Comer em companhia

01/07/2026

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Além de fazer parte de culturas alimentares, o ato de comer junto promove trocas, vínculos sociais e benefícios à saúde e ao bem-estar

POR MARIA JULIA LLEDÓ
FOTOS NILTON FUKUDA

Leia a edição de julho de 2026 na íntegra

Braços estendidos cruzam-se sobre a mesa como num balé. Entre trocas de travessas, uma coreografia é ritmada por conversas, contação de histórias e exclamações sobre o tempero do feijão ou o ponto do bife acebolado. Sentados à mesa, mais velhos, adultos, jovens e crianças realizam essa prática cultural que atravessa a história da humanidade: a comensalidade. Palavra originária do termo em latim mensa, que significa “mesa”, ela representa o ato de comer em companhia.  O hábito não só traz inúmeros benefícios à saúde e ao bem-estar, mas também promove e fortalece vínculos sociais. No entanto, o modo de vida acelerado e mediado por dispositivos digitais tem apresentado desafios, como a demanda por refeições rápidas e individuais, o uso excessivo de telas e a falta de lugares adequados para se comer junto. Então, como preservar o protagonismo da comensalidade, enquanto prática sociocultural? 

No Guia Alimentar para a População Brasileira estão as primeiras diretrizes alimentares oficiais do país, em resposta às transformações sociais e seus impactos sobre condições de saúde e nutrição. No capítulo 4, a comensalidade engloba três aspectos: comer com regularidade e com atenção, comer em ambientes apropriados e comer em companhia. E entre as vantagens dessa prática, descreve-se: “melhor digestão dos alimentos, controle mais eficiente do quanto comemos, maiores oportunidades de convivência com nossos familiares e amigos, maior interação social e, de modo geral, mais prazer com a alimentação”. 

Coordenadora técnica na elaboração do Guia, a nutricionista e pesquisadora Patricia Jaime explica a importância do documento oficial, que serve de apoio às ações de educação alimentar e nutricional no Sistema Único de Saúde (SUS) e da criação de políticas públicas. “Ao orientar que as refeições sejam feitas com atenção e, sempre que possível, em companhia, o Guia não está promovendo apenas a convivência social. Ele também propõe um contraponto ao ritmo apressado e disperso do mundo digital, um ritmo que facilita o consumo automático de ultraprocessados”, pondera Patricia Jaime, professora titular da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo a especialista, que também é coordenadora científica do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP, um estudo realizado com brasileiros de todas as idades mostrou que, quanto maior o tempo de lazer gasto em frente à televisão ou em outras telas, maior o consumo de alimentos ultraprocessados. E esses alimentos, de acordo com o Guia, têm uma composição nutricional prejudicial à saúde, devido às altas taxas de gorduras, açúcares e sódio. Estudos apontam que eles favorecem doenças do coração, diabetes e vários tipos de câncer, além de contribuir para o aumento do risco de deficiências nutricionais. “Quando se substitui a mesa compartilhada por refeições diante de telas, perde-se algo essencial: diante da televisão ou do celular, as pessoas acabam comendo mais rápido e se distraem do próprio ato de comer, o que pode levar a comer além do necessário, sem perceber”, alerta a professora. 

Fazer a refeição acompanhado é uma das diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira.

Quando se substitui a mesa compartilhada por refeições diante de telas, perde-se algo essencial: diante da televisão ou do celular, as pessoas acabam comendo mais rápido e se distraem do próprio ato de comer, o que pode levar a comer além do necessário, sem perceber
Patricia Jaime, professora e pesquisadora
da Universidade de São Paulo

Jeito de comer
O uso de telas durante as refeições também reproduz, segundo a nutricionista e pesquisadora Marle Alvarenga, um novo jeito de comer. “O mundo digital está reorganizando a cultura alimentar. Você tem que fotografar, postar, performar. Ou seja, ele exerce uma influência não só para dizer se isso é certo ou errado, mas para dizer qual deve ser o jeito de comer. Tudo precisa ser absolutamente instagramável, mas o prato de comida de casa não necessariamente é, e está tudo bem”, reforça. 

Soma-se ainda outro agravante: moradias sem estrutura para o preparo e a realização das refeições. Pesquisadora de culturas alimentares, Patty Durães chama atenção para uma arquitetura que individualiza e incentiva a cultura delivery da alimentação. “A gente foi perdendo, primeiro, a copa. Depois, a sala de jantar perdeu a mesa, ganhou uma televisão grande e um sofá retrátil. Na cozinha, não tem espaço para um fogão, mas na geladeira cabe comida congelada. Então, o que a gente come e onde a gente come? As pessoas não recebem mais a família porque não têm espaço dentro de casa. Aí, quando comem em casa, comem na companhia de uma tela”, observa a pesquisadora. Em outras palavras, os lugares onde vivemos influenciam muito nossos hábitos alimentares. 

Em resposta, “casas com cozinhas e mesas convidativas, escolas com refeitórios acolhedores e espaços públicos equipados (como praças de alimentação e mercados locais) criam ambientes propícios para preparar e compartilhar refeições em grupo”, descreve a professora Patricia Jaime. Ela adverte, contudo, que não basta apenas o planejamento dos espaços físicos para que a comensalidade seja colocada em ação. 

“Cozinhar e comer em conjunto também dependem de tempo disponível, acesso a ingredientes saudáveis e de como a sociedade organiza o trabalho de cuidado na família. Não adianta ter uma cozinha bem equipada se as pessoas não têm tempo para cozinhar ou se não conhecem formas de organizar sua rotina e preparar as refeições para o dia a dia”, pondera. Ao final, “valorizar o ato de cozinhar significa reconhecer sua importância para a saúde, para a cultura alimentar e para o convívio diário”, acrescenta Patricia.

Espaços, como a Comedoria do Sesc Pinheiros, oferecem mesas coletivas e podem ser uma opção para socializar durante as refeições.

Nas últimas décadas, pesquisas científicas também têm apontado um caminho de volta à mesa tendo em vista os impactos dessa prática da cultura alimentar sobre a saúde. De acordo com a pesquisadora Marle Alvarenga, “há estudos que demonstram que o ato de comer em família, por exemplo, está relacionado a melhores notas na escola, menor abuso de substâncias químicas e menor risco de transtorno alimentar”. Por isso, ela enfatiza: “uma boa educação alimentar deveria passar pela questão da mesa, do comer em conjunto, desde a infância”. 

Outro aspecto da comensalidade que estudos apontam, segundo a especialista, é como diferentes culturas alimentares valorizam essa prática cultural. Publicada pela revista científica Food Research International, em 2022, e realizada pela Universidade de Konstanz, na Alemanha, uma pesquisa analisou semelhanças e diferenças entre culturas alimentares tradicionais e modernas em dez países: Brasil, China, França, Alemanha, Gana, Índia, Japão, México, Turquia e Estados Unidos. O estudo concluiu que compartilhar refeições à mesa ainda é uma prática tradicional valorizada no Brasil, Gana e França; enquanto China, Japão e Estados Unidos apresentam uma tendência maior para práticas modernas, como refeições rápidas e fora de casa. 

Para preservar esse hábito, Marle Alvarenga orienta as famílias a assumirem essa prática como “um compromisso inadiável”. “Cada família vai avaliar o que é possível, mas é preciso anotar na agenda se vai almoçar ou jantar todos juntos. Quantas vezes a gente consegue fazer isso por semana? Manter esse ritual é poder crescer com essa referência e levar esse momento de socialização adiante na vida.”

Há estudos que demonstram que o ato de comer em família, por exemplo, está relacionado a melhores notas na escola, menor abuso de substâncias químicas e menor risco de transtorno alimentar
Marle Alvarenga, nutricionista e pesquisadora

Juntos à mesa
Desde a primeira fogueira que reuniu a humanidade para o ato de comer junto, diferentes povos em todos os continentes criaram seus próprios rituais de alimentação compartilhada ao longo da história. Atravessamos séculos e lá estava ela, a mesa (ou sua substituta) disposta a receber mais um. Podiam ser líderes a tomar decisões sobre seus territórios entre uma garfada e outra, ou artistas, a exemplo do escritor e historiador Mário de Andrade (1893-1945), que reunia os amigos em casa para apreciar acepipes, pratos e sobremesas enquanto discutia os passos do Modernismo. 

Hoje, a comensalidade resiste nos centros urbanos e nos territórios periféricos por meio de ações que partem da sociedade. Cozinhas solidárias, quermesses, festas típicas realizadas em praças e outros espaços públicos e rituais de religiões de matriz africana se encarregam de preservar uma cultura alimentar nutrida pelo valor do compartilhamento, de acordo com a pesquisadora Patty Durães. O mesmo valor descrito pelo pensador e líder quilombola Nêgo Bispo (1959-2023) no livro A terra dá, a terra quer (Ubu, 2023). Nas palavras de Bispo: “a comida alimenta o corpo e alimenta a alma – a comida para nós não é só comida”. 

Da mesma forma, o almoço preparado pela Cozinha Ocupação 9 de Julho MSTC, na região central da cidade de São Paulo, não é só almoço. “Quando a gente resolve abrir a cozinha para o público, em 2017, a gente abre mostrando, inclusive, essa ancestralidade”, reforça Carmen Silva, liderança do MSTC. Ao entender a comida como um vetor social, a cozinha coletiva do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) busca o fortalecimento de uma economia solidária que favoreça os moradores das ocupações e da comunidade a partir da realização de almoços, sempre aos domingos. Em dias de grande movimento, são vendidas até 600 refeições, sendo que, para cada uma dessas, duas são doadas a comunidades parceiras.

Carmen Silva, liderança do MSTC e idealizadora da Cozinha Ocupação 9 de Julho: comida como vetor social.

No espaço aos fundos, sombreado por árvores e rodeado por paredes coloridas por diferentes artistas, as mesas abraçam um caráter coletivo, prontas para receber uma diversidade de públicos. Lançamentos de livros, rodas de conversa, shows e outras apresentações culturais agregam novas trocas. “A intenção não é individualizar a mesa. Eu acho que ali é o momento das pessoas conversarem, fazerem amizade. E quando estou com tempo, eu circulo perguntando se está tudo bem, se gostaram do almoço. Às vezes, pessoas que nunca vieram comentam que sentem falta desse convívio. Ou seja, faz diferença juntar pessoas”, descreve Carmen, idealizadora da Cozinha. 

Outro exemplo é o projeto Quebrada Alimentada, criado na pandemia de covid-19 pela professora do Departamento de História da USP e pesquisadora Adriana Salay e o chef Rodrigo Oliveira, do restaurante Mocotó, na Vila Medeiros, zona Norte de São Paulo. No começo, o projeto funcionava dentro do restaurante para doação de marmitas a moradores do bairro em situação de vulnerabilidade. Ao somar parceiros e lideranças comunitárias, em 2025, inaugurou-se a cozinha-escola da Associação Quebrada Alimentada, na Ocupação Jardim Julieta, na mesma região. “Para mim, a coisa mais especial aconteceu quando a gente estava fazendo a obra. Contratamos moradores da ocupação e um deles me disse: ‘O que a gente está construindo é o coração da comunidade’”, recorda Adriana, vice-presidente da associação.

Atualmente, a cozinha solidária da Quebrada Alimentada prepara e distribui 500 refeições diariamente, de segunda a sexta, para moradores da região e proximidades. Coordenadora da cozinha-escola, a nutricionista Mila Gomes reforça que a importância da associação vai além do preparo e entrega de marmitas. “Somos um espaço que também supre essa demanda de aprendizado, acolhimento e convivência”, conta a nutricionista. 

Isso porque a cozinha-escola ainda incorpora uma área de convivência para cursos de culinária e outras atividades, além de almoços coletivos em datas comemorativas. “Esse espaço já trouxe vacinação que não poderia ser feita na rua, trouxe projetos de dignidade menstrual, capoeira para as crianças, festas, processos de formação em gastronomia e queremos, também, alfabetização”, compartilha Adriana.

Vera Lucia Frazão, Ítala Cristina da Silva, Silvana de Oliveira, Mila Gomes e Maria do Socorro Albuquerque trabalham na Cozinha Solidária da Quebrada Alimentada, que serve 500 refeições diariamente (de segunda a sexta), além de promover encontros, oficinas e almoços coletivos na sede, na zona Norte de São Paulo.

Dessa forma, as cozinhas comunitárias e solidárias vêm demonstrando, segundo a professora Patricia Jaime, todo o seu potencial. Afinal, é nelas que as comunidades cozinham juntas, compartilham alimentos e se ajudam, promovendo inclusão social, segurança alimentar e hábitos alimentares mais saudáveis. Uma ação do coletivo pelo coletivo para que a comensalidade possa se tornar uma estratégia de promoção de saúde e bem-estar, junto a políticas públicas. “Construir espaços adequados é o primeiro passo, mas combiná-los com ações educativas, mais tempo livre para as famílias e programas públicos garante que comer junto deixe de ser apenas um ideal e passe a ser uma prática real que beneficia a todos”, conclui Patricia. 

Alimentar as relações
Além de oferecer refeições, espaços do Sesc São Paulo fomentam saúde, bem-estar e convivência

Presentes em diversas unidades, como no Sesc Pinheiros (foto), as mesas compartilhadas das Comedorias incentivam o encontro.

Quem frequenta uma unidade do Sesc São Paulo encontra nas Comedorias um espaço para alimentar corpo, ideias e relações. Ponto de encontro para uma refeição em família, um café com amigos ou mesmo para começar novas amizades, esses espaços incentivam que as pessoas compartilhem as mesas durante as refeições, fazendo da hora de comer um momento para dividir e conversar. Ao todo, 12 restaurantes e 81 cafeterias e lanchonetes estão distribuídos nas unidades da capital, do interior e do litoral do estado de São Paulo, com um cardápio de opções saudáveis, feitas a partir de ingredientes regionais e sazonais.

“Nas Comedorias, a comensalidade se traduz em experiências cotidianas de alimentação, que promovem a convivência, o diálogo, o cuidado e a valorização da cultura alimentar. Em espaços acolhedores e acessíveis, reforça a dimensão social da alimentação e contribui para a promoção do bem-estar e de práticas alimentares saudáveis”, explica Mariana Meirelles Ruocco, gerente da Gerência de Alimentação e Segurança Alimentar do Sesc São Paulo.

Saiba mais sobre as Comedorias: sescsp.org.br/comedorias

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