Pianolatria: por amor ao piano

05/04/2024

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Cristian Budu lança, pelo Selo Sesc, o projeto Pianolatria que apresenta um álbum duplo com obras para piano de compositores brasileiros dos século XIX e XX, além de um conjunto de audiovisuais. Disponível nas principais plataformas de música e no Sesc Digital, o disco duplo em breve à Loja Sesc e o recital poderá ser visto no Sesc Vila Mariana em 11 de abril, no Sesc Jundiaí em 12 de abril e no Sesc Ribeirão Preto em 16 de abril.

Budu contou com o suporte e pesquisa do pianista Alexandre Dias, do Instituto Piano Brasileiro (IPB), na escolha do repertório. Na seleção, comparecem peças consagradas e outras menos conhecidas, contemplando os seguintes compositores: Henrique Alves de Mesquita, Carlos Gomes, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Heitor Villa-Lobos, Luciano Gallet, Nininha Velloso Guerra, Brasílio Itiberê II, Fructuoso Vianna, Oscar Lorenzo Fernández, Francisco Mignone, Tia Amélia, Radamés Gnattali, Camargo Guarnieri, Cacilda Borges Barbosa e Clarisse Leite. Eles contribuíram para a criação de um repertório nacional de piano que fosse mais diverso, influenciados tanto pelas tradições e sonoridades europeias quanto afro-brasileiras, ajudando a formar uma nova identidade musical no Brasil.

Ilustração de Chico Shiko para Pianolatria
Ilustração de Chico Shiko para o projeto gráfico de Pianolatria

“Ao selecionar o repertório, eu quis trazer à tona outras coisas – músicas que eu mesmo não conhecia e fui descobrindo. Muito mais do que apenas fazer um trabalho ‘diferente’, foi a vontade de me sentir parte do Brasil, à minha maneira, que motivou as escolhas do disco”, conta Cristian. No álbum, o repertório do piano é apresentado sem delimitar fronteiras entre o erudito e o popular. Outra preocupação do músico foi a de promover uma interação entre diferentes linguagens: à música soma-se uma série de 4 vídeos, sendo 3 videoclipes (Cabaré Onírico, Evoca Pompeia e Exu Protetor) e um minidocumentário.

O título Pianolatria foi tirado de um artigo de mesmo nome de Mário de Andrade, publicado pouco depois da Semana de Arte Moderna de 1922. Nele, Mário criticava a centralidade do piano na vida musical paulistana. A vontade de ressignificar o termo, segundo Budu, vem das mudanças dos tempos, sem deixar de homenagear o intelectual. De um século para outro, o lugar do piano dentro das casas e o significado do que é considerado música clássica mudou muito. “O momento de Mário e dos modernistas era o de afirmar como identidade nacional aquilo que estava escondido, era negado ou ignorado em nossa cultura. Muitas questões estão postas hoje de forma mais urgente do que a de se fazer uma música que represente o Brasil, em contraponto à imitação de outras culturas. A questão da identidade cultural, hoje, passa necessariamente pela existência de diversidades que dialoguem.”

Existia, porém, uma razão por trás da centralidade do piano em São Paulo. De acordo com José Miguel Wisnik, ao contrário do Rio de Janeiro onde havia manifestações mais sólidas de música de câmara e sinfônica, a Pauliceia ainda com traços bastante provincianos era uma das escolas mais importantes de piano no América do Sul, “formada antes de tudo pelo eminente professor Luigi Chiaffarelli, italiano e brasileiro de adoção, que teve entre suas alunas e alunos a extraordinária Guiomar Novaes (que veio a ser uma das mais admiráveis pianistas do século XX), a excelente Antonietta Rudge, além do grande pianista e professor João de Sousa Lima”. Em uma era pré-rádios ou vitrolas, o piano ajudou a popularizar a audição de música, como anunciador da cultura musical de massas.

Aqui, a “adoração ao piano” ressignifica a crítica ao instrumento. Enquanto em seu artigo Mário de Andrade se opunha à limitação de um ambiente musical centrado no piano, em Pianolatria os horizontes são ampliados. Compositores oriundos e validados pela prática acadêmica estão lado a lado com os mestres do choro, do maxixe, do tango brasileiro. O que, segundo Wisnik, diz muito sobre “a pianolatria à moda brasileira”. No texto “Pianólatras, pianistas e pianeiros” publicado no encarte do álbum, ele resume: “No conjunto, é um piano de muitas faces: o piano das casas, o piano de salão, o piano de concerto e o piano dançante, apropriado criativamente pelos pianeiros populares. O instrumento tem, assim, uma presença espiral na vida brasileira: participa da esfera da vida privada, dos pequenos círculos de convivência social, dos saraus, dos assustados e dos arrasta-pés, das récitas semieruditas, dos recitais e dos concertos, sem uma fixação nítida de fronteiras.”

Por tudo isso, Cristian Budu optou por apresentar o instrumento da forma diversa como sua história foi se consolidando no país: “Compositores como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Henrique Alves de Mesquita, pianeiros, estavam tocando e formando uma identidade musical brasileira sem aval acadêmico, sem intencionalidade e sem um pensamento estruturado como o dos modernistas. Minha ideia foi transitar entre o repertório de ambientes diversos com igual atenção, pois a intenção era valorizar as diferentes formas de expressão musical que cabem em nossa identidade.”

O CD físico possui encarte ilustrado e com textos em português e em inglês de Camila Fresca, Claudia Toni, José Miguel Wisnik e do próprio Cristian Budu. Os desenhos do artista gráfico Chico Shiko retratam todos os compositores presentes no repertório do disco. É possível conferir o material na íntegra aqui.

Capa do álbum duplo Pianolatria, de Cristian Budu
Capa do álbum duplo Pianolatria, de Cristian Budu

Ouça o álbum Pianolatria nas plataformas de streaming, no Sesc Digital e, em CD, nas Lojas Sesc.

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