
Leia a edição de julho de 2026 na íntegra
A comensalidade vai além do simples ato de se alimentar. Ela é, antes de tudo, o gesto de compartilhar, de estar junto, carregando dimensões sociais, culturais e afetivas que dão sentido às refeições.
Na minha trajetória, a alimentação sempre ocupou um lugar especial. Minha relação com a comida foi construída, sobretudo, no ambiente familiar, onde aprendi que comer é também um gesto de cuidado e convivência. Ao longo dos anos, essa percepção se aprofundou no meu trabalho, especialmente no Sesc, onde atuo há 33 anos, vivenciando, na prática, como o alimento aproxima pessoas e cria vínculos.
Minhas lembranças de infância se entrelaçam à minha família, especialmente à minha avó materna. De origem japonesa, ela trouxe para nossa mesa sabores que até hoje me remetem a afeto e pertencimento. Com ela, aprendi que o preparo de um alimento é um verdadeiro ritual, que reúne técnica, tradição, respeito, sabor, estética e, principalmente, amor e cuidado.
Entre as memórias mais vivas, estão os piqueniques em família. Parávamos na estrada ou na praia para comer, e o bife à milanesa com oniguiri (bolinho de arroz) se transformava no melhor almoço do mundo, acompanhado da presença e das risadas dos meus pais, irmãos e avós. O bife da minha avó, inclusive, permanece inesquecível.
Os almoços de domingo e as datas comemorativas reforçavam esse sentido coletivo de cozinhar. Enquanto os adultos preparavam tudo “a várias mãos”, nós, crianças, ajudávamos e beliscávamos os quitutes antes da hora. Com o tempo, assumi meu lugar na cozinha. Hoje, sou eu quem prepara os pratos preferidos dos meus pais, mas minha mãe, aos 83 anos, ainda chega com seu tradicional pudim.
Compartilhar refeições sempre teve, para mim, um sentido muito concreto. Mesmo quando estou sozinha, penso em alguém com quem dividir os bons sabores e novas descobertas. Em restaurantes, gosto de escolher pratos diferentes para compartilhar. O trio perfeito sempre foi minha mãe, minha avó e eu: juntas, explorávamos sabores e texturas, transformando cada refeição em uma experiência compartilhada.
Minhas primeiras lembranças com o Sesc vêm da infância, no restaurante do Sesc Bertioga. Lembro-me dos cafés da manhã e da delicadeza dos garçons servindo café e leite em bules, trazendo as refeições em bandejas de inox. Cenas simples, mas marcantes.
O Sesc sempre valorizou o convívio social também por meio da alimentação, e tive a honra de participar da implantação da Comedoria, um conceito que coloca a comensalidade no centro da experiência. A Comedoria é, ao mesmo tempo, meu espaço de trabalho e de convivência com o público e com os meus colegas. Nesse ambiente, a comida assume um papel essencial: aproxima, constrói pontes, transforma momentos simples em memórias e abre espaço para ouvir, conversar e trocar. Ao longo dos anos, muitas receitas me foram compartilhadas, e algumas passaram a integrar os nossos cardápios, carregando consigo histórias e afetos. Quantos conflitos foram suavizados durante um café, e quantas ideias nasceram nesses encontros. Foi também nesse espaço que construí laços, fortaleci parcerias e vivi trocas que marcaram profundamente a minha caminhada.
Como nutricionista, o que mais me encanta é perceber que o alimento vai além de nutrir: ele conecta pessoas, histórias e gerações, reunindo em si vínculos, memórias e afetos em um encontro entre corpo e emoção.
Carmen Lúcia Saito Lelli é formada em Nutrição pela Faculdade de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo, pós-graduada em Administração (USP), Vivências Gastronômicas (Senac) e Nutrição Esportiva (Albert Einstein). Atua como coordenadora do setor de Alimentação do Sesc Santos.
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