As diferentes facetas de Graciliano Ramos (1892-1953)

29/02/2024

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O rigor lírico que permeia as diferentes facetas e definiu o fazer literário de Graciliano Ramos  

POR MANUELA FERREIRA

Leia a edição de MARÇO/24 da Revista E na íntegra

Algo chama a atenção quando se passeia pelas fotografias do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953): o semblante sério, circunspecto, contido. É assim que ele aparece em seu retrato, pintado pelo artista plástico Cândido Portinari (1903-1962). Na iconografia do autor do antológico romance Vidas Secas (1938), é possível antever, portanto, as características que se estenderiam, também, às várias dimensões de sua vida – seja como jornalista, contista e romancista ou na atuação como político e administrador público. A dureza e retidão eram direcionadas, ainda, a si mesmo. Em carta ao tradutor argentino Raúl Navarro (1899-1959), um dos responsáveis pela difusão da obra do brasileiro em outros países da América Latina, Ramos escreveu: “Os dados biográficos é que não posso arranjar, porque não tenho biografia. Nunca fui literato, até pouco tempo vivia na roça e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas, e escrevi uns relatórios que me desgraçaram”, relatou em correspondência assinada em novembro de 1938.

Os tais relatórios foram produzidos depois que, aos 35 anos, Graciliano Ramos foi eleito gestor do município de Palmeira dos Índios (AL). A renúncia ao mandato veio dois anos depois, mas seus escritos, carregados de ironia e acidez, mudaram a trajetória do autor e redefiniram os rumos da chamada Geração de 1930. De tão valiosas, as duas prestações de contas, de 1929 e 1930, em que analisava minúcias e detalhava os gastos e investimentos da curta gestão, são consideradas as primeiras expressões do enorme talento do escritor e seu início literário. Em uma delas, redigiu: “A prefeitura foi injuriada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser negócio referente à claridade, julgo que assinaram às escuras (…). Pagamos até a luz que a lua nos dá”.

Olhares realistas

Em outra passagem memorável, declarou: “Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado, restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles”. Aquela improvável porta de entrada na literatura brasileira foi impressa somente nas páginas do Diário Oficial de Alagoas. Mesmo assim, sua visão austera repercutiu rapidamente por um Brasil ainda provinciano, “como uma anedota vinda do sertão em linguagem antibacharelista e abusada, com inesperado teor de retidão administrativa, moderna e positivista”, conforme avaliou o pesquisador Marcos Falchero Falleiros, em artigo publicado no Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), em2008.

 “Os dois textos provocaram o convite de Augusto Frederico Schmidt (1906-1965) para a publicação de um romance, que adivinhava o poeta-editor ter o prefeito já construído com aquele estilo”, reflete o estudioso, na mesma publicação. A atuação de Graciliano Ramos como administrador revela, contudo, um viés progressista e antirracista, perspectivas que se enredam às tramas e aos personagens de sua literatura a partir de Caetés (1933), sua ficção de estreia. É o que aponta o livro Graciliano: romancista, homem público, antirracista, do pesquisador Edilson Dias de Moura, lançamento das Edições Sesc São Paulo [leia mais em Inquietudes de um literato].

Memórias do princípio

Primeiro de 16 irmãos, Graciliano Ramos cresceu em um lar modesto, com pai e mãe pouco afetuosos. A família residiu em várias cidades, solução encontrada para seguir buscando trabalho no sertão nordestino de então. Após finalizar os estudos em Maceió (AL), passou um tempo no Rio de Janeiro (RJ) trabalhando como jornalista – embora já colaborasse com a imprensa da época desde os 14 anos, em publicações como o diário carioca O Malho e o Jornal de Alagoas. A morte dos irmãos Otacília, Leonor e Clodoaldo, e do sobrinho Heleno, vitimados pela epidemia de peste bubônica de 1914, representou um duro golpe para o jovem, que voltou para o estado natal no ano seguinte.

Acervo UH / Folhapress

O escritor com a neta Elizabeth, em outubro de 1952: um raro momento de registro fotográfico em família.
Foto: Acervo UH / Folhapress


Num cotovelo do caminho avistou um canto de cerca, encheu-o a esperança de achar comida, sentiu desejo de cantar.
A voz saiu-lhe rouca, medonha. Calou-se para não estragar força.

Graciliano Ramos, em Vidas secas (1938)

Pouco depois de retornar para o Nordeste, mudou-se para Palmeira dos Índios, onde tocou uma loja de tecidos fundada pelo pai. Seguia assinando colunas nos periódicos locais sob os pseudônimos de J. Calisto e Anastácio Anacleto. Autodidata, era poliglota e gostava de estudar dicionários. Na cidade, a família aumentou: do casamento com Maria Augusta de Barros, que morreu em 1920, nasceram quatro filhos do escritor. Da união com Heloísa Leite de Medeiros vieram mais quatro herdeiros. Quando partiu novamente para Maceió, em 1930, Graciliano foi nomeado diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. Também atuou como professor e diretor da Instrução Pública do Estado, órgão que administrava a educação pública.

Tempo sem horas

Neste último cargo, implantou um ousado conjunto de ações voltadas para o acesso de crianças negras à escola pública e à promoção de professoras negras a cargos escolares diretivos, entre outras iniciativas de caráter inclusivo. As medidas sofreram forte reação de setores conservadores da igreja católica e de opositores políticos. Simpatizantes pró-Estado Novo (1937-1945), e uma ditadura prestes a ser instaurada pelo presidente Getúlio Vargas (1882–1945), aumentaram o clima de hostilidade que o escritor enfrentou, o que provocou o seu desligamento da função. Acusado de ter ligação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de participar da Intentona Comunista de 1935, Graciliano Ramos foi preso e levado para a Colônia Correcional de Dois Rios, em Ilha Grande (RJ) – sem acusação formal, sem responder a processo, sem provas ou julgamento.

A detenção durou 11 meses e representou uma passagem de intenso sofrimento para o escritor, que era periodicamente torturado . Na Ilha Grande, tornou-se amigo de outra presa política: a médica Nise da Silveira (1905-1999), com quem jogava cartas para passar o tempo. Conterrâneos, ambos conheciam bem as paisagens sertanejas e conversavam nos momentos de aflição. Em homenagem, escreveu um personagem inspirado na amiga para um dos contos do livro A terra dos meninos pelados (1939). As experiências na Colônia resultaram na publicação de Memórias do cárcere (1953), obra póstuma em que narra o período e transita da ficção para uma produção de caráter mais confessional.

Sóbrio lirismo

Sobre a detenção, escreveu: “Chegamos ao quartel do 20º Batalhão. Estivera ali em 1930, envolvera-me estupidamente numa conspiração besta com um coronel, um major e um comandante da polícia e, vinte e quatro horas depois, achava-me preso e só. Pensando nessas coisas, desci do automóvel, atravessei o pátio que, em 1930, via cheio de entusiastas enfeitados com braçadeiras vermelhas (…). Se todos os sujeitos perseguidos fizessem como eu, não teria havido uma só revolução no mundo. Revolucionário chinfrim. As minhas armas, fracas e de papel, só podiam ser manejadas no isolamento”.


E ainda que, de fato, as características íntimas do autor (seu estilo e sua personalidade) singularizem sua escrita,
o caráter coletivo das ideias adotadas na sua prática literária o universaliza pelo compromisso

Edilson Dias de Moura, em Graciliano Ramos: romancista,
homem público, antirracista (Edições Sesc São Paulo, 2024)

Os maus-tratos e as condições extremas do encarceramento também ganharam tom de reflexão nas linhas do autor. “Vemos um sujeito sem as unhas dos pés, sabemos que elas foram arrancadas a torquês, e a nossa curiosidade não vai além; os sofrimentos findaram, as unhas renascerão, a memória da vítima se embotou; horrível é imaginarmos a redução de uma criatura com tenazes quando pensamos nela, exatamente quando pensamos nela.”

 A desesperança de um tempo incerto o perseguia – longe dos filhos e da esposa Heloísa, com quem se correspondia com frequência, sentia saudades de casa e enfrentava constantes náuseas, que o impediam de se alimentar. “Se nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, fantasmas prematuros; desejaríamos enlouquecer, recolhermo–nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas ideias, repetidas, vexavam-me; tanto me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido”, narrou em Memórias do cárcere.

Espinho e flor

Apesar de pouco afável, Graciliano Ramos era bem- -humorado e sabia cultivar as amizades. Não gostava de música ou cinema, e considerava o futebol “uma roupa de empréstimo que não nos serve, costume intruso, coisa estrangeira e exótica”. No fim da vida, morando no Rio de Janeiro, traduziu para o português A peste (1947), do escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Gostava, em especial, do romance Anna Karenina (1878), do escritor russo Liev Tolstói (1828-1910). Ao lado dos também escritores Érico Veríssimo (1905-1975), Rachel de Queiroz (1910-2003), Jorge Amado (1912-2001) e José Lins do Rego (1901-1957), formou o grupo de romancistas regionalistas de grande destaque na segunda fase do modernismo brasileiro.

Preso no mesmo dia em que entregou o manuscrito do romance Angústia (1936) para ser datilografado, Graciliano Ramos soube, em Ilha Grande, que a obra tinha sido publicada graças ao esforço conjunto de alguns desses amigos. Para a geração de artistas que deu forma à Semana de Arte Moderna de 1922, destinou críticas mordazes. Ainda assim, dizia que admirava o poeta Oswald de Andrade (1890-1954) – mas repudiava o epíteto de modernista da segunda geração. “Que ideia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão”, afirmou sarcástico, em dezembro de 1948, em depoimento ao jornalista Homero Senna (1919-2004), naquela que seria sua última entrevista.

Inquietudes de um literato

Recém-lançado, livro examina questões urgentes presentes na obra do autor alagoano, como a luta antirracista

Graciliano Ramos: romancista, homem público, antirracista (2024), das Edições Sesc São Paulo, teve origem na pesquisa de doutorado do autor, o pesquisador Edilson Dias de Moura, na Universidade de São Paulo (USP). Ao mesclar análise literária, consulta documental e história, Moura fez descobertas sobre o escritor que o levaram a realizar um estudo inédito sobre como a postura política de Graciliano, em sua vida pública, teve influência direta na produção de seus romances – além de Caetés, Moura investiga outras obras fundamentais publicadas pelo alagoano na década de 1930: São Bernardo (1935), Angústia (1936) e Vidas secas (1938).

Dani Sandrini
Foto: Dani Sandrini

O tecido social e o cenário da educação no Brasil à época, especialmente na região Nordeste, aparecem com frequência na literatura do alagoano – e coube ao pesquisador lançar olhares sobre como essa presença é reflexo das relações entre o trabalho de criação literária e a atuação inovadora do autor de Infância (1945) como administrador público. “Para além de um romancista dito regional, o que se evidencia é a universalidade de suas tramas, ao tratar de maneira contundente as condições existenciais e estruturais da sociedade, alicerçadas em problemáticas raciais, de classe e de gênero e suas marginalizações, muitas destas respaldadas em suas experiências práticas pessoais”, descreveu o sociólogo, filósofo e ex-diretor do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda (1943-2023), no texto de apresentação da obra.

EDIÇÕES SESC SÃO PAULO
Graciliano Ramos: romancista, homem público, antirracista (2024) | Edilson Dias de Moura

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