Vladimir: o picolé ou o sabor da democracia racial (a boca na comensalidade) 

02/09/2026

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Por Beatriz Carlos Correa Dulianel* 

O conto a seguir faz parte da minha dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp). Como uma mulher negra e cirurgiã-dentista, sempre me inquietava pensar se o racismo poderia afetar a bucalidade das pessoas negras. Será que uma pessoa exposta a violências constantes poderia exercer sem limitação as funções para as quais a boca se encontra anatomicamente apta? Será que as funções da boca – como a alimentação, a manducação, a erótica e a linguagem – não seriam afetadas pelo racismo? Essa foi uma das principais forças motoras do projeto: contribuir para demonstrar não só que o racismo existe, mas também quais são seus impactos na saúde e, especificamente, na saúde bucal da população negra. 

Tratar de um tema tão dolorosamente denso e que me atravessava de maneira tão importante exigiu um trabalho muito pessoal e íntimo – tanto que a dissertação foi escrita na primeira pessoa. Realizei entrevistas com pessoas negras do Movimento Negro de Campinas e, embora manejando um roteiro, as entrevistas procuravam captar narrativas, demandando, em diversos momentos, relatos sobre episódios e experiências biográficas. 

Para a análise, recorri à metodologia iniciada por Grada Kilomba. Em seu livro Memórias da plantação, a autora analisa narrativas de mulheres negras que contam como o racismo as atravessa nas mais variadas situações do dia a dia. Segundo a autora, a partir dessas narrativas centradas nos sujeitos, é possível reconhecer que o racismo não é algo pontual na vida das pessoas negras, mas algo “que se repete incessantemente ao longo da biografia de alguém”.  

Inspirada por seu trabalho, decidi fazer entrevistas centradas nos sujeitos, a fim de expor o quanto as bucalidades negras também são afetadas pelo racismo nos momentos corriqueiros da vida. A intenção foi não apagar o sentimento transmitido pelos entrevistados nos seus relatos. Era necessário tentar captar as entonações, os olhares, bem como as comunicações involuntárias, que se expressam nas interrupções, nos engasgos e nas vozes embargadas. 

Com esse mesmo objetivo, também escrevi alguns contos a partir dos relatos dos entrevistados, um dos quais você irá ler, que reverberam no campo da bucalidade. 

Para entender como o racismo atravessa as bucalidades negras, é preciso pensar nessa boca que fala e não fala, que engole ou regurgita, que transa e não transa, com todos os seus “comos” e “porquês”.  

Desejo que este conto o inquiete, como me inquietou. 

 ***  

O sinal toca, o volume de vozes infantis aumenta. É possível sentir no ar o alvoroço do momento mais esperado do dia. O tão ansiado intervalo das aulas chegou. 

Vladimir, a única criança negra do grupo, divertia-se junto de seus colegas de turma. Gracejos puxavam novos gracejos, às vezes protestos bem-humorados, mas sempre risadas. “É bom”, pensava Vladimir, mais com o sentimento do que com as palavras.  

Aninha se aproximou do grupo de Vladimir, segurando um picolé. Generosa, ela ofereceu o picolé para a menina à sua frente. A menina, sorridente, pegou o sorvete, deu uma tímida mordida e o devolveu. “Podia ter deixado o palito!”, gritou Marcelão, para provocar mais uma risada geral. A dona do picolé também riu, mas seguiu o ritual. Após mais uma pequena mordida, ofereceu o picolé ao próximo menino na roda, um garoto falante que deu uma mordida bem grande no sorvete. “Wow! Podia ter deixado a mão da Aninha!”, gritou Marcelão. Mais risadas. E o picolé foi seguindo, assim, de boca em boca, de riso em riso, refrescando a fresca amizade da criançada. E o picolé durava…  

No ritual de Aninha, chegou a vez de Vladimir. Quando ela o viu, hesitou um pouco. Ninguém reparou na hesitação, nem no olhar aturdido da menina. Mas, no final, ela decidiu que o ritual não poderia ser interrompido assim. O picolé foi parar na mão de Vladimir. “Pô, Marcelão! Cê babou no picolé inteiro!”, caçoou o menino, que, depois de uma rápida e modesta mordida, fez um gesto de devolvê-lo à dona. Aninha olhou para o picolé na mão de Vladimir. A boca ensaiou duas frases que não saíram, mas, por fim, Aninha conseguiu dizer: “Não, não, pode ficar”.  

Vladimir entendeu tudo, não precisava de nenhuma explicação. Na verdade, todo mundo entendeu tudo. Aninha percebeu o clima que gerou. “E agora?”, perguntava seu coração acelerado. Ela sabia muito bem o que seu gesto significava. “E agora? Ela sentiu que tinha de fazer algo. Como faria em outras ocasiões, diante de pessoas que, por motivos inconfessáveis, causavam-lhe repulsa, ela desviou a atenção para outra pessoa presente na roda. De um jeito afetado, ela colocou as mãos na cintura e disse: “O Marcelão babou no picolé inteiro!  

Todo mundo caiu na gargalhada. O riso foi libertador. Todo mundo estava constrangido por saber o que todo mundo sabia. Rir do Marcelão era melhor do que reconhecer o que havia acontecido. 

Aquele momento viraria uma piada eterna da turma: “Que isso, Marcelão?! Você babou no picolé inteiro!” Todo mundo sempre ria da piada, inclusive Marcelão. Só Vladimir não ria. 

Vladimir não. A piada virou para ele uma tortura. Todas as vezes em que ele a ouvia, ele lembrava da vergonha que se instalou dentro dele, ele lembrava que tinha algo que ele não podia esconder e que para muita gente era repulsivo. Depois do picolé, ele se tornou mais tímido. Ele não deixava de estar com os outros. Mas ele estava e não estava. Ele sabia que não era nem mais nem menos do que ninguém ali. Mas ele também sabia que isso não mudava nada. Não estava entre iguais. Na escola, ele nunca mais conseguiu sentir inteiramente outra vez que “era bom”. 

*Beatriz Carlos Corrêa Dulianel é odontologista pela Universidade de São Paulo, especialista em Saúde Coletiva e da Família e em Docência em Saúde, além de mestre em Saúde Coletiva: Políticas e Gestão em Saúde.

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