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O que você quer ser quando crescer?

Iniciativas nas áreas de cultura e tecnologia tornam-se saída criativa para jovens ingressarem no mercado de trabalho


A banca é uma produtora cultural social de impacto positivo que utiliza a música, a cultura hip hop, a educação popular e a tecnologia a fim de promover o empreendedorismo juvenil na periferia de São Paulo | Foto: Divulgação

As respostas para a pergunta do título estão cada vez mais criativas. Às clássicas profissões, como médico, advogado, engenheiro, professor e dentista, somam-se outros tantos ofícios ligados ao mundo da tecnologia e da cultura, que hoje fazem brilhar os olhos de crianças e jovens. São novas possibilidades que diversificam o cenário do mercado de trabalho e surgem para driblar as estatísticas de desemprego no país, além de estarem ligadas a causas que esses jovens acreditam. Segundo o último levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego entre os jovens de 18 a 24 anos é de 25,9%. Houve uma alta de 6,5% desde 2015. Chamados de “nem-nem”, por não estarem trabalhando nem estudando, eles buscam caminhos para se tornar parte da população economicamente ativa.

“Há uma injunção a ser ‘criativo’ e a inventar os próprios trabalhos. O campo da chamada economia criativa abrange uma vasta gama de setores (da publicidade às artes) e tornou-se aparentemente importante para a inserção dos jovens”, observa a socióloga Livia de Tomassi, que nos últimos anos se dedica a estudar a difusão do empreendedorismo entre jovens, especificamente no campo da cultura.

Para o músico e produtor cultural Daniel “Kafuzo” Ferreira, de 22 anos, a cultura é a “grande virada de chave” para a juventude. Kafuzo é empreendedor e um dos representantes da produtora cultural social A Banca, criada na década de 1990, no Jardim Ângela, zona sul da capital paulista. A produtora surgiu como um movimento juvenil despretensioso que queria mudar o cenário de violência da região.

 


O programa Jovens Urbanos realiza atividades para incentivar a permanência dos jovens na escola, bem como promover sua inserção no mercado de trabalho | Foto: Christiane Bernardes



Fundada por Marcelo Rocha (DJ Bola), e também composta por Fabiana Ivo e Macarrão, a A Banca voltou-se para o negócio de impacto. Entre seus objetivos estão ações em escolas públicas e particulares, para onde se leva uma metodologia própria chamada Vivência de Cultura Urbana, que se baseia na cultura hip hop, na cultura urbana e na educação popular. “São ferramentas para nos aproximar e dialogar com a juventude sobre empreendedorismo, acesso à tecnologia, cultura, educação e outros temas que permeiam o cotidiano dos jovens de hoje”, destaca Kafuzo.

Mensalmente, a A Banca ainda convida grupos musicais e artistas para apresentar seus trabalhos e realiza uma batalha de MCs (mestres de cerimônia) com premiação do primeiro colocado, gravação de uma música (no estúdio da produtora) e distribuição do trabalho em lojas digitais. Ações que visam fomentar o artista independente a conquistar mercado e aprender a canalizar seus investimentos.

“Fomos forjados dentro da cultura do hip hop e passamos a entender as diversas possibilidades ao nosso redor. No início, era realizar eventos, e, hoje, somos artistas que falam de negócios e que têm propósitos que impactam positivamente as pessoas”, acrescenta Kafuzo.

 

Emancipação e direção

Esses jovens empreendedores enxergam, nesse novo cenário, a possibilidade não só de remuneração como também de autorrealização. “Para muitos jovens artistas e produtores culturais, abrir o próprio negócio, empreender, virou um objetivo não somente para conseguir o sustento econômico, mas também para conseguir emancipação política”, afirma a socióloga Livia de Tomassi.

Esse é o caso da soteropolitana Monique Evelle, de 22 anos, reconhecida em 2017, pela revista Forbes, como uma dos 30 jovens com menos de 30 anos de idade mais promissores do país. Monique já sonhou em ser escritora, engenheira ambiental e advogada, mas escolheu se formar em Política e Gestão Cultural. Em 2011, criou a organização Desabafo Social (confira abaixo em Educação criativa), que promove educação em direitos humanos e incentiva o empreendedorismo social.

De lá pra cá, milhares de jovens de oito estados brasileiros já foram alcançados. “A parte boa é que nenhum jovem sai com respostas das nossas oficinas e atividades. Saem com mais questionamentos, inclusive da própria carreira. Conseguem enxergar que é possível mudar, transformar ou alterar as coisas, principalmente suas escolhas e ainda mais neste contexto de transformações rápidas”, diz. “Se eu pergunto o que querem ser quando crescer, podem responder ‘advogado’ e, no dia seguinte, ‘engenheiro’ ou ‘artista’. É um processo de constante mudança.”

Segundo a pesquisadora Carla Corrochano, que já atuou como consultora da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para a elaboração da Agenda Nacional do Trabalho Decente para a Juventude, ainda que os jovens participem de uma experiência geracional comum, tomada por revoluções tecnológicas, “o trabalho e as condições a que são submetidos, seus modos de vida, escolhas, pensamentos e comportamentos irão variar de acordo com outros pertencimentos – de classe social, território, inserção cultural, gênero etc.”

 


Entidade sem fins lucrativos, a Favela Mundo é outra iniciativa voltada para capacitação profissional de jovens em comunidades do Rio de Janeiro. Entre alguns projetos, o Arte Gerando Renda realiza, neste ano, oficinas de artes cênicas, estética e carnaval na Rocinha e em Piedade | Foto: Cacau Fernandes

 

Cultura e imaginário

Tendo em vista essa preocupação, a Associação Cultural Liga do Funk promove atividades como instrumento de inclusão social. Criada em novembro de 2012 pelo produtor Marcelo Galático, a Liga do Funk fomenta o crescimento profissional de jovens a partir de aulas de postura de palco, canto, teatro e rima no funk, além de promover debates sobre variados temas atuais, tais como direito das mulheres, LGBTS e drogas.

Nos últimos quatro anos, 50 mil jovens já passaram pela Liga do Funk, seja pelo contato direto ou indireto, pelas redes sociais ou por atividades itinerantes. “A cultura é muito importante e consegue ser transversal. Pela cultura podemos trabalhar questões como mobilidade urbana, política nacional, direito das mulheres, direito das crianças; ela tem esse poder de trabalhar o imaginário. Trabalhamos, mas não somos CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]. Estamos formando jovens através da cultura”, enfatiza Bruno Ramos, vice-presidente da Associação Cultural Liga do Funk e representante do Conselho Nacional da Juventude.

Outro objetivo da associação é que seja colocado em prática o exercício da cidadania e que os jovens estejam munidos de informação para difundir suas atividades artísticas. “O funk passou a ser uma realidade que tem empregado muitos jovens. Uma alternativa ‘limpa’ para o jovem crescer na vida. Sou morador da periferia de São Paulo e, por causa do funk, já rodei o Brasil, discuto políticas públicas e estudo sociologia e ciências políticas. Tudo isso me ajuda a pagar minhas contas”, complementa.

Esses e outros exemplos demonstram como, diariamente, os jovens precisam driblar obstáculos e, de acordo com Corrochano, sem um projeto de nação desenvolvida e de ponta, certamente os desafios daqueles que são hoje jovens ou crianças, de qualquer camada da população, serão ainda maiores que os atuais. “E a precariedade da economia poderá comprometer sucessivas gerações”, alerta.

O músico e produtor Kafuzo acredita que a soma de políticas públicas, educação e protagonismo juvenil pode mudar esse cenário. “Hoje a juventude é cheia de sonhos e vontades, porém temos uma educação e uma realidade que nos condiciona ao trabalho comum e nos deixa bestializados, sem saber por que e para que produzir aquilo, sem impacto algum”, declara. “Então, nós mostramos uma possibilidade diferente, falamos sobre isso porque vemos jovens com ideias geniais que só precisam de direção.”

 


O projeto Cooperativa de Artistas visa à emancipação e profissionalização do coletivos artísticos do bairro Cidade Tiradentes (SP) | Foto: Divulgação

 


Educação criativa


Conheça iniciativas e coletivos que oferecem formação para jovens em áreas como tecnologia, empreendedorismo social e gestão de projetos culturais

 

Desabafo Social
Com sede em Salvador, a organização foi criada em 2011 pela soteropolitana Monique Evelle e já impactou mais de duas mil pessoas de oito estados do país. Pelo viés da comunicação e de novas tecnologias, o Desabafo promove educação em direitos humanos, além de incentivar o empreendedorismo social. Entre os projetos realizados pela organização está o Inventividades – Circuito Empreendedor nas Periferias, que promove ciclos de workshops e premiação de projetos na área da economia criativa. (Saiba mais: desabafosocial.com.br)


Foto: Divulgação

 

Jovem Monitor Cultural
Programa de formação e experimentação profissional em gestão cultural para as juventudes criado em 2008 pela Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo, sob coordenação do Centro Cultural da Juventude. O objetivo é que o jovem possa ampliar seu repertório e experimentação, na prática, em relação aos diversos aspectos da gestão cultural: como funciona um equipamento/departamento cultural, produção, desenvolvimento de projetos, entre outras atividades. (Saiba mais: jovemmonitorcultural.prefeitura.sp.gov.br)


InfoPreta
Criado em 2013, com sede em São Paulo, o coletivo tem como objetivo impulsionar mulheres (cis e trans) moradoras da periferia em situação de vulnerabilidade para o campo profissional de serviços como formatação de computadores, produção de material web e gráfico, desenvolvimento de website e aplicativos, entre outras atividades. Para isso, promove palestras, cursos e oficinas de tecnologia, inovação e empreendedorismo com foco em relações étnico-raciais, gênero e diversidade. (Saiba mais: infopreta.com.br)

 

Fab Lab Livre SP
Resultado de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da Prefeitura de São Paulo e do Instituto de Tecnologia Social, os Fab Labs são abertos e acessíveis a todas as pessoas que tenham interesse em aprender, desenvolver e construir projetos coletivos ou pessoais, envolvendo tecnologia de fabricação digital, eletrônica, técnicas tradicionais e práticas artísticas. Ao todo, são 12 laboratórios que integram a Rede Pública de Laboratórios de Fabricação Digital no município de São Paulo. (Saiba mais: fablablivresp.art.br)


Foto: Divulgação

 


Dilemas, invenções e caminhos


Seminário reúne pesquisadores e coletivos para dialogar sobre os desafios e as potencialidades de inserção dos jovens no trabalho

 

Nos dias 13 e 14 de setembro, o Sesc Bom Retiro recebe gestores, educadores, coletivos de jovens e pesquisadores para o seminário Jovens e Trabalho: Dilemas, Invenções e Caminhos. Tendo o atual cenário socioeconômico, político e cultural como painel, o encontro joga luz sobre questões que envolvem jovens e desafios em relação a esse tema.

A abordagem quanto ao mundo do trabalho foca em transformações contemporâneas e suas ambiguidades. Ou seja, ao mesmo tempo em que há oportunidade de inserção no mercado de trabalho, tem-se a precarização de direitos. Para discutir esses e outros temas estarão presentes sociólogos, educadores, psicólogos e pesquisadores da área.

Na programação, também haverá depoimentos de coletivos e grupos culturais nos quais os jovens são protagonistas. Entre eles: Cooperativa dos Artistas, Liga do Funk, Ocupa Colaborativa, InfoPreta e A Banca. Também será exibido o documentário Nunca Me Sonharam, de Cacau Rhoden. O filme traça um panorama sobre o ensino médio nas escolas públicas brasileiras do ponto de vista dos estudantes.

 

 

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