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Cuidar e Cuidar-se: a atuação de profissionais da saúde de Guarulhos

A série de podcasts “Cuidar e Cuidar-se: a atuação de profissionais da saúde de Guarulhos” apresenta depoimentos de profissionais que atuam no atendimento em promoção à saúde e bem-estar de crianças e suas famílias. As conversas, mediadas pela equipe do Espaço de Brincar do Sesc Guarulhos, buscam trazer visibilidade à atuação destes profissionais, que falam sobre sua metodologia de trabalho, seus anseios, as dificuldades enfrentadas no dia a dia, e os diversos aprendizados e saberes adquiridos em suas vivências sobretudo durante a pandemia de COVID-19. A atividade faz parte do projeto Cuidar de Quem Cuida, ação em rede do Sesc São Paulo sobre o universo da primeira infância (bebês e crianças de zero a seis anos) e seus cuidadores de referência.

A partir de uma pesquisa realizada junto ao público-alvo da ação – familiares de crianças de 0 a 6 anos de idade e profissionais da área –, alguns questionamentos são levados para a conversa, aliados a questões relativas ao atendimento que as profissionais de saúde convidadas têm prestado às famílias e relacionadas, ainda, ao apoio e cuidados devidos a essas próprias profissionais. São conversas que contribuem para compreendermos melhor a atuação e esclarecermos dúvidas a respeito da rede de serviços local, de forma que possamos não apenas cuidar, mas também cuidar de quem cuida. A ação traz as participações de agentes de saúde da UBS Vila Fátima, de representantes da Pastoral da Criança e da psicóloga Patrícia L. Paione Grinfeld.

Clique aqui para acompanhar os podcasts do Cuidar e Cuidar-se no canal do Sesc Guarulhos.

Acompanhe a transcrição dos podcasts por aqui!

 

 

 

[Vinheta de Abertura] – Cuidar de Quem Cuida. Está no ar o “Cuidar e Cuidar-se: a atuação de profissionais da saúde de Guarulhos”, podcast vinculado ao “Cuidar de Quem Cuida”, projeto de ação em rede do Sesc São Paulo que propõe reflexões em torno das pessoas vinculadas aos cuidados com bebês e crianças de zero a seis anos.  

Barbara Martins - Olá! Sejam todas bem-vindas e todos bem-vindos ao segundo episódio do “Cuidar e Cuidar-se”. Meu nome é Barbara Martins e eu sou educadora de referência do Espaço de Brincar do Sesc Guarulhos. Hoje conversaremos com a Bruna Mascarenhas, a Giselle Viana, a Solange Melo e a Sônia Regina de Lima. Elas são agentes de saúde da UBS Vila Fátima, território vizinho ao Sesc. Olá, Bruna, Giselle, Solange e Sônia. Sejam bem-vindas. Obrigada por estarem conosco hoje nessa conversa.  

Como ficou o funcionamento da UBS quando a pandemia começou? E quanto ao trabalho de vocês? Isso foi mudando com o passar do tempo? Como ambos, o funcionamento da UBS e o trabalho de vocês, estão hoje?  

Sônia Regina de Lima – Então, a pandemia começou em Março de 2020. E quanto ao nosso trabalho, no início as visitas foram suspensas, as consultas também, exceto as gestantes. Depois a própria Secretaria foi liberando as vagas pelo Diário Oficial, anunciando com a gerência quanto aos limites de atendimento que deveriam ser feitos. Cinquenta por cento, depois foi para setenta e cinco, depois para cem. Aí logo depois, alguns funcionários acabaram ficando afastados. Devido à comorbidade, eu mesma acabei me afastando porque eu tenho asma. Alguns tinham pressão alta, outros têm diabetes. Então, ficou um tempo afastado e acabou tendo mudanças na nossa rotina também porque alguns funcionários acabaram ficando sobrecarregados com isso. Mas acabou tudo dando um jeito. Aqueles que ficaram conseguiram cumprir a função dos outros junto. Com o passar do tempo a gente foi retomando as visitas, só que tomando aqueles cuidados. Usando os EPIs que foi nos fornecido pela prefeitura, como o uso da máscara, a máscara de acrílico que eles mandaram, o álcool gel que era para a gente usar nas visitas. E fazíamos as visitas mantendo o distanciamento, mantendo até hoje. Não é para nós adentrarmos a casa dos cadastrados, fazemos as visitas nos portões, mas também orientando contra a dengue, o COVID. E caso apresentar algum sintoma, eles tiram as dúvidas com a gente e a gente orienta qual a forma correta. Quando houve a redução dos casos, nós voltamos às visitas domiciliares, mas tomando todas as precauções.  

Barbara Martins – Como vocês se sentiram com a chegada da pandemia? Houve preocupações relacionadas ao trabalho? Individualmente, dentro da vida pessoal, como vocês se sentiram? E com o passar do tempo, como vêm se sentindo?  

Giselle Vianna – Então, todos nós ficamos muito apreensivos, com medo por ser uma doença desconhecida. Até então, a gente tinha uma rotina normal. Do dia para a noite, essa rotina foi totalmente parada. Eu lembro que em torno de quinze dias São Paulo parou por completo. Então, ficamos com medo por causa disso. Aí, houve também as preocupações relacionadas ao trabalho porque a gente também ficou com medo de pegar a doença, de adquirir a COVID. A gente ficou com medo, algumas pessoas se afastaram e aí acabou ficando sobrecarregado também o trabalho da equipe. Também houve cancelamento de férias, de folga, de licenças, por esse motivo. Com o passar do tempo, a gente está se sentindo impotente porque por ser uma doença nova, toda hora mudam as orientações, até mesmo do próprio Ministério da Saúde... A gente não sabe como lidar ainda. No começo eu lembro que se falou que era uma doença que se você pegasse depois você não ia mais pegar e já mudou isso. E a gente também se sente impotente com relação às famílias por outros problemas de saúde que elas têm, porque devido ao COVID tem que parar um pouco as consultas eletivas. Aí teve esse problema.  

Barbara Martins – Perfeito, Giselle. Vocês já mencionaram algumas informações relacionadas às adequações nos atendimentos às famílias: o distanciamento, o não adentramento das residências... Houve, ainda, outras adequações com relação aos elementos que vocês tinham como premissa observar nas visitas domiciliares: perguntas, orientações novas que vocês se viram encarregadas de fazer nesse momento?  

Giselle Viana – Ah sim, então, a gente teve um formulário de sintomáticos respiratórios. A gente quando voltou às visitas, na verdade, era com esse objetivo: de alcançar essas pessoas que estavam nas suas residências com sintomas de COVID. A gente preenchia o formulário, levava para a UBS e no outro dia essa pessoa já passava com a enfermeira e, se tivesse necessidade, passava com o médico. Se precisasse, também, afastar do serviço, o médico já afastava. Aí, tinha toda essa questão.  

Tinha uma pessoa que ficava encarregada de ligar para esse paciente, monitorando ele para ver se ele melhorou, se ele piorou. Qualquer coisa, orientava a ir para o hospital. Aí teve essa parceria. A gente fez esse trabalho na UBS.  

Barbara Martins – Por conta da mudança de quadro de funcionários na UBS, como em muitos equipamentos e instituições por conta da pandemia, pacientes infantis vêm precisando ser encaminhados para outras unidades. Vocês observaram alguma redução na procura das famílias por atendimento médico? Sei que já comentaram redução no atendimento por consultas eletivas, mas há ainda alguma informação que vocês acrescentariam? Talvez em relação às vacinas obrigatórias?  

Giselle Viana – Ah sim, houve sim. A gente via a apreensão das mães, que tinham medo de levar as crianças na UBS para dar as vacinas, por conta da pandemia. E, também, em questão da pediatria. Elas só estão levando mais em último caso mesmo.  

O que acontece [é que] a nossa UBS teve ajuda da pediatra de outra UBS, dependendo da faixa etária. A gente estava com o médico da família, que estava atendendo as crianças de zero a seis meses. As crianças maiorzinhas a UBS Parque Cecap estava dando um apoio para a gente. E crianças maiores de dois anos estavam indo para a UBS Ponte Grande. A gente teve esse apoio dessas UBSs porque a nossa pediatra era grupo de risco e está afastada no período. Ela não voltou ainda.  

Mas a gente percebeu, sim, esse medo dos pais. Eles tinham medo de não levar e a criança ficar ruim, ou de levar e a criança ser contaminada. Em visita a gente via essa questão e até orientava assim: se fosse uma coisa só de rotina, se visse que a criança estava bem, para evitar mesmo estar levando de rotina, só se fosse um caso necessário, uma criança que já tivesse uma patologia crônica, alguma coisa que precisasse de um acompanhamento mais específico, para evitar estar indo aos locais, para ficar mais restritos ao lar mesmo.  

Barbara Martins – Certo, Giselle. Obrigada! Agora, para a pergunta seguinte, eu gostaria de fazer um direcionamento para a Bruna e para a Solange. Com relação a questões de comportamento e saúde mental e emocional dessas famílias também. A gente tem ouvido uma série de relatos relativos a alterações no comportamento das crianças e sobre sentimentos de ansiedade, estresse, medo, que vêm acometendo as pessoas de forma geral. O que vocês vieram observando nas visitas domiciliares ao longo da pandemia? E, especificamente, no que diz respeito aos estados mentais e emocionais e ao comportamento das crianças, o que as famílias vêm relatando ao longo desse tempo?  

Bruna Mascarenhas - Então, nesse período - como, assim, elas ficaram sem ir para a escola também, né? -, as mães se queixavam que elas ficavam muito irritadas, ficavam muito tempo no celular ou assistindo muitos vídeos, não poderiam sair na rua e nem brincar com as outras crianças, então, isso provocava uma irritabilidade nelas. E também, assim, com dificuldade de fazer a lição, porque a rotina mudou totalmente. Então, não é a mesma coisa de a criança fazer a lição na escola e estar em casa o tempo todo, todo dia, ali, fazendo a lição. E, muitas mães, também não conseguiam acompanhar essa tarefa. Então, isso provocava algum medo, angústia nas crianças, também, saudade da escola – muitos ficaram, nesse período - e teve crianças que [essa situação] ocasionou alguns problemas de ansiedade, e outras coisas que não apareciam antes da pandemia. Com a chegada da pandemia, isso aconteceu bastante com algumas crianças.  

Teve mães que foram até à UBS atrás de psicólogo - e todas elas foram atendidas – com essas mudanças de comportamento que [as crianças] tiveram nesse período.  

Barbara Martins – Certo! Para a gente ramificar essa pergunta, gostaria de perguntar para a Solange. Bruna, você comentou sobre a procura das famílias por atendimento psicoterapêutico, por psicóloga, psicólogo. Gostaria de perguntar: qual é o procedimento para as famílias terem essa demanda atendida na UBS? Como veio sendo, talvez, em função da alta procura, como vocês vieram lidando com essa demanda? Se a Solange puder responder, por favor...  

Solange Melo – A demanda era a seguinte: a criança era direcionada para a UBS, lá passava pelo acolhimento com a enfermeira, e depois a possibilidade de passar com o médico - se o médico estivesse no momento – aí o médico encaminhava para um especialista mais competente, que pudesse atendê-lo.  

Barbara Martins – Muito obrigada pela participação Bruna, Giselle, Solange e Sônia!  

[Encerramento] - Esse foi o segundo episódio do podcast “Cuidar e cuidar-se: a atuação de profissionais da saúde de Guarulhos”. Continuem acompanhando nossa série. Na próxima semana conversaremos com a Leonor Rodrigues de Moura, coordenadora da Pastoral da Criança em Guarulhos, e com o Victor Andrade, coordenador da UBS Vila Fátima. Obrigada todas as ouvintes e todos os ouvintes e até mais!  

 

 

[Vinheta de abertura] Cuidar de Quem Cuida. Está no ar o “Cuidar e cuidar-se: a atuação de profissionais da saúde de Guarulhos”, podcast vinculado ao “Cuidar de Quem Cuida”, projeto de ação em rede do Sesc São Paulo que propõe reflexões em torno das pessoas vinculadas aos cuidados com bebês e crianças de zero a seis anos. 

Barbara Martins – Olá! Sejam todas bem-vindas e todos bem-vindos ao primeiro episódio do “Cuidar e Cuidar-se". Meu nome é Barbara Martins e eu sou educadora de referência do Espaço de Brincar do Sesc Guarulhos. Hoje conversaremos com a Eliana dos Anjos. A Eliana é líder na Pastoral da Criança há dez anos e há três anos começou a atuar também como coordenadora comunitária e paroquial. Ela atua no território da Vila Fátima, vizinho ao Sesc. 

Olá, Eliana! Seja bem-vinda. Obrigada por estar conosco hoje nessa conversa!

Eliana dos Anjos – Olá, Bárbara! Olá, pessoal! Tudo bem? Eu agradeço aqui pelo convite! Estamos aí, à disposição. 

Barbara Martins – Nós é que agradecemos a presença, Eliana!

Eliana, como funciona o trabalho da Pastoral da Criança e qual é o seu papel nesta organização?

Eliana dos Anjos – Antes de falar da Pastoral, eu gostaria de fazer uma breve introdução sobre a Pastoral da Criança. Ela foi criada em 1983, em Florestópolis, no Paraná, pela médica sanitarista e pediatra Dra. Zilda Arns, e também pelo então arcebispo de Londrina (PR), o cardeal, que hoje é emérito, dom Geraldo Magella Agnelo. E a Pastoral da Criança está presente em todos os estados brasileiros e em dez países da África, da Ásia, da América Latina e do Caribe. 

A Pastoral da Criança trabalha por um mundo sem mortes materno-infantis evitáveis e onde todas as crianças, mesmo as mais vulneráveis, vivam em um ambiente favorável ao seu desenvolvimento. E a missão da Pastoral da Criança é promover o desenvolvimento das crianças, opção [preferencial] pelos pobres, desde o ventre materno até os seis anos de idade, por meio das orientações básicas de saúde, nutrição, educação, cidadania e fundamentadas na mística cristã que une fé e vida, contribuindo para que as famílias e comunidades, sem distinção de raça, cor, credo, profissão, nacionalidade, ou credo religioso e político, realizem sua própria transformação.

A missão da Pastoral da Criança está voltada para essas famílias carentes, como eu acabei de explicar, e para realizar esse trabalho da Pastoral, ela conta com pessoas voluntárias, que passam por uma capacitação, que nós chamamos de “Guia do Líder”. É o material que nós temos que faz com que a gente tenha condições e formações para levar para as famílias que nós acompanhamos e, essas pessoas, depois que passam por uma capacitação, com esse “Guia do Líder”, elas são denominadas “Líder”. Esses líderes atuam na tarefa de acompanhar essas famílias vizinhas, no entorno da sua comunidade, tendo como resultado esperado promover a dignidade humana. 

Hoje, o meu papel – essa sua segunda pergunta [sobre] qual é o meu papel nessa organização –, hoje eu estou, como você inicialmente já abriu a conversa falando, como coordenadora de comunidade e como coordenadora paroquial. Eu assumo também atividades de líder, eu acompanho 15 famílias mensalmente, por meio das visitas domiciliares – hoje à distância, com o uso do aplicativo “Visita Domiciliar”, em função da pandemia –, além de participar da Celebração da Vida, que é um encontro com as famílias, que nós fazemos mensalmente, e o RRA, que é uma reunião de análise e reflexão da nossa caminhada, que também é feita mensalmente. Eu tenho uma outra atividade, como capacitadora desse “Guia do Líder”, de oficinas e também desse aplicativo  “Visita Domiciliar”.

Barbara Martins – E, Eliana, a Pastoral também tem relação com os equipamentos de saúde do território, como as UBSs [Unidades Básicas de Saúde], não é? Você poderia nos contar um pouco mais sobre essa parceria?

Eliana dos Anjos – Então, a Pastoral da Criança incentiva a criarmos parcerias com diversos órgãos, dentre eles, o serviço de saúde. O contato que estabelecemos com a UBS Vila Fátima hoje é extremamente positivo, porque sabemos que podemos contar com o apoio da equipe sempre que nos deparamos com causas delicadas, urgentes e específicas de alguma família da comunidade, assim como eles nos fornecem as informações concretas e precisas para que possamos compartilhar com outras pessoas com segurança, evitando, assim, hoje que nós temos uma quantidade imensa de fake news. Então, quando a gente vem com a informação ali precisa, nós também passamos com maior segurança, né, e passa também essa transparência para a população. Por outro [lado], sempre que possível, nós procuramos participar das reuniões mensais da UBS com o intuito de nos mantermos atualizados.

Barbara Martins – Agora, Eliana, um pouco sobre você - mais pessoalmente. Como você se sentiu quando a pandemia começou? Havia preocupações com relação ao trabalho? E como foi se sentindo ao longo do tempo?

Eliana dos Anjos – Sim! Então, lá no início do mês de março de 2020, nós estávamos nos preparando para as atividades pertinentes daquele mês, que são as reuniões, as visitas domiciliares - presenciais na ocasião - e a Celebração da Vida, que é esse encontro com as famílias. E, de uma hora para outra, tudo teve que ser interrompido imediatamente por conta da pandemia que estava se aproximando. Aí, claro, não tinha como não ser, foi um tremendo balde de água fria! Foram tantas incertezas e mal sabíamos, nós e o mundo, o que viria pela frente. Até pensamos que seria uma interrupção breve, mas infelizmente isso não se confirmou e estamos convivendo com isso até hoje, né?!

E, como fomos pegos de surpresa e tudo era muito novo, as preocupações foram inevitáveis. Porém, ao longo de um tempo, essas preocupações deram espaço a um leque de oportunidades que permitiu, e permite, nos reinventarmos a cada dia, principalmente com o uso da tecnologia, tudo dentro da metodologia da Pastoral da Criança, e sempre focados nos cuidados para com os mais necessitados.

Barbara Martins – Pegando o gancho dessas reinvenções, eu gostaria de perguntar: por quais adequações o trabalho de atendimento da Pastoral passou com a chegada da pandemia? Você foi mencionando algumas ao longo das suas falas até agora, mas você poderia nos contar mais um pouco mais a respeito?

Eliana dos Anjos – Sim! Então, com um olhar sempre atento aos protocolos das autoridades sanitárias, às orientações da igreja local, à preservação da vida e saúde que envolve as famílias assistidas, e as nossas famílias e também as vidas dos nossos líderes, que estão conosco nessa caminhada, a Pastoral da Criança passou por algumas adequações. Com relação às reuniões, que eu já comentei anteriormente, que é o nosso RRA, nós tivemos que migrar para as plataformas de reunião on-line, que permitiu que as informações necessárias fossem bem colocadas a exemplo do que ocorre presencialmente. 

Fizemos uso dos grupos de WhatsApp: intensificamos os avisos, os comunicados, as informações, sugestões, solicitação de ideias da equipe, porque nós precisamos muito de estar envolvendo todo o nosso grupo nessa mudança, nessa transformação, adequando a esse trabalho e, com essas ideias que eles nos deram, que são todas pertinentes, claro, ao nosso trabalho, através de um grupo de WhatsApp, que nós já tínhamos, mas ele se intensificou, como eu falei. 

Com relação às nossas famílias assistidas: o WhatsApp foi muito útil também para nos comunicarmos com as famílias, por diversos motivos, e, principalmente, para enviarmos e aguardarmos o retorno das questões referentes à visita mensal de cada criança ou gestante para que possamos inserir no aplicativo “Visita Domiciliar”.

Com relação às visitas presenciais, por motivo de segurança, tanto para nós quanto para as famílias assistidas pela Pastoral da Criança, as visitas presenciais nas residências das famílias acompanhadas ou que querem ser acompanhadas, ocorrem apenas nos casos em que houver de fato a necessidade. No mais, tentamos nos comunicar à distância.

E nós temos também, dentro desse nosso trabalho que eu citei lá em cima, as capacitações, essas capacitações para formar líderes, ou para fazer um reforço de algo que nós já estamos trabalhando. Então, com relação às capacitações, nós tivemos que adequar algumas capacitações por meio da plataforma Google Meet.

Barbara Martins – E sobre o aplicativo da Pastoral, que é essa ferramenta tão inovadora, você poderia nos contar um pouco mais a respeito? Como funciona? Ele surgiu anteriormente à pandemia, correto?

Eliana dos Anjos – Exatamente! Nós fomos beneficiados com esse aplicativo há uns dois anos aproximadamente, aqui a Diocese de Guarulhos – falando aqui desse nosso “mundo”, aqui do nosso território. Então, esse aplicativo é conhecido como “App Visita Domiciliar”. Ele é de criação da própria Pastoral da Criança e tem um conteúdo específico para cada faixa etária ou no caso das gestantes, semanas de gestação, no qual as visitas mensais são realizadas por meio eletrônico, e permite, assim, que o vínculo com as famílias acompanhadas seja mantido. Então, nós não perdemos esse contato. Isso fez com que nós nos aproximássemos, talvez, até mais. 

Após a conclusão das visitas, os dados são transmitidos em tempo real para o sistema central da Pastoral da Criança, em Curitiba, que é a sede da pastoral, que fará análise das informações com o propósito de programar novas ações, formações e identificar eventuais deficiências. Esse aplicativo tem por objetivo auxiliar os líderes nas visitas e orientar as famílias através de dicas, de pontos de atenção, ele apresenta vídeos, ele tem uma opção lá de acompanhamento nutricional, ele fornece umas cartinhas de orientação de acordo com o resultado do peso e altura das crianças. E também, essas cartinhas, essas cartelas de orientação, é possível compartilhar por WhatsApp, com o responsável pela família ou por qualquer outra pessoa que esteja ali em volta da criança. Além de ele fornecer também conteúdos interativos como os brinquedos e brincadeiras, alimentações e capacitações. As capacitações, eu disse anteriormente que poderiam ser feitas através de plataformas on-line, mas nós temos também, nesse aplicativo, as capacitações que a gente consegue fazer. Tem perguntas e respostas, então, é um conteúdo, assim, bastante rico. 

E, assim, com o uso do aplicativo, houve uma significativa redução de alguns materiais impressos, gerando assim economia de papel, colaboração com o meio ambiente, claro, né, tivemos redução com correios, transporte, combustível, sem contar que o “App Visita Domiciliar” proporciona agilidade na transmissão dos dados, permitindo ter acesso instantaneamente às informações no site da Pastoral da Criança.

O aplicativo não depende de internet para executar algumas funcionalidades, ele pode ser utilizado off-line, principalmente, para fazer as visitas domiciliares. A conexão com a internet somente é necessária para baixar o aplicativo e para sincronizar os dados, que é o que faz com que as informações sejam vistas lá na ponta, pela própria Pastoral da Criança.

Então, assim, nós tivemos esse presente, essa riqueza da Pastoral, né? E tem uma outra informação, esse aplicativo é possível ser baixado gratuitamente por qualquer pessoa. Ele usa no celular, no tablet, hoje ele não tem desktop. Mas, ele está aí à disposição e quem tem interesse em conhecer um pouquinho mais esse aplicativo, pode baixá-lo na lojinha do Google Play. Procure por “App Visita Domiciliar” ou aplicativo da Pastoral da Criança, que vai ter acesso a ele.

Barbara Martins – Eliana, agora com relação às famílias atendidas, como veio sendo esse atendimento? A gente já conversou sobre as estratégias e meios que foram adotados para a manutenção desse atendimento durante a pandemia, mas propriamente sobre a realidade que vocês encontraram nesse momento de distanciamento, isolamento, em que situação estavam essas famílias? E houve alguma dificuldade em acessá-las? 

Eliana dos Anjos – Na realidade, a pandemia não foi impeditiva para a gente dar continuidade ao nosso trabalho. Pelo contrário, ela nos desafiou a sermos mais criativos. Como eu falei anteriormente, apesar de algumas preocupações que tivemos no início, conseguimos nos adequar à nova realidade, com todo o suporte que a Pastoral da Criança nos fornece. Nós não tivemos muitas dificuldades para ter acesso às famílias à distância. Uma ou outra nós não conseguimos contactar por conta da realidade delas. Então nós temos que ir ao local colhermos as informações necessárias para lançar no sistema e reduzir o nosso tempo de permanência no local. Então, a gente tem todo esse cuidado sanitário, cuidado conosco e com as famílias. Contudo, nós sentimos muita falta de estarmos presencialmente na casa de todas as famílias acompanhadas ou nos nossos encontros mensais, que são os momentos que nos proporcionam fortalecer os laços e, sem dúvida, fica muito mais fácil trabalhar fazendo essas visitas presenciais. E aí o trabalho da Pastoral da Criança continua sendo realizado durante a pandemia, ele nunca parou, isso porque boa parte das lideranças tem as famílias cadastradas no aplicativo e consegue fazer o contato pelo celular, por meio dos nossos líderes, que se colocam à disposição mesmo nesse momento difícil que estamos passando. E é isso.

Barbara Martins – Agora Eliana, e quanto ao comportamento das crianças e estado emocional das famílias? Além do risco de contaminação pela COVID-19 e das inúmeras vulnerabilidades que a pandemia aprofundou, o bem-estar e a saúde mental da população vêm sendo afetados. A gente tem notícias disso, a gente acompanha isso, a gente vive isso dentro das nossas próprias casas. Que realidade vocês têm encontrado nas visitas domiciliares, ainda que à distância, com relação a esses estados emocionais, ao comportamento das crianças, e mesmo com relação a práticas de cuidado com a saúde que a gente sabe que não é só física, mas é também mental e emocional?

Eliana dos Anjos – Nós temos como parâmetros as questões por faixa etária de cada criança, elaboradas pelo próprio aplicativo da Pastoral, respondidas pelos responsáveis da criança ou pela gestante. Consequentemente eles irão nos remeter às orientações cabíveis. Então, [tomando como] base todo esse material que nós temos à nossa disposição, a gente consegue passar as nossas informações. Então eu vou dar um exemplo. Por exemplo, um desses questionamentos que é feito no nosso aplicativo (são perguntas que são feitas de acordo com a faixa etária da criança) é se a criança foi levada ao serviço de saúde nos últimos trinta dias. Se ela foi, aí surge uma outra pergunta sobre o local do atendimento: se ela foi no posto de saúde, se ela foi na unidade de saúde, na UPA, no hospital particular ou se foi no plano de saúde. Aí depois, ele faz uma outra pergunta: se a consulta foi de rotina ou porque a criança não estava bem. E depois ele vai para um outro passo, para concluir, questionando se a criança foi atendida. Feito isso, nós já temos as informações e caso a criança não tenha sido atendida, entra aí o nosso olhar e a nossa orientação para essa família, para a gente ver porque é que não foi, não foi de repente no serviço de saúde ou se ela foi, o que é que aconteceu para a gente poder trabalhar e, se for o caso, a gente leva para os gestores da UBS. 

Nós temos uma outra pergunta sobre as vacinas. Porém, o sistema só questiona se a faixa etária da criança está dentro do calendário de vacinação do Ministério da Saúde. Mas nós temos também as vacinas de campanha. Então, nós questionamos outras vacinas que de repente não aparecem naquele calendário. Caso o responsável da criança não a tenha levado para tomar, o sistema orienta sobre a importância da vacinação e nós reforçamos sobre a necessidade e os riscos da não aplicação da vacina para a família. 

E o sistema para todas as crianças, independente da faixa etária, tem um outro olhar com relação ao desenvolvimento da criança. Ele apresenta alguns indicadores, que nós conhecemos como IOCs, que quer dizer indicadores de oportunidades e conquistas e têm a preocupação com o desenvolvimento infantil. Esses indicadores são de extrema importância para observarmos como está acontecendo o cuidado, o carinho e a atenção da família para com a criança, assim como a interação da criança com seus responsáveis. Há alguns indicadores que podemos apenas observar e responder, sem questionar os responsáveis, pois eles são visíveis e estão ligados aos cuidados da família. Por exemplo, nós vamos visitar a família e temos o questionamento: a família ensina sem violência o que a criança não pode fazer? Então, nós que estamos ali na visita, a gente já está acompanhando e consegue responder isso. Ou então, com base nessa informação, eu perceber que está ocorrendo uma violência e a gente tentar abordar a família de uma forma que a gente consiga trazer a paz para aquela família, mostrar a importância da família da criança. Também há questões sobre espaço, se a criança tem espaço que ofereça segurança para ela se desenvolver. Isso tudo dentro da realidade da criança. Tem perguntas que questionam se há troca de olhares entre mãe e bebê durante a amamentação, que são pontos para a gente observar como está o andamento daquela mãe com aquela criança, como está esse vínculo materno, porque isso tudo tem reflexo na vida adulta da criança. 

Barbara Martins – Agora a gente gostaria de deixar aqui um espaço para suas considerações finais. Você gostaria de dizer mais alguma coisa? Pode ficar à vontade.

Eliana dos Anjos – Então, primeiramente eu gostaria de agradecer pelo convite, pela oportunidade de expor um pouquinho do trabalho da Pastoral da Criança, sobretudo nesse tempo de pandemia. E gostaria de falar que o nosso desafio é grande: manter esse trabalho, aumentar a nossa capacidade de atendimento. Então, para isso, eu gostaria de fazer um apelo para que mais pessoas se coloquem à disposição como voluntárias e venham fazer a sua parte conosco, unindo forças, se entregando às causas dos mais necessitados, porque nós estamos com o recurso humano bastante limitado, o que nos impede de incluir novas gestantes e crianças carentes que estão distribuídas nas intermediações do nosso bairro. Eu lá no início comentei que eu sou responsável por quatro comunidades, além daqui da Vila Fátima. Aqui na Vila Fátima, nós temos quatro líderes para lidar com em torno de 50 crianças. Nas quatro comunidades nós temos uns 20 líderes para lidar com 110 crianças. A gente gostaria de fazer muito mais, fazer um trabalho bem melhor, atuar em outras frentes para colaborar mais com essa família. Então, é isso, esse apelo para que mais pessoas consigam abraçar essa causa com a gente. Por enquanto, muito obrigada. 

Barbara Martins - Obrigada pela participação, Eliana. 

[Encerramento] Esse foi o primeiro episódio do podcast “Cuidar e Cuidar-se: a atuação de profissionais da saúde de Guarulhos”. Continuem acompanhando nossa série. Na próxima semana conversaremos com a Bruna Mascarenhas, a Giselle Viana, a Solange Melo e a Sônia Regina de Lima, agentes de saúde da UBS Vila Fátima. Obrigada a todas as ouvintes e todos os ouvintes e até mais!