Desafios do mundo em rede

25/03/2026

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Em “Para além das máquinas de adorável graça: cultura hacker, cibernética e democracia” Rafael Evangelista revisita a trajetória da cultura hacker desde os anos 1950 para mostrar como esses entusiastas da tecnologia, movidos pelo desafio e pela invenção, ajudaram a moldar a infraestrutura digital que hoje nos conecta. A obra destaca a consolidação do hacking no movimento do software livre e evidencia como essa ética colaborativa encontrou no Brasil um ambiente fértil para prosperar. Ao explorar tanto o potencial transformador dessas práticas quanto os riscos de vigilância e controle que emergem no cenário contemporâneo, o autor revela as tensões que atravessam nossas democracias digitais. Com título inspirado no poema “Todos assistidos por máquinas de adorável graça”, o livro integra a Coleção Democracia Digital, organizada por Sergio Amadeu da Silveira, que escreveu o prefácio do livro, reproduzido abaixo.


Os velhos dilemas da democratização do poder poderiam ser superados pelas tecnologias da informação e comunicação? As redes sociais online fariam o papel de ágoras do século XXI? O pensamento totalitário perderia força diante das redes distribuídas? Os novos processos tecnológicos anulariam as velhas ideologias? Enfim, os coletivos de ativistas das redes digitais estão construindo plataformas para um novo mundo? 

A coleção Democracia Digital pretende debater tais questões nascidas da interação entre cultura digital e democracia. Os temas tratados emergem das complexas relações entre a sociedade e a tecnologia, um conjunto dos mais instigantes fenômenos da contemporaneidade. Promessas de um mundo novo se chocam com a denúncia dos riscos de vigilância e controle. As contendas e dúvidas se renovam quando os pensadores se debruçam sobre as implicações tecnológicas em temas fundamentais como participação social, distribuição de oportunidades, liberdade, diversidade e equidade. 

Bem longe de respostas definitivas, essa coleção busca o debate informado sobre o potencial e o sentido das mudanças que as tecnologias digitais trouxeram para as democracias. Para problematizar esse espectro de ambivalências, este volume traz um tema crucial para compreender o cotidiano a partir das redes comunicacionais: a cultura hacker. Hackers são personagens típicos e singulares da sociedade informacional, do mundo cibernético, do capitalismo de vigilância, da geopolítica dromocrática e de uma economia digital. Temidos por uns, respeitados e aclamados por outros, hackers são simultaneamente figuras reais, virtuais e mitológicas.  

Afinal, como os hackers e seu comportamento afetam a democracia? O texto aqui apresentado pelo pesquisador Rafael Evangelista traz uma original abordagem histórica das ações e do pensamento hacker, desses apaixonados por tecnologia que adquirem prestígio entre seus pares a partir do enfrentamento de problemas complexos e suas ações criativas no desenvolvimento de software. Com exemplos esclarecedores do comportamento e da cultura hacker, Evangelista, de certo modo, confirma a constatação contundente de Alexander Galloway ao propor que hackers conhecem o código computacional como se fosse sua língua materna. Todavia, isso pode conter contornos pouco democráticos e uma tendência futura incerta. 

Longe dos exageros, Evangelista nos mostra como o hacking se consolidou no movimento do software livre e como essa mobilização tecnológica enraizada nas práticas colaborativas, na produção do comum, obteve no Brasil um terreno fértil para sua expansão. Mas o que a cultura hacker pode fazer diante de um capitalismo de vigilância, claramente antidemocrático? O exemplo de Julian Assange, do Wikileaks, pode ser considerado a expressão derradeira do hacking ou apenas uma vertente menor? Para boa parte dos hackers, a liberdade exige conhecimento. Não é autônomo quem não consegue dominar os dispositivos que controlam seu cotidiano. A liberdade para a informação e, ainda mais, para o conhecimento está no cerne da cultura hacker, em todas as suas possibilidades e usos. 

André Gorz chamou os hackers de “dissidentes do capital”, pois esperava deles uma grande reação à concentração e ao bloqueio do conhecimento. Mas as premissas do hackativismo e os últimos anos não parecem animar Rafael Evangelista a concluir pela inserção dos hackers em um campo de luta pelas liberdades democráticas. Enfim, temos aqui uma leitura indispensável para quem quer compreender e explorar três articulações contemporâneas: a cultura democrática, a cultura digital e a cultura hacker. 

Sergio Amadeu da Silveira
Sociólogo e doutor em Ciência Política

Veja também: 

:: trecho do livro 

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