
Leia a edição de Abril/26 da Revista E na íntegra.
Conforme crescem as formas de utilização da inteligência artificial (IA) no cotidiano das pessoas, intensificam-se também as discussões sobre suas implicações. Desde o impacto no comportamento social dos indivíduos até a preocupação com suas consequências na aniquilação de postos de trabalho, são muitos os aspectos que despertam conversas profundas quando o assunto é tratado.
Um ponto fundamental é o custo ambiental para manter em funcionamento as bases de dados que são espinha-dorsal das ferramentas de IA. “Um data center de hiperescala pode chegar a ter mais de 1 milhão de servidores. Em geral, sua capacidade é medida em megawatts. Praticamente 40% de seu gasto de energia é para processar dados e outros 40% são necessários para refrigerar o ambiente. Além disso, essas estruturas são altamente consumidoras de água. Em 2020, somente o data center do Google da cidade de The Dalles (Estados Unidos) consumiu 355,1 milhões de galões de água”, explica o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, mestre e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).
Ao mesmo tempo em que há muito a ser regulamentado numa área ainda nova, as empresas de IA crescem em ritmo acelerado enquanto prometem mudar de forma radical a experiência humana. Tal expectativa pode gerar, por um lado, deslumbramento e, por outro, receio.
“Recentemente, apareceu um motorista de táxi para iluminar a minha dúvida: por que os humanos sofrem com mudanças? Sem desviar a atenção do volante, o condutor respondeu com uma lucidez assustadora: ‘o ser humano, meu amigo, não gosta de mudança nem quando é para melhor’. Como sempre, o taxista fica com a razão. A dúvida, com o passageiro. Afinal, por que as mudanças incomodam tanto os humanos?”, provoca o comunicador Marcelo Tas, membro da I2AI – International Association of Artificial Intelligence(I2AI), associação sem fins lucrativos que visa a adoção de IA sustentável no mundo.
Neste Em Pauta, Silveira e Tas apresentam suas visões sobre os motivos pelos quais a inteligência artificial merece um olhar atento e criterioso por parte da sociedade, trazendo dados e contextualizações para um debate que parece estar apenas começando.
IA e o seu impacto socioambiental
Por Sérgio Amadeu da Silveira
Existe uma expressão idiomática, muito popular no Brasil, que pode ser utilizada quando observamos os elementos e as dinâmicas que compõem a chamada inteligência artificial (IA). Falo da expressão “varrer a sujeira para debaixo do tapete”. Em geral, a IA é apresentada como algo limpo, avançadíssimo, neutro, superbenéfico, autônomo e que ora irá salvar a humanidade de seus males, ora dominá-la a partir da superinteligência maquínica. Aqui, neste breve artigo, inspirado nas pesquisadoras Kate Crawford e Jose Van Dijck e no pesquisador Matteo Pasquinelli, pretendo levantar o tapete e mostrar o que está sendo deliberadamente escondido.
A IA atual não é um software ou um aplicativo qualquer que instalamos no nosso celular ou computador. Em geral, quando utilizamos uma IA, temos que acessá-la pela internet. Isso porque a IA realmente existente necessita de um grande poder computacional para ser treinada. O que é treinar uma IA? É colocar grandes bases de dados em contato com algoritmos aprendizes que utilizam a estatística e a probabilidade para extrair padrões, correlações e realizar predições. A abordagem principal das chamadas inteligências artificiais atuais, baseadas em dados, são variações do aprendizado de máquina profundo.
Quando termina o treinamento de uma IA, surge um modelo que será testado e ajustado por cientistas e engenheiros. Uma vez que os donos do modelo o considerarem pronto, ele é implementado em servidores para a realização de inferências, consultas de milhares ou milhões de usuários. Não existe um grande modelo de linguagem que acessamos a partir de um chat, como o GPT, o Gemini, o Grok, entre outros, que não seja fruto do trabalho de milhares de pessoas mal remuneradas para taguear frases e imagens, e de centenas de cientistas de dados, engenheiros da computação e outros profissionais.
O insumo fundamental da IA realmente existente são os dados. Recentemente, o The Washington Post relatou que a Anthropic, dona da IA chamada Claude, adquiriu milhões de livros para remover suas lombadas, com o objetivo de digitalizá-los com maior rapidez, dando à empresa uma base de dados superior à dos seus concorrentes. Esse era o Projeto Panamá, a destruição dos livros físicos para obter dados para o chatbot Claude.
A disputa por dados só avança e mobiliza a OpenAI, Microsoft, Google, Amazon, Grupo Meta e outras. Além disso, como demonstrou Kate Crawford, no Atlas da IA (Edições Sesc São Paulo, 2025), a extração de dados é uma forma de colonialismo contemporâneo. Realizado pela apropriação massiva e não consentida de informações pessoais, sociais e culturais extraídas constantemente de diversos sites, redes, plataformas e dispositivos digitais.
Levantando ainda mais o tapete, Crawford nos traz a materialidade e os impactos socioambientais da IA. Como exemplo, o CEO da OpenAI, Sam Altman, em abril de 2025, afirmou que agradecer ao ChatGPT ou escrever “por favor” gera milhões de dólares de custos para a empresa. Isso porque o GPT não é nada além de um grande modelo de linguagem que utiliza probabilidades estatísticas para realizar suas inferências. Uma pergunta sobre “Washington”, dependendo de como é feita, gerará uma resposta sobre o general, sobre uma cidade, sobre um estado ou sobre algo que fará sentido conforme os padrões do treinamento. O sistema automatizado funciona como se fosse uma gigantesca máquina de completar sentenças. Quando enviamos em um prompt [comando de texto] “obrigado”, isso implicará em uma mobilização do modelo para dar uma resposta. O problema é que esse ato de boa educação gera um gasto de energia para o processamento da informação.
As tecnologias são expressões da cultura de uma sociedade. Precisamos inserir nossa cosmovisão e nossas perspectivas no desenvolvimento tecnológico.
No dia 10 de junho de 2025, Altman escreveu em seu blog quanto seria o consumo de energia de uma pergunta ao chatGPT: “uma consulta média utiliza cerca de 0,34 watts-hora, o equivalente ao consumo de um forno em pouco mais de um segundo, ou de uma lâmpada de alta eficiência em alguns minutos”. O chefe da OpenAI nos informa que uma mera pergunta gera um gasto de eletricidade equivalente ao consumo de 3 minutos e 24 segundos de uma lâmpada LED de 6W. Isso não é nada se pensarmos em uma pessoa, mas em 800 milhões de usuários por semana ou uma média de aproximadamente 114 milhões de usuários por dia, segundo números divulgados pela própria empresa, teremos um impacto energético expressivo. Além do mais, não existe somente a OpenAI. Há o Gemini, Claude, Grok, DeepSeek, só para falar de IAs bem conhecidas.
Não existe IA sem data centers nas atuais abordagens conexionistas. Em 2020, havia cerca de 600 data centers de hiperescala no mundo. Com o embalo da IA generativa e dos grandes modelos de linguagem (LLMs) esse número saltou para 1.136, em 2024. Um data center de hiperescala pode chegar a ter mais de 1 milhão de servidores. Em geral, sua capacidade é medida em megawatts. Praticamente 40% de seu gasto de energia é para processar dados e outros 40% são necessários para refrigerar o ambiente. Além disso, essas estruturas são altamente consumidoras de água. Em 2020, somente o Data Center do Google da cidade de The Dalles (Estados Unidos) consumiu 355,1 milhões de galões de água.
Nesse cenário, há alguns paradoxos. Os chips e processadores estão cada vez mais eficientes do ponto de vista energético, mas o gasto de energia das empresas de IA não para de crescer. Isso porque há uma bolha, uma crença de que os dados serão a solução para tudo. Há um uso crescente de GPUs (unidades de processamento gráfico), de servidores que usam aceleradores de IA, de placas da Nvidia para inferência no chip e equipamentos altamente consumidores de lítio, silício, terras raras e outros minerais. Como afirmou Kate Crowford, as cadeias de suprimento e extração mineral que sustentam a IA são sistemas globais profundamente marcados por desigualdades socioambientais, dependem da exploração intensiva de territórios, geralmente no Sul Global, e de formas precárias e inaceitáveis de trabalho humano.
Isso pode ser diferente? Sem dúvida. As tecnologias, em grande parte, são ambivalentes. Mas, para alterar as tecnologias, precisamos romper com a sua mistificação e reconhecer os processos como são desenvolvidos. Precisamos também superar a ideia de que o que é bom para as big techs é bom para o Brasil. As tecnologias são expressões da cultura de uma sociedade. Precisamos inserir nossa cosmovisão e nossas perspectivas no desenvolvimento tecnológico. Podemos construir data centers federados, de baixo impacto ambiental e podemos avançar nas tecnociências para criarmos soluções automatizadas que reduzam a degradação ambiental.
Sérgio Amadeu da Silveira é sociólogo, mestre e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. É professor associado da Universidade Federal do ABC (UFABC). É membro do Comitê Científico Deliberativo da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber). Integrou o Comitê Gestor da Internet no Brasil.
Coordenou o Governo Eletrônico da Prefeitura de São Paulo e criou o projeto Telecentros-SP. Presidiu o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (2003-2005). Pesquisa as implicações tecnopolíticas dos sistemas algoritmos; inteligência artificial e ativismo. Integra a rede de pesquisadores Tierra Común. Autor dos livros As Big techs e a guerra total (Hedra, 2025) e Democracia e os códigos invisíveis: como os algoritmos estão modulando comportamentos e escolhas políticas (Edições Sesc, 2019), entre outros. É pesquisador do CNPq /Produtividade em Pesquisa – 2.
Quem tem medo da IA?
Por Marcelo Tas
Transformação tecnológica é treta. Do fogo à eletricidade, da internet à inteligência artificial, as mudanças chegam para bagunçar o que antes parecia arrumado. Recentemente, apareceu um motorista de táxi para iluminar a minha dúvida: por que os humanos sofrem com mudanças? Sem desviar a atenção do volante, o condutor respondeu com uma lucidez assustadora: “o ser humano, meu amigo, não gosta de mudança nem quando é para melhor”. Como sempre, o taxista fica com a razão. A dúvida, com o passageiro. Afinal, por que as mudanças incomodam tanto os humanos?
Mudanças chegam sem avisar. É o caso da inteligência artificial. Até ontem, ninguém falava nela. Hoje, ninguém para de falar. A IA, como é tratada na intimidade, virou papo de botequim. O debate volumoso adiciona mais ruído que entendimento. Na minha visão, falta um ingrediente na conversa: o medo.
Medo é ferramenta vital. Sem ele, ninguém atravessa a rua com segurança. O medo é um alerta do corpo de que algo importante pode acontecer e estragar tudo. Sem encarar o medo, ninguém decide se casar ou se separar; ninguém muda de emprego ou de cidade. Encarar o medo é crucial para avançar para a próxima fase do joguinho. Faça uma busca na história da Olivetti. A marca italiana de máquinas de escrever, verdadeira joia do design e eficiência, era adorada, com razão, por escritores e jornalistas. Quando os computadores e a internet chegaram, alguns escribas se agarraram às suas Olivettis como se fossem boias para se salvar da inundação de dados. A dificuldade compreensível entre tecnologia e realidade continua. Assim como o Instagram não é retrato da vida, o computador não é um concorrente da máquina de escrever. É outra máquina com funções e capacidades mais complexas que precisa ser conhecida. Até para ser criticada e eventualmente regulamentada, como deve ser a internet, a IA e as redes sociais. O medo da mudança limita a percepção do mundo e a qualidade das conversas.
A primeira mudança exponencial na tecnologia da informação foi a prensa de tipos móveis de Gutenberg. O protótipo que mudou a história adaptou tecnologias já existentes como a engenhoca de prensar uvas para fazer vinho, tradição da região onde o inventor nasceu, o vale do rio Reno, onde hoje é a Alemanha. Assim como na cultura maker contemporânea, Gutenberg experimentou, combinou e remixou tecnologias já existentes. A prensa do alemão me inspira a celebrar a gambiarra brasileira, que precisa ser valorizada.
Antes de Gutenberg, os livros já existiam. Só na Europa, estima-se em cerca de 5 milhões de exemplares. Feitos à mão, um a um, por monges copistas, eram guardados em mosteiros e palácios, com acesso restrito ao público. Pós-Gutenberg, em apenas 50 anos, as prensas estavam em mais de 200 cidades e vilarejos europeus. Ao final do século 18, o número de livros impressos batia em 1 bilhão, de acordo com levantamentos de fontes como o Centre for Economic Policy Research. A circulação de informação e opiniões causou conflitos e avanços. A igreja perdeu o monopólio da interpretação dos textos sagrados. A comunicação acelerada impulsionou a Reforma Protestante. Vieram guerras religiosas nas quais morrem milhões. Por outro lado, a troca ágil conectou cientistas e pensadores. Seguiu-se um período abundante em surgimentos: de descobertas científicas, do jornalismo, das artes visuais e da ideia de opinião pública. Por conta dos avanços, o período recebeu o nome de Renascença. Para você, o período que vivemos vai virar uma nova Renascença ou um apocalipse zumbi?
A disrupção que é considerada o início da história humana, a escrita, traz mais uma pista para encarar a treta atual. Encontrados em Uruk, na antiga Pérsia, por volta de 3,5 mil a.C., os códigos rabiscados em argila permaneceram um mistério por muito tempo. Especulava-se que seriam profecias, estratégias militares, fórmulas de bruxaria… Só em 1973, a pesquisadora franco-estadunidense Denise Schamandt-Besserat comprovou que eram registros do comércio de grãos, azeite, tecidos, animais… Uma espécie de planilha à lenha para dar conta do crescimento vertiginoso das primeiras cidades da história. E cobrar os impostos, claro. Com a escrita, a informação ganhou materialidade. Uma nova casta de burocratas e sacerdotes assumiu o monopólio de registar e, portanto, controlar a sociedade. A humanidade entrou na era da aceleração dos negócios, do espalhamento de mentiras documentadas e da elaboração de leis para garantir o poder nas mãos dos mesmos. Soa familiar?
Hoje, IA e a própria internet estão sob controle de poucos, com baixa ou nenhuma transparência. Há evidências científicas cabais do uso proposital de algoritmos para viciar crianças nas telas.
Teoria matemática da comunicação, um artigo científico de 1948, mostra como transformar a realidade em números. O engenheiro Claude Shannon criou uma fórmula para medir, tratar e prever os ruídos na transmissão de dados. É considerado um dos pilares da inteligência artificial moderna. Há outros mais antigos. Jean Baptiste Joseph Fourier, físico francês, traduziu no século 18 as vibrações sonoras e ondas de calor em equações. Hoje, o app Shazam usa Fourier na sua IA para identificar qual é a música que você está ouvindo. A startup brasileira Tractian, fundada por três jovens engenheiros da USP, usa Fourier para prever quando uma máquina industrial irá quebrar. Com clientes no Brasil, México e Estados Unidos, representa caso raro de sucesso brasileiro em hardware tech, setor dominado por China e Estados Unidos.
Todos os dias, aplicativos de IA são oferecidos gratuitamente na internet. “Gratuitamente”, com aspas reforçadas. Na chegada das redes sociais, se deu o mesmo. Em 2003, no entusiasmo de participar da democratização prometida pela internet, escrevi no primeiro post do Blog do Tas um dos pioneiros no portal UOL: “Finalmente, virei o Roberto Marinho de mim mesmo”. Só que não, né? Hoje, IA e a própria internet estão sob controle de poucos, com baixa ou nenhuma transparência. Há evidências científicas cabais do uso proposital de algoritmos para viciar crianças nas telas. Finalmente, alguns poderosos das big techs começam a frequentar o banco dos réus nas altas cortes dos Estados Unidos e Europa. Não podemos ficar paralisados sem pressionar bilionários gulosos e plataformas que teimam em turbinar o desenvolvimento da IA fugindo da responsabilidade dos efeitos danosos ao ambiente e à mente dos humanos.
Já que IA virou papo de botequim, converse com quem está ao seu lado, não fique paralisado pelo medo, assuma a responsabilidade das suas escolhas. E anote o alerta do meu amigo, grande pensador brasileiro, Ailton Krenak: sem as abelhas, estamos ferrados.
Marcelo Tas é comunicador e educador, graduado em Engenharia pela POLI-USP. Atua como palestrante e mentor em empresas. Atualmente, apresenta o Provoca, na TV Cultura. É membro do Conselho Consultivo da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) e da I2AI (International Association of Artificial Intelligence), associação sem fins lucrativos que visa a adoção de IA sustentável no mundo.
A EDIÇÃO DE ABRIL DE 2026 DA REVISTA E ESTÁ NO AR!
Para ler a versão digital da Revista E e ficar por dentro de outros conteúdos exclusivos, acesse a nossa página no Portal do Sesc ou baixe grátis o app Sesc SP no seu celular! (download disponível para aparelhos Android ou IOS).
Siga a Revista E nas redes sociais:
Instagram / Facebook / Youtube
A seguir, leia a edição de ABRIL na íntegra. Se preferir, baixe o PDF para levar a Revista E contigo para onde você quiser!
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.