Onde o brincar (me)mora em mim

30/04/2026

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Brincar para mim tem cheiro, tem cor, tem som de riso atravessando a casa. Brincar é memória viva, dessas que não cabem em fotografia, no desenho ou em qualquer outro registro. Elas se instalam no corpo e ficam, permanecem e nos constituem. 

A minha infância foi feita de muito tempo sozinha criando futuros e encontros possíveis. Quanto mais gente, mais troca e mais gostoso era. Quanto mais presença, mais descoberta. Era riso, grito, concordância, discordância, felicidade e, às vezes, choro. 

Lembro da casa da minha vó como um lugar de aconchego, um território onde tudo acontecia. Lembro dos doces sendo feitos, secando em tachos sobre a pedra da cozinha. O entra e sai de gente, os primos chegando, vozes se misturando, as risadas ecoando. Mesmo que nenhum adulto dissesse nada, de algum jeito a gente já sabia que era tempo de brincar. 

Tinha esconde-esconde, pega-pega, dança e jogo. Longas conversas entre crianças que inventavam novos mundos enquanto, ao fundo, os adultos jogavam cartas e falavam sobre assuntos da ordem do dia. Jogar cartas era o brincar de gente grande, mas hoje entendo que também era o pretexto para o encontro e para juntar as panelas. Era tanta comida gostosa, tanto cheiro junto, tanto som, tanta textura… Uma miscelânea de sensações. 

Lembro de quando a televisão de casa, daquelas de tubo enorme, quebrou. O conserto era caro e demorou, transformando a falta em possibilidade. 

Todas as noites, meus pais inventavam um novo jogo, conversávamos mais, aprendíamos juntos, errávamos, nos divertíamos. A ausência de uma coisa abriu espaço para outras. Percebi que os combinados entre os adultos se intensificaram: “Quarta-feira, às 19h, aqui em casa”. 

Um levava a lasanha, outro o pavê, alguém trazia um gravador de fitas K7 para as crianças ouvirem música, e mais uma vez o ritual se repetia, adultos nas cartas e crianças a brincar. 

É curioso lembrar que nossas idades eram tão diferentes e era o que tornava tudo mais interessante. Cada um trazia o que sabia, o que podia, o que imaginava, as brincadeiras iam se construindo a partir de nós e para nós, sem roteiro, mas com muita presença. 

Naquele tempo, a gente acompanhava os adultos em quase todos os lugares, não existiam muitos espaços pensados para as crianças compartilharem o brincar, os brinquedos, o tempo e as emoções. E ainda assim, ou talvez por isso, a gente inventava, ressignificava objetos, criava brinquedos, transformava qualquer canto em possibilidade. Dividia o tédio e valorizava a conversa. 

Hoje, quando penso no brincar, penso no encontro, na diversidade, na liberdade de criar e nessa potência que é conviver. Brincar junto às vezes tem a ver com ceder, com entender como o outro se sente na brincadeira, percebendo que o mundo vai para além de mim. Brincar nunca foi só sobre o que se faz, mas sobre com quem se faz, sobre essa experiência sensorial de acomodação de tudo aquilo que se constrói no meio do caminho.

Carrego essas memórias como quem guarda um mapa. Um mapa que me lembra que brincar é linguagem, é expressão, é um livro particular que conta histórias. Quando há espaço para o individual e o coletivo, para o bom e o ruim, para o conforto e desconforto, para o cheio e o vazio, há também espaço para crescer, desenvolver, imaginar e pertencer.

Camile Lopes Magalhães é assessora sociocultural na Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc São Paulo, atuando no Núcleo dos programas infanto-juvenis dedicada ao Programa Espaço de Brincar.

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