
Entre o local e o virtual, cenas musicais revelam redes de afeto, identidade cultural e circulação sonora em tempos hiperconectados
Juliana Faddul é jornalista independente. Colaboradora fixa do New York Times e da revista piauí. Suas reportagens já ganharam financiamento do Pulitzer Center, Earth Journalism Network, Princeton University e Unesco. Seu trabalho pode ser encontrado em jornais internacionais Washington Post e Unbias the News, emissoras como CNN US, Channel Seven, TV Globo e CNN Brasil. Em português, Folha de S. Paulo, Rádio Novelo, UOL entre outros.
Ilustrações de Helena Obersteiner.
Há alguns anos seria inimaginável que um artista que não toca nas rádios populares, não fala português nem canta inglês, não está em nenhuma trilha sonora de novela fosse capaz de lotar um estádio no Brasil. A situação seria ainda mais inverossímil se falassem que os ingressos acabaram em menos de uma hora. Mas foi o que aconteceu no dia 9 de maio de 2025 com Bad Bunny, data de início das vendas do ingresso para o show do rapper porto-riquenho no Allianz Parque, previsto para fevereiro de 2026.
“Eu consegui comprar no dia da pré-venda”, conta a estudante de publicidade e propaganda Antonella Mariachito, de 21 anos. A jovem vestia uma roupa que parecia ter saído de um clipe dos anos 2000: uma calça larga, um top cropped e uma bandana na cabeça. “Sou filha de argentinos e meus amigos gostam muito de ir para festa de música latina. Nós começamos a falar nas redes por sermos fãs de Karol G [cantora de reggaeton colombiana] e nos conhecemos pessoalmente numa festa de reggaeton na Barra Funda”, explica a amiga Maria Novoa, de 19 anos, que vestia um conjunto esportivo neon e um gorro.
Fenômeno do TikTok, a música “DtMF” viralizou por embalar as famosas “fotos de galera”. A letra: “Debí tirar más fotos de cuando te tuve / Debí darte más beso’ y abrazo’ las vece’ que pude / Ey, ojalá que los mío’ nunca se muden” (“Eu deveria ter tirado mais fotos de quando eu tinha você / Eu deveria ter te dado mais beijos e abraços quantas vezes eu pudesse / Ei, espero que os meus nunca se mudem”), que sintetiza a sensação de falta de fotos quando se sente nostalgia. Outro hit bastante postado na rede social é “Provenza” de Karol G, que fala “ Baby, ¿qué más? / Hace rato que no sé na’ de ti” (“Baby, E aí, sumido? / Faz tempo que eu não sei nada de você”), sobre encontros e desencontros. “Acho ótimo que Maria se interesse por música latina porque parte dela é latina-hispânica. O problema, para mim, é quando vamos à Argentina e ela fica falando e se vestindo como ‘reggatonera’. É horrível isso, ridículo”, diz o pai Pablo Novoa, de 53 anos, natural de Córdoba, na Argentina.
Apesar do crescimento exponencial, o reggaeton ainda é alvo de críticas e de preconceitos por parte da sociedade. O ritmo nasceu no fim dos anos 1980 (ganhando popularidade massiva nos anos 1990) e foi embalado pela população negra e pobre da América Central que usava o ritmo não só para dançar, mas também para se anestesiar da ebulição política que ocorria nos países da região, os quais sofriam com aumento da criminalidade, surgimento de gangues, início do tráfico de drogas, alto volume de fluxos migratórios, desestatizações e aumento da desigualdade, para citar apenas alguns.
Se o ritmo era dançante, uma mistura da profusão do reggae panamenho, do rap porto-riquenho e do dembow jamaicano, as letras eram explícitas: falavam de sexo, drogas, violência, morte. “Eu escrevo o que vivo e o que vejo. Se naquela época se falava de coisas pesadas foi porque nossa realidade não estava fácil”, diz René Pérez Joglar, o Residente, que foi cabeça do grupo Calle 13. “Se hoje podemos falar de ‘coisas mais leves’, ótimo. Não é um demérito, é um relato do tempo”, completa.
Com o neoliberalismo implantado no fim dos anos 1980, a região se tornou um laboratório para o capitalismo, com impactos significativos na distribuição de renda, no trabalho, na política e na moda. O streetwear, mistura de roupas esportivas com elementos do hip-hop e da cultura urbana como calças largas e moletons, tornaram-se grandes símbolos da época.
Se nas últimas duas décadas bandanas, tops, calças largas, eram consideradas crimes fashion, hoje são facilmente encontradas em lojas de shopping, camelôs e sites. Músicas como de Bad Bunny, Karol G e Maluma tocam em lojas, nos fones e em festas. Estas, aliás, não param de pipocar em São Paulo. A festa Súbete!, que em 2019 não reunia mais que 150 pessoas, é atualmente uma das principais festas de reggaeton, reunindo mais de mil pessoas, além de ter concentrado 7 mil no bloco de carnaval de 2025. “Antes a gente dependia de tocar na rádio, ou tocar na MTV, ou de algum amigo trazer um CD de alguma viagem. Hoje é muito mais fácil a gente ter acesso a coisas de qualquer lugar do mundo, coisas de nicho, alternativa e tal”, diz Rafael Takano, o “Telefone”, DJ e um dos fundadores da Súbete!.
Estaríamos nós presenciando o nascimento de uma cena de reggaeton no Brasil?
Teóricos musicais como os sociólogos Andy Bennett e Richard Peterson definem uma “cena musical” como “relações estabelecidas em torno de práticas musicais dentro de específicas dimensões espaciais”. Mas como seria isso na prática, já que vivemos num mundo tão conectado? “Esse termo [cena global] era muito utilizado principalmente no fim dos anos 90 já que o termo globalização estava em voga na época. Só que a ideia de global apaga algumas especificidades locais ou esses trânsitos entre as diferentes localidades”, explica o pesquisador Yuri Prado, pós-doutorando em Antropologia Social na USP. Yuri, assim como outros pensadores da música, defendem que a nomenclatura mais adequada seria: cenas translocais, locais e virtuais.
“Uma cena local pode caracterizar de forma simbólica um bairro, uma cidade ou até um país”, explica. Prado usa o exemplo da cena grunge em Seattle nos anos 1990: “a gente imagina que a cidade inteira estava reverberando naquela cena e não era assim. O grunge era uma cena específica, com certos atores, com certos locais de apresentação que circulavam ali naquele local, mas que acabou caracterizando uma cidade”, diz. Trocando em miúdos, a localidade não é um dado geográfico ou simplesmente a existência de espaços: é algo que precisa ser vivenciado, que pressupõe uma rede de afeto, um esforço para que ela seja constituída.
A cena virtual é como se fosse uma cena local, se considerarmos a internet como um mesmo espaço e com tudo que ela carrega. No entanto, há uma peculiaridade: a facilidade de encontrar novos sons e criar novas cenas. Segundo o relatório Spotify Culture Next BR 2023, 86% da Geração Z no Brasil afirma que consome músicas ou podcasts para conhecer novas culturas e experiências e 72% gosta de ouvir música em outros idiomas. No relatório de 2024, 78% da Geração Z concorda com a afirmação de que “as culturas underground e de nicho estão se tornando cada vez mais mainstream”.

Já a cena translocal, como o próprio nome sugere, pressupõe uma interação não só entre diferentes localidades como também sua movimentação. “É um compartilhamento de interesses em comum, de uma mesma sensibilidade musical, uma sensibilidade afetiva mesmo, tendo como fundamental a interação e a colaboração”, resumiu Prado. No álbum Debí Tirar Más Fotos, Bad Bunny exemplifica muito bem isso: canta sobre ficar pouco tempo na terra natal em “Perfumito nuevo”, sobre as relações curtas por falta de tempo em “Turista”, das confusões que fazem com a sua cultura em “Nuevayol”, do amargo de estar longe dos entes queridos na virada do ano em “Pitorro de Coco”, das mazelas de uma família incompleta em “La Mudanza”. O idioma das canções pode ser o espanhol, mas a língua acaba sendo a da migração.
No entanto, sucesso não é sinônimo de cena. “Um exemplo claro é a Anitta”, diz Yuri. Embora a funkeira tenha levado elementos do funk ao topo das paradas globais, seu sucesso no exterior, segundo o pesquisador, segue uma lógica mercadológica, não necessariamente do surgimento de uma cena do funk fora do Brasil. “Os artistas brasileiros de funk fazem turnês no exterior, há festas dedicadas ao gênero em diversos lugares, mas não vejo uma relação horizontal entre esses espaços e as cenas de funk daqui”, explica. “Eu gosto da Anitta, mas ela não é do reggaeton”, diz Maria Novoa. Nem “Envolver”, música que a carioca canta em espanhol? “Não. Algumas pessoas daqui do Brasil podem até achar que é reggaeton, mas se eu pergunto pros meus amigos da Argentina que tipo de música a Anitta toca, sendo que eles só conhecem ‘Envolver’, falam que é funk brasileiro”, explica Maria. “Mas ela tá tentando”, ameniza a jovem.
Um exemplo bastante claro de cena translocal, segundo Yuri, é o choro. “O choro, embora tenha menor sucesso comercial que o funk, consegue, em certo sentido, se configurar de maneira mais clara como uma cena translocal no nível internacional, por ter clubes de choro em diversas partes do mundo, com músicos locais engajados na prática contínua do gênero, interagindo com músicos brasileiros, organizando rodas, oficinas, festivais, e assim por diante”, explica. “As festas que nós vamos têm DJs latinos e brasileiros. Nós temos grupos no Whatsapp para falar de música e rolês e tem muita gente da Venezuela, Colômbia, Argentina. É bacana porque não fica algo forçado, sabe? Tipo brasileiro querendo tocar música latina”, explica Antonella.
A etnomusicóloga Suzel Reily, professora da Unicamp, propõe pensar a música em termos de fluxos: “A relação entre o local e o global tem a ver com mobilidade. Onde existe movimento, existem trocas culturais”. Ela destaca que os sons que se globalizam mais facilmente são aqueles com forte apelo participativo. No caso do Brasil, impossível fugir do exemplo do samba, que hoje tem grupos estáveis na Europa. “Nem toda música que faz sucesso se torna uma cena. E nem toda cena precisa de sucesso para existir”, resume.
Evidente que seria ingênuo pensar que o sucesso de Bad Bunny ou Karol G aqui no Brasil não teria uma forcinha da mão invisível da indústria. Segundo o Global Music Report de 2025, a América Latina teve um aumento significativo de 22,5% nas receitas em 2024, marcando o 15º ano consecutivo de crescimento na região. Sem contar que a indústria da música latina gerou, somente nos primeiros seis meses de 2024, uma receita de US$ 685 milhões, segundo relatório publicado pela RIAA (Associação da Indústria Fonográfica da América). No entanto, especialistas do mercado não conseguem chegar num consenso sobre quem veio primeiro: a cena ou o dinheiro.

Além do investimento, dos algoritmos, das redes sociais, há um outro importante fator: a política. Nos últimos anos, o Brasil viu crescer o número de imigrantes vindos de países vizinhos, especialmente da Venezuela. “Os ritmos que estão chegando ao Brasil são bastante caribenhos e isso talvez tenha a ver com os venezuelanos. Se fossem bolivianos, estaríamos ouvindo guainitos, por exemplo”, diz Paulo Illes, diretor executivo do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC) e coordenador-geral da Rede Sem Fronteiras, articulação que reúne 18 organizações atuantes na América Latina, Espanha e Portugal.
Diferentemente de outros fluxos migratórios anteriores, como o boliviano nos anos 2000 para São Paulo, o venezuelano se espalhou Brasil afora. O fluxo se deu graças à Operação Acolhida, do governo federal, que atende refugiados e migrantes venezuelanos que chegam ao país por meio da fronteira com Roraima. A operação foca na realocação voluntária dessas pessoas para outras cidades do país. Segundo dados da Unicef, 568 mil venezuelanos entraram no Brasil entre 2015 e junho de 2024. A Operação Acolhida atendeu desde 2018 mais de 150 mil venezuelanos, levando-os para mais de 1.100 municípios em todo o país, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
“As pessoas têm uma falsa ideia de que o brasileiro não tem interesse em ouvir música em espanhol, mas não acho que isso é verdade. Qual métrica se usa? Por que não entrou nas Top 20 músicas mais ouvidas? Olha o tamanho do Brasil. É equivocado pensar assim”, diz Telefone. A Revista Zumbido fez um levantamento com 110 rádios locais de frequência AM que tocam na região norte (Amazonas, Acre, Pará, Rondônia e Roraima) e 64% falaram que recebem pedidos para tocar músicas em espanhol. E, como bons radialistas, tocam. O reggaeton passa longe, mas ritmos românticos como salsa e bachata estão bastante presentes nas trilhas, vide que o público-alvo das rádios é mais velho que o do Spotify, por exemplo. “A ideia da Súbete! era fazer uma festa latina que fosse jovem. Ela fez sucesso porque a gente entendeu que há uma demanda por esse tipo de música que chegou nas massas”, diz Telefone.
“Eu adoro reggaeton, eu passei minha adolescência ouvindo. Eu sinto muita falta da Venezuela, não a de agora, a da minha adolescência. Mas sei que é um tempo que não volta mais. Aí só resta a música mesmo para a gente voltar no tempo”, diz o vendedor de carros Patrício Ramirez, de 37 anos. Fã de Bad Bunny? “Já ouvi, mas eu gosto mesmo é de reggaeton das antigas: Daddy Yankee e Don Omar. “Igual ao funk, o reggaeton embranqueceu, foi elitizado, foi meio pasteurizado pra ser mais palatável pro grande público”, diz Telefone.
Ramirez costuma reunir outros venezuelanos em sua casa em Beneditinos, no Piauí, para ouvir reggaeton. “Só tocamos reggaeton antigo. E alguns forrós, vai”, relata. “Isto é musicar”, diz Yuri Prado. Musicar, como explica Yuri, não é apenas tocar um instrumento ou ouvir uma canção. É engajar-se com a música de forma ativa: montar uma playlist, ir a um show, comentar num fórum, aprender uma batida. Ele resume: “A música é uma tecnologia do coletivo, ela agrupa pessoas, cria redes de afeto e de pertencimento. É assim que se constroem as localidades — e também as translocalidades”.
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