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Habitar Palavras: Flávio Mestriner

DO CONSTRANGIMENTO COMPULSÓRIO À LIVRE INTENCIONALIDADE DO “JOGO DA VIDA”

          Se é no resgate do ponto de interseção entre a individualidade e a solidariedade que se pode redescobrir a medida da própria humanidade, o que fazer quando o mundo externo o limita, unilateralmente – no caso, aos aspectos individuais? Se a solução não deixa de ser a superação (de si próprio ou da própria visão relativa), se o comodismo nunca vale a pena (já que é um dos fatores destruidores do caráter), como transpor algo que resiste, de diversas formas, e de modo contrário?

          Em meio à pandemia, pude, reiteradamente, sentir uma espécie de “limitação”, por vezes indefinível (e, por que não dizer, profunda), da própria “individualidade”: o constrangimento a um círculo reduzido, fechado, restrito - inclusive, pela falta de convivência direta, mais ampla (social/solidária). Ora, quem não se relaciona com os outros, não tem necessidade de sentimento cuja função não deixa de ser a de confrontar a incerteza da própria existência, bem como a do próprio ser humano... (...).

        Ainda que com certo esforço global (da vontade, do sentimento e da intenção; consciente/ subconsciente) para superar o próprio limite, e me unificar, dentro do possível, com os outros (solidariedade = unificação), a “unificação” apenas virtual (tecnológica, distante, fria) parecia não trazer a satisfação vital mais profunda. Ainda que queira louvar (e não, desvalorizar), sim, as maravilhosas conquistas tecnológicas, técnicas, científicas, virtuais (!), tal espécie de “unificação” (apenas com uma “tela”) parecia não retroalimentar; não estimular, espiritualmente, salvo raras exceções.

        Um grande educador referia-se a uma vida restrita, ou limitada à realização individual, como a algo muito limitado (para não dizer “miserável”)! Críticas, ou autocríticas, à parte – mesmo exercitando toda a flexibilidade e maleabilidade estratégicas possíveis (incluindo-se a solidariedade no próprio lar) –, a limitação se fez, mesmo, sentida.

         Se houve algo positivo que a crise pandêmica estimulou foi, por meio da necessidade inexorável, pensar para além de mim mesmo... O que foi ótimo. Pensar e agir assim - movido por uma necessidade bem maior do que a habitual, além do que a própria visão pode alcançar - foi inédito.

       Entretanto, se até mesmo as bactérias necessitam de um adequado meio ao seu próprio desenvolvimento, o que não se poderá dizer do próprio ser humano?! Ora, a individualidade sente satisfação real, profunda, quando consegue transcender os “limites da própria pele”; expandindo-se, sobretudo, pelos aspectos e tendências opostos (a dimensão social, solidária, por exemplo): é assim que se pode, de modo palpável ou sensível, confirmar o início, o processo e próprio fim da auto-realização imediata. Ainda que a internet e todos os recursos tecnológicos possam oferecer possibilidades inacreditáveis, o que realiza (torna real), mesmo, não vem a ser a presença viva, o “sangue correndo nas veias”, o coração pulsando, o “espírito” no brilho do olhar - a aventura humana do Ser inteiro? Se a dimensão parcial, também, vem a ser importante, o principal não deixa de ser o aspecto global. Pois a própria vida é global, e funciona globalmente. Relacionar-se com as máquinas não fortalece o sentimento: tudo parece certo com a relação mecânica (exata, numérica, matemática, linear, previsível, certa...). Por analogia, quem quer tudo certo, enfraquece o próprio sentimento... (E como é preciso, neste risco pandêmico, ter sentimento!). Por sua vez, no relacionamento com gente, sempre surgem incertezas; sempre algo imprevisto, inesperado e incerto vem à tona... para, precisamente, estimular aquilo que vem a ser o foco das questões humanas: o sentimento. O que é, entretanto, o sentimento? Sentimento é a simultaneidade de entendimento e sensibilidade.

        Como, então, aplicar e realizar as ideias, se estas exigem dimensões mais amplas e diversas para que sejam aplicadas? Ainda que se renda a si próprio, e se teçam muitos louvores ao mundo virtual e às novas e inigualáveis conquistas do homem, no mais fundo de minha alma, eis o que, prática e inegavelmente, pude sentir: realizar equivale a tornar real, virtualizar é tornar virtual! O mundo virtual ainda me frustra... (Mas ainda vou me superar...).

       Eis um impasse... Todavia, se os conflitos vêm a ser o inegável processo ao desenvolvimento da sensibilidade, o impasse, no entanto, tem “saída”, mesmo, quando se apresenta, efetivamente, “transformador”: sem negligenciar ou sacrificar a parte humana, espiritual (principal), pode-se, dentro do possível, evitar incorrer na inversão das proporções (causadoras de crises!), harmonizando o tradicional com o moderno, a potência orgânica com a mecânica, o vital com o tecnológico: assim, podemos nos transformar em algo muito mais maleável, flexível, versátil, funcional - na própria intersecção, bem proporcionada, dos aspectos contrários. Em meio ao impasse, portanto, uma possível solução (transformação) - uma chave-mestra, sem igual: o que proporciona é a proporção. Como afirmava o filósofo grego, pré-socrático, Heráclito: “através de tendências contrárias, harmonizam-se os seres”. “Senhora tecnologia: por gentileza, dai-me sua mão! Amando (reverenciando, respeitando, unificando-se com) o próprio “inimigo”, transmutamos seu “não”... - Ó Mãe Natureza, presente em todas as faces e reversos! Em todo o Uni-verso, ensinai-me o diálogo (amigável) com os adversários, transmutando-os nos maiores aliados!”

DOIS INTERLOCUTORES ESPECIAIS EM MEIO À PANDEMIA (OU: “SE A NATUREZA PUDESSE SE EXPRESSAR ATRAVÉS DE PALAVRAS...”)

- Ser humano: – Ainda que com muitas e dolorosas tristezas, obrigado, Natureza, pelas adversidades advindas, neste ano que passou... Adversidades com as quais aperfeiçoamos nossa humana capacidade estratégica... Perdas que transformaremos na mais difícil arte, a arte de perder...

- Natureza: – Não é “obrigatório” agradecer... “Desobrigado”...

- Ser humano: – Desobrigado?! Não entendi...

- Natureza: – Não é questão de entender... É questão de sensibilidade... Sensibilidade para usar a palavra, a dimensão mais sagrada que vos dei...

- Ser humano: – Sensibilidade? O que é isso?!

- Natureza: – Ora, esqueci o fato de que só conheceis, só apreciais o que é informação... Sensibilidade ligada ao instinto (são, salutar), uma das bússolas mais preciosas que vos ofertei; e que perdestes com o vosso estilo de vida confuso, invertido, “civilizado”... Desenvolvestes tanta técnica, ciência, informação e etc. que não tendes o mínimo de espiritualidade para usar o Verbo, a Palavra, razoavelmente?!

- Ser humano: – Senhor do Universo, Ó Natureza, muito vos agradeço!

- Natureza: – Quero ver sua palavra transformada em ações... Demonstrando sensibilidade (respeito, responsabilidade) no uso da palavra... Já fiquei com profunda dúvida de vós; especialmente, quando de vosso “pisoteio”, esmagador, por sobre a Palavra... Sobretudo, em meio à corrida desenfreada, tresloucada, por meu arqui-rival, Mâmon... E, mais ainda, quando (ao vos esquecerdes de mim) transformastes a tecnologia na própria “Deusa”... pois esta, utilizada sem critério e sem controle, tem ou não tem provocado os maiores problemas por vosso planeta?!

- Ser humano: – Bem... (...) Se pude perceber, vós nos destes a terrível crise (a pandemia) como, ao mesmo tempo, perigo e oportunidade, perigo e possibilidade?

- Natureza: – Mas é claro. Toda mudança tem seu “ponto de ebulição” (ponto crítico, de transformação). Esta aguda “chamada de atenção”, “advertência” não deixa de ser, ao mesmo tempo, minha Presença, meu grande “presente” (o perigo e uma grande possibilidade...). Cabe a vós, por meio de seus próprios esforços como um todo, realizar a transmuta do real risco em destreza, oportunidade valiosa...! Com a humana sensibilidade fortalecida, podereis transformar tal crise (sem precedentes) em “pérolas”... “Quem não fica doente, não está recebendo mensagem carinhosa de mim, sua Mãe, a própria Natureza...” (...).

 

Sobre o autor

Flávio Luiz M. Leonetti é graduado, licenciado e doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo, além de pós-doutorando em Filosofia pela UNIFESP. É escritor, com 4 livros publicados na área de Filosofia e Literatura, além de possuir formação em música, com 2 CDs gravados. É também Dan em Aikido, ministrando cursos na área, conferencista, autor de projetos culturais, entre outros. É possível acompanhar um pouco mais de seus trabalhos aqui.

Habitar Palavras - Biblioteca Sesc Birigui

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