Mães no pódio

02/03/2026

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Esportistas de diferentes modalidades compartilham alegrias e desafios de quem concilia a maternidade com treinos e competições de alto nível – ou decide esperar a aposentadoria (foto: Felipe Luque)

Leia a edição de Março/26 da Revista E na íntegra

POR LUNA D’ALAMA

Bicampeã olímpica no vôlei feminino, com medalhas de ouro em Pequim 2008 e Londres 2012, Jaqueline Carvalho continua jogando em alto nível aos 42 anos. No fim de 2025, foi contratada pelo Esporte Clube Pinheiros (ECP), de São Paulo, para disputar a Superliga B, agora não mais em sua tradicional posição de ponteira-passadora, mas como líbero. “Fiquei quatro anos fora das quadras, e um dos meus grandes incentivadores para voltar ao esporte de alto rendimento foi meu filho, Arthur, de 12 anos”, conta.

Natural de Recife (PE) e casada com o ex-jogador de vôlei da seleção brasileira Murilo Endres desde 2009, Jaque tinha o desejo de ser mãe. Em 2011, quando representava o Osasco e o país, passou por uma dolorosa perda gestacional. Então vieram as Olimpíadas de Londres, ela engravidou novamente e, no fim de 2013, nasceu Arthur. “Em quatro meses, já estava jogando de novo, viajando para a Suíça. A volta foi dureza, mas tive uma boa rede de apoio e estrutura familiar. Meu filho cresceu com essa rotina dos pais muitas vezes ausentes, mas ele entende que a nossa profissão é assim. Isso me conforta muito”, pondera.

Atualmente, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) já possui regras que permitem que atletas grávidas mantenham suas pontuações no ranking por até dezoito meses, uma forma de dar segurança às profissionais para que possam planejar a maternidade sem prejudicar a carreira durante o afastamento. Mas, quando Jaque se tornou mãe, isso ainda não existia. “Na época, sofri muito, fiquei um período desempregada, até ser contratada pelo Minas Tênis Clube. Também fui convocada para a seleção feminina novamente em 2014. Fui recebida por pessoas que me estenderam as mãos, que entenderam que é possível competir tendo filho. E foi um dos meus melhores anos jogando”, conta a atleta, que coleciona medalhas: além das olímpicas, tem cinco ouros em Grand Prix, um ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2011 e duas pratas em mundiais.

Segundo Jaque, a medicina evoluiu muito nos últimos anos – assim como a mentalidade de técnicos e confederações de outros esportes para acolher atletas-mães. “As mulheres sofrem pressão social e do relógio biológico, mas é preciso compreender o momento certo de cada uma, ter uma base na qual se apoiar. Não dá para julgar quem decide ter filho, e quando, nem quem opta por não ter”, opina. “No meu caso, a maternidade me fez crescer como pessoa e profissional, trouxe um senso de responsabilidade muito grande, veio somar de forma muito positiva”, destaca a líbero, que treina cinco horas por dia, de domingo a domingo, e não planeja se aposentar tão cedo.

AVANÇOS NA MEDICINA
Ginecologista e obstetra, integrante do Time Brasil, Tathiana Parmigiano explica que a ginecologia do esporte atende mulheres que praticam exercícios no dia a dia, de forma amadora ou profissional. “Fazemos exames de rotina, vemos a regularidade do ciclo menstrual, abordamos questões urinárias, relacionadas a cólicas, às mamas, ao peso e ao doping. Além disso, conversamos sempre com outros profissionais envolvidos, o que chamamos de equipe multidisciplinar, como nutricionistas, psicólogos e treinadores, por exemplo”, destaca Tathiana, que já foi nadadora e é mãe de Gabriela, de 7 anos, e Pedro, de 11.

Assim como a medicina, o ambiente esportivo está avançando, na avaliação da ginecologista e obstetra. Em Paris, ela cita que a Vila Olímpica contou com berçário, espaço para amamentação e troca de fraldas, e brinquedoteca, mas sem monitores: cada atleta deveria providenciar uma pessoa cuidadora por conta própria. “Esses esforços demonstram uma crescente vontade coletiva para que as mulheres retornem ao esporte de alto rendimento após a maternidade. Mas ainda há muito a ser feito, e muitas vezes o auge da carreira coincide com uma faixa etária em que se toma – ou se começa a cogitar – essa decisão. Porém, as possibilidades e alternativas têm aumentado, e o ideal é que a atleta não precise escolher entre um de seus sonhos: a carreira ou a maternidade”, aponta Tathiana.

A médica ressalta que o esporte feminino está crescendo em número de participantes, conquistas, medalhas, e também em saúde, direitos e equidade. Em novembro de 2025, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) aprovou um pacote de medidas que autoriza jogadoras que amamentam a viajar com seus filhos para competições, com as despesas pagas. Desde 2021, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) também garante licença-maternidade por pelo menos catorze semanas e, desde 2023, o Bolsa Atleta mantém o benefício no período da licença. 

Sobre os cuidados com o corpo e a saúde mental de uma atleta na gestação, Tathiana diz que esse preparo deve vir de uma vida inteira de alimentação equilibrada, exercícios regulares e sono reparador. “São bons hábitos que precisam ser levados para todas as fases hormonais, inclusive a gravidez, a pré e a pós-menopausa”, alerta. 

E o retorno das atletas-mães ao esporte de alto rendimento, sejam modalidades individuais ou coletivas, também depende de ambientes acolhedores que não pensem, imediatamente, apenas na performance. “É importante respeitar o puerpério [fase posterior ao parto, em que o corpo feminino passa por intensas mudanças físicas, emocionais e hormonais]. Esse é um momento em que o sono está superprejudicado, pois é interrompido a todo instante pelo recém-nascido. Começam os questionamentos internos e externos sobre quando a atleta voltará às atividades, mas talvez sua prioridade inicial seja cuidar do filho, amamentar e entender sua nova identidade. Acho que não tem que haver pressa nem cobranças, mas, por outro lado, não existe um tempo de afastamento ideal”, pondera. 

Medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Chile em 2023 e prata nas Olimpíadas de Paris 2024, a surfista Tatiana Weston-Webb é mãe de Bia Rose, nascida em janeiro (foto: Henrique Tarricone)

PAUSA PARA GESTAR
Prestes a completar 30 anos em 2026, a surfista Tatiana Weston-Webb, radicada no Havaí, nos Estados Unidos, e uma das principais atletas da elite da Liga Mundial de Surfe (WSL, na sigla em inglês), resolveu dar uma pausa na carreira no ano passado para cuidar da saúde mental. Foi nesse intervalo que Tatiana descobriu que estava grávida de Bia Rose – nascida no fim de janeiro, no litoral catarinense, fruto da união com o também surfista brasileiro Jessé Mendes. “Esse não era o objetivo inicial de eu parar, mas achamos que seria um bom momento, começamos as tentativas e logo engravidei. Está sendo uma fase muito especial e uma das mais bonitas e marcantes da minha vida”, vibra a gaúcha, medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Chile em 2023 e prata nas Olimpíadas de Paris 2024.

Primeira surfista, entre homens e mulheres, a se classificar para os Jogos de Tóquio em 2021, quando a modalidade estreou como esporte olímpico, Tatiana revela que sempre quis ser mãe, mas o convívio com a sobrinha Hana, de 2 anos, aflorou ainda mais seu lado materno. “Além disso, minha maior inspiração é a minha mãe [a ex-bodyboarder Tanira Guimarães], uma mulher forte, presente e amorosa, que desde cedo me ensinou sobre equilíbrio, sensibilidade e coragem. Também me espelho em outras atletas que tiveram filhos e voltaram ainda mais conectadas com seus propósitos. A maternidade pode trazer um olhar diferente para a vida, uma força interior, e sinto que essa experiência vai me deixar mais consciente, presente e motivada para dar o meu melhor dentro e fora do mar”, avalia.

A atleta surfou até quase oito meses de gestação, ouvindo o próprio corpo e respeitando seus limites. “Essa conexão com o mar, enquanto sentia minha bebê dentro de mim, era uma sensação maravilhosa. Minha meta é viver este ano com calma, priorizar minha filha, e voltar às competições em 2027, com mais maturidade, estrutura e força total para disputar uma vaga olímpica em Los Angeles 2028”, planeja. 

A esportista se sente grata e privilegiada pelo apoio que tem recebido de patrocinadores, parceiros, familiares e amigos. “O cenário esportivo está evoluindo, com contratos mais humanos e um olhar mais amplo para as mulheres por trás das atletas. Ainda há muito a avançar, estamos no começo dessa caminhada, principalmente em categorias e países onde o esporte feminino luta por igualdade de estrutura e suporte. Mas tenho visto mais diálogos, políticas e exemplos positivos, e isso nos traz esperança.”

APÓS A APOSENTADORIA
Por conta dos desafios e dificuldades, muitas atletas esperam a aposentadoria no esporte de alto rendimento para se tornar mães. É o caso das gêmeas do nado sincronizado Bia e Branca Feres, que deixaram as piscinas em 2017, engravidaram três vezes cada e documentaram a última experiência no reality show Maternidade sincronizada (2025), disponível no streaming Globoplay. 

A maternidade pós-aposentadoria também foi a decisão da ex-nadadora e maratonista aquática Poliana Okimoto, campeã mundial em 2009, medalhista olímpica nos Jogos do Rio 2016 e eleita duas vezes a melhor atleta do mundo pela Federação Internacional de Natação (World Aquatics). Hoje à frente de uma assessoria esportiva de natação, corrida e triatlo, a mãe de Lucca, de 4 anos, diz que competir num esporte individual em alto nível a fez adiar essa decisão, pois sua performance e marcas no ranking dependiam 100% de seu corpo e condição física. “Eu tinha o desejo de ser mãe, mas quis priorizar a carreira e realizar esse outro sonho em seguida, aos 38 anos”, conta.

Poliana não se arrepende de ter esperado, pelo contrário. “Meu conselho é não romantizar a maternidade, porque essa é uma experiência gostosa, mas também muito difícil. Uma rede de apoio é fundamental, ainda mais para uma atleta”, compartilha a ex–atleta da maratona aquática (percurso de 10 quilômetros em águas abertas, como mares, rios e lagos), casada com seu ex-treinador Ricardo Cintra. 

De acordo com Poliana, as nadadoras-mães precisam de um tempo de preparação para voltar à forma física, e os índices dos rankings valem só por um ano. “Aí você retoma tudo do zero, precisando de suporte emocional e financeiro. É um processo difícil, que mistura puerpério, baby blues [melancolia temporária pós-parto] e falta de rede de apoio. Eu tive um blues muito forte; se precisasse voltar, com cobranças, teria sido péssimo”, reconhece.

Hoje palestrante e organizadora de provas e travessias em águas abertas, Poliana começou a nadar em piscinas aos 7 anos, quando ainda tinha medo do mar. Além de jogar futebol e andar de bicicleta, o filho já segue seus passos, nada de frente e de costas, fez uma pequena travessia em águas abertas no fim de 2025 – e adorou. “O que muda com a maternidade, principalmente, são as prioridades: hoje minha prioridade é meu filho. Também mudaram meus valores, minha cabeça e meus objetivos a longo prazo, o que quero para a minha vida. Eu dava muita importância para coisas que hoje acho pequenas”, compara. 

VOLTA DA LICENÇA
Ex-judoca olímpica, Suelen Altheman é uma das treinadoras do judô no Esporte Clube Pinheiros (ECP). Sua trajetória no esporte começou em um projeto social em Amparo (SP), onde nasceu. Tornou–se um dos maiores nomes do peso pesado (+78 quilos) feminino do país, com participações nos Jogos de Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2021, além de medalhas de prata e bronze em campeonatos mundiais e Pan-Americanos. Aos 37 anos, no segundo semestre de 2025, a ex-atleta formada em educação física virou também a mãe de Pedro, fruto de seu casamento com o judoca Giovani Ferreira. “Em modalidades de combate, como o judô, há muito contato, quedas e pancadas, você não pode treinar grávida. E a volta também não é fácil, você fica um ano fora, precisa se readaptar e tem muitas viagens, por isso planejei me aposentar primeiro para me dedicar à vida de mãe. Não parei de trabalhar, agora sou técnica – inclusive, acabei de voltar da minha licença-maternidade”, relata.

Ex-judoca olímpica, Suelen Altheman teve que levar o filho Pedro para os treinos após a licença-maternidade, até consolidar a introdução alimentar e encontrar uma creche (foto: Amanda Borgonn)

Em seu retorno, Suelen teve de levar o filho junto até consolidar a introdução alimentar e encontrar uma creche. “Fico toda hora olhando para o carrinho ou colchonete. Meu marido troca ele lá, dá banho. A gente montou quase um acampamento, mas será temporário. Também há uma brinquedoteca, aonde vamos nos intervalos, e o clube é bem arborizado, bom para criança ter contato com a natureza e tomar sol. Está sendo uma experiência desafiadora, mas incrível”, detalha Suelen, cuja família vive no interior do estado.

A treinadora lembra que, durante o puerpério, não se reconhecia mais, com um bebê dependente dela 24 horas por dia. “Com as oscilações hormonais do pós-parto, a gente chora, ri, fica com olheiras, tem que tomar banho rápido. Mesmo com pessoas em volta, nos sentimos sozinhas, é um mix de emoções – nunca senti isso nem quando era atleta. Tenho medalhas e vitórias, mas o Pedro, para mim, é minha maior conquista. É uma superação diária, com muitos fatores imprevisíveis, assim como a vida de atleta”, finaliza. 

Inclusão, acesso e cidadania
Programação físico-esportiva do Sesc São Paulo incentiva a autonomia, a experimentação e a criação de vínculos

A programação físico-esportiva está presente de forma contínua nas unidades do Sesc São Paulo, com atividades que valorizam o movimento como linguagem, promovendo experiências que articulam prazer, aprendizado e participação, em diálogo com os princípios de inclusão e acesso democrático. 

Com uma oferta diversificada de modalidades, a programação contempla diferentes faixas etárias, interesses, habilidades, corpos e condições físicas, abrangendo cursos, vivências, apresentações, ações de engajamento, campanhas e projetos especiais. As atividades são orientadas por propostas que incentivam a autonomia, a experimentação, o respeito às diferenças e a construção de vínculos, fortalecendo a relação das pessoas com a prática esportiva ao longo da vida. 

Além disso, a programação do Sesc contribui para a ocupação qualificada dos espaços, para o fortalecimento do convívio e para a consolidação da instituição como referência em ações que integram bem-estar, cultura e cidadania.  

Confira alguns destaques de março:

Vila Mariana
Festival de Futsal Feminino
Com a participação da ex-jogadora de futebol e comentarista Milene Domingues. Dia 7/3, sábado, às 10h. GRÁTIS.

Araraquara
Travessia Aquática
Com a nadadora e campeã olímpica Ana Marcela Cunha. Dia 8/3, domingo, às 10h. GRÁTIS.

Santos
Copa Elas no Lance
Abertura com as ex-jogadoras de futebol Juliana Cabral e Milene Domingues. Criado para valorizar o protagonismo das mulheres no esporte, esse torneio aberto de futsal feminino, no formato de liga, promove integração, fair play e visibilidade da modalidade. Dia 8/3, domingo, das 14h às 18h30. GRÁTIS.

Rio Preto
Vôlei
Com a jogadora Tiffany Abreu, primeira atleta transexual a disputar uma partida oficial da Superliga Feminina. Dia 14/3, sábado, às 15h. GRÁTIS.

Programação físico-esportiva do Sesc São Paulo, como o Festival de Futsal Feminino, no VIla Mariana, promove saúde e bem-estar durante todo o ano.

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