
Leia a edição de Junho/26 da Revista E na íntegra
POR SÍLVIA GOMEZ
ILUSTRAÇÕES ADRIANA KOMURA
Escrita em 2021 para o Grupo Galpão (MG), esta peça teatral, que virou um filme dirigido por Clarissa Campolina e Fernanda Vianna, foi construída durante a pandemia em diálogo com o grupo. O texto aqui publicado é o excerto inicial da obra, que reflete esse encontro e se inspira, em especial, em uma história de viagem contada em uma das reuniões pela atriz Teuda Bara (1941-2025), uma das fundadoras do Galpão e referência do teatro nacional, falecida aos 84 anos em Belo Horizonte no dia 25 de dezembro de 2025. À sua luminosa memória!

“Eu tô grávida. Esperando um furacão, um fio de cabelo, uma bolha de sabão. E vou parir. Sobre a cidade. Quando a noite contrair. E quando o sol dilatar. Vou dar à luz”. “Grávida”, canção de Arnaldo Antunes, por Marina Lima.
“Não planejar demais. Às vezes, deixar-se nas mãos do acaso pode revelar-se útil, principalmente se o lugar é desconhecido”.
“Um bom par de sapatos e um caderno de anotações”, Tchékhov
Quem, como:
Uma mulher gesta um estado de fúria.
Uma única narrativa em fluxo que viaja pelos integrantes do Galpão, essa companhia de teatro que sempre nos levou em viagem. De algumas delas, nunca mais voltamos. Mas continuamos – com ela – sempre partindo, grávidos de sua imaginação.
(Narrativa a ser revezada pelas pessoas como num carrossel)
Itinerário:
1. Aceitar que as coisas são estranhas
Uma mensagem digitada aos poucos a um destinatário desconhecido.
Alguém disse que a gente viaja não tanto para saber como é o mundo para além da nossa porta, mas para entender de onde a gente veio.
Por isso, eu parti.
E, agora, estou tentando voltar.
Mas alguma coisa muito estranha aconteceu.
(……digitando)
Eu não consigo retornar.
Música.
2. Conhecer as regras do vôlei
Imagens de partidas de vôlei. Ou os próprios atores jogam vôlei.
“O objetivo é enviar a bola por cima da rede, de modos que ela toque o chão do adversário”, ele dizia desse jeito, “de modos que” e eu ficava muito ansiosa esperando o início da aula porque eu sabia que em algum momento ele diria “de modos que” porque ele sempre arranjava um jeito de empregar “de modos que” nas frases e eu gostava muito de ver o professor de antebraços fortes empregando “de modos que” numa aula de educação física porque basicamente eu gosto de homens e mulheres com antebraços fortes e bem desenhados e muito mais de homens e mulheres com antebraços fortes e bem desenhados que usam “de modos que”.
O que era o caso dele.
Por isso também, nunca me casei – por nunca mais ter encontrado exatamente esse tipo de homem ou mulher.Os homens e as mulheres não dizem mais “de modos que”.
Ou, quando dizem, não possuem antebraços fortes e bem desenhados.
Muito difícil encontrar essas duas coisas combinadas.
Eu, pelo menos, nunca mais encontrei.
Se você conseguiu, parabéns.
Congratulations.
Mas não foi o meu caso.
O que não quer dizer que eu não esteja ótima. Na verdade, só contei isso para explicar por que eu parti.
Porque eu sempre fui o maior lixo jogando vôlei.
3. Aceitar que as coisas podem ficar ainda mais estranhas
Mensagem a um interlocutor desconhecido.
É. Não sabem me dizer sobre o meu destino.
(…digitando)
Não há passagens de volta nas companhias e quando pergunto ao atendente…
(troca de linguagem/agora vemos a continuação da mensagem, mas narrada)
BH, sim, “bi-eidi”, Minas Gerais-Brasil, não sabem o que é “bi-eidi” e muito menos BH, eu repito BH-BRASIL, eles respondem, senhora, me perdoe, este destino não temos disponibilidade, com licença, senhora, libere a fila, excuse-me, madam, this is the line for Latin America, essa é a fila para América Latina, NEXT, próximo.
…..
Eles me chamam de madam e em algum momento sempre perguntam o que uma madame como eu veio fazer em um lugar que não fala sua língua?
(…voltamos a ver apenas a digitação)
Sinto tontura.
Eu tenho cara de madam?
Tontura e náusea queimante.
É um tipo de ironia numa língua que eu não entendo?
(mensagem volta a ser narrada)
‘O que uma madam como a senhora veio fazer em um lugar que não fala sua língua? Please, madam’
(ela está furiosa)
Que língua eu deveria falar, sir?
Me diga, por favor. Que língua eu estou falando, fucking shit sir? Tontura e náusea queimante. “Esta língua é a minha pátria”, tem uma música no meu país que diz isso, sir! Que língua é esta que o senhor acha que eu estou falando?
(ela está ofegante, alguém precisa acalmá-la. Voltamos a ver apenas a digitação)
Me dei conta de que não entendo nenhuma língua direito, apenas a do meu país.
(mensagem volta a ser narrada)
Você me entende enquanto tento contar este relato? O relato de uma viagem sem retorno? Um relato ainda é um relato se não temos como voltar para o lugar de onde viemos?
Bom, mas parece que não consta. Nem tipo baldeação.
Eu amo a palavra baldeação. Me faz pensar em coca-cola de máquina, livros de geografia e atlas de bolso.
Eu amo os atlas de bolso.
Mas a verdade é que o meu país aparentemente só consta no meu velho e manjado atlas de bolso.
(mensagem volta a ser digitada)
É uma coisa muito estranha.
(…digitando)
Sinto tontura e náusea queimante.
(… digitando)
Uma coisa estranha pra valer.

4. Saber a diferença entre saque por baixo e saque por cima
Imagens de partidas de vôlei de praia. Ou os atores jogam.
Porque, de alguma forma, pessoas com antebraços fortes e bem desenhados, ou melhor, bem ‘torneados’ porque ‘torneado’ me faz pensar em torneios com pessoas saudáveis e bronzeadas, ah, não importa, o que quero dizer é que, de alguma forma, homens e mulheres com antebraços fortes e torneados estão aptos a eficientes saques por cima.
O saque é a principal arma do vôlei, de modos que toda jogada começa com um saque, toda jogada termina com um corte explosivo que toca o chão, na verdade, os melhores jogadores de braços fortes e torneados abrem crateras explosivas com suas cortadas fulminantes no solo, entendeu? Se você não entende isso, você não entende nada de vôlei, você passou a vida fingindo que sabia o que era voleibol, mas você não sabe o que é voleibol se você não conhece a diferença entre sacar por cima e sacar por baixo.
……
Eu nunca consegui sacar por cima.
……
Já me senti muito humilhada por isso.
O meu saque por cima nunca foi capaz de ultrapassar a rede e chegar do outro lado e tocar o chão do adversário.
Na verdade, eu sempre era a última a ser escolhida, a que sobrava, aquela de quem diziam: ‘merda, alguém tem de ficar com ela’. Então, eu esperava no banco de reserva com meus fones de ouvido escutando Rita Lee porque levantava o meu astral que, você deve imaginar, ficava lá embaixo.
Música dançante.
Não tenho antebraços fortes e torneados, como pode-se comprovar.
……
Nunca tive força nem fibra nem músculos nem tendões nem autoconfiança nem vigor nem poder nem fúria suficiente para sacar por cima.
Muito menos fúria.
Alguém disse que você precisa de pelo menos uma porção de fúria para dar um belo saque por cima ou uma cortada capaz de abrir crateras no terreno adversário.
……
Eu estava à procura disso.
Eu estava à procura dessa fúria quando soube do vulcão.
Desejava adquiri-la.
Mas fúria não é uma coisa assim que a gente compra no supermercado.
Você precisa fazer um caminho até ela. Uma peregrinação.
É isso que eu desejava quando soube do vulcão. O vulcão do outro lado do mundo que me fez partir, na verdade, a imagem daqueles amigos em uma PARTIDA DE VÔLEI À SOMBRA DO VULCÃO.
Projeção:
uma turma de amigos joga vôlei à frente de
um vulcão em erupção na Islândia.
Como se fosse um evento qualquer, como se a terra sob seus pés não estivesse em estado de fúria.
A mesma fúria que eu sempre procurei para conseguir dar um saque por cima numa partida de voleibol.
Por isso, quando vi a imagem, ou melhor, quando soube que aquele vulcão não pararia de cuspir fogo e fúria antes que eu o encontrasse, eu parti.
Eu sabia que eu não tinha muitos dias, ou melhor, eu sabia que eu precisava chegar a tempo porque a fúria não te espera, ela tem suas particularidades, a fúria em estado puro não para pelos indecisos medrosos cagões, ela só aceita os que peregrinaram por ela em sacrifício, a terra é rara e caprichosa quando se manifesta porque essa é a natureza efêmera dos portais.
Se não, não seriam portais. Seriam shoppings.
……
Por isso, eu arrumei as malas o mais rapidamente que eu pude e parti.
Parti em busca do vulcão.

Sílvia Gomez atua como dramaturga, roteirista e jornalista. Autora de peças como O céu cinco minutos antes da tempestade, Mantenha fora do alcance do bebê e Lady Tempestade. Suas peças foram traduzidas para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, mandarim e sueco, tendo sido encenadas e lidas em países como Argentina, Bolívia, Colômbia, Escócia, Espanha, Inglaterra, México e Portugal. Em 2026, venceu o Prêmio Shell de Teatro e o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), com Lady Tempestade. Desde 2017, dá aulas de dramaturgia.
Adriana Komura nasceu em São Paulo (SP). É bacharel em Editoração pela Universidade de São Paulo. Ganhadora do prêmio de mérito da 47th e 49th Society of Publication Design (categoria Ilustração), também foi selecionada para o Prêmio Jabuti 2018 (categoria Ilustração) e para o World Illustration Awards 2023 (categoria Publicações). Atualmente, atua como designer e ilustradora freelancer.
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