¡CERRADO! usa distopia para discutir cerceamento cultural e resistência

11/09/2026

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¡CERRADO! Foto: Fernanda Luz

Grupo Pano leva ao MIRADA 2026 reflexão épica, falada em portunhol e encenada com vigor físico

Vícios e virtudes se chocam em constante contradição em San Pablo del Desierto, cidade inventada pelo diretor e dramaturgo Caio Silvano para o espetáculo ¡CERRADO!, apresentado na edição 2026 do MIRADA — Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas. A inspiração para a distopia veio de uma notícia que informava que, no Deserto do Atacama, no Chile, existe uma legislação que burocratiza, a ponto de inviabilizar, alvarás para que cabarés e casas noturnas possam permitir a dança.

“Eu ouvi essa história e fui até o deserto para pesquisar as implicações e consequências. Senti como uma oportunidade para falar do autoritarismo na América Latina, assim como das reverberações disso no neoliberalismo do nosso contemporâneo. Isso deu origem a uma história alegórica, épica e narrativa, em uma boate que não é nem São Paulo, nem Atacama”, explica Caio.

¡CERRADO! é um espetáculo do Grupo Pano, de São Paulo, que tem uma metodologia de trabalho baseada em estudos teóricos e práticos, em um espectro amplo que vai dos fundamentos da atuação à sociologia. Todo o trabalho de pesquisa dá origem a produções onde o Teatro do Absurdo, sob um viés antropofágico, tem protagonismo. 

Do mesmo modo, a palhaçaria e o teatro de revista se sobressaem no trabalho do coletivo, que estreou seu primeiro espetáculo, Pano.fim, em 2019, após dois anos de processo e pesquisa. “A gente acredita nessa ideia do teatro coletivo, em que a gente se potencializa trabalhando junto, em que a vitória é maior por ser coletiva”, pontua Ciça Barros, atriz do coletivo.

A fisicalidade também é muito forte no espetáculo apresentado no MIRADA, onde os atores tocam diferentes instrumentos alternadamente, trocam seguidamente de figurinos e têm diversas entradas no palco. “É muito físico, não só dentro de cena, mas fora também. Começa na contrarregragem, vai para o aquecimento e desemboca dentro da cena. Exige muita atenção de todos nós para manter a qualidade de presença a cada troca”, avalia o ator Juliano Verissimo Correa.

Outra ousadia do espetáculo é ser falado todo em portunhol. “É a representação de uma fronteira, de uma América Latina dividida. Uma linha invisível que separa culturas e falas que nós tentamos quebrar”, diz o ator Ian Noppeney.

Saída Coletiva

Caio celebra a possibilidade de poder trocar experiências no festival com artistas de diferentes trajetórias, assim como tempos diversos de estrada. “É uma grande honra estar no MIRADA compartilhando o espaço com grupos que a gente admira e nos quais se inspira, como o Grupo Galpão. Mesmo o Pano sendo um grupo jovem, existe uma troca de experiências e de pensamento artístico”.

Para o criador, essa troca é fundamental nos tempos atuais. “O teatro de grupo é quem faz um trabalho de pesquisa avançada, que é a parte mais atacada hoje. Em 2026, a gente tem um cerceamento tanto econômico quanto político e temático em São Paulo. Mantemo-nos ativos, mas só existe um tipo de saída diante dessa realidade árida, economicista, dos gestores do poder municipal na cultura: a saída coletiva. O teatro de grupo é milenar e vai permanecer, como tem feito há séculos”, conclui Caio.

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