Tesouros de papel

30/04/2026

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Bibliotecas centenárias espalhadas pelo Brasil resistem ao tempo e se adaptam ao contemporâneo como espaços culturais ampliados (foto: Nilton Fukuda)

Leia a edição de Maio/26 da Revista E na íntegra

POR MATHEUS LOPES QUIRINO

Em 2025, uma das mais emblemáticas instituições culturais de São Paulo soprou a centésima velinha. A Biblioteca Mário de Andrade (BMA) nasceu há um século para abrigar tesouros literários, como manuscritos, gravuras e documentos sobre a capital paulista. Seu prédio na rua da Consolação, na região central, construído em meados da década de 1930, testemunhou transformações urbanas, tecnológicas e culturais e resiste como palco de celebrações, exposições e festivais literários. A Biblioteca presenciou a gênese de movimentos históricos, como o modernismo: passaram por lá nomes como Oswald de Andrade (1890-1954), Anita Malfatti (1889-1964), além, claro, de Mário de Andrade (1893-1945), um dos fundadores da instituição. 

Com um acervo que ultrapassa três milhões de itens, a Mário é considerada um grande centro de memória e continua atraindo gerações de escritores e pesquisadores, que podem consultar livros e documentos tanto presencialmente quanto online. “Uma biblioteca pública centenária mostra, além disso, que a conservação do patrimônio exige políticas permanentes, planejamento e o reconhecimento contínuo do valor desses espaços como bens culturais vivos”, conta a atual diretora do local, Luiza Thesin.

Assim como essa, outras instituições centenárias seguem ativas e o segredo da longevidade também parte do envolvimento de mediadores culturais e do público leitor. “A biblioteca não é apenas uma caixa de livros, porque nos movemos pelas bibliotecas e nós movemos as bibliotecas. Os eventos, festas literárias, esse trançar de pessoas que faz com que se movam os livros, as imagens, os imaginários, tudo isso vai fazendo a biblioteca mudar. Os novos livros que chegam às prateleiras, as parcerias, é muito interessante pensar a biblioteca desse jeito comunitário”, diz a pesquisadora Bel Santos Mayer, coordenadora geral do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC). 

Ativista da cultura do livro, Bel é uma das fundadoras do LiteraSampa, iniciativa que tem o intuito de fortalecer bibliotecas nas periferias da cidade. Segundo ela, é importante espalhar as sementes da bibliofilia. “Nós temos mais de quinhentos anos de história oficial de nosso país e, se formos olhar as bibliotecas centenárias, chegam a uma dúzia. Dessas, apenas metade são bibliotecas públicas. O que elas nos ensinam é que precisamos resistir e multiplicar.” A seguir, confira um roteiro por mais cinco bibliotecas centenárias. 

(foto: Alexandre Macieira/ Riotur)

Fundação Biblioteca Nacional (RJ)
Quem atravessa a Avenida Rio Branco, na cidade do Rio de Janeiro, e sobe os degraus do prédio neoclássico do número 219 entra na maior biblioteca da América Latina, a Biblioteca Nacional. Sua origem remonta a 1810, após a vinda da Família Real, que trazia de Portugal o que sobrou da biblioteca de Dom José, destruída depois do Grande Terremoto de 1755. O acervo de 60 mil peças, ao longo dos anos, cresceu e hoje soma cerca de 11 milhões de itens. Entre eles, uma das primeiras edições de Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões, e uma coleção de fotografias do Rio de Janeiro do século 19. As visitas são gratuitas e podem ser feitas por agendamento no site da instituição, que também abriga exposições itinerantes e mostras permanentes. 

Avenida Rio Branco, 219, Centro, Rio de Janeiro (RJ). Segunda a sexta-feira, das 9h às 19h. Sábado das 9h às 15h. Grátis. Agendamento no e-mail: visiguia@bn.gov.br ou telefone (21) 2220-9484. Mais informações em www.gov.br/bn

(foto: Rafael Catarcione)

Real Gabinete Português de Leitura (RJ) 
O Real Gabinete Português de Leitura está desde o século 19 em uma rua simbólica, a Luís de Camões, número 30, no centro do Rio de Janeiro. Essa instituição, que faz parte da memória lusitana da cidade, foi inaugurada em 1837, passou por diversas transformações e ficou famosa pela organização. Seu acervo tem mais de 350 mil volumes, distribuídos em estantes de madeira esculpida até o teto. Entre os tesouros preservados estão as gravuras do romance Os Maias (1888), de Eça de Queiroz (1845-1900), além de manuscritos autografados de Amor de perdição (1862), de Camilo Castelo Branco (1825-1890). A entrada é livre e gratuita para o público, mas o acesso ao acervo é restrito a associados e pesquisadores. 

Rua Luís de Camões, 30, Centro, Rio de Janeiro (RJ). Segunda a sexta-feira, das 10 às 17h. Grátis. Mais informações em realgabinete.com.br

Biblioteca do Mosteiro de São Bento (BA) 
No Largo do Pelourinho, em Salvador, capital baiana, há um lugar onde o tempo parece ter desacelerado. Dentro do Mosteiro de São Bento, erguido no século 16, a biblioteca monástica é um dos mais raros exemplares do gênero ainda em atividade no país. Os primeiros livros chegaram com os monges beneditinos em 1582, mas a sala atual com estantes esculpidas em jacarandá e assinadas por mestres entalhadores do período colonial data de 1811. Com mais de 300 mil livros, o lugar conta com cerca de 13 mil obras raras, entre incunábulos (livros impressos antes de 1501), manuscritos e documentos que narram os bastidores da vida religiosa e política da colônia. O mosteiro e a biblioteca podem ser visitados mediante agendamento. Há uma taxa de visitação, revertida para a manutenção do espaço.

Av. Sete de Setembro, 204, Centro, Salvador (BA). Segunda a sexta-feira, das 7h às 12h e das 13h às 18h. Sábado, das 6h às 12h. Domingo, das 8h às 10h. Visitação sob agendamento pelo telefone (71) 99129-3143 ou (71) 3242-4027, e pelo email: contato@saobento.org.
Mais informações em saobento.org

(foto: Nilton Fukuda)

Biblioteca da Faculdade de Direito da USP (SP)
Não se trata apenas de uma biblioteca, mas de um símbolo da vida intelectual brasileira. A Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) nasceu junto com a própria faculdade, em 1827, quando o Largo São Francisco ainda era um dos limites da cidade. Seu acervo tem cerca de 500 mil volumes e é uma referência obrigatória para o estudo do Direito e das ciências humanas. Entre os livros, estão edições autografadas por grandes nomes que frequentaram a biblioteca, como Cândido Motta Filho (1897-1977), Alcântara Machado (1901-1935) e Menotti Del Picchia (1892-1988), além de um arquivo histórico com mais de 1.500 títulos de periódicos do século 19. O edifício mantém a atmosfera austera que viu gerações de juristas, escritores e políticos debaterem os destinos do país. É aberta ao público para consulta local de segunda a sexta-feira, com cadastro na entrada. A visita ao prédio histórico pode ser feita sem agendamento, mas os setores de obras raras exigem solicitação prévia.

Largo São Francisco, 95, Centro, São Paulo (SP). Grátis. Visitação da Biblioteca Central, de segunda a sexta-feira, das 8h às 21h. Mais informações pelo email saubibfd@usp.br

(foto: Lauro Vasconcelos)

Biblioteca Pública Benedito Leite (MA)
São Luís do Maranhão, no Norte do país, respira cultura e um de seus pulmões mais antigos é a Biblioteca Pública Benedito Leite. Fundada em 1829, ela é uma das bibliotecas públicas mais longevas do Norte e Nordeste. Instalada em um prédio eclético no centro histórico, a casa guarda um acervo que impressiona pelos contrastes: ao mesmo tempo que oferece literatura contemporânea ao público geral, protege em seu setor de obras raras verdadeiras relíquias, como livros dos séculos 16, 17 e 18, além de documentos manuscritos de figuras centrais da história maranhense. A entrada é gratuita, sendo necessário agendamento apenas para a consulta de obras raras. 

Praça do Panteon, Centro, São Luís (MA). Grátis. Segunda a sexta-feira, das 8h30 às 19h. Sábado, das 8h30 às 16h30. Mais informações pelo email informacaoutilitaria.bpbl@gmail.com ou pelo whatsapp (98) 98454 6921.

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