FLOR DO ASFALTO | Encontros com a empreendedora social Neide Santos

01/05/2023

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Criadora do projeto Vida Corrida, Neide Santos muda a realidade de mulheres e crianças da periferia de São Paulo por meio do esporte

Por Maria Júlia Lledó

Leia a edição de maio/23 da Revista E na íntegra

Marineide Santos Silva chegou à capital paulista na caçamba de um pau de arara, quando criança, na década de 1960. Depois de desembarcar no Terminal Rodoviário da Luz, que funcionou até 1982 na Praça Júlio Prestes, no Centro de São Paulo, ela foi parar numa oficina de costura, onde começou a trabalhar, até que o poder público, ao descobrir seu paradeiro, a realocou em Cotia (SP), na casa de um casal de japoneses cujo sonho era ter filhos. Eles se tornaram seus tutores até ela encontrar sua família biológica. Foi a partir desse momento que, aos 12 anos de idade, Neide entrou na escola e, inspirada por um professor de matemática, deu largada a um novo capítulo de vida dedicado ao esporte.

A prática de atividades físicas, principalmente da corrida, foi decisiva na vida de Neide Santos, que precocemente vivenciou perdas – a do marido, em 1979, e a do filho mais velho, Mark, em 2000, em situações de violência no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, onde mora até hoje com a família. Decidida a também ajudar outras mulheres a superar traumas e dificuldades como as suas, criou, em 1999, o Projeto Vida Corrida. De lá para cá, a iniciativa se transformou em organização não governamental e já mudou a realidade de milhares de pessoas por meio da prática esportiva em espaços urbanos públicos.

Atualmente, o Projeto Vida Corrida atende 800 pessoas, metade mulheres e a outra metade crianças (55% são meninas e 45% são meninos), emprega 22 funcionários e soma mais de 30 voluntários, entre parceiros, colaboradores e mentores de dentro e fora da comunidade, como gestores de grandes empresas. Mãe, avó e bisavó, a presidente-fundadora e voluntária da ONG Projeto Vida Corrida é a convidada deste Encontros, compartilhando conosco como o esporte pode, de fato, mudar vidas.

Família

Nossa família no Capão Redondo era diferenciada. Eu era a única mulher atleta em corridas de rua na cidade de São Paulo. Meus filhos praticavam esporte. A gente saía daqui, atravessava a ponte e ia para o [Centro Esportivo Municipal] Joerg Bruder, para o Sesc Interlagos, que era o único polo esportivo que tínhamos na década de 1970 por perto. E o sonho do meu filho Mark [que foi morto aos 21 anos de idade após reagir a um assalto, em 2000] era que nossa comunidade pudesse vivenciar isso que nós vivenciamos e que a gente tanto ama. Eu achei a minha tão sonhada felicidade motivando outras pessoas à prática esportiva, porque o esporte transforma vidas e, para mim, aqui no Capão Redondo, o esporte salva vidas, como salvou a minha e a de centenas de jovens. Eu costumo dizer que a mesma comunidade que tirou a minha família [Neide também perdeu o marido, em 1979] me deu milhares de filhos para cuidar.

Escola

Comecei minha prática esportiva influenciada por um professor de matemática que era apaixonado por esportes. Ele me apresentou várias modalidades que, até então, eu não conhecia: handebol, vôlei e queimada. No campeonato colegial, no Capão Redondo, eu fui no Joerg Bruder, onde as escolas se encontravam para disputar várias modalidades, e aí faltou uma menina no revezamento 4 por 100m. O professor me tirou do handebol, e disse que eu era muito rápida em quadra, que eu ia tirar de letra. Desde então, nunca mais parei de correr. É por isso que hoje, no Vida Corrida, a gente oferece várias modalidades, porque eu acredito que toda criança tem que vivenciá-las até chegar num ponto em que ela vai gostar de uma e falar: “Essa será a paixão que vou levar para o resto da vida”. Mas também acredito muito no brincar, no lúdico.

Esporte

A primeira vez que eu assisti a uma olimpíada pela TV, em preto e branco, foi na década de 1970. Ali eu vi a humanidade. Tinha países que estavam em guerra e seus representantes estavam nas mesmas raias, nas mesmas pistas, nas quatro linhas, nos tatames. Isso é a humanidade: todo mundo com o único propósito de jogar os jogos olímpicos. Desde muito cedo, o esporte foi entrando e enraizando. Ali estavam todas as crenças, todos os credos. Desde muito cedo, enxerguei um ser humano na minha frente. Sempre um ser humano.

Começo

O Vida Corrida surgiu na década de 1990. Um jornalista me entrevistou na [Corrida de] São Silvestre e me perguntou de onde eu vinha. Na hora, ele anunciou que eu era a única mulher da periferia de São Paulo correndo uma São Silvestre. No dia seguinte, na comunidade, eu fui à quitanda e me falaram: “Eu te vi ontem na TV. Você é atleta!”. Expliquei que nunca fui uma atleta de alto rendimento, mas em 1975 as mulheres correram a São Silvestre pela primeira vez, corrida de rua, e foi quando falei assim: “Então, não vou parar de correr na rua”. Depois disso, uma senhora de 60 anos, Maria Gonçalves, que nunca tinha corrido na vida, quis correr comigo. Ela tinha um excelente condicionamento, veio da roça, da lavoura, do trabalho braçal. Foi a primeira “crossfiteira” que eu conheci. Não demorou muito tempo para Maria Gonçalves se tornar uma maratonista. Em 2012, ela foi a única mulher de 75 anos a cruzar a linha de chegada da Maratona Internacional de São Paulo.

Transformação

Depois dela, vieram várias mulheres querendo correr. Eu digo que não fui eu que me tornei inspiração, foi Maria Gonçalves, porque elas me falavam: “Se essa mulher, nessa idade, consegue todas essas proezas, por que eu também não posso?”. E foi assim que começou: uma mulher inspirando outra, uma compartilhando com a outra os benefícios da atividade física, o quão importante era e quanto agregava na vida delas. Além disso, era ir além daquela rotina diária nas comunidades. A mulher era aquela que tinha que levantar cedo, preparar o café da manhã, o almoço, o lanche da tarde e o jantar. Imagine, num domingo, essa mulher sair de casa para uma corrida, não preparar o café da manhã e chegar na hora do almoço? Elas começaram a descobrir outras coisas que eram importantes. Até uma delas veio me falar: “Cheguei em casa e meu marido tinha preparado o almoço para toda a família”. Depois, elas me falaram: “Vamos atender as nossas meninas, os nossos filhos?”. E foi assim que começou um simples trabalho na comunidade. Comecei a atender às terças e quintas, e aí aumentou o número de crianças no projeto.

Troféu

Para nós, a maior medalha que uma mãe favelada, uma mãe periférica pode ter é ter um filho digno e honesto. E se ele for um atleta [palmas], vamos celebrar mais ainda. Lógico que a gente quer ver um filho nosso jogando basquete, um dia, na NBA, mas são poucos que vão chegar lá, né? Hoje, parte dos nossos jovens e adolescentes estão na universidade – uma empresa esportiva paga a universidade e uma ajuda de custo para mantê-los, para que tenham tempo de fazer sua prática esportiva. Olha quanta conquista para uma mulher que terminou os estudos aos 59 anos. Essa mulher que já falou na Assembleia Geral da ONU.

Percurso

Quando começou o projeto, não tinha ideia [do que aconteceria]. Imaginava que fosse durar algum tempo, mas que meu futuro seria ter uma lojinha na comunidade, costurando minhas próprias peças e vendendo. Só que deu uma guinada de forma extraordinária com o passar do tempo. Depois de 10 anos, veio o primeiro patrocínio, que permanece até hoje. Depois vieram leis de incentivo, e o Sesc São Paulo nos convidando para palestras e mais participações. Eu sou muito curiosa. Aprendi a ler, e quando eu cheguei na tão sonhada universidade, descobri que não preciso mais dela. Tenho uma grande virtude: quando eu não sei algo, falo: “Por favor, me ensina? Eu quero aprender”. Peço ajuda para os universitários, os doutores e professores.

Avante

Eu vivi tudo isso: desde morar num barraco de favela, na beira do córrego, conviver com ratos, mas sempre com sonhos. O que eu faço vem de tudo que me foi negado, que eu não tive direito e acesso, mas eu vejo que hoje posso proporcionar isso, transformar a vida de outras pessoas. Hoje eu tenho jovens que estão trabalhando e estudando no Canadá. Hoje eu vejo nossas mulheres irem para uma universidade e sonhar, um dia, trabalhar como professora de educação física no projeto. Mulheres que resolveram empreender, ou seja, que passaram de cuidar dos filhos dos outros para empreender na comunidade, para ter tempo de fazer uma prática esportiva, levar seu filho à escola e estar mais perto do convívio da família. Por que não? “Cada favelado é um universo em crise. Quem não quer brilhar? Ninguém aqui quer ser coadjuvante de ninguém”, são frases dos Racionais MC’s [versos da música Da ponte pra cá]. Porque a vida é um jogo onde vencer, para nós, é a única saída.

Laços

O afeto é revolucionário, porque aqui a gente cria um ambiente seguro onde as pessoas são ouvidas, respeitadas. As relações no entorno, o respeito às particularidades, o investimento nas potencialidades de cada um são muito importantes. Na comunidade, nós temos laços sociais, o que é fundamental. Nós somos, estamos e fazemos como, por e para pessoas. São laços de solidariedade, laços de cidadania, laços afetivos. Agindo assim, nós conseguimos impactar governos, empresas e a sociedade civil. E se faz necessário contar essas histórias e falar do passado. Porque para escrever o futuro, precisamos conhecer o passado e cuidar do presente. Eu costumo dizer: “Não mude seus sonhos, mude o mundo”. Nada pode parar o que podemos fazer juntos. E o Vida Corrida leva essa bandeira: que nenhum dos nossos atendidos ficará sem atividade física em momento algum.

Ouça aqui, em formato de podcast, a conversa com Neide Costa:

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