Território literário

01/07/2026

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Escritor Itamar Vieira Junior fala sobre carreira, processo criativo e o mais recente romance, Coração sem medo, que encerra sua Trilogia da Terra

POR MARINA VAZ
FOTOS NILTON FUKUDA

Leia a edição de julho de 2026 na íntegra

Certo encantamento paira em torno de Itamar Vieira Junior. Não só pelo tanto de leitores que ele conquistou nos últimos anos, mas pela potência de sua escrita – que oscila entre o lirismo e o retrato histórico, entre a realidade bruta e o fantástico –, capaz de revelar o que há de mais humano em cada personagem.

Geógrafo de formação e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), o escritor baiano, de 46 anos, trabalhou por quase duas décadas como servidor público do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Porém, a vontade de contar histórias esteve nele desde cedo. Tanto que carregou suas pesquisas acadêmicas e profissionais, incluindo trabalhos de campo em comunidades quilombolas e assentamentos de terra, para seu universo literário. 

Foi a partir da relação das pessoas com a terra, em especial das que não a possuem, que Itamar criou histórias que atravessam diferentes períodos históricos (não bem determinados) e várias gerações (nem sempre, de antemão, conectadas) e que revelam, cada qual à sua maneira, como a herança colonial brasileira nunca deixou de afetar as populações mais vulneráveis, como os descendentes de africanos escravizados e os povos originários. Um de seus primeiros livros foi Torto arado (Todavia, 2019), fenômeno editorial traduzido para mais de 30 idiomas e centrado na relação simbiótica entre as irmãs Bibiana e Belonísia, que trabalham em troca de morada numa fazenda do sertão baiano. O romance é o principal responsável pelo autor ter ultrapassado a marca de 1 milhão de livros vendidos. 

A obra marcou o início da Trilogia da Terra, que se seguiu com Salvar o fogo (Todavia, 2023) e o mais recente lançamento, Coração sem medo (Todavia, 2025). Em sua carreira, o autor acumula prêmios dentro e fora do país, incluindo duas vezes o brasileiro Jabuti, os lusófonos LeYa e Oceanos, e o francês Montluc Résistance et Liberté. Além disso, o escritor chegou à final do britânico International Booker Prize. 

Apesar do sucesso, ele não se deslumbra – permanece com os pés fincados na terra, tal qual seus personagens. “Tudo o que falam sobre mim, as coisas boas e as coisas más, não me ajudam em nada. Porque as coisas boas podem me fazer achar que sou melhor do que eu sou. E as coisas más, às vezes, carregam certo ranço, alguma dose de preconceito. Então, eu deixo tudo da porta para fora. Ninguém pode me parar. Pode até não ler depois; aí é outra questão. Mas me parar, parar com a minha escrita, não pode”, disse durante evento de lançamento de Coração sem medo, realizado em março, no Teatro do Sesc Pompeia. 

Nesta Entrevista, realizada no dia do evento, que integrou o projeto Leituras Circulantes do Sesc, o escritor baiano fala sobre processo criativo, referências literárias, mercado editorial e seu novo romance.

Como surgiu seu interesse por escrever histórias? 
Eu fui alfabetizado com cinco anos e meio e, naquele momento, paravam historinhas na minha mão. Quando uma delas me capturava, surgia uma vontade de fazer a mesma coisa. Primeiro, comecei a contar histórias de maneira oral, fazendo teatro de bonecos. Depois, passei a registrar tudo e, lá por volta dos nove anos, levar para a escola na esperança de que os colegas lessem e interpretassem aquilo. Nunca tinha ido ao teatro, mas esse desejo já existia. Eu tinha um mau hábito – queria escutar as histórias de adultos. Então, me escondia atrás da porta e fingia estar brincando, porque havia muitos interditos, proibições. Mas eu não resistia, tinha uma curiosidade muito grande. Eu cresci com esse senso de observação, cresci numa casa escutando pessoas contarem histórias – meus pais, meus avós, minhas tias, meus tios. Embora nunca fosse escrito, fosse de maneira oral, isso estimulou minha criatividade. Eu me lembro de ler livros da Maria Heloísa Penteado (1919-2014), da Lúcia Machado de Almeida (1910-2005), do Marcos Rey (1935-1999), da Maria José Dupré (1898-1984). Foram autores que marcaram as minhas primeiras leituras, e fundamentais para que eu acessasse, mais tarde, outras leituras. Eu gosto de ressaltar a importância dos autores que escrevem para a infância e para a juventude. É a porta de entrada para a formação do leitor. O pequeno leitor será o grande leitor depois.

Veio daí a vontade de escrever Chupim (Todavia, 2024), seu primeiro livro infantil?
Também, também. Esse é um compromisso que eu tenho comigo e com a literatura, de também eventualmente escrever histórias que possam ser lidas pelas crianças. De preferência por toda a família, para que exista assunto, para que se possa conversar, para que não fique ali restrito ao universo da criança.

Como esse gosto por escutar histórias tem a ver com o trabalho que desenvolveu em suas pesquisas acadêmicas, em comunidades quilombolas, e também como geógrafo do Incra, quando visitava assentamentos de terra?
Eu fui estudar Geografia porque nunca considerei ser escritor uma atividade profissional, encarava sempre como hobby, como algo a mais que eu gostava de fazer. Guimarães Rosa (1908-1967) foi diplomata durante toda a vida; Machado de Assis (1839-1908) se aposentou no Ministério da Agricultura. Muitos autores conciliavam suas profissões com sua vocação. Achei que seria professor de Geografia; cheguei a lecionar por dois anos. Mas aí as coisas mudam de rumo – prestei concurso e achei que o Incra me permitiria viajar, conhecer lugares novos, fazer um trabalho que também é social, muito focado naqueles mais vulneráveis. No Incra, eu descobri esse Brasil profundo, que é um Brasil que carrega marcas de seu passado, um Brasil que é pouco falado, mas que ainda vive. E eu vi ali um campo fértil para escrever. Me lembrava, sobretudo, de romances que marcaram a minha formação como leitor, principalmente dos autores do Nordeste – Jorge Amado (1912-2001), Graciliano Ramos (1892-1953), João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Rachel de Queiroz (1910-2003), José Lins do Rego (1901-1957). Eu não via mais nada parecido na literatura, e esse campo continua tão vivo, tão forte. E foi assim que tudo que observei, tudo aquilo que fez parte da minha formação, tanto acadêmica quanto profissional, também se tornou matéria-prima para o que eu viria a escrever como escritor de ficção.

E quais experiências como pesquisador e geógrafo você levou para a ficção?
Eu tentei escrever Torto arado aos 16 anos, quando ainda não tinha essa experiência de trabalho. Escrevi 80 páginas do livro. Claro, eu não tinha maturidade, nem poderia conferir à história a densidade, a profundidade que ela merecia. Foi o trabalho, além da minha formação intelectual na universidade, que me permitiu conhecer o campo brasileiro. E isso fez toda a diferença. Se eu não tivesse vivido essa experiência, provavelmente eu não teria escrito o livro da maneira que ele foi escrito. Muito do que aparece em Torto arado foram coisas que eu descobri e que vi no campo. Por exemplo, pessoas ainda em regime de trabalho que lembra a escravidão. Pessoas que não podem construir suas casas, porque a terra tem um proprietário – mesmo tendo nascido, vivido e crescido ali, há gerações, essas pessoas não têm direito de construir uma casa de alvenaria, essa casa precisa ser desfeita para não demarcar a vida delas naquele lugar. O jarê, por exemplo, que é uma crença que só existe na Chapada Diamantina e que é tão brasileira, que carrega essa religiosidade que vem de muitas frentes, do cristianismo, do candomblé, das religiões xamânicas. Eu só pude narrar isso porque essa experiência estava ali no meu horizonte, como profissional, pesquisador e também como escritor.

Torto arado foi lançado no Brasil só depois de conquistar, em Portugal, o prêmio LeYa de 2018 e de o livro ser publicado na Europa. Participar desse concurso abriu caminho para entrar, de fato, no mundo literário. Como vê o mercado editorial hoje?
Acho que o Brasil tem despontado na literatura com toda a sua força, diversidade, especificidades. Temos escritores do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul escrevendo e publicando por grandes editoras, não apenas do Sudeste como era antes. E isso tem garantido uma pluralidade muito interessante. Mas o que tem acontecido não é uma abertura das editoras, é uma demanda reprimida dos leitores. Vivemos, a partir da Constituição de 1988, uma revolução silenciosa, uma mudança no nosso perfil social – grupos historicamente invisibilizados, apagados, foram de alguma maneira integrados, com políticas de reparação, de cotas. Tudo isso que o Brasil tem vivido é uma pequena revolução, que tem impactado a sociedade sem que a gente se dê conta. Essas pessoas é que têm pautado as editoras. Escritores sempre existiram escrevendo – Carolina Maria de Jesus (1914-1977), há 65 anos, publicou Quarto de despejo, que se tornou um best-seller, um documento literário importante sobre o Brasil pós-abolição. Mas ela foi um milagre, muitos não conseguiram fazer o que ela fez. E, hoje, a gente encontra essa abertura porque existe uma demanda muito grande dos leitores por essas histórias. 


(Trabalhando) no Incra, eu descobri esse Brasil profundo, que é um Brasil que carrega marcas de seu passado, um Brasil que é pouco falado, mas que ainda vive. E eu vi ali um campo fértil para escrever.

Ganhar prêmios, ser aclamado pela crítica e vender muitos livros nem sempre caminham juntos. E você conseguiu tudo isso. A que atribui essa receptividade tão grande, inclusive por leitores sem nenhuma conexão com a realidade brasileira?
Olha, esse é um verdadeiro mistério. Acho que tudo aquilo que eu escrevo tem encontrado eco nos leitores porque reflete as preocupações do nosso tempo. E, de alguma maneira, o leitor se encontra nessa história. As pessoas têm olhado de maneira mais honesta para o nosso passado, têm se reencontrado com suas origens e isso também vai ecoar na literatura. Isso falando de Brasil. Quando penso em América Latina, nós temos uma história muito parecida – a formação do continente carrega o peso da colonização, da escravidão, do genocídio dos povos originários. Então, é mais fácil entender como um leitor de outro lugar da América Latina também se identifica com essas histórias. Aí, quando se parte para outros lugares, porque eu já tive a oportunidade de fazer turnê na Bulgária, no Japão, na Alemanha, na França, o que eu posso dizer é que, nessa aldeia em que eu escrevo, falando sobre um Brasil em particular, os leitores de outros lugares vão encontrar a experiência humana que é universal. Não importa onde você nasce, não importa em que contexto você vive, há sentimentos que atravessam a humanidade inteira – o amor, a luta, o ódio, o medo, a coragem. E eu tento escrever de uma maneira que essas personagens sejam capazes de mostrar suas fraquezas e suas forças também. Talvez isso, de alguma maneira, se comunique com os anseios dos leitores de diversos lugares.

As religiões de matrizes africanas têm presença forte na Trilogia da Terra. Qual é a importância de trazer para seus livros o tema da fé? 
Meu interesse nas crenças e religiões de matrizes africanas é um interesse natural de pesquisador, de alguém que se interessa pela história social do Brasil, mas também pelo ser humano e por aquilo que é capaz de transcender, de levá-lo para outros lugares. Em nossa sociedade contemporânea, num mundo onde a ciência ocupa quase que um lugar de Deus, em que tudo é ditado pela ciência, ainda a ciência não oferece respostas para as inquietações da humanidade. E as crenças, as religiões, significam essa conexão que o ser humano pode ter com aquilo que considera sagrado. A colonização trouxe essa ruptura – quando aqui chegaram os colonizadores, encontraram sociedades que professavam suas crenças, suas fés, e elas tinham essa conexão profunda com o sagrado. A terra não era uma mercadoria, era uma deusa, dependendo da sociedade. A lua, os astros, a montanha, nada disso tinha sido reduzido a recurso, a matéria – eram coisas vivas que estavam vivendo com essas pessoas. E o meu interesse nas crenças religiosas, e de trazer isso para essas histórias, é porque elas revelam uma face da nossa humanidade que, muitas vezes, é tida como menor, que são as nossas subjetividades, as emoções, os sentimentos. Acho que a fé das pessoas traz uma visão muito importante sobre a experiência humana. Sem isso, seríamos incapazes de compreender aqueles seres na sua complexidade, na sua inteireza.

Meu interesse nas crenças e religiões de matrizes africanas é de alguém que se interessa pela história social, mas também pelo ser humano e por aquilo que é capaz de transcender, de levá-lo para outros lugares.

Em uma época de tantos estímulos, hiperconectividade e desatenção, como é o desafio de reter a atenção de leitores?
Até hoje, quando minha mãe vai contar uma história, é preciso ter paciência e sentar, porque ela não vai entregar o ouro nos primeiros momentos. Ela vai contar de uma forma lenta, mas contínua, permanente; existe a sua maneira própria de contar história para entreter quem está escutando. Eu acho que, num mundo de grandes distrações, nós, que contamos histórias, seja oral, seja escrita, nos espelhamos na Sherazade, d’As mil e uma noites. Ela contava história para não morrer, porque, se ela entregasse o principal da história naquele dia, seria o fim dela – e ela deixa sempre uma parte importante para contar no dia seguinte. Num mundo como o nosso, é um desafio convidar o leitor para a leitura. É como se segurássemos na sua mão e disséssemos “vamos fazer uma travessia por essa história juntos”. E essa história não é um vídeo de 90 segundos, nem um pequeno post. É algo mais denso, mais profundo, algo que vai exigir tempo, que vai exigir reflexão. Então, eu acho que é um movimento consciente, sim, mas eu não vejo outra maneira de contar histórias. 

Poderia dar um exemplo de como faz isso?
Eu costumo não subestimar o leitor. Muita gente, por exemplo, em Torto arado, fica curiosa para saber em
que tempo se passa a história. É exatamente no pós-abolição, é décadas depois? Eu vou entregando essas chaves não com calendário, datas marcadas, eu vou dando pistas. É um carro que aparece, é uma motocicleta que aparece. Porque, se estamos falando de permanências, como é que o leitor pode se engajar nessa leitura, tentar descobrir em que tempo essa história se passa? Eu acho que quem escreve não pode subestimar quem lê. É preciso dar espaço, margem, para que esse leitor também contribua com suas reflexões para a história.

Como você faz para construir personagens que refletem as questões de seu próprio tempo?
Eu nunca penso na escrita de uma história a partir de um tema. Quem conduz a história, pelo menos pra mim, autor, são as personagens. E as personagens, assim como nós, carregam questões múltiplas, que transcendem uma visão limitada do ser humano. Em Torto arado, por exemplo, o parto tinha uma relação com a religiosidade, com a solidariedade, porque era feito por parteiras. Em Coração sem medo, essas mulheres já não encontram esse acolhimento, e chegam a viver violências obstétricas. Então, eu acho que aí tem um marcador temporal importante também. Essas coisas vão parar lá [em Coração sem medo] porque são as coisas vividas pelas pessoas do nosso tempo. Porque essa história se aproxima do nosso tempo e as questões do nosso tempo são essas inquietações que também se refletem na história.

Como você se sente ao encerrar a Trilogia da Terra e deixar para trás essas personagens que o acompanham há tanto tempo? 
A gente passa muito tempo com o projeto de um romance, antes mesmo de escrever. E é um processo excessivo. Eu, pelo menos, quando estou nesse processo, tenho que sentar todos os dias para escrever, não importa feriado, fim de semana. Não tem nada a ver com produtividade, tem é uma necessidade de estar junto das personagens. Eu preciso dessa rotina, desse encontro, para que a história possa fluir. E eu fico com esse luto. Mas aí tem uma coisa bonita, porque, depois que o livro é publicado e chega ao leitor, essas histórias voltam de alguma maneira. Eu sempre digo que os leitores estão me trazendo notícias da Bibiana, da Belonísia, da Luzia, do Moisés, da Rita Preta. Uma história, quando é lida, ela permanece viva. Antes, ela viveu com quem escreveu – e de muitas maneiras, porque a gente sente raiva, se arrepia, se emociona. Não é o intelecto que escreve uma história, é o corpo inteiro que escreve uma história. Depois, o leitor vai emprestar seu corpo para que essa história viva uma outra vez.  

Assista a trechos da Entrevista com Itamar Vieira Junior, realizada no Sesc Pompeia, em março de 2026.

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