectares perdia metade das espécies de pássaros em menos de 15 anos. A conclusão é que os fragmentos deveriam ser maiores. Durante esses quase 50 anos passei a entender melhor também a importância desse imenso laboratório experimental que é a floresta.
A diversidade biológica é a base de toda a vida e essencial para o bem-estar do homem. Os sistemas ecológicos são importantíssimos. Tanto que o imperador Dom Pedro II instituiu o primeiro projeto de reflorestamento no local onde hoje fica o Parque Nacional da Tijuca [Rio de Janeiro]. Como seres biológicos nos beneficiamos diariamente dos frutos da floresta, seja para usar como alimentação, seja na produção de roupas, moradia, remédio, agricultura, madeira.
A influência extrapola os limites da floresta. O ciclo hidrológico da Amazônia é essencial para manter a mata e produzir chuvas nas regiões de agroindústria do Mato Grosso. A região amazônica está se aproximando do ponto de irreversibilidade, com 20% de desmatamento, o que poderia levar ao desaparecimento da floresta no sul e no leste dessa região. A recuperação dos ecossistemas é importantíssima porque pode ajudar a remover o gás carbônico da atmosfera, o que contribuiria para diminuir em meio
grau a temperatura.
Além disso, a biodiversidade é uma espécie de biblioteca viva para as ciências. Cada espécie representa um conjunto de soluções para questões biológicas, qualquer uma tem o poder de transformar nosso conhecimento científico. Há descobertas recentes que poderão revolucionar a medicina e os problemas relacionados ao uso de antibióticos para combater patógenos resistentes. Muitas vacinas e antibióticos são resultado de observações acidentais de ações biológicas.
Precisamos ser criativos na hora de proteger a floresta. Nos Estados Unidos há um aplicativo, o Leaf Snap, que ajuda a identificar as árvores do leste do país. Temos que pensar criativamente em como desenvolver sinergias com tecnologias que beneficiam a ciência, a ecologia e o meio ambiente.”


Tom Lovejoy é ambientalista americano e estuda a Amazônia há 50 anos, tendo disseminado o conceito de biodiversidade. Pioneiro no estudo de florestas tropicais fragmentadas, é criador da série de televisão Nature, há 33 anos no ar.

 

“A performance urbana modifica pessoas”
Depoimento de Carla Govêa

“A performance tem o grande mérito de envolver, fazer com que todos participem. Ela não isola. Por isso funciona tão bem em comunidades, permitindo que todos se expressem de alguma forma. O Espetáculo da Terra gerou uma sensação de pertencimento nas crianças (e nos adultos) participantes, propiciou a inclusão. Muitas delas se sentiam inferiorizadas e saíram com a autoestima elevada. Lembro de um menino de cerca de 9 anos que tinha perdido o pai, assassinado, e vivia com a avó. Durante o processo ele percebeu que podia mudar a própria história, que não era refém do que já tinha vivido. Recordo também de uma menina de 11 anos que era ridicularizada tanto na escola quanto em casa porque tinha problemas de aprendizagem. Hoje essa menina consegue dizer ‘eu não permito que me humilhem mais’. Ela quer até ser jornalista. É assim que se mede uma performance e um projeto de arte-educação, pelo impacto que causa na vida das pessoas. Eu própria me modifiquei. Antes de participar desse projeto seguia um método formal de ensino. E passei a perceber como tudo podia ser diferente. Compreendi que uma informação não deve ser vista como exclusiva de uma única área.
E era isso que tentávamos passar para os arte-educadores. Alguns percebiam logo, outros demonstravam mais resistência. Mas o resultado, de modo geral, foi muito positivo”.


Carla Govêa, educadora do SESI, é psicóloga e pedagoga especializada no atendimento a crianças e jovens e na elaboração e no desenvolvimento de projetos para alunos com dificuldades na aprendizagem. Trabalha há 20 anos em comunidades na periferia de São Paulo, é uma das coordenadoras pedagógicas associadas à criação artística de Denise Milan, Espetáculo da Terra.

 

“Educadores e crianças são artistas, não coadjuvantes”
Depoimento de Regina Barros

“Uma performance urbana não pode ser resumida ao momento em que ela está acontecendo. É o resultado de um processo que, no caso do Espetáculo da Terra, foi desenvolvido durante mais de três meses. E é por meio desse processo que as crianças e adultos envolvidos reconhecem suas trajetórias, seus limites, superam suas questões pessoais. Não foi um oba-oba, as pessoas sabiam o que estavam fazendo ali. Isso tudo foi especialmente importante para as crianças, que recuperaram a própria história, ainda que breve, e puderam entender como a vida é preciosa. O interessante é que os participantes tiveram autonomia para representar suas histórias, criar personagens, fantasias. Os educadores e as crianças viraram artistas, não apenas coadjuvantes. Não se deve menosprezar a importância do momento em que a performance estava acontecendo. Os que assistiam puderam conhecer um pouco melhor os habitantes da comunidade e quem estava na rua foi mobilizado pela força do evento. A performance também teve uma importância do ponto de vista educacional. Os participantes conheceram a obra de Denise Milan, entenderam seu significado. E houve a possibilidade de trabalhar com a transdisciplinaridade uma vez que os temas podiam ser tratados dentro das mais diferentes disciplinas. Para construir uma pipa usa-se conceitos da matemática; o estudo das rochas envolve a área de ciências; descrever por meio da escrita o que cada uma estava vendo lançava conhecimentos de língua portuguesa. Esse tipo de movimento funciona melhor para crianças em idade escolar, acima dos seis anos. Os menores podem até se interessar de alguma forma pelo lúdico, pela curiosidade, mas nem sempre conseguem se apropriar de todo o significado.”


Regina Barros é socióloga e educadora. Desenvolveu vários projetos orientados para jovens em Heliópolis, atuando no UNAS de 2003 a 2011. Incentivadora na implementação do projeto Espetáculo da Terra, de Denise Milan, na comunidade. 

 

“A arte torna as crianças sensíveis para o meio e para os outros”
Depoimento de Rosa Iavelberg

“A performance é uma modalidade de apresentação artística contemporânea, é um conceito, ou seja, um conteúdo da área de Arte na educação. A partir do momento em que as crianças compreendem o sentido do que estão fazendo ali, podem
atuar de modo performático. Isto depende do encaminhamento das sequências de atividades anteriores ao momento da performance. No projeto Espetáculo da Terra a performance cumpriu o propósito artístico de ação coletiva que publiciza os conteúdos trabalhados e as experiências vividas no projeto. É performance porque envolve ação, movimento, música, artes visuais e construção cênica de modo articulado e pode ser assistida por quem estiver na rua ou mesmo depois, em vídeo, pela internet, por exemplo. Você pode chamar de cortejo também, ou seja, um cortejo performático. Para participar do projeto, foi preciso associar e trabalhar o tempo todo as relações entre arte e a vida de cada criança participante. Deste modo os alunos ganharam consciência das relações entre os conteúdos da obra de Denise Milan, que pretendem ser abrangentes em relação às questões da vida, com a necessidade de equidade no planeta. A aprendizagem de um projeto dessa natureza segue com o aluno ao longo da vida se for bem trabalhada. A arte os torna sensíveis para o meio e para os outros, este é um ganho importante de ações deste tipo. As aplicações não são previsíveis, mesmo porque o projeto não usa arte como meio para ações externas a ele, mas como tomada de consciência dos participantes que poderão ter iniciativas distintas na vida e na comunidade.”


Rosa Iavelberg é professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e doutora em Artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Tem vasta experiência na área de Artes, com ênfase em Formação de Professores, atuando principalmente nos seguintes temas: arte, formação de professores, arte na educação, currículo de arte na educação, desenho da criança e do jovem. Contribuiu na fundamentação do projeto e é uma das coordenadoras pedagógicas associadas à criação artística de Denise Milan, Espetáculo da Terra.

 

AS VOZES DO ESPETÁCULO

“A melhor parte do evento foi ver as pipas voarem alto no céu. Foi como se tudo o que estava aprisionado criasse asas e se tornasse livre. É possível acreditar em sonhos.”
Ingrid, 12 anos

“É preciso educar as pessoas para se preocuparem com os outros e com a natureza, porque é tudo tão especial.”
Naelly, 8 anos

“Nós vivemos em sociedade para aprendermos uns com os outros.”
Lilian, 11 anos

“Há coisas preciosas dentro de nós: amor, esperança, alegria e paz.”
Ludymila, 9 anos

“Os seres humanos têm vidas preciosas que não podem ser compradas.”
Arthur, 10 anos

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