Angela Ro Ro sem pedir licença

02/04/2026

Compartilhe:

Artista abriu caminhos, enfrentou preconceitos, remodelou a MPB e viveu com intensidade absoluta (foto: Everton Amaro/ FIESP)

Leia a edição de Abril/26 da Revista E na íntegra.

POR LÍGIA SCALISE

Elas tinham um plano. Angela Ro Ro (1949-2025) e Lana Braga imaginavam envelhecer juntas, com calma, depois de tantas curvas e reencontros que atravessaram mais de quatro décadas. Quando Angela deixasse o hospital, a ideia era respirar ar puro, se recolher perto da natureza e recuperar forças, retomando uma rotina simples e afetuosa – conciliando vida e criação artística ao lado de Lana.

“Nos conhecemos quando eu tinha só 23 anos. Angela esteve na minha vida por 45, entre idas e vindas, mas sempre por perto”, conta Lana, produtora, ex-empresária e ex-companheira da cantora. “Achamos que teríamos tempo para viver essa velhice e o nosso grande amor, lado a lado. Ela estava compondo de novo, queria gravar, queria começar outra fase, mas foi tudo muito rápido.” Entre o que se sonhou e o que não se pôde viver, resiste a memória de uma artista que transformou a música brasileira com sua voz rouca e uma presença inconfundível.

MPB do avesso
Ao despontar no final dos anos 1970, Angela Ro Ro trouxe para a música popular brasileira uma dramaticidade visceral, influenciada por blues, jazz e rock. Para o jornalista e escritor Augusto Diniz, aquilo foi uma ruptura inesperada. “Quando ela apareceu, mudou o jogo. Trouxe referências internacionais e fez sucesso como cantora e compositora, o que era raro para mulheres naquela época. E, além disso, manteve a força emotiva do samba-canção, algo que só Ro Ro sabia fazer”, afirma. 

Segundo Augusto, Angela não apenas abriu espaço: ela alterou o formato. “Foi uma outsider que obrigou a MPB a se expandir”. Capaz de ir do rock à canção romântica com igual intensidade, e de imprimir dramaticidade em cada interpretação, Angela Ro Ro foi uma artista de extremos.

Rouca e visceral
Nascida na cidade do Rio de Janeiro, em 1949, filha única, pianista desde os sete anos, Angela ganhou o apelido “Ro Ro” pela rouquidão herdada da mãe, Conceição. Ainda jovem, para escapar da ditadura militar, passou uma temporada em Londres, na Inglaterra, onde trabalhou como garçonete e faxineira em hospital. Lá conviveu com Glauber Rocha (1939-1981), que a apresentou a Caetano Veloso – então, exilado. 

De volta ao Brasil, na segunda metade dos anos 1970, começou a participar de festivais de música, como o de Saquarema, em 1976. Fugiu o quanto pôde de se lançar como cantora profissional porque “sabia que ia dar merda”, disse ela anos mais tarde, justificando sua resistência à fama. Mas quando lançou seu álbum de estreia, Angela Ro Ro (1979), a artista não apenas entrou na MPB, ela escancarou todas as portas com canções como “Amor, meu grande amor”, “Tola foi você”, “Não há cabeça”, “Balada da arrasada”, “Agito e uso” e “Gota de sangue”. Um repertório inaugural que condensava confissão, fúria, romantismo e melancolia em igual medida. 

Rodrigo Faour, jornalista, professor, autor de livros sobre a MPB e um dos profissionais que mais entrevistou a artista, lembra-se da primeira vez que a viu: “Ela apareceu sem pedir licença”. Paulinho Lima, produtor, compositor e cantor, que a empresariou no início dos anos 1980, também recorda o impacto que sentiu ao vê-la e ouvi-la. “Quando ouvi aquelas primeiras músicas, naquela voz, pensei: tem algo aqui que não existia antes. Uma artista completa, de voz e personalidade únicas.” Assim chegou Angela Ro Ro: com um canto rouco e confessional, sofisticado e popular ao mesmo tempo. Seu segundo disco, Só nos resta viver (1980), consolidou o nome da artista no cenário musical brasileiro.

Responsável por uma revolução estética e emocional, Angela Ro Ro é tida como um farol por artistas de seu tempo (foto:Everton Amaro/ FIESP).

Feito um trovão 
Depois de ter seu nome estampado nas manchetes de jornal por uma briga com a namorada da época – a cantora Zizi Possi –, Angela lançou o álbum Escândalo, com música composta por Caetano especialmente para ela. “Se ninguém tem dó / Ninguém entende nada / O grande escândalo sou eu aqui, só.” Versos que pareciam lhe servir como autobiográficos. A palavra “escândalo” a acompanharia para sempre, por vezes, como marca injusta; por outras, como afirmação de potência.

Em A vida é mesmo assim (1984), Angela atingiu um dos pontos mais altos da carreira. Para Augusto Diniz, foi o momento em que ela surgiu musical e emocionalmente inteira. Foi também sua consagração como autora ao ser gravada por Maria Bethânia, com a canção “Fogueira”, que a própria cantora baiana considera um ponto alto de sua discografia.

Durante as décadas de 1980 e 1990, Angela viveu sua fase de multidões: palcos lotados, público hipnotizado, crítica fascinada. Era presença magnética e metia medo em muita gente por seu humor cortante. “Ela tinha sacadas rápidas e ácidas, era dona de uma inteligência brilhante e uma espontaneidade absurda. O show de Angela era música e anedotas hilárias. O repertório se repetia, mas ela sempre foi imprevisível, feito um ‘trovão trepidanteʼ, descreve Faour. “Angela era terrível, mas também transformava dor em riso e tragédia em música com excelência”, pondera. Faour ressalta, ainda, o lado doce da artista: “Cuidava de bichos, defendia o meio ambiente quando isso nem era pauta e abriu caminhos para outras artistas e mulheres que amam mulheres”. 

Desde o começo, Angela Ro Ro assumiu publicamente sua homossexualidade, quando isso significava perder contratos, espaços e alianças com produtoras da época. “Enfrentando a tudo e a todos, ela nunca deixou de ser quem era – e pagou caro por isso. Mas foi absolutamente necessária, na música e na vida, por sua coragem em ser inteira”, reforça Paulinho Lima. 

Outra reviravolta
Nos anos 1990, após perdas familiares, Angela reapareceu muito mais magra e em busca de sobriedade. Voltou a fazer sucesso com a canção “Compasso”, na qual dizia que estava “bebendo água pra lubrificar”, mas que, agora, tinha como alvo a paz. Com o apoio de Lana, retomou a carreira, gravou com grandes nomes, reencontrou plateias. 

Iniciou uma reconstrução profissional e afetiva que incluiu projetos no Sesc, shows emblemáticos, encontros com artistas de outras gerações e a retomada de sua presença no circuito da música popular brasileira. “Foi lindo acompanhar essa reconstrução. Ela tinha passado por uma fase muito difícil, mas voltou com força e por amor à arte. Viveu uma belíssima reviravolta, intensa, corajosa e vivaz, bem à la Angela”, lembra a ex-empresária, produtora e companheira. 

Em 2017, a artista lançou Selvagem, seu último álbum de estúdio. E em 2024, dois singles autorais, “Cadê o samba?” e “Planos do céu”, que mostravam como sua voz continuava pulsando. Mas, fragilizada, passou a enfrentar dificuldades financeiras e de saúde. Em 2025, pediu ajuda publicamente, gesto que comoveu e dividiu opiniões, como quase tudo o que fazia. “Foi doloroso acompanhar a vulnerabilidade de uma das maiores compositoras, sem exagero, da história da MPB”, desabafa Paulinho Lima.

O timbre inconfundível e a personalidade sem papas na língua foram marcas de Angela Ro Ro (foto: Alex Ribeiro / Visor Mágico)

Hora da partida
Angela Ro Ro morreu na capital fluminense, em 8 de setembro de 2025, aos 75 anos, após 75 dias de internação, em decorrência de uma grave infecção pulmonar. “Ela se recuperava da cirurgia, mas não resistiu”, disse Lana. Sem herdeiros, seu acervo aguarda definição judicial.  “Quero criar um instituto para preservar a obra, os arquivos e os registros de sua trajetória. É o que ela merece e eu vou lutar por isso”, acrescenta a produtora.

Com a intenção de manter viva a memória da artista, um documentário sobre a vida de Ro Ro, dirigido por Liliane Mutti, está previsto para ser lançado em 2026. O filme já estava em curso e traz imagens inéditas, arquivos recuperados, bastidores e cenas especialmente produzidas, inclusive, de Angela ao piano, à beira-mar. “Ela participou intensamente de todo o processo, no qual narra a própria história”, conta Liliane.

Com sua partida, reverbera o eco rouco que deixou, sobretudo nas vozes femininas. Zélia Duncan declarou que Angela foi “pioneira absoluta e farol para todas nós”. E a cantora Ana Carolina disse que ela foi “revolução estética e emocional, e será sempre reverenciada”. Talvez a mais bonita definição da artista seja o simples fato de concordarem que Angela Ro Ro não cabia em medida alguma. Nem de voz. Nem de corpo. Nem de amor. Nem de música. Nem de tempo. Nem de tradução. Uma artista brasileira que – como todos que conviveram com ela reforçam – viveu sem freio, sem pedir licença, uma vida que valeu a pena. 

Encontro de gerações
Gravado em 2013, em show realizado no Sesc Pompeia, programa do SescTV reúne Angela Ro Ro e o cantor e compositor pernambucano Lirinha

Disponível sob demanda no Sesc Digital, programa do SescTV traz versão editada de show de Angela Ro Ro e Lirinha, gravado em 2013 no Sesc Pompeia (foto: Alex Ribeiro / Visor Mágico).

Ao longo de sua carreira, Angela Ro Ro esteve presente em shows nas unidades do Sesc São Paulo, trazendo seu repertório vasto em diferentes formações e arranjos. Uma de suas apresentações ocorreu em 2013, no Teatro do Sesc Pompeia, no qual dividiu o palco com o cantor e compositor pernambucano Lirinha. A atração foi gravada e transformada em programa do SescTV, disponível sob demanda no Sesc Digital. 

Dirigida por Daniela Cucchiarelli, a produção traz versão editada do show, além de entrevistas com Angela e Lirinha, em que falam sobre suas influências e a admiração mútua. “Acho Angela ancestral e do futuro. Ela é rock‘n’ roll, bolero, uma reunião de coisas que seriam antagônicas”, descreve Lirinha. “As músicas de Angela Ro Ro me influenciaram muito em composição e em interpretação”, completa. O programa traz ainda trechos do ensaio que antecedeu o show, em que Angela Ro Ro, além de cantar, também mostra seu talento ao piano.

No repertório, músicas próprias da cantora, como “Renúncia” e “Amor Meu Grande Amor” e de Lirinha em parceria com outros compositores, como “Sidarta”, de coautoria com Jorge Du Peixe, e “Memória”, criação em conjunto com Fábio Trummer. 

Em julho de 2020, durante a pandemia de covid-19, Angela Ro Ro participou do projeto Em casa com Sesc, com um show solo em que, ao piano, interpretou sucessos de sua autoria como “Cheirando a Amor”, “Mares da Espanha” e “Tola foi Você”, entremeadas por clássicos da música internacional, entre elas, “Smile”, de Charles Chaplin, “Summertime”, de George e Ira Gershwin e “Help Me Make It Through The Night”, de Kris Kristofferson. A gravação pode ser vista no canal do Youtube do Sesc.

SESC DIGITAL
Angela Ro Ro e Lirinha
Show gravado em 2013, no Sesc Pompeia. Dia 11/04, às 21h, no SescTV. Sob demanda em: sesc.digital/conteudo/musica/angela-ro-ro-e-lirinha

Assista à gravação de 2020 que integrou o projeto Em casa com Sesc, realizado na pandemia. 

A EDIÇÃO DE ABRIL DE 2026 DA REVISTA E ESTÁ NO AR!

Para ler a versão digital da Revista E e ficar por dentro de outros conteúdos exclusivos, acesse a nossa página no Portal do Sesc ou baixe grátis o app Sesc SP no seu celular! (download disponível para aparelhos Android ou IOS).

Siga a Revista E nas redes sociais:
Instagram / Facebook / Youtube

A seguir, leia a edição de ABRIL na íntegra. Se preferir, baixe o PDF para levar a Revista E contigo para onde você quiser!

https://issuu.com/sescsp/docs/revista_e_-_abril_2026
Conteúdo relacionado

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.