
Por Joaquim Gabriel de Andrade Couto*
Este texto nasce da minha dissertação de mestrado em Saúde Pública na Universidade de São Paulo (USP), “O último a dormir apaga a Lua”: cartografias da produção de cuidado entre a população de rua, título inspirado na música do rapper Criolo, que, a partir da poesia de Giovani Baffô, canta que “em casa de menino de rua, o último a dormir apaga a Lua”. Durante pouco mais de um ano de pesquisa de campo, acompanhei o cotidiano de pessoas em situação de rua em Florianópolis (SC), buscando compreender como o cuidado se produz nesses territórios.
A dimensão existencial do cuidado
O cuidado faz parte da nossa constituição como humanidade e nos atravessa ao longo de toda a vida. Antes de qualquer palavra, uma criança foi alimentada, aninhada e embalada. Existimos porque fomos cuidados, e seguimos existindo porque cuidamos e somos cuidados por alguém. O cuidado não é monopólio de nenhuma área de conhecimento, tampouco depende de um diploma ou de uma técnica específica; ele é aquilo que nos identifica como humanos, o tempo todo, mesmo sem consciência disso.
Quando o cuidado adentra o campo da saúde, porém, algo se perde pelo caminho. Somos profissionais formados para esquadrinhar o corpo do outro em busca de sinais, sintomas e desvios da norma, enquanto a pessoa à nossa frente se transforma em um conjunto de queixas a resolver. O cuidado, nesse modelo, vira sinônimo de técnica: um protocolo, um procedimento, uma prescrição. Mas cuidado não é a mesma coisa que cura. Cuidar não é apenas corrigir um desvio de uma norma; é, sobretudo, um encontro entre sujeitos.
Foi essa outra forma de cuidado que aprendi a reconhecer no percurso da pesquisa. Percorri praças, calçadas e abrigos improvisados, deparando-me com redes de afeto tecidas onde menos se espera: o compartilhamento de um cobertor ou uma garrafa de cachaça para aquecer o corpo em dias frios, o aviso sobre um lugar mais seguro para dormir, o cuidado com os pertences uns dos outros. Ali, o cuidado se produz, em essência, a partir do encontro intersubjetivo: a potência que se cria entre duas existências e que aumenta a potência de vida de quem cuida e de quem é cuidado.
A singularidade da vida nas ruas
Pensar a população em situação de rua exige compreendê-la não como um simples desvio da norma social ou uma escolha individual, mas como um fenômeno socialmente produzido com raízes históricas profundas.
Na Europa, a passagem do feudalismo para o capitalismo foi marcada por um violento processo de expropriação: os cercamentos expulsaram camponeses das terras comunais, criando uma massa de pessoas sem seus meios de subsistência, forçadas a vender sua força de trabalho sob o novo modo de produção. A dificuldade de incorporar todos à indústria nascente levou à criminalização daqueles que não estavam submetidos ao trabalho assalariado, dando início à associação entre pobreza, vida nas ruas e periculosidade.
No Brasil, esse processo ganhou contornos próprios, diante da formação social marcada pelo colonialismo e pela escravização de povos africanos e indígenas. A abolição, em 1888, não veio acompanhada de qualquer política de reparação – terra, moradia ou trabalho – para a população recém-liberta, lançada à própria sorte. Essa dinâmica racista explica por que a maioria das pessoas em situação de rua no país é negra: não é acaso, mas resultado de um processo histórico de exclusão que se atualiza a cada geração.
Viver na rua significa conviver com violências diversas: insegurança alimentar, dificuldade de acesso à água potável e a banheiros, frio, privação de sono e a vigilância constante do corpo e dos próprios pertences. Significa também enfrentar a discriminação frequente, até mesmo dentro dos serviços de saúde, levando essa população a evitar o atendimento, reservando-o para situações extremas.
Reconhecer essas singularidades é o primeiro passo para qualquer cuidado que se pretenda efetivo. Sem isso, o profissional de saúde repete, mesmo sem querer, a mesma lógica de exclusão que empurra essas pessoas para as ruas, tratando como mero objeto de intervenção quem já foi, tantas vezes, tratado como descartável.
A rua como território de cuidado
Ainda que marcada pela precariedade material, a rua não é esvaziada de cuidado – é um território no qual o cuidado é produzido nos encontros cotidianos. Ao acompanhar trajetórias de pessoas que vivem nas ruas, observei como elas próprias constroem estratégias de proteção coletiva: parcerias na divisão de tarefas necessárias à sobrevivência, gestos de atenção com o corpo e com a saúde do outro, relações de afeto que transformam a experiência de vida nas ruas.
Durante a pesquisa, acompanhei o encontro entre um casal que mostrou a potência dos afetos como prática de redução de danos: a abstinência do uso de substâncias psicoativas se deu a partir da relação construída entre eles. A rua demonstra, assim, que o cuidado pautado pela criação de vínculo entre os sujeitos é o que sustenta a vida nesses territórios. O cuidado é a força motriz que produz mais vida diante das adversidades que a rua impõe.
Para produzir mais vida
Esta pesquisa nos ensina que o cuidado não pode ser enquadrado em protocolos clínicos. Profissionais de saúde precisam estar atentos às diferentes formas de vida, o que exige uma escuta qualificada, centrada no sujeito e em suas singularidades, disposta a reconhecer sua história, seus desejos e suas próprias formas de produzir cuidado. Só assim o encontro entre profissionais de saúde e a população em situação de rua pode deixar de reproduzir exclusão e passar a produzir, de fato, mais vida.
*Joaquim Gabriel de Andrade Couto é cirurgião-dentista sanitarista, mestre e doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP).
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