Escrita sem fronteiras

01/06/2026

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Obras literárias brasileiras ampliam sua circulação e reconhecimento fora do país, com editoras e premiações estrangeiras de olho em diversidade (imagem: Lucas Blat)

Leia a edição de Junho/26 da Revista E na íntegra

POR DIEGO OLIVARES

Em fevereiro, quando o nome da escritora brasileira Ana Paula Maia apareceu entre os treze semifinalistas ao Booker Prize internacional, categoria dedicada aos livros originalmente escritos em língua não inglesa da tradicional premiação britânica, muita gente se surpreendeu. Até ela mesma. “Minha editora no Reino Unido inscreveu o livro para tentar a indicação, mas eu nem sabia. Simplesmente acordei um dia com a notícia de que era semifinalista”, conta. No final de março, Ana Paula e seu romance Assim na terra como embaixo da terra (Record, 2017) ainda avançaram para a final, junto com outros cinco títulos de diferentes países. 

Apesar da surpresa de parte do público leitor – e da própria autora –, nomeações de obras brasileiras ao Booker Prize têm sido recorrentes na história recente. Em 2022, Paulo Scott foi semifinalista com Marrom e amarelo (Companhia das Letras 2019), e em 2024 foi a vez de Torto arado (Todavia, 2019) de Itamar Vieira Junior chegar até a final. O retrospecto comprova um aumento do interesse do mercado literário internacional nos nossos escritores.

“Desde a década passada houve uma diversificação da nossa literatura de uma maneira geral. Quanto mais você diversifica e amplifica o número de vozes que está publicando, mais chances você tem de se ramificar para entrar nas editoras estrangeiras”, explica Fernando Rinaldi, coordenador de direitos autorais da Companhia das Letras e um dos responsáveis pelo licenciamento de obras da editora para o exterior. “Os livros que publicamos aqui são algo que as editoras estrangeiras gostariam de publicar também. São assuntos universais, mas tratados de uma forma local”.

Ana Paula Maia concorreu ao prêmio Booker Prize deste ano com distopia violenta que se passa numa colônia penal (foto: Pablo Contreras)

A pluralidade de estilos e gêneros literários é um traço forte da literatura brasileira contemporânea, como comprovam as obras que vêm ganhando projeção para além do território nacional. Assim na terra como embaixo da terra, lançado originalmente no Brasil em 2017 e publicado no Reino Unido em 2025, quando foi eleito um dos melhores do ano pelo jornal The Guardian, é uma distopia com traços de faroeste e terror que se passa numa colônia penal isolada, na qual os detentos estão sujeitos à violência de um diretor sádico. Enquanto as relações de poder e a exploração de sujeitos menos favorecidos são temas clássicos da literatura mundial, o fato de a colônia ter sido construída sobre um antigo terreno que foi cenário de tortura de escravizados dialoga com traumas históricos brasileiros.

Em mais de 20 anos de sua carreira como autora, Ana Paula já teve obras publicadas em 15 países, em oito línguas: inglês, espanhol, alemão, francês, italiano, holandês, sérvio e turco. Desde a indicação ao Booker, esses números vêm aumentando. “A literatura tem um poder de alcance que atravessa o tempo e o espaço. Da mesma forma que um autor russo do século 19 me toca, espero que o Assim na terra como embaixo da terra chegue em outros leitores daqui a 100 anos e eles possam reconhecer um recorte do mundo em que vivemos”, reflete.

Para Jeferson Tenório, autor de O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020), vencedor do Prêmio Jabuti e que já circula em 15 países, há um interesse estrangeiro em aprofundar o conhecimento sobre o Brasil. “Os leitores querem descobrir um país que saia do estereótipo de futebol, samba e violência”, relata. “Estamos vivendo um momento de valorização de autores negros, autores índigenas, autores que a gente não estava acostumado a ver no cânone. Talvez seja uma tentativa de recontar ao mundo a nossa história e as origens da nossa sociedade”, completa.

Conforme as fronteiras alcançadas por livros brasileiros se ampliam, cada vez mais autores vivem a sensação de exportar as palavras que colocam nas páginas. É o caso da paulistana Aline Bei, que começa a engatar uma carreira internacional, fora do Brasil e Portugal, onde já havia circulado suas obras.

Uma delicada coleção de ausências (Companhia das Letras, 2025), seu livro mais recente, acaba de ser publicado na Itália, e já teve os direitos vendidos para ganhar versões em inglês e francês. “Os italianos estão conhecendo meu trabalho, enquanto no Brasil muitas leitoras já têm uma visão mais geral do meu projeto literário, que é de dedicar muita atenção não só ao assunto, mas à forma”, compara.

Enquanto dá os primeiros passos como autora internacional, ela procura equilibrar a responsabilidade de levar algo da nossa cultura para o exterior com o desprendimento necessário para a criação literária livre. “Em certo sentido, a gente se sente muito mais brasileiro quando é lido fora. É uma forma de reafirmar nossa nacionalidade, nossa cultura, nosso repertório”, reconhece.

Aline Bei e a edição italiana de seu romance mais recente, Uma delicada coleção de ausências (foto: Nilton Fukuda)

Conquistar territórios
Aline passou boa parte do mês de maio viajando pela Itália, divulgando seu livro em cidades como Padova, Milão e Roma, além da Feira Internacional do Livro de Turim, um dos principais eventos literários da Europa. A presença em feiras como essa é uma estratégia importante não apenas para autores, mas também para editores, agentes e figuras que orbitam o ambiente das letras.

Em 2008, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e o Ministério das Relações Exteriores criaram o Brazilian Publishers. O projeto tem como objetivo promover a internacionalização da produção editorial brasileira, apoiando editoras nacionais na venda de livros e na negociação de direitos autorais para publicação no exterior.

“O Brazilian Publishers oferece treinamentos, estudos de mercado e orientação sobre práticas internacionais de negociação, ajudando os editores brasileiros a entenderem melhor as demandas externas, precificar direitos e estruturar contratos”, ressalta Sevani Matos, presidente da CBL. A profissional comemora os resultados robustos, colhidos nos últimos anos: “Em 2025, por exemplo, editoras participantes do Brazilian Publishers movimentaram mais de 24 milhões de dólares em negócios internacionais ao longo do ano, evidenciando o avanço da internacionalização do setor”, destaca. “Um dado ainda mais revelador é que, apenas no primeiro semestre de 2025, essas editoras já haviam gerado cerca de 14,3 milhões de dólares em negócios, valor que supera todo o resultado de 2024”. O desafio é fazer com que esse movimento siga numa trajetória crescente.

Em 2013, o Brasil chegou a ser pela segunda vez o país homenageado na Feira de Frankfurt, na Alemanha – a primeira havia sido em 1994. Na ocasião, uma delegação oficial de 70 autores participou do evento, considerado o maior do mundo literário, numa escalação que incluía nomes então em ascensão, como Andrea Del Fuego, Daniel Galera e Silviano Santiago, ao lado de veteranos como Adélia Prado, Ziraldo (1932-2024), Ruy Castro, Ignácio de Loyola Brandão e João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). 

“Em 2013 estavam postas mais algumas demandas e alguns incômodos dessa ausência da literatura nacional no exterior. Mas agora estamos caminhando”, relembra Rinaldi, da Companhia das Letras. “O que vemos hoje é resultado de uma mudança cultural a partir dos anos 2010, com um olhar mais atento para pautas sociais, ambientais, feministas e LGBT+”, afirma.

Nos últimos anos, a Companhia das Letras adotou como prática no mercado internacional a aproximação com editoras de médio e pequeno porte que, com menos títulos em seu catálogo, podem dar atenção especial a cada lançamento. Foi o que aconteceu com o romance A palavra que resta (2021), de Stênio Gardel, publicado nos Estados Unidos pelo selo independente New Vessel Press, e premiado em 2023 como melhor livro traduzido no prestigioso National Book Awards.

“Pensar em outros países, em países asiáticos, escandinavos, enfim, tem também a ver com esse movimento de um olhar diferente para a maneira como a gente faz o trabalho. Não pensar só nas grandes casas editoriais em países que estão no centro do mundo”, diz o coordenador.

Fernando Rinaldi, da Companhia das Letras, com alguns dos livros da editora que ganharam versão internacional nos últimos anos (foto: Nilton Fukuda)

Na ponta da língua
Além do editor, há outra figura fundamental e quase invisível no processo de internacionalização dos livros: o tradutor. Para fomentar essa função essencial, a Biblioteca Nacional conta com um programa de apoio à tradução, que oferece bolsas periódicas para editoras estrangeiras publicarem autores brasileiros. 

“Traduzir um livro é fazê-lo nascer em outra língua”, define Jeferson Tenório. “O tradutor acaba sendo um coautor. Ele precisa entender o espírito daquele livro e levar isso para o seu idioma, de forma que o leitor tenha a sensação de estar diante da obra original”, completa.

Dilemas linguísticos se tornaram corriqueiros para a australiana Alison Entrekin, que passou mais de uma década vertendo para o inglês as 560 páginas de Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa (1908-1967). A obra, que em 2026 completa 70 anos desde sua publicação original, ganha agora uma nova edição internacional em comemoração à efeméride.

“Meu trabalho foi entender o original, e pensar como ele construiu determinada frase ou palavra, para então fazer todo um caminho de reconstrução no inglês”, conta Alison, que diz que, no caso dos neologismos, teve de olhar qual é a técnica usada pelo autor. “[Observo se o vocábulo] Veio da junção dessa palavra com aquela palavra. Aí eu vou traduzir essas duas palavras, cortar e tentar juntar partes dessas palavras para ver se crio alguma coisa que tem vida e que transmite as mesmas coisas”, exemplifica.

“Estamos vivendo um momento de valorização de autores negros, autores indígenas, autores que a gente não estava acostumado a ver no cânone. Talvez seja uma tentativa de recontar ao mundo a nossa história e as origens da nossa sociedade.”

Jeferson Tenório, escritor

(foto: Carlos Macedo)

A australiana tem no currículo a adaptação de textos de escritores emblemáticos da nossa literatura, como Clarice Lispector (1920-1977) e Chico Buarque. Nos últimos anos, ela viu a demanda crescer. Trabalhou nas traduções de Ainda estou aqui (Companhia das Letras, 2015), escrito por Marcelo Rubens Paiva, Tudo é rio (Record, 2021), de Carla Madeira, e A árvore mais sozinha do mundo (Todavia, 2024), de Mariana Salomão Carrara, entre outros.

Alison identifica na nossa literatura certos traços que podem ser vistos como “experimentais” no mercado anglófono. “A literatura normalmente publicada nos Estados Unidos é muito mais comportada”, analisa. “Então às vezes eu percebo um estranhamento dos editores de lá em relação à linguagem, à pontuação, quando leem o livro completo traduzido. Aí eu explico que o autor ou autora propositadamente quebra algumas regras, e é sempre uma discussão muito interessante”.

Amor à primeira linha
Quem ocupa o posto informal de embaixadora da literatura brasileira em solo estrangeiro é a estadunidense Courtney Henning Novak, criadora de conteúdo para a internet. Há dois anos, um vídeo em que ela cobre de elogios a obra de Machado de Assis (1839-1908) Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) viralizou nas redes sociais. “Virou um dos meus livros favoritos”, conta. “Fiquei vidrada com o ritmo, o humor e a maneira como ele brinca com a linguagem. Dá para notar que se trata de um gênio escrevendo um tipo de literatura que só ele poderia escrever”. Com a repercussão do vídeo, Courtney passou a receber recomendações do público brasileiro, incentivando-a a ler outras obras de Machado. Ela então passou para Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899) (“Capitu não traiu, aliás”, salienta, entre risos, opinando sobre o famoso mistério do texto) e seguiu fascinada.

Durante sua empreitada de ler um livro de cada país do mundo, que a levou a Memórias póstumas, começou um projeto paralelo, dedicado apenas a autores brasileiros. Ali, ela mescla a leitura de clássicos de Clarice Lispector e Jorge Amado (1912-2001) com escritores contemporâneos. Entre aqueles que mais gostou, cita Torto arado, Os supridores (Todavia, 2020), de José Falero, e Suíte Tóquio (Todavia, 2020), de Giovana Madalosso, que também entrou na lista do The New York Times dos 100 melhores livros lançados nos Estados Unidos em 2025. “Acho a literatura brasileira efervescente. O fato de não estar totalmente presa a uma tradição europeia dá liberdade para não se limitar a formatos antigos”, enaltece.

Ao conhecer a obra de Machado de Assis, a criadora de conteúdo Courtney Henning Novak, dos Estados Unidos, se apaixonou pela literatura brasileira (foto: acervo Courtney Henning Novak)

O amor à primeira vista que Courtney sentiu assim que colocou os olhos em Memórias póstumas teve a tradutora Flora Thomson-DeVeaux como uma espécie de cupido. Sua versão em inglês do romance, lançada em 2020 pela Penguin Classics, esgotou a primeira tiragem no site da Amazon no dia em que chegou ao mercado. Após dois meses, a edição já estava no quinto lote.

A tradução de Flora é a quarta para o inglês e foi feita inicialmente para sua tese de doutorado na Universidade Brown, uma das principais dos Estados Unidos. O foco em contextualizar detalhes da sociedade brasileira satirizada por Machado foi seu diferencial. “Eu queria mergulhar naquilo que o leitor anglófono do século 21 não sabe, para explicar por que Machado é tão genial”, explica.

Ver novos leitores se apaixonando pelo texto do célebre carioca tem um gosto de reparação histórica. “Se a Courtney aparece indignada naquele vídeo, se perguntando como não conhecia Machado antes, é porque ele não chegou à corrente sanguínea da literatura anglófona quando deveria ter chegado”, afirma Flora. E complementa: “É muito importante a gente tirar o atraso, mas é muito importante também a gente apoiar a tradução e a circulação das obras atuais para que a literatura brasileira possa dialogar com seus pares em tempo real”.  

para ver no Sesc
Livros nossos
Bibliotecas do Sesc oferecem acesso gratuito a obras de autores brasileiros que têm ganhado projeção no exterior (foto: Bruna Damasceno)

Entre os 160 mil títulos que atualmente compõem o acervo das bibliotecas fixas presentes em 22 unidades do Sesc na capital, interior e litoral paulista, é possível encontrar diversas obras que estão sendo destaque no mercado internacional. Assim na terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia, Torto arado, de Itamar Vieira Junior, e Marrom e amarelo, de Paulo Scott, todos indicados ao Booker Prize internacional, fazem parte do catálogo, que também tem livros como O avesso da pele, de Jeferson Tenório, Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso, Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, Tudo é rio, de Carla Madeira, O peso do pássaro morto, de Aline Bei, e A palavra que resta, de Stênio Gardel, vencedor do National Book Award.

Há ainda romances de autores que atravessam gerações no Brasil e no mundo já há algum tempo: Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, A hora da estrela, de Clarice Lispector, Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, e O homem que falava javanês, de Lima Barreto, são algumas das opções. Crianças e jovens também encontram nas estantes histórias que cruzaram fronteiras, como João por um fio, escrito por Roger Mello, sucesso nos Estados Unidos, Europa, China e América Latina.

Entre os meses de janeiro e março deste ano, as bibliotecas do Sesc e os seis caminhões itinerantes do Bibliosesc realizaram um total de 65 mil empréstimos. Os espaços têm como premissas a democratização do acesso e o estímulo à leitura. Para pegar um livro, é necessário apresentar a Credencial Plena ou fazer um cadastro simples em uma das unidades, levando documento oficial com foto e comprovante de residência. É possível ficar com até cinco livros simultaneamente, e o período de empréstimo é de 15 dias, com direito a três renovações, desde que o título não esteja reservado por outro usuário.

O acervo pode ser consultado no site: sesc.i10bibliotecas.com.br

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