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Autonomia para criar

Ator versátil, Marco Ricca protagonizou, no teatro, espetáculos como Dois Perdidos Numa Noite Suja (1991), com direção de Emilio Di Biasi, e, no cinema, filmes como Chatô – O Rei do Brasil (2015) e O Invasor (2002). Na televisão, atuou também em papéis marcantes como o Mão de Luva, na novela Liberdade, Liberdade (2016). Sua carreira não se resume, porém, ao trabalho de ator. Marco Ricca é também produtor, cineasta e teve experiência na administração de um teatro. “Quando você produz, cuida daquilo como uma cria sua, com um carinho. É diferente de você ir lá e cuidar só do seu trabalho, só do seu personagem como ator”, afirma. A seguir, trechos do depoimento de Ricca, no qual ele fala sobre criação e dramaturgia no cinema e no teatro brasileiro contemporâneo.




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Teatro de grupo

Comecei no teatro de grupo, escrevendo peças para o grupo do qual eu fazia parte. Éramos produtores, escrevíamos, fazíamos tudo, e só comecei a atuar quando, em uma peça, assumi o papel de um ator que não poderia se apresentar. Deu certo. O dramaturgo, assim como o escritor, é uma profissão muito solitária. O ator, por mais que faça uma peça sozinho, um monólogo, está cercado por um diretor, um cenógrafo, pessoas criando junto.

A companhia da qual eu fazia parte ocupava o teatro do Bixiga, que era um teatro alternativo que talvez tenha sido a minha maior escola. Lá, a gente construiu um repertório muito interessante, aprendemos funções diversas do teatro. Administrar um teatro foi uma experiência sensacional. Depois, o aluguel aumentou, saímos do espaço e cada um seguiu o seu caminho.


Patrão de si mesmo

Virei produtor, não porque eu quisesse exatamente ser produtor, mas porque é o único jeito de você fazer o que quer, quando quer, do jeito que quer. Ou seja, você pode ser patrão de si mesmo, escolher os seus personagens. Eu não teria feito 10% das montagens que fiz se esperasse alguém me chamar. Fiz personagens elaborados, com uma luta de produção para poder fazer, então virei um produtor por causa disso. Comecei a produzir cinema também, fui coprodutor de filmes e depois passei a ter projetos de cinema.

Fiz faculdade de História, na PUC [Pontifícia Universidade Católica], não estudei para ser ator, produtor, diretor. O jeito que tive para aprender a fazer as coisas foi trabalhando, dando a cara a tapa. No cinema também fiz isso. Foi assim que aprendi. Foi por isso que acabei tendo várias profissões, de roteirista de cinema, produtor, diretor. Apesar disso, acho ainda que a minha visão de mundo é uma visão de ator. Vejo o mundo pelos olhos de um ator. Eu raciocino por imagem, vejo cenas, então, para mim, acaba sendo mais fácil ser ator.


Dupla função

Quando se é ator e produtor, a gente entra em cena contando o público, sabendo que estourou uma luz, que vai ter que gastar dinheiro. A verdade é que é muito positivo, eu não saberia ser diferente. Eu me acostumei a estar na bilheteria, conferir se as cadeiras estão limpas. Tenho uma ideia de teatro que se parece com a de uma quitanda. Você abre uma quitanda, a fruta precisa estar boa.

Quando você produz, cuida daquilo como uma cria sua, com um carinho. É diferente de você ir lá e cuidar só do seu trabalho, só do seu personagem como ator. Desde que comecei em grupo foi assim. Você está sempre preocupado com o coletivo, com o grupo, com a obra. Quando escolhe alguma coisa para produzir a gente tem algo a desvendar pra nós mesmos, ou porque temos alguma coisa a dizer, ou pra levantar uma discussão sobre algum tema, então é muito raro quem vem de grupo ir fazer o trabalho só pela vaidade de fazer um personagem. É a dificuldade que enfrento quando vou para a televisão, de ir lá, fazer o personagem e ir embora, sem ver o todo.


Momento de epifania

Quem me levou para a televisão foi o Luiz Fernando Carvalho, na novela Renascer, e foi uma novela em que ele colocou muita gente lá dentro. Tinha uma turma do bar que era formada por Nelson Xavier, Luis Carlos Arutin, Osmar Prado, entre outros, e havia cenas de bar em que eu ouvia o pessoal falando. Era impressionante a capacidade daqueles atores de estar ali. Essa é uma das grandes dificuldades do ator, estar ali sem pensar em outra coisa, mas de fato estar lá. Esses atores conseguem isso, e é algo que abala quando você vê isso acontecendo na sua frente. Eu me impressionava muito.

Isso também acontece no palco. Às vezes você está fazendo uma peça há mais de seis meses, e é raro que todas as cenas saiam bem. Normalmente algo escapa da sua mão e, quando você flagra um companheiro de cena naquele momento de epifania, você sente o mesmo que o público. Há muitos atores talentosos capazes de fazer isso com a gente.

 

Marco Ricca esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E  no dia 12 de janeiro de 2017.

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