
Aos 80 anos recém-completados, cantora consolida um percurso que integra expressão artística, pedagogia e mobilização comunitária (foto: Marcelo Scaranari)
Leia a edição de Abril/26 da Revista E na íntegra.
POR DIEGO OLIVARES
Musicista, educadora e ativista social, Doroty Marques fez da arte sua profissão. Pioneira, foi uma das primeiras mulheres a gravar um álbum independente no Brasil, o LP Semente, lançado em 1978, acompanhada do irmão, Dércio Marques (1947-2012), com quem já dividia os palcos em apresentações musicais. Na contracapa do disco, a apresentação do produtor e pesquisador musical Marcus Pereira (1930-1981) dava a dimensão da singularidade de seu estilo. Para ele, os shows da dupla de irmãos eram “riquíssimos na dimensão do talento, da voz, da emoção e do violão de Dércio Marques. E do talento, da voz, da emoção e do bumbo de Doroty Marques”.
Andarilha por natureza, nasceu em 1946, na cidade de Araguari, no Triângulo Mineiro (MG), morou ainda na infância no Rio de Janeiro (RJ) e passou parte da adolescência no Uruguai, terra natal de seu pai, indígena do povo Guarani. Voltou ao Brasil em 1964, poucos dias antes do golpe militar. A partir daquele momento, sua atuação passaria a dialogar, de maneira cada vez mais direta, com o contexto político e cultural brasileiro.
Nos anos seguintes, Doroty circulou por diferentes frentes, aproximando-se de músicos, educadores e grupos teatrais. Fiel ao que sempre cantou, colocou em segundo plano sua presença nos palcos para se dedicar a projetos de impacto social. “Eu sempre vivi no povo. Até que uma hora percebi que a maioria dos artistas chegava, cantava e ia embora. Faltava alguém que realmente mostrasse que existe uma forma melhor do ser humano”, conta. E revela: “Decidi ir para onde precisam mais de mim”.
Na década de 1980, desenvolveu ações em escolas públicas, comunidades periféricas e instituições voltadas à infância e adolescência. Atuou em diferentes estados brasileiros, propondo oficinas e processos coletivos de criação que integravam canto, movimento, percussão corporal e composição, entendendo a arte como instrumento de formação crítica e de organização comunitária.
Participou ainda da estruturação de iniciativas públicas voltadas à proteção de menores em situação de vulnerabilidade, colaborando com a criação da Secretaria do Bem-Estar do Menor em São Paulo. Ao longo dos anos, seu trabalho foi reconhecido por instituições nacionais e internacionais, chegando a receber da Organização das Nações Unidas (ONU) o prêmio de melhor trabalho em educação alternativa.
Desde 2003, Doroty vive na Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, onde coordena o projeto Turma Que Faz. Ali, mantém um espaço de formação artística e convivência, reunindo crianças, jovens e adultos em processos contínuos de criação.
No último dia 28 de março, Doroty Marques completou 80 anos com um show no Sesc 24 de Maio, inaugurando a temporada 2026 do projeto Viva Viola! [leia mais em Educação pela viola]. Nesta Entrevista, a artista fala sobre a arte como força transformadora, a importância do respeito à natureza e as consequências das novas tecnologias na sociedade.
Como foram suas primeiras experiências com a música, a forma de arte que escolheu para atuar?
Sou filha de pai de origem indígena e mãe cabocla. As pessoas na escola, quando descobriam que eu era mestiça, já não me tratavam igual. Mas eu as conquistava por meio da minha música. Isso era importante porque eu sempre tinha que ganhar a simpatia das pessoas, em cada lugar que passava. A gente mudava muito de cidade naquela época. Meu pai vivia falando: “chega, vamos para outra cidade, começar tudo de novo.” Eu e meus irmãos perguntávamos: “mas e a escola?”. “Escola tem por todos os lados”, ele respondia. “E os amigos?” “Amigos se faz por todos os lados”. A vida toda foi assim. Quando estava no Rio de Janeiro, com 12 anos, me apresentava em programas de TV. Cheguei a cantar ao lado da Wanderléa, que na época tinha 14 anos. Quando eu era menina, a única rádio que tinha lugar para você ver os artistas era a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Eles tinham um auditório com acesso gratuito. A família podia levar as crianças, era genial. Eu vi todos os nomes mais importantes: Angela Maria (1929-2018), Emilinha Borba (1923-2005), Cauby Peixoto (1931-2016), Marlene (1922-2014), Francisco Alves (1898-1952). Minha universidade foi essa.
Como você se engajou com discussões sociais?
Eu tenho ascendência indígena. E o índio é muito unido. Meu pai era dos Guarani do Uruguai, e vivi três anos lá, dos 15 aos 18 anos. Quando voltei para o Brasil, em 1964, os militares tomaram o poder. Cheguei no dia do meu aniversário, 28 de março, em Porto Alegre, e o [Leonel] Brizola (1922-2004, governador do Rio Grande do Sul de 1959 a 1963), estava contratando artistas que cantassem para manter o povo junto. Eu sempre vivi no povo. Até que uma hora percebi que a maioria dos artistas chegava, cantava e ia embora. Faltava alguém que realmente mostrasse que existia uma forma do ser humano ser melhor, mais útil, gostar mais de si próprio e não ser apenas mais um número. Então, decidi ir para onde precisam mais de mim.

Me lembro de experiências como na Floresta Amazônica, quando eu tocava e os seringueiros todos choravam. Eles não tinham rádio, nada, nenhum som a não ser o silêncio e os bichinhos da floresta. Eu cheguei com minha sanfona e com a minha viola e conquistei todos ali.
(foto: Marcelo Costa Braga)
E como veio a decisão de passar menos tempo rodando o Brasil, se apresentando nos palcos, e trabalhar mais com arte em comunidades carentes, presídios e até na Amazônia?
Depois de gravar o disco Semente (1978), lancei, em 1980, o segundo disco, Erva cidreira, que chamou a atenção de alguns críticos, como o [José Ramos] Tinhorão (1928-2021) no Rio de Janeiro e o Maurício Kubrusly em São Paulo. Era um momento em que a crítica costumava ocupar meia página de jornal. Foi aí que comecei a fazer mais shows, viajei pelo sertão com a Marinês (1935-2007), que era conhecida como a “rainha do xaxado”. Mas de repente me dei conta de que estava sendo apenas mais uma artista no meio de tantos outros. Enquanto isso, ninguém olhava para as prisões, para locais como a Febem [Fundação Estadual Para o Bem-Estar do Menor, hoje Fundação Casa], para as crianças ou para os adolescentes. Concluí que seria mais importante como artista se fosse para onde as pessoas estão. E foi a esses lugares que me dediquei. Me lembro de experiências como na Floresta Amazônica, quando eu tocava e os seringueiros todos choravam. Eles não tinham rádio, nada, nenhum som a não ser o silêncio e os bichinhos da floresta. Eu cheguei com minha sanfona e com a minha viola e conquistei todos ali.
Como foi o período em que trabalhou dentro de comunidades vulnerabilizadas?
Eu trabalhei por mais de 25 anos nas maiores favelas deste país, montando operetas. No começo dos anos 1990, junto com o governo do estado de São Paulo, montamos um projeto para reestruturar a Febem, incluindo ações culturais no dia a dia das crianças. Chegamos a receber a Princesa Diana (1961-1997). Quando ela chegou com todo aquele ritual e se ajoelhou para ficar do tamanho das crianças, eu chamei toda a meninada para o palco. Eles cantaram uma música que a letra tinha tudo ao contrário dos contos de fadas. Ela se deliciou. Dali a alguns meses, na Eco-92 [Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992], levei 150 meninos representando São Paulo, com uma opereta chamada O dia em que nasceu a noite. E o que a gente mostrava? O cuidado com a água, cuidado com a mata, cuidado com as crianças. Na peça, o sol não nascia mais. Ela mostrava um sol aborrecido, falando “vocês não querem cuidar, então se virem, eu volto daqui 90 dias e esse é o tempo que vocês têm para se acertar”. Aí todos os personagens tinham que se unir para encontrar uma solução.
Seu trabalho está muito ligado à natureza. O que podemos aprender com ela?
A amar e cuidar. O grande erro do homem foi que ele deixou de ser parte integrada ao ambiente natural e passou a consumir a natureza para viver. O ser humano, infelizmente, está deixando de ser um ser natural, um ser criado por Deus e pela Mãe Terra para ajudar a natureza. Talvez para isso ela tenha nos dado a capacidade de pensar, escolher, distribuir, manejar, criar. Eu acho que não era para fazer isso que nós fizemos do mundo. Uma coisa que me entristece é quando eu vejo os turistas que vêm para cá – porque aqui a gente vive do turismo – e chegam já de celular na mão. Eu chamo isso de algema invisível. Eu olho e me dá uma tristeza. Aqui no meio de tanto sabiá, beija-flor, rolinha, tico-tico, arara, tucano, como é que a criança vai ficar olhando aquele troço em cima da mesa? Talvez se houvesse mais sensibilidade essas novas tecnologias não escravizassem tanto. Eu não sou contra as novas tecnologias, mas eu não gosto da forma que ela foi colocada para a população e da forma que ela está sendo usada. Isso me preocupa. Assim que a meninada daqui começou a poder comprar celular, eu falei: “Na minha turma, não quero isso não”. E a turma nunca mais levou. Sessenta dias depois, o governo proibiu celular na escola.
Percebi que a maioria dos artistas chegava, cantava e ia embora. Faltava alguém que realmente mostrasse que existia uma forma do ser humano ser melhor, mais útil, gostar mais de si próprio e não ser apenas mais um número. Então, decidi ir para onde precisam mais de mim.
(foto: Marcelo Costa Braga)

Como a arte pode transformar as pessoas?
Arte é emoção humana, é o sentimento humano, e Deus colocou a arte em todos os seres. Todos têm uma forma de viver, uma maneira de viver. Se você parar para analisar todas as formas de vida, o ritmo delas, irá observar que é um tipo de arte que a Mãe Terra criou, vamos dizer assim. A arte é vital, assim como é você aprender a escrever, aprender a falar. Porque a arte vai te ensinar a aprender a sentir coisas, não só olhar e saber que aquilo é uma árvore, ou que aquilo é um prédio, ou que aquilo é um rio, mas sim qual é a vivência daquilo com você, qual é a troca que você tem que ter com aquilo.
Como a educação pode contribuir para estimular essa percepção de mundo?
Eu andei por esse país, cantei em quase todas as capitais, e vi que muitos jovens não gostam de ir para escola. Por quê? Se a escola fosse mais aberta, tivesse mais espaço para eles também dizerem quem são, o que sentem, as coisas seriam diferentes. O próprio espaço físico já está errado, é uma cadeia para o professor e para o aluno. Já a minha escola é anárquica, a Turma Que Faz [projeto que coordenada em Vila de São Jorge (GO)] é debaixo das árvores, tem uma mesona que cabem vinte meninos de cada lado e, embaixo dessas árvores, tem uma lona de circo. É um espaço onde os meninos chegam e fazem as leis. Eu só faço uma: não pode agredir o amigo. Trabalhar com arte é a minha guerrilha. Porque é amor, é companheirismo, é amizade. Estou fazendo 80 anos, e nessa idade é impossível alguém olhar para trás e dizer que fez absolutamente tudo certo. Mas eu posso dizer que tenho orgulho de mim. Ao acompanhar o crescimento das pessoas desde que cheguei aqui na Vila e a criação dessa comunidade em torno da Turma Que Faz, sinto que não morro. Eu não fico velha. Você quer herança maior? Eu não conheço.
Educação pela viola
A música e o processo criativo de Doroty Marques são inspiração para uma série de atividades neste mês

A cantora e arte-educadora Doroty Marques é a homenageada desta edição do projeto Viva Viola!, com programações neste mês nas unidades do Sesc 24 de Maio e Belenzinho. Entre as atividades, estão apresentações musicais entremeadas por rodas de conversa, mediações para crianças, espetáculos de teatro infantil, cursos e oficinas, entre outras, todas inspiradas na trajetória da artista.
A própria Doroty é convidada do show do grupo Raíces de América, dia 18/4, no Sesc 24 de Maio, promovendo um encontro entre a viola brasileira e os ritmos latino-americanos. O uso desse instrumento para além do cancioneiro tradicional é o foco da oficina Os caminhos da viola na música brasileira, em 4 e 5/4, na mesma unidade. O objetivo é oferecer às pessoas participantes técnicas para aplicar seus conhecimentos da música raiz em outros estilos musicais.
Outro destaque da programação é o Laboratório de composição musical, no Sesc Belenzinho, ministrado pela cantora, compositora e instrumentista Lucina, autora de músicas gravadas por artistas como Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Nana Caymmi. Serão três encontros, de 7 a 9/4, para instigar o potencial criativo por meio de exercícios.
Confira a programação completa em: sescsp.org.br/projetos/viva-viola-doroty-marques-80-anos
24 de maio
Os caminhos da viola na música brasileira
Com Leticia Leal. 4/4, das 9h30 às 13h e das 14h às 18h; 5/4, das 9h30 às 13h30. Grátis. Inscrições em sescsp.org.br/24demaio
Raíces de America
Com participação especial de Doroty Marques. 18,4, às 20h. Saiba mais em sescsp.org.br/24demaio
Belenzinho
Laboratório de composição musical
Com Lucina. De 7 a 9/4, das 18h às 21h. Inscrições em sescsp.org.br/belenzinho
Consuelo de Paula & Socorro Lira
Show “Erva Cidreira – Viva Doroty Marques!”. 24/4, às 21h. Ingressos em sescsp.org.br/belenzinho
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