
Qual é a identidade de La Paz? Essa pergunta foi o ponto de partida do coletivo Teatro Feroz, da capital boliviana, e da diretora Samadi Valcarcel para construir La Paz – Performática, obra apresentada no MIRADA 2026.
“A partir dessa pergunta, nos questionamos não só sobre a cidade, mas sobre as pessoas que vivem nela. La Paz é uma cidade caótica, performática e com bloqueios territoriais, complexa como toda grande cidade latino-americana”, explica Samadi. “Entendemos que o tempo da cidade está atravessado, que o passado volta como futuro”, completa.
Teatro, música e performance se combinam para retratar La Paz, abordando sua história recente, a violência da ditadura, a cultura do futebol, as lutas sociais e diferentes aspectos da vida urbana. Em cinco momentos, o elenco articula projeções, canções e interação com o público para discutir a identidade e as transformações da capital.
“O paceño, o boliviano, de modo geral, dança quando está feliz, mas também quando está triste. Dançamos o tempo todo. É nossa forma de resistir aos conflitos, de dizer que estamos vivos”, conta a diretora, citando como um dos conflitos atuais o fato de a Bolívia não contar com um Ministério da Cultura.
Quem assiste a La Paz – Performática é convidado a experimentar essa resistência no espaço cênico, junto com os atores. “Queríamos que as pessoas tivessem acesso à parte documental, com as projeções, mas que fizessem uma imersão no espaço que retrata a ditadura. O espectador se sente atravessado pela época dos desaparecidos políticos durante o regime de Luis García Meza. O público inclusive ajuda a buscar os desaparecidos.”
Para criar essa experiência, a obra utiliza o áudio real de um desaparecido político e convida o público a jogar futebol, dançar cueca boliviana e interagir com personagens cotidianos como um engraxate e uma vendedora de empanadas. São elementos que buscam produzir uma compreensão não apenas intelectual de La Paz, mas sensorial e física.
Sons urbanos
A música tem papel fundamental na performance. “Os sons urbanos que temos nas ruas de La Paz, como os dos mercados populares, são mesclados com a cúmbia, um gênero musical que você ouve em qualquer rua paceña”, explica Israel Alberto, responsável pela direção de som e iluminação nas apresentações do MIRADA, além do desenho e da edição de vídeo e mapping.
A trilha sonora também contribui para a reconstrução de diferentes períodos da história da cidade. “Os áudios das mensagens que a ditadura transmitia despertam memórias em um paceño. Também usamos músicas da época, assim como músicas folclóricas”, completa Israel.
Para Samadi Valcarcel, tudo na obra é performance. “Os sons cotidianos e oníricos se mesclam para que os personagens componham um sonho mágico que é La Paz à noite, por exemplo. Assim como a La Paz periférica, a obscura ou a não convencional.”
Samadi integra o Teatro Feroz desde 2010, ano de criação do grupo. O coletivo desenvolve trabalhos que transitam pelo biodrama, teatro documental e linguagens multidisciplinares. Sua produção, marcada pelo feminismo e pela experimentação, já foi apresentada e reconhecida em diferentes países.
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