Liberdade Sonora

20/10/2017

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Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos, tendo também sido colaborador da revista portuguesa Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e música para o Valor Econômico e é editor do blog FreeForm, FreeJazz. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

Ilustrações: Raul Lorenzeti

“O fim da edição de 2016 do Granular Fest (Lisboa) fez-se com uma contribuição de São Paulo, no Brasil. Se alguns dos músicos do núcleo de improvisadores daquela cidade começam por cá a ser conhecidos, nada nos preparara para a superlativa qualidade da proposta trazida pelo trompetista Romulo Alexis e pelo baterista Wagner Ramos.”

Com essas palavras, o crítico musical português Rui Eduardo Paes encerrava uma resenha na revista on-line Jazz.pt, em que se referia ao duo paulistano Radio Diaspora. Para quem acompanha a jovem cena da música livre no país, é no mínimo empolgante se deparar com esse tipo de reconhecimento no outro lado do Atlântico, algo improvável poucos anos atrás.

Wagner Ramos e Romulo Alexis, a Rádio Diaspora

Podemos falar hoje sem exageros de uma cena local dedicada à improvisação livre e cercanias sonoras, que tem em São Paulo um de seus polos mais produtivos, ao lado de Rio de Janeiro e Porto Alegre. Entre espaços que destacam o gênero, festivais que se abrem a tais sonoridades, um público interessado e selos que registram e divulgam esta música vemos um ambiente propício a gerar cada vez mais nomes com propostas inovadoras e muito o que dizer, que gradualmente vão sendo descobertos além-fronteiras.

Hoje podemos citar com facilidade vários artistas de alta inventividade ligados à free music, atuando nos mais diversos instrumentos, que poderiam estar tocando em qualquer canto do globo, a ver: bateria: Antonio Panda Gianfratti, Flávio Lazzarin, Mauricio Takara, Wagner Ramos, Ale Amaral, Marcio Gibson; saxes: André Calixto, Diego Dias, Thiago França, Marcelo Coelho, Filipe Nader, Alexander Zhemchuzhnikov, Vinicius Mendes; trompete: Romulo Alexis, Celio Barros, Amilcar Rodrigues, Guizado, Daniel Gralha; baixo: Alex Dias, Rodrigo Gobbet, João Ciriaco, Luiz Gubeissi, Felipe Zenícola; guitarra: Luiz Galvão, Mário Del Nunzio, Biaggio Vessio, Marcos Campello, Igor Dornelles, Eduardo Manso — apenas uma amostra de uma lista que poderia ser ampliada sem muito esforço.

Tal música espelha perspectivas diversas de vivenciar o free, sendo interessante como as propostas exibidas por muitos dos grupos surgidos, ligados aos instrumentistas citados e outros mais, lidam com vertentes que oscilam em suas influências, podendo ser mais devedoras do jazz, do rock, do noise ou de vias eletrônicas e outras possibilidades sonoras, mas sempre com a improvisação desempenhando espaço nuclear, gerando uma infinidade de projetos com marcas próprias, como atestam registros assinados por Abaetetuba, Radio Diaspora, FLAC, Otis Trio, Chinese Cookie Poets, MarginalS, Bugio, Culto ao Rim, Trio Repelente, Nau, Mnemosine 5, Projeto B, Máquina Overlock, Entrevero Instrumental, Moksha Trio, BIU, Aparelho Antiterror, Música de Selvagem, Honorável Harakiri, dentre outras tantas agrupações que têm movimentado o cenário.

Luciano Valério, da produtora e selo Desmonta, responsável pela vinda de figuras centrais do free contemporâneo ao país, como Ken Vandermark e o trio escandinavo The Thing, diz: “Realmente vejo as pessoas mais interessadas pela música livre, seja ela em qual for o segmento. Acompanho este cenário já há alguns anos, sempre trazendo músicos (na medida do possível) que me inspiram ou que chegam até mim acidentalmente por amigos e circunstâncias diversas, dado o fato da gama de músicos que já trabalhei nestes 10 anos de Desmonta. E é evidente a força que este cenário ganha hoje em dia, pela quantidade de pessoas e músicos se movimentando, somado a espaços e eventos semanais dedicados ao gênero e suas facetas”.

Essa realidade é relativamente nova, algo dos anos 2000, ou mais precisamente da última década. Claro que sons inovadores ligados a diferentes esferas circulam entre nós há muito, é só lembrar de figuras do porte de Naná Vasconcelos, Hermeto Pascoal, Jocy de Oliveira ou o Grupo Um. Mas para pensar em uma cena local que mantém viva em seu núcleo expressivo a herança do free jazz e da free improvisation não conseguimos ir tão longe no tempo. Basta ver o que nos mostra os pioneiros desta seara no Brasil.

Os pioneiros

A primeira grande figura da free music a emergir entre nós foi o baixista carioca Marcio Mattos, 71 anos. Tendo estudado no Instituto Villa-Lobos, no Rio, no fim dos anos 1960, Mattos conta que havia por lá então um pequeno movimento de alunos interessados em improvisação livre, mas que não prosperou em meio à difícil situação política da época, período de ditadura militar. Para ele, a única saída para continuar investigando e praticando a música livre foi se mudar para Londres. Músico de inventividade maior, Mattos, que também é violoncelista, não demorou a se integrar à pulsante cena londrina e já em novembro de 1970 entrava em estúdio para participar de sua primeira gravação, como parte do seminal grupo Spontaneous Music Ensemble (SME), liderado pelo percussionista John Stevens.

Ainda naquela década, se associaria ao baterista Eddie Prévost e ao saxofonista Elton Dean. Mattos teve sua primeira chance de retornar ao Brasil para mostrar sua música apenas em 1986, quando desembarcou com o quinteto de Dean para uma pequena turnê inédita de um grupo ligado ao free jazz no país, patrocinada pelo Conselho Britânico e a Cultura Inglesa, que passou por diferentes cidades e, incrivelmente, deu origem a um disco “Welcomet: Live in Brazil 1986”, editado na Europa. Infelizmente, este não foi um marco que abriria os ouvidos locais à free music: Mattos só voltaria a tocar aqui em meados dos anos 2000.

O próximo nome brasileiro a se destacar no universo da free music foi o saxofonista Ivo Perelman. Iniciando sua trajetória nos anos 80, Perelman, como Mattos, não encontrou interlocutores em sua cidade, São Paulo, para desenvolver a música que pretendia e acabou indo tentar a sorte nos Estados Unidos. Foi em Nova York, onde vive até hoje, que desenvolveu a maior parte de sua obra, em uma discografia com mais de 80 títulos e parcerias com figuras maiores desse universo sonoro, como William Parker, Rashied Ali, Joe Morris, Marilyn Crispell e Matthew Shipp. Em seus primeiros álbuns, quando chegou a tocar com os brasileiros Airto Moreira, Flora Purim, Zé Eduardo Nazário e Cyro Baptista (outro paulistano que se estabeleceu em NY nos anos 80 e chegou a enveredar pelo free, apesar de não se ater a este universo), Perelman tentou uma síntese de elementos da música nacional com o free jazz, que gerou registros interessantes como “Ivo” (em que dialogava com canções de roda), “Children of Ibeji” (que trazia elementos sonoros do candomblé) e “Tapeba Songs” (com referências musicais indígenas). Mas acabou caindo em um beco sem saída, que o levou a mergulhar de vez na free improvisation, onde de fato descobriu sua voz. Mesmo em sua fase de “brasilidades”, Perelman não encontrou interesse pelo seu trabalho por aqui, tendo demorado muito para conseguiu se apresentar pela primeira vez no país. Curiosamente, isso aconteceria em uma noite que hoje poderíamos chamar de histórica.

Em 4 de junho de 2008, uma quarta-feira, o teatro do Sesc Vila Mariana recebeu um grande público para uma noite de jazz contemporâneo — ao menos era o que muitos desavisados presentes esperavam. A programação era duplamente inédita: na abertura, o trio de Perelman, que, com duas décadas de carreira, pela primeira vez levava um grupo seu a um palco em sua cidade natal. Na sequência, um dos mitos maiores da música livre: o saxofonista alemão Peter Brötzmann, com seu trio Full Blast. O público até que resistiu ao “free lírico” de Perelman, que na época era acompanhado apenas por violino (Rosi Hertlein) e baixo acústico (Dominic Duval). Mas a entrada vulcânica de Brötzmann, amparado pelos ataques quase roqueiros de Marino Pliakas (baixo elétrico) e Michael Wertmüller (bateria), espantou o público de pronto: as pessoas deixaram o teatro em bando, sem constrangimento de se levantar da cadeira e escapar pelos corredores com os músicos em plena ação. Para muitos que lá estiveram, a noitada de “jazz contemporâneo” acabou mais cedo.

Quem presenciou aquela noite não poderia imaginar que as expressões mais radicais ligadas ao jazz e à música improvisada passariam a fazer, de fato, parte da agenda musical da cidade e, mais ainda: uma cena em torno dessa música iria se desenvolver. Quando falamos em cena pensamos em um triângulo formado por músicos locais criando, espaços para apresentações e um público interessado.

Mas vale destacar uma outra ponta de relevo: a vinda de artistas estrangeiros, que estimula não só o interesse dos ouvintes, mas dá ímpeto extra àqueles que querem se dedicar a esta arte.

Antes daquela noite de junho, raras foram as vezes em que nomes das searas sonoras jazzísticas mais radicais estiveram no país. Pode-se destacar pontualmente as vindas de Cecil Taylor e John Zorn em 1989, no Free Jazz Festival (que tinha esse nome devido à marca de cigarro patrocinadora e não ao gênero musical); Ornette Coleman, em 1993; e Art Ensemble of Chicago, em 2000, sempre no mesmo evento. Mas quando olhamos a lista de apresentações da última década, nos surpreendemos com sua amplitude. Tendo à frente inicialmente diferentes eventos no Sesc e no Centro Cultural São Paulo (e depois em outros palcos), passou por aqui desde 2008 uma inacreditável sequência de alguns dos principais nomes, históricos e novos, da free music, a maioria pela primeira vez: Anthony Braxton, Ken Vandermark, Matana Roberts, William Parker Quartet, Mats Gustafsson (com The Thing e Fire!), Sabu Toyozumi, Muhal Richard Abrams, Sun Rooms, Nate Wooley, Mary Halvorson, Wadada Leo Smith, Roscoe Mitchell (solo e com o AEC), Phil Minton, Paal Nilssen-Love, Audrey Chen, Tim Berne, Pharoah Sanders, Rob Mazurek, Ornette Coleman (que voltou em 2010), Carlos Zíngaro, Archie Shepp, Frank Rosaly, John Russell, Peter Brötzmann (com novas visitas em 2012 e 2016), Rodrigo Amado e Gabriel Ferrandini, John Butcher, Eke Trio, Atomic, Frode Gjerstad, John Edwards, Steve Noble, Han Bennink, John Zorn e Masada, Mark Sanders, Trevor Watts, Veryan Weston, Christof Kurzmann, Phil Cohran, Speeq, Ab Baars, Hans Koch, Ricardo Tejero, Eddie Prévost, Urs Leimgruber, Roger Turner, David Torn, Ingrid Laubrock, SOL 6, Chefa Alonso, Crash Trio, Alex Ward, ICP Orchestra, Ches Smith, Mat Maneri, Kaja Draksler, Dror Feiler, Matthew Shipp, Peter Evans, Globe Unity Orchestra… Esses nomes representam possibilidades variadas de se fazer música livre, mas todos são devedores, de uma forma ou de outra, de uma arte que se estabeleceu nos Estados Unidos nos anos 1960 e teve desdobramentos estéticos em outras partes do globo nas décadas seguintes.

Origens

O termo “free” associado à radicalização no jazz surgiu em uma peça do saxofonista Ornette Coleman (1930–2015). O disco “Change of the Century”, registrado em outubro de 1959, trazia como segunda faixa um tema de seis minutos chamado simplesmente “Free”. Coleman levaria o nome depois ao álbum que gravou em 21 de dezembro de 1960, “Free Jazz: A Collective Improvisation”, a mais radical obra jazzística registrada até então, que acabaria por nomear um subgênero que marcaria os anos 60.

Ao lado de outros nomes basilares como Cecil Taylor, Albert Ayler, Sunny Murray e muitos músicos jovens que formavam o entorno de John Coltrane em meados daquela década, Coleman deu o start de um novo idioma musical que surpreende até hoje. A resposta europeia não tardaria e logo músicos (especialmente) ingleses, alemães e holandeses passaram a explorar e inovar a partir da experiência libertária norte-americana. Brötzmann, Evan Parker, Alexander von Schilippenbach e Derek Bailey, além dos seminais grupos SME e AMM, são alguns dos que estão na base do surgimento de uma linha europeia própria, registrada em discos hoje clássicos como “Machine Gun” (68), “Karyobin” (68) e “European Echoes” (69), em que referências além das jazzísticas, a destacar experiências de radicalização do erudito contemporâneo, resultavam em ainda mais abstratas investigações sonoras, desenvolvendo outras possibilidades, que seriam conhecidas historicamente sob o rótulo de “free improvisation”. Um outro desdobramento de grande relevância viria do Japão, quando o saxofonista Kaoru Abe e o guitarrista Masayuki Takayanagi fizeram registros em duo, em julho de 1970, que resultaram no álbum “Mass Projection”, uma experiência que aprofundava as investigações da free improvisation, desembocando em uma seara de ruidosidade ímpar que já sinalizava o que viria a ser conhecido como noise.

Dentre outros capítulos nessa história de rupturas, vale ainda citar o multiestilismo que caracterizou os anos 80, que teve na downtown scene de Nova York uma de suas representatividades fundamentais. Tendo o saxofonista e compositor John Zorn como um dos ícones maiores, essa cena foi catalisadora de muito do que marcava o underground sonoro. Basta ver a multiplicidade dos trabalhos do próprio Zorn, que enveredava por fontes diversas para criar seu “free”, como trilhas sonoras, música judaica e até o grindcore, gestando projetos tão excitantes e distintos como os grupos Naked City, Painkiller e Masada.

Os múltiplos caminhos abertos por uma via que tem suas origens no jazz e é herdeira direta da emancipação do ruído como linguagem sonora já foram associados a diferentes rótulos (além dos basilares free jazz e free improvisation): new thing, avant-garde jazz, instant composition, action jazz, improvised music, jazzcore, creative music, out jazz, spontaneous music, modern free, fire music, heavy jazz e outras tantas nomeações, variando a cada artista, época, obra ou enfoque crítico. Como simplificação, poderíamos englobar essas vertentes todas apenas sob a rubrica free music. E é em meio a tal caldeirão estilístico que a cena brasileira vai descobrindo sua voz e criando algo aqui a partir de tantas variadas experimentações sonoras globais, adicionando nossa própria vivência artística.

Outros pioneiros

A vinda de artistas estrangeiros é especialmente fundamental considerando a natureza dessa música, em que a improvisação está no núcleo das criações; ou seja, presenciá-la ao vivo é obrigatório. Nessa perspectiva, podemos dizer que o que vimos nos últimos anos foi o desdobramento de um processo: instrumentistas de fora se apresentando, o que colabora para a formação de um público, que estimula o surgimento de músicos locais e a abertura de palcos para que isso possa acontecer. Mesmo para Mattos e Perelman, a mudança vista na última década muito representou, pois puderam, enfim, tocar aqui em diferentes oportunidades. Até por continuarem morando em Londres e Nova York, não coube a eles representar o papel de grande fomentador da cena local, ficando ambos mais ligados ao peso simbólico dos brasileiros que se tornaram destaque na free music global.

Esse papel de estimulador de novos músicos interessados no free acabou sendo reservado a outro precursor, o percussionista Antonio Panda Gianfratti. Paulistano como Perelman, Panda Gianfratti iniciou sua história na música ainda nos anos 60, à época mais atento ao rock. Depois de descobrir o jazz e passar muitos anos tocando na noite, o percussionista se depararia, isso apenas lá pelos anos 90, com o universo do free jazz — e sua história com a música viraria do avesso. Gianfratti aceitou o sacrifício de apostar em uma música ignorada mesmo pelos seus pares e passou anos estudando sozinho os grandes bateristas do free, a quem tinha acesso por discos que importava, criando aos poucos sua própria linguagem percussiva.

No começo dos anos 2000, une ideias e forças ao jovem saxofonista Yedo Gibson, com quem formou o Duo Liberdade e gravou suas investidas iniciais nessa seara. Em 2004, os dois fariam na Funarte (SP) um pioneiro concerto free jazzístico ao lado do pianista argentino Ruben Ferrero, encontro que resultou no álbum “Contra-Mão”. Ainda nesse período, conceberiam o seminal grupo de improvisação livre Abaetetuba, importante embrião da cena atual. O Abaetetuba trocou de formação algumas vezes em sua pouco mais de uma década de existência, variando entre trio e sexteto. Em sua primeira versão, o grupo contava, além de Gianfratti e Gibson, com Renato Ferreira (sax e baixo) e Rodrigo Montoya (sax), sendo expandido depois com a entrada do baixista Luiz Gubeissi. Mas não tardou para Gibson se mudar para a Europa, onde desenvolveria sua história artística, vivendo primeiramente em Londres, depois na Holanda e agora em Lisboa, trabalhando com diferentes destacados nomes da cena europeia. Seu mais recente registro é “Chain”, trio com o baixista português Hernâni Faustino e o percussionista espanhol Vasco Trilla, editado pelo selo NoBusiness Records. O Abaetetuba ganharia reforço de peso com a participação de Mattos, hoje membro associado, e a entrada para o coletivo de Thomas Rohrer — decisiva para a sonoridade do grupo como a conhecemos. Saxofonista suíço que se radicou no Brasil nos anos 90, Rohrer primeiramente se dedicou aqui à música popular, passando inclusive a tocar rabeca, além de seu sax soprano de origem. Com uma bagagem de formação no free europeu, Rohrer se tornou um pilar do Abaetetuba e uma referência para novatos que iam despontando. Músico de grande experiência e imaginação, é um nome central do nosso cenário. O Abaetetuba já teve oportunidade de levar sua arte para fora, tendo estado pela primeira vez no exterior em 2009, onde tocaram na Espanha, Holanda e Londres.

“Em relação a quando começamos, este momento é muito mais favorável (ao free), mas, de uma certa forma, o rótulo virou moda e aí reside o perigo… Ainda é reduzido proporcionalmente aqueles que fazem seriamente, buscando a meta de fazer música própria sem rótulo ou clichês, e há aqueles que apenas se utilizam de atitudes em gigs para ganhar espaço em alguma fatia de mercado… Infelizmente, o número dos que trabalham é muito pequeno ainda”, diz Gianfratti.

Além do círculo do Abaetetuba, alguns músicos também iniciaram paralelamente investigações no free no começo deste século. Outra parada pioneira em São Paulo é o coletivo Supersimetria, que, em meio a explorações sonoras experimentais diversas (eletroacústica, improvisação, noise), abriu espaço para as linhas free jazzísticas em gravações realizadas a partir de 2005 por um duo explosivo formado por Rob Ranches (sax tenor) e Mario Conte (bateria), que renderam três álbuns de elevada energia. Um outro exemplo é Rubens Akira que, vindo da cena hardcore, passou a explorar a bateria no free, tendo também se dedicado ao estudo do clarinete-baixo. Na ativa, Akira acaba de editar com um quarteto formado por Romulo Alexis, Rodrigo Gobbet e Thiago Terada o disco “Pão de Cage Sessions”, que mostra em seis improvisações um pouco da maturidade da música livre criada por aqui hoje.

Já de Pernambuco, vêm duas figuras há muito na estrada que merecem destaque. Um é Alípio C Neto, saxofonista que seguiu as trilhas de Mattos e Perelman e deixou o Brasil, no fim dos anos 90, para tentar a vida em Portugal. Por lá, se estabeleceu como músico ligado ao free, gravou com gente como Denis González, Mark Sanders e Ken Filiano e lançou discos pelo incensado selo Clean Feed, antes de se mudar para a Itália, onde vive atualmente.

O outro é Thelmo Cristovam, saxofonista e artista sonoro que iniciou seu trabalho no início dos anos 2000 e hoje conta com uma discografia com dezenas de títulos, sendo um deles um duo de saxes gravado exatamente com Alípio (“Triatoma Infestans”) e editado pelo português Creative Sources.

Palcos

Gianfratti tem outro papel importante na cena além de seus projetos como músico: a organização de eventos e apresentações, na qual se destacam as duas edições do FIIL (Festival Internacional de Improvisação Livre Abaetetuba), em 2010 e 2011. Produzidos pelo Centro Cultural São Paulo (CCSP), os festivais tiveram, além das apresentações de músicos do Abaetetuba e de convidados estrangeiros (como John Russel, John Edwards e Javier Carmona), oficinas que serviram de ponto de partida e encontro para muitos jovens instrumentistas interessados em free music. Este foi um período importante, em que tem de ser destacado também o papel de Juliano Gentile, um grande incentivador da improvisação livre, na curadoria musical do CCSP.

Muitos nomes que fazem a cena contemporânea acontecer tiveram nos eventos em torno das duas edições do FIIL um catalisador para suas ideias e aspirações. E um dos principais frutos daquele momento foi o surgimento do Circuito de Improvisação Livre (CIL). Criado em março de 2012 a partir de uma série de concertos, o CIL é um evento que ocorre mensalmente, reunindo interessados em explorar a improvisação livre, sempre aberto a novos músicos atentos a esse campo. A agenda do coletivo é comandada pelos músicos Luiz Galvão, Thiago Salas, Cadós Sanchez e Daniel Carrera, contando neste seu tempo de existência com a participação de muitos dos nomes mais ativos de hoje.

“Uma série de fatores culminaram no surgimento do CIL. Penso que o FIIL foi um ponto de encontro muito importante (para isso). A partir daí, várias oficinas e concertos foram acontecendo no CCSP, com vários ícones da improvisação livre mundial. Em agosto de 2011, eu, Rubens Akira, Marcio Gibson, Thiago Salas e Romulo Alexis fomos contemplados com uma bolsa para participar de uma semana de concertos e oficinas na Dutch Impro Academy, em Amsterdã. Na ocasião, nos aproximamos do Yedo Gibson, que nos estimulou bastante a desenvolvermos algo com relação a improvisação livre em São Paulo”, Luiz Galvão (Otis Trio, Nomade Orquestra).

Com dezenas de apresentações, levando a improvisação livre a diferentes espaços em São Paulo e no ABC paulista, o CIL se tornou um ponto referencial. Além de formar músicos e estabelecer diálogos, o CIL tem tido desdobramentos, sendo o principal a série de concertos Improvise.

“O Improvise surgiu como um happening do Circuito de Improvisação Livre, hoje mensal e já com cinco anos de residência no Edifício Sta. Victória, onde funciona o Trackers, no centro velho da metrópole paulistana”, diz o trombonista Daniel Carrera. “O projeto abarca artistas e grupos que tem a improvisação livre como fator predominante em seu trabalho. O happening resiste com o apoio do Trackers, que patrocina o cachê dos artistas e tem fomentando esse tipo de segmento, gerando também intercâmbio com artistas internacionais que se apresentam no evento, além do apoio a oficinas e práticas em orquestra com metodologias em improvisação, que hoje em dia vem acontecendo no térreo do edifício e colaborando com a divulgação da improvisação livre tanto para o público que cresce notoriamente quanto para artistas de outras trajetórias e curiosos.”

Recentemente, o Improvise organizou o lançamento do livro “The Art of Conduction”, de Butch Morris. Na ocasião, houve a apresentação da SPIO (São Paulo Improvisers Orchestra), formada por mais de 25 músicos — algo impensável no início da década –, encontro que deve se transformar em disco em breve.

Outro marco da cidade para a música experimental foi o surgimento do Ibrasotope. Espaço referencial com apresentações e eventos regulares, está aberto a diferentes possibilidades experimentais sonoras. “O Ibrasotope foi criado em 2007, quando eu e alguns colegas (Alexandre Torres Porres e Henrique Iwao) mudamos para uma casa relativamente grande, que tinha uma sala que originalmente foi pensada como ‘sala de ensaios’, mas na qual, eventualmente, começamos a fazer pequenas apresentações. Isso começou em dezembro de 2007, a série [ibr]. Também fizemos em 2008 e 2010 duas edições do Festival Ibrasotope de Música Experimental, com convidados de vários locais do país e diversas atividades extras”, afirma o guitarrista Mário Del Nunzio. “Na época, a criação do Ibrasotope nos pareceu relevante pela inexistência de algo similar na cidade — ou seja, um espaço e uma série regular e periódica de apresentações dedicada exclusivamente à música experimental. Atualmente eu e Natacha Maurer cuidamos das atividades do Ibrasotope.”

Um desdobramento do Ibrasotope é o FIME (Festival Internacional de Música Experimental), que terá sua terceira edição no mês de novembro. No ano passado, o FIME teve uma programação excepcional, reunindo artistas locais e estrangeiros, com destaque para as vindas de Brötzmann, do trompetista de Nova York Peter Evans (um dos principais nomes contemporâneos do instrumento) e do saxofonista israelense Dror Feiler, que deu oficina e comandou a apresentação de um grupo de improvisação (a Noise Orchestra) com músicos daqui. “A média de público nas duas edições do FIME foi, dentro de nossa realidade, surpreendentemente boa (nas duas edições houve diversos concertos com lotação esgotada e, em geral, casa cheia); e o público, muitas vezes sem saber exatamente o que esperar, pareceu em termos gerais bastante aberto e interessado”, conta Del Nunzio.

Como os festivais de jazz, que pipocam ao menos desde a década de 90 por todo o país, sempre preferiram ignorar as músicas que se embrenham pelas vias mais radicais, são estes eventos independentes que oferecem ao público a chance de ver artistas daqui e de fora ligados ao free em ação. Além de festivais mais conhecidos e duradouros, por exemplo, o carioca Novas Frequências (que em dezembro trará o mito japonês Otomo Yoshihide), há propostas novas variadas surgindo, como o Bigorna (SP) e o Sô(m): Encontro Internacional de Arte Sonora (MG). O Sesc faz seu papel deixando sempre algum espaço para o free no seu festival Jazz na Fábrica, que acontece anualmente no Sesc Pompeia desde 2011, além de manter um projeto dedicado à música “na fronteira da linguagem, dialogando com vanguardas e experimentalismos”, o Exploratório, com artistas locais e estrangeiros.

Parcerias estrangeiras

Os eventos do Improvise tem também apresentado músicos estrangeiros, em que vale destacar a vinda da Large Unit — big band comandada pelo norueguês Paal Nilssen-Love — a São Paulo em 2016 e a apresentação do Frode Gjerstad Trio no começo deste ano, sempre no Trackers. Nilssen-Love, já uma lenda da bateria free, acabou por se tornar um dos músicos internacionais mais ligados à cena brasileira. Se a primeira vinda de Nilssen-Love ao Brasil demorou — acontecendo apenas em março de 2013, quando se apresentou com o saxofonista Frode Gjerstad na Serralheria, em uma memorável noite de muita energy music –, depois ele se tornou um verdadeiro frequentador do país, não apenas se apresentando com muitos dos grupos com que está envolvido (The Thing, Atomic, Large Unit), como tocando com músicos locais e desenvolvendo projetos por aqui. Tendo já dividido o palco com diferentes músicos no Rio e em São Paulo (em junho passado, pudemos vê-lo em inédito duo com Kiko Dinucci, no Disjuntor), o baterista organizou um grupo, Botafogo, com Eduardo Manso, Felipe Zenícola e Arthur Lacerda, que rendeu um disco homônimo, e convidou os percussionistas Célio de Carvalho e Paulinho Bicolor para gravarem com sua Large Unit. E de pensar que cinco anos atrás ver Nilssen-Love tocando no Brasil parecia um desejo distante…

“Em 2014, o Paal veio ao Brasil pra uma série de shows, e um deles foi na Audio Rebel (no Rio). Pedro Azevedo e Bernardo Oliveira me convidaram pra tocar com ele e com o Alex Zhemchuzhnikov. Já admirava o trabalho do Paal há bastante tempo, e como baixista, um dos maiores prazeres na música pra mim está em improvisar com bateristas (…). Foi um dos maiores aprendizados sobre improvisação que tive na vida”, conta Felipe Zenícola (Chinese Cookie Poets). “Menos de um ano depois, Paal retornou para uma segunda apresentação. Dessa vez, com a formação que veio a ser a do Botafogo, com Manso na guitarra e Arthur na guitarra e especiarias. Se naquele primeiro encontro tive uma bela e rara oportunidade de trabalhar e aprender com uma referência na minha área de criação, agora eu podia fazê-lo novamente, colocando em prática o aprendizado.”

As parcerias com músicos estrangeiros são um capítulo importante que vem ganhando mais histórias. Nesse aspecto, é fundamental o papel do cornetista de Chicago Rob Mazurek. Em meio às diversas vindas ao país com variados projetos — Pulsar Quartet, Exploding Star Orchestra, Chicago Underground Duo –, Mazurek formou o São Paulo Underground ao lado de Mauricio Takara (Hurtmold). Em tempos mais recentes, Mazurek criou um novo projeto, unindo seus parceiros de Chicago (Chad Taylor, Matthew Lux) e do Brasil (Takara, Guilherme Granado) ao lendário Pharoah Sanders, encontro que vimos em nossos palcos em 2010 e que rendeu o elogiado álbum “Primative Jupiter”. Takara, que circula entre diferentes perspectivas, indo do rock ao jazz e sempre tendo a improvisação em seu trajeto, já teve a oportunidade de tocar com outros nomes do free, aqui e lá fora, valendo destacar o duo que protagonizou com a saxofonista Matana Roberts no Sesc Belenzinho em 2012. Falando em duo, memorável também foi o encontro de Panda Gianfratti com o mito japonês Sabu Toyozumi em dezembro de 2011, quando o público pôde se deleitar com os dois senhores criando um diálogo arrepiante acompanhados no palco do CCSP apenas por duas baterias.

“A troca com músicos estrangeiros é fundamental para o desenvolvimento, principalmente da capacidade da interação dinâmica, que é o motor da improvisação livre. Quando morei um tempo na Inglaterra formei o gatilho inicial de todas as criações e elementos que utilizo hoje nos processos e nas práticas. Talvez se não tivesse buscado as trocas com improvisadores mais experientes, sozinho ou não chegaria a algo consistente ou demoraria no mínimo muito mais tempo”, afirma Gianfratti.

Tocar com músicos estrangeiros é não apenas uma oportunidade para trocar experiências, mas de apresentar o free nacional a outros públicos. Para isso, as gravações desempenham papel relevante. Sempre merece comemoração novidades como o disco “Hãl”, fruto de parceria entre o baterista Marcio Gibson com o guitarrista português Jorge Nuno, que foi editado lá fora no ano passado pelo Bambalam Records. Marco Scarassatti, artista sonoro e professor da UFMG, é outro que trabalhou em tempos recentes com artistas portugueses (Abdul Moimême, Eduardo Chagas, Nuno Torres, Ernesto Rodrigues), em encontros que renderam os álbuns “Rumor” e “Amoa Hi”, editados pelo Creative Sources. Scarassatti tem desenvolvido importante trabalho no campo da criação de instrumentos musicais e esculturas sonoras, em um processo em que se destacam, além da improvisação, as gravações de campo e a exploração da espacialidade.

Registrando a cena

Sendo uma cena underground, movida pela cultura do it yourself, os selos independentes exercem papel fundamental em seu desenvolvimento. As maiores facilidades para fazer uma gravação com relativa qualidade e os atuais formatos digitais de distribuição, com plataformas como Bandcamp e Soundcloud, têm favorecido o registro e a elaboração de sons experimentais, apesar de nem sempre ser simples ter seu trabalho ouvido e apreciado em meio a tanta gente produzindo coisas interessantes simultaneamente. Nos últimos anos, surgiram importantes selos atentos à free music em diferentes partes do Brasil. Alguns são ligados a produtoras, caso da Desmonta e do Submarine — um dos mais antigos em atividade. Criado por Frederico Finelli, que também comanda a produtora Norópolis, responsável por trazer pela primeira vez ao país nomes como Matana Roberts, Anthony Braxton e Muhal Richard Abrams, o Submarine nasceu no fim dos anos 90, mais ligado ao rock, tendo entre seus artistas iniciais o então novato Hurtmold. Hoje o selo lida com outros tipos de explorações sonoras, a destacar os grupos Bode & Elefantes e Auto.

Por sua própria natureza, os selos acabam por fazer a ponte entre diferentes cenas, cruzando ideias e apresentando artistas de diferentes regiões. Do ABC paulista, o baterista Flávio Lazzarin mantém o Zumbidor (ZBR), selo que registra e distribui projetos a que está ligado, como o fantástico FLAC, duo free jazzístico que conduz ao lado do saxofonista André Calixto. No Rio, o principal selo na área é o QTV. Lançado em 2014 como um desdobramento do evento Quintavant e ligado ao que acontece no espaço Audio Rebel (centro da free music no Rio), o QTV explora “música de improviso, ruídos, longas formas, estranhezas e afins”, tendo em seu catálogo de mais de 20 títulos nomes importantes do experimentalismo atual como Cadu Tenório, o power trio Chinese Cookie Poets e o Bemônio. Unindo forças de Rio, Belo Horizonte e Curitiba, o Seminal Records tem desde 2013 registrado artistas ligados a esferas como noise, eletroacústica, drone e, claro, improvisação livre, tendo entre um de seus responsáveis o citado Scarassatti e apresentando artistas como Renata Roman, Hrönir, Bella e J.-P. Caron.

Do Recife, Yuri Bruscky comanda o Estranhas Ocupações que, na ativa desde 2010, apresenta um catálogo com noise, improvisação livre, eletroacústica, propostas conceituais e poesia sonora. Há também o Sê-lo!, da Bahia, responsável, por exemplo, pela distribuição dos discos do incrível duo Radio Diaspora (citado na abertura desta matéria). E da vibrante cena de Porto Alegre, vale destacar dois selos. O Al Sand REC, que tem registrado nomes locais como o saxofonista André de Castro e também apresentações da série Jazz no Hope, evento de música experimental que acontece periodicamente em Porto Alegre. E o Mansarda Records, criado por Diego Dias e Gustavo Bode em 2012 e que conta com um catálogo que já supera os 80 títulos. Destacando principalmente a cena porto-alegrense, mas aberto a artistas de outras localidades, o Mansarda é um vivo testemunho da amplitude do free, com um grande número de projetos que valem ser descobertos.

Vídeo feito pelo grupo Medula para “Aliquid” de 4zero4, lançado pelo selo Sê-lo Net Label

Para quem ainda não acompanha a free music feita no Brasil, explorar esses selos é uma valiosa via de entrada para sentir a amplitude do que tem ocorrido de mais interessante nas searas experimentais da nossa música. Mais do que isso, poder presenciar alguns dos muitos eventos regulares que têm rolado em diferentes pontos (não só em São Paulo) é essencial para compreender o que esta cena significa, considerando que a improvisação livre, a música criada ali no momento, é a base do que de mais empolgante tem acontecido por aí.

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