
Da moda à gastronomia, da religiosidade ao comércio, a região da República concentra histórias que ajudam a entender como a presença africana reinventa no centro de São Paulo
Leia a edição de Maio/26 da Revista E na íntegra
POR LUCAS VELOSO
FOTOS NILTON FUKUDA
Avenida Ipiranga, 250. O endereço, na República, Centro de São Paulo, liga o Brasil e o Senegal, país do continente africano. Apesar do grande fluxo de pessoas na região, é difícil um imigrante africano andar por ali sem parar, piscar ou acenar para alguém dentro do estabelecimento comercial. No mapa, a distância entre as nações supera os 5 mil quilômetros, mas o empresário senegalês Cheikh Gueye Seck, com sua loja nomeada Coração da África, aprendeu a encurtá-la para os conterrâneos, e também para quem nunca ouviu falar do lugar onde ele nasceu.
O rosto tão conhecido no Centro da cidade desembarcou no país em 2013, mas as histórias do além-mar chegaram primeiro pela voz do irmão mais velho, que já vivia na capital paulista. No percurso para chegar a São Paulo, a familiaridade chamou a atenção. “O Brasil tem uma cultura muito parecida com a do continente africano”, defende Seck, que emenda: “Aqui é meu segundo país, tenho dois: onde nasci e onde escolhi viver”.
A loja surgiu de uma ausência percebida assim que Seck começou a trabalhar nas ruas da República. Faltava um comércio que não fosse apenas religioso, mas também voltado à moda e à cultura africana. Depois de meses como vendedor ambulante, conseguiu montar o espaço, hoje um ponto de referência para quem procura roupas, tecidos e acessórios afrodiaspóricos. “Só via lugar de roupa brasileira, japonesa, chinesa. Pensei: por que não pode ter uma loja africana aqui no Centro da cidade? Não existia uma loja de roupa africana para o povo preto. Tentei”, lembra.
Escolha do senegalês desde que pisou no país, a região da Praça da República e os arredores do Sesc 24 de Maio se firmaram, nas últimas décadas, como um território de circulação, memória e reinvenção das culturas negras na cidade. Ali, ecoa a presença da comunidade imigrante africana e um movimento que, entre ruas, galerias e comércios locais, entrelaça vestuário, gastronomia, design, tecnologia e produção artística, atualiza heranças históricas.

“Vai lá para o Centro”
Para o empresário, a escolha pela região partiu da própria comunidade. “Quando a gente chegava, sendo imigrante africano, as pessoas diziam: ‘Vai lá para o Centro, porque lá tem bastante comunidade’. Virou uma referência. ‘Vou lá procurar meu irmão’, ‘Onde posso encontrar meus irmãos?’ Lá na República”, resume.
Os números oficiais reforçam essa presença. De acordo com informações do Sistema de Registro Nacional Migratório (SISMIGRA), da Polícia Federal, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, a partir de tabulações especiais do Observatório das Migrações de São Paulo (Nepo/Unicamp), há 44.441 registros de imigrantes africanos residentes na cidade de São Paulo, no período de 2000 a 2025. Angola, sozinha, responde por quase metade dos registros (20.493). Em seguida, aparecem Nigéria (5.454), Senegal (3.140) e Marrocos (1.983), além de outros países como Congo, República Democrática do Congo, Guiné-Bissau, Egito, África do Sul e Moçambique.
Do ponto de vista demográfico, destaca-se a população masculina (63,76%), com predominância de adultos, na faixa de 25 a 65 anos. A maior parte dos imigrantes é solteira (33.264), seguida por um contingente menor de pessoas casadas (10.118). Segundo a Prefeitura de São Paulo, no território, 267 imigrantes africanos estão acolhidos em serviços da rede socioassistencial, o que representa 14% dos imigrantes africanos atendidos nos serviços de acolhimento da cidade. Entre as nacionalidades mais frequentes na região, estão pessoas oriundas de Angola (171 pessoas), Marrocos (33), República Democrática do Congo (32) e Nigéria (11).
Angolana, a estudante de Ciências Contábeis e dançarina Estella Samba Mateus considera que a região da República oferece aos imigrantes mais oportunidades de trabalho, moradia e transporte, além de relações pessoais e profissionais. “Pelo Centro, todo mundo passa. E aqui o pessoal é muito festivo, o africano é cheio de eventos e tudo mais”.

Há três anos em São Paulo, ela observa no Centro um movimento crescente de aproximação entre brasileiros e culturas africanas, que se expressa na festa em suas múltiplas potências, na comida, na roupa e na convivência. Quando chegou ao país, diz ter encontrado um ambiente ainda marcado por muita desinformação e perguntas atravessadas por estereótipos, como: “No seu país tem tecnologia?”, “Tem internet?” ou “Como é que vocês fazem para se locomover?”. Com o passar do tempo e a chegada de mais pessoas africanas, percebeu uma curiosidade mais aberta por essa presença na gastronomia, música, religiosidade e modos de vida do continente.
Atenta à oportunidade, a estudante pensa em criar um projeto com experiências comuns aos africanos para os brasileiros, a fim de aproximar culturas. Ela cita que aprender cerâmica e lidar com obras de arte são atividades comuns às crianças de Angola, por exemplo. Com a população majoritariamente negra, Estella prevê muita chance de os afro-brasileiros se reconectarem com suas histórias. Ao mesmo tempo, a aproximação não elimina os atritos. A estudante observa que, no Brasil, a experiência racial é atravessada por tensão e vigilância. “Ser preta aqui é complicado, porque você precisa se autoafirmar o tempo todo. Estar sempre na defensiva”, comenta. “No meu país, sou só mais uma”, compara.
Nas vitrines
Em dois andares de um prédio em frente à Praça da República, o senegalês Massar Sarr, com seu irmão, é responsável pela Khelcom Art, uma das lojas de artigos culturais mais conhecidas por adeptos do candomblé e umbanda, religiões de matriz africana. Por ali há anos, ele memorizou os preços, os usos e as histórias dos milhares de itens nos andares. Diariamente, recebe dezenas de clientes à procura de máscaras africanas feitas por artistas locais de várias regiões do continente.
Logo na entrada, duas cestas de doces e garrafas de água estão disponíveis para quem chega. “Essa bala de gengibre também é de lá”, explica. “A gente não vende, são para os clientes”, reforça Sarr. No Brasil desde 2008, passou pela construção civil, estudou eletricidade e eletrotécnica e hoje mantém a loja, ao mesmo tempo em que segue com a própria empresa de importação e exportação. “Tem produto que os brasileiros querem, mas não conseguem ter acesso. A gente está facilitando isso”, comenta. Nas vitrines e prateleiras, a oferta vai de tecidos e roupas a colares, pulseiras, máscaras, imagens, palha e bronze.

Massar Sarr dá rosto aos dados de abril deste ano do Portal do Empreendedor, canal oficial do Governo Federal sobre microempreendedores individuais. Em São Paulo, as nacionalidades africanas com mais registros de MEI são a senegalesa (1.541), a nigeriana (1.484) e a angolana (1.052). Em seguida, surgem a guineense (175), a congolesa (134) e a marroquina (136). Embora o levantamento não delimite, por si só, a concentração desses negócios na região da República, reforça a presença de circuitos migratórios e empreendedores que também atravessam o Centro da capital.
A 100 metros da Galeria do Rock, James Evaristus é um exemplo desse movimento. Meses depois de chegar ao país, abriu um bar na região. Após trabalhar em diferentes funções, decidiu empreender e atender a comunidade da Nigéria na República. “Temos whisky, amendoim. Todas as coisas da África aqui atrás”, diz. Morador de Artur Alvim, na zona Leste da capital paulista, todos os dias ele cruza a cidade para chegar ao trabalho. A ideia é manter o comércio aberto por anos, já que vê como forte a presença africana na região, com cada vez mais opções de culinária e festas dos imigrantes na região, algo que favorece o próprio negócio.
A Organização das Nações Unidas reconhece 54 países independentes na África. Segundo dados do Governo Federal, 42 nacionalidades africanas empreendem na cidade. Até abril deste ano, o maior volume de estrangeiros com registro de MEI em São Paulo é de imigrantes das Américas, com 22.821 formalizações. Os registros de pessoas do continente africano ocupam a segunda posição, com 5.571 registros, seguida pela Ásia, com 3.933, pela Europa, com 1.474, e pela Oceania, com 22.
Centro como quilombo
Com mais de 13 anos em São Paulo, o padre cabo-verdiano Assis Tavares enxerga o Centro como um território além da circulação e do comércio. “É uma comunidade, um quilombo dentro do quilombo”, define. Para ele, a região se consolidou ao longo de diferentes ondas migratórias, começando com a chegada de nigerianos nos anos 1990 e ganhando novas configurações com fluxos mais recentes de congoleses, angolanos, quenianos e tanzanianos. Ao atravessar espaços como a Galeria Presidente, mais conhecida como Galeria do Reggae, descreve uma experiência sensorial. “Você entra ali e esquece o Brasil. É cheiro de fufu, de peixe frito, assado, de carne. Escutar outras línguas, ver outras roupas, outros estilos. O centro histórico é o novo [Quilombo dos] Palmares”, sintetiza.

Subsíndico da Galeria Presidente, localizada na rua 24 de Maio, Claudinei Leite confirma a presença. Em um universo de cerca de 220 estabelecimentos, ele estima aproximadamente 150 nas mãos de comerciantes africanos, com destaque para salões de cabelo, bares, restaurantes e lojas de produtos diversos. “Tem de tudo: perfume, comida africana, itens em geral”, elenca, explicando que a concentração se estende para ruas do Centro expandido, como Guaianases, Conselheiro Nébias e Timbiras.
O cotidiano revela tensões e desigualdades. Assis observa que a convivência entre imigrantes africanos e a população negra brasileira às vezes é marcada por distâncias. “Ainda falta misturar”, comenta, citando barreiras como a língua, a desconfiança e diferenças sociais. Ainda assim, tanto ele quanto Leite concordam na leitura de um território em mudança, impulsionado pelo fluxo constante de pessoas e pela capacidade de trabalho e adaptação desses grupos. “O Centro é um lugar que acolhe todo mundo”, resume o subsíndico.
Trança?
“Trança?” é uma das perguntas mais recorrentes para quem atravessa o Centro e, na maior parte das vezes, é feita por mulheres que ocupam o entorno dos principais edifícios. Ao entardecer das segundas-feiras, um grupo se reúne na Praça da República para rituais islâmicos organizados pela comunidade imigrante. Mesmo a passos largos, não é difícil notar bancas de tecidos e rodas de conversa em crioulo, francês e inglês.
De acordo com dados da Polícia Federal, a ocupação dos imigrantes africanos é bastante diversificada, abrange desde atividades no setor de serviços, como cabeleireiros, trabalhadores da beleza e do comércio, até profissões de maior qualificação, como engenheiros e arquitetos.
“Essas comunidades desempenham um papel fundamental na vitalidade econômica e cultural do centro”, afirma Cristina de Branco, do Núcleo de Pesquisa do Museu da Imigração. Ela cita salões de beleza especializados, restaurantes, comércio informal e pequenas lojas, além de manifestações culturais como música, eventos e produções artísticas. “Redes de sociabilidade, formais e informais, sustentam circuitos de apoio mútuo e a circulação de informações”, completa.
Na rua, uma dessas protagonistas é a senegalesa Soda Diop, mais conhecida como Mama. Uma das pessoas mais antigas a ocupar o centro, por muitos anos vendeu tecidos na calçada até conseguir um espaço físico. Estilista, chegou a vestir a cantora Elza Soares (1930-2022), além de artistas da nova geração, como Liniker e Luedji Luna. Com sua experiência, enxerga a região como um território estratégico para imigrantes africanos, marcado por desafios tanto quanto por possibilidades de reconstrução de vida. “Existe uma identificação simbólica. O Centro carrega marcas da presença negra na cidade”, define. “Há um sentimento de pertencimento”.
Mama também destaca a dimensão criativa e coletiva dessas comunidades. “O mais forte é a potência cultural viva. Não é apenas presença, é produção. A gente vê isso na música, na moda, na culinária, na estética e na forma de ocupar o espaço”, diz. “Existe uma rede invisível de apoio, de troca, de cuidado. Isso é algo muito característico das comunidades negras e africanas, mesmo em um contexto difícil, a coletividade se mantém viva”. O apelido dela, aliás, é fruto disso. Referência para quem chega à cidade, a estilista perdeu as contas de quantas pessoas orientou com informações, pontos de ajuda e acolhida. O também pesquisador do Núcleo de Pesquisa do Museu da Imigração Thiago Haruo define os efeitos dessa presença. “Evidencia desigualdades, disputas por espaço e a necessidade de políticas mais inclusivas”, argumenta. Para ele, a noção de uma “pequena África” no Centro da cidade é uma construção simbólica e política. “Conecta a presença histórica de populações negras na cidade, sempre invisibilizada, com as novas dinâmicas migratórias contemporâneas”, observa.
“A história da imigração em São Paulo foi narrada frequentemente a partir de uma perspectiva eurocêntrica, privilegiando fluxos europeus e apagando tanto a presença negra, histórica e contemporânea, quanto outras migrações do Sul global”, lembra Cristina. Por outro lado, a presença dos imigrantes negros nesse diversificado, festivo e contemporâneo quilombo pode “ampliar fontes, reconhecer protagonismos diversos e incorporar perspectivas antirracistas e contracoloniais”, completa Haruo.
Reflexões permanentes
Sesc São Paulo realiza de forma contínua e transversal programações que integram a área da Negritude em suas unidades

Na busca por fortalecer e ampliar os conhecimentos sobre as manifestações, realidades, lutas e conquistas do povo negro, o Sesc São Paulo realiza atividades alinhadas à área de Negritude de forma transversal e permanente em suas unidades. São ações de diversas áreas, como cultura, artes, esporte, lazer e alimentação, que reconhecem e valorizam o legado e a cultura da população negra, além de promover reflexões sobre as desigualdades sociais.
Além de atividades ao longo do ano, como bate-papos, palestras, apresentações artísticas e exposições, projetos específicos dão protagonismo ao tema. Entre eles, está o Festival Sesc Culturas Negras, que terá sua terceira edição no ano de 2026, conectando saberes, conhecimentos, tecnologias, histórias e memórias que contribuem para a compreensão mais ampla e aprofundada do conceito de Negritude. Também se destaca nas programações a OJU – Roda Sesc de Cinemas Negros, mostra audiovisual que celebra os olhares que reinventam o país a partir de suas potências e pluralidades.
Confira destaques da programação deste mês.
24 DE MAIO
Curso de Narração Esportiva para Imigrantes Africanos
Com Anderson Cheni, jornalista esportivo. Entre os dias 30/5 e 10/6. Inscrições na Central de Atendimento da unidade entre 21/5 e 26/5. Saiba mais em sescsp.org.br/24demaio
BELENZINHO
Girança
Com Batakerê. Intervenção artística. Entre 2/5 e 17/5 no Átrio da unidade. Saiba mais em sescsp.org.br/belenzinho
FRANCA
Conferência com Kabengele Munanga
Integra o VI Colóquio de Raça e Interseccionalidade “Discurso, Democracia, Antirracismo e Interseccionalidade”.
Em 19/5. Saiba mais em sescsp.org.br/franca
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