Entre o sofá e a sala escura

02/03/2026

Compartilhe:

O impacto do streaming nas formas de produzir, exibir e assistir a produções audiovisuais no Brasil, um mercado cada vez mais disputado (foto: Matheus José Maria)

Leia a edição de Março/26 da Revista E na íntegra

POR DIEGO OLIVARES

Em teoria, parece o sonho de qualquer amante de cinema: ter milhares de filmes disponíveis a um toque no controle remoto ou no celular. A popularização do streaming criou a sensação de um cardápio infinito, sempre aberto, no qual títulos de diferentes épocas, países e gêneros convivem lado a lado, prontos para serem assistidos a qualquer hora. Em poucos anos, as plataformas ocuparam o espaço deixado pelo fim das locadoras, passaram a fazer parte da rotina doméstica e levaram o audiovisual a regiões que nunca tiveram uma sala de cinema por perto. Hoje, assistir a um filme deixou de ser um programa eventual para se tornar um hábito cotidiano. 

À medida que os streamings se consolidaram no Brasil e passaram a disputar de forma intensa a atenção dos espectadores, a abundância também redesenhou as regras do jogo. O impacto não se restringe ao sofá de casa. Ele alcança a forma como os filmes são produzidos, as escolhas criativas feitas por realizadores, as estratégias de exibição das salas de cinema e a própria circulação das obras, muitas vezes diluídas em catálogos extensos, guiados por algoritmos. Em um dos maiores mercados de vídeo sob demanda da América Latina, entender o que mudou na relação entre plataformas, cinemas e público ajuda a compreender os rumos do audiovisual brasileiro no cenário atual.

De acordo com uma pesquisa do Instituto Nexus, divulgada em agosto de 2025, 72% dos brasileiros das classes A, B e C consomem algum streaming de vídeo. Netflix, Prime Video, Globoplay, HBO Max e Disney+ são os cinco serviços mais contratados. O levantamento também apontou que, na hora de decidir qual tipo de conteúdo assistir, os filmes são a principal opção, aparecendo em 81% das respostas.

Além das plataformas por assinatura mais conhecidas e suas milhares de opções de gêneros, há ainda aquelas que atuam em nichos específicos, como o cinema de autor (Mubi, Filmicca), terror (Darkflix), produções apenas do século 20 (Oldflix), além das alternativas gratuitas Spcine Play, Itaú Cultural Play e Sesc Digital [leia mais em Cinema que ilumina], entre outras.

Para aumentar a fartura cinéfila, o Ministério da Cultura (Minc) promete ainda para este semestre o lançamento do Tela Brasil, que conta com investimento de 4,4 milhões de reais. O portal de streaming deve disponibilizar mais de 500 obras nacionais e tem como compromisso destacar títulos com relevância educacional, formativos e de impacto social, dando espaço para a pluralidade das identidades de gênero, cultural e étnico-racial. O catálogo é resultado de um trabalho conjunto entre o Minc e a Cinemateca Brasileira, a Fundação Cultural Palmares, a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), instituição pública vinculada à Secretaria do Audiovisual.

Era uma vez no cinema
O crescimento do interesse do público por ver filmes sem sair de casa traz consequências inevitáveis para as salas de cinema. “A gente nunca teve medo de o streaming roubar o espaço do cinema, porque cinema para a gente é uma experiência, não é só ver o filme”, defende Juliana Brito, CEO do Grupo Belas Artes, responsável pelo tradicional cinema de rua localizado na rua da Consolação, em São Paulo (SP). “Mas percebemos uma mudança na forma como as pessoas consomem cinema, principalmente depois da pandemia”, completa. “De repente, o que os cinemas ofertavam não era exatamente o que as pessoas queriam assistir. E o streaming, por outro lado, te dá uma possibilidade de escolher o que você quer entre muitas e muitas opções”.

Juliana Brito, CEO do Grupo Belas Artes, que investe nas duas frentes: além do tradicional espaço na rua da Consolação, em São Paulo, o cinema também tem sua própria plataforma digital (foto: Nilton Fukuda)

Curiosamente, pouco antes do isolamento social forçado pela covid-19, o Belas Artes também havia lançado sua própria plataforma de streaming, o À La Carte, que começou a operar no final de agosto de 2019. “A faísca inicial veio de um desejo próprio, porque com as opções de streaming que existiam na época, a gente não conseguia encontrar os filmes que gostava de assistir”, relembra Juliana. Hoje, por meio do acervo do serviço, é possível assistir a produções de quase 60 países, do Camboja à Estônia, passando por Butão, Bolívia, Islândia, Mongólia e outros territórios raramente vistos nas telas brasileiras, além de longas argentinos, franceses, italianos e espanhóis. Há ainda grandes clássicos de Hollywood, com coletâneas de diretores famosos como Billy Wilder (1906-2002) e Alfred Hitchcock (1899-1980).

Mas o carro-chefe do grupo continua sendo o tradicional complexo de seis salas, inaugurado em 1967. Como estratégia para atrair e fidelizar o público, desde o final da pandemia o espaço tem reforçado a aposta numa programação de eventos diversos, que vai além da exibição dos filmes, contemplando debates, apresentações especiais e até projeções acompanhadas de música ao vivo. “Temos o desejo de ser um ponto de encontro, e um centro cultural, mais do que um cinema”.

Selton Mello e Matheus Nachtergaele levaram mais de 4 milhões de pessoas aos cinemas em 2025 para assistir a O Auto da Compadecida 2, que depois foi para o streaming (foto: Laura Campanella)

Para Adhemar Oliveira, gestor do Espaço Petrobras de Cinema, localizado na Rua Augusta, e um dos sócios da Cinesala, em Pinheiros, ambos na capital paulista, é justamente a experiência coletiva o grande diferencial das salas em relação às plataformas online. “O homem é um ser gregário e continuará sendo. A invenção da sala de cinema respondeu a esta constatação”, afirma, lembrando ainda que foi justamente o caráter comunitário dessa expressão artística que permitiu sua popularização. “As salas de cinema de rua, além do encontro que proporcionam, possuem uma arquitetura que privilegia a continuidade desse encontro, com livraria, café e outras acomodações extrassala”, reforça.

O setor ainda se recupera do baque da pandemia. Em 2019, último ano antes do período em que as salas ficaram fechadas, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) registrou 172,2 milhões de ingressos vendidos nas bilheterias de todo o país. O número caiu drasticamente para 39 milhões em 2020 e vinha se recuperando desde então, chegando ao patamar de 126 milhões em 2024. Porém, o ano passado registrou nova queda de público: 109,6 milhões. Em contrapartida, o número de salas operando em solo nacional aumentou para 3.554, recorde histórico desde a criação da agência, em 2001.

“O streaming substituiu digitalmente todos os formatos de apresentação do conteúdo cinematográfico e alterou sua forma de consumo”, reconhece Oliveira. “É fato que a revolução digital não se restringiu ao entretenimento, mas alterou todas as relações de consumo da humanidade.”

Tempos modernos
Se o crescimento do streaming mexeu com as definições do que pode ser considerado cinema, ao levantar a dúvida se a consagrada alcunha de “sétima arte” pode ser igualmente aplicada ao conteúdo visto no sofá de casa, também tem alterado o panorama por trás das câmeras, à medida que as grandes plataformas internacionais realizam suas produções originais com profissionais e temáticas brasileiras.

A cineasta Vera Egito vive essa realidade de perto. Na última década, ela alternou seus trabalhos como diretora entre a assinatura autoral dos longas-metragens Amores urbanos (2016) e A batalha da Rua Maria Antônia (2023) com produções realizadas sob encomenda para as plataformas online, como a recente série Tremembé (2025), da plataforma Prime Video.

“Quando te chamam para desenvolver um projeto no streaming, como foi Tremembé, é algo que acontece dentro de várias expectativas. O dinheiro investido ali tem que retornar, é um produto comercial. Está sendo feito a partir de pesquisas de mercado e métricas”, conta. “Quando eu faço um filme autoral, os compromissos são outros. É outro mundo. Para fazer A batalha da Rua Maria Antônia, eu passei dez anos pesquisando o caso real, a ditadura militar, fazendo conexões da política atual brasileira com esse tema, como ficcionalizar isso. Parte de um interesse pessoal”.

A série sobre o presídio que abriga criminosos famosos se tornou um grande sucesso nas semanas após sua estreia, gerando curiosidade e uma imensidão de comentários na internet. A repercussão também foi grande no mundo real: “O negócio se expandiu, virou um fato popular, gerou debates sobre sociologia, psicologia, sistema prisional”, diz Vera. O relato prova que, em alguns casos, o streaming é capaz de gerar uma experiência coletiva, embora de outra natureza. 

Nessa lógica de linha de montagem, com produções feitas em sequência e sob medida para gerar engajamento, mesmo que efêmero, contar com mão de obra qualificada é algo essencial. “Tremembé empregou 1.700 pessoas”, afirma a diretora. “A principal mudança no mercado é esta: ter mais uma janela em que a gente possa trabalhar, além da TV e do cinema. Mas é claro que ainda existem milhares de coisas a serem discutidas, justamente por serem empresas estrangeiras atuando aqui no mercado nacional”, acrescenta.

A cineasta Vera Egito no set de Tremembé, produção nacional que fez sucesso no Prime Video (foto: Stella Carvalho/ Divulgação Prime Video)

Na forma da lei
As discussões sobre o impacto do streaming no audiovisual brasileiro se intensificaram em 2025, quando a regulamentação das plataformas entrou em pauta na Câmara dos Deputados, em Brasília. Marina Rodrigues, consultora de políticas públicas para a área, é taxativa sobre o estado atual da indústria: “Existe uma subserviência muito grande, e isso é prejudicial para o mercado nacional”.

De acordo com ela, as grandes empresas de streaming aproveitaram o vácuo causado pela paralisação dos editais lançados pela Ancine, entre 2019 e 2022, para solidificar sua presença. “Quem supriu essa demanda de trabalho foram as plataformas, que começaram a fazer os seus originais brasileiros com muito mais força do que anteriormente”, explica. 

Vieram novos modelos de contrato, aos quais os profissionais do setor tiveram que se adaptar. “Até 2016, 2017, havia um ambiente no setor audiovisual em que você conseguia ter um emprego dentro de uma produtora. Hoje em dia, as produtoras não conseguem mais fazer isso porque não tem mais o mesmo fluxo de edital público que tinha antigamente”, compara Marina. “Elas trocaram os editais públicos pelo streaming, que opera nessa condição de demanda, e vai contratar a sua empresa quando precisar fazer um original para a plataforma”.

Neste contexto, sem uma política pública de fomento solidificada no país e a dependência crescente da demanda dos streamings, corre-se o risco de o volume de trabalho ficar sujeito às determinações das plataformas. Em 2024, por exemplo, surgiram relatos de que a Prime Video diminuiu seu volume de investimento em produções brasileiras em relação aos anos anteriores, gerando a demissão de funcionários. Já a Netflix começou 2026 com a inauguração de um novo escritório em São Paulo, empreitada em que injetou 141 milhões de reais na economia da cidade. 

O cineasta Gustavo Amora, conselheiro do centro-oeste da Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API) analisa esse cenário com um grau de ceticismo. “Existem essas promessas de investimento milionário, mas normalmente são meia dúzia de empresas de São Paulo que são chamadas para produzir conteúdo. Bem diferente da política de editais, em que há uma descentralização”, declara.

A API é uma das entidades mais envolvidas na questão da regulamentação, e tem buscado conscientizar a opinião pública sobre o assunto. O projeto de lei 2.331/2022, que estabelece regras para assegurar a sustentabilidade do mercado audiovisual frente ao avanço do streaming, está em tramitação no Senado Federal. Entre os principais objetivos está a inclusão das plataformas nos parâmetros da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), tributo que incide sobre distribuição, exibição, licenciamento e remessas de filmes e séries ao exterior, e cuja verba vai para o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para fomentar a produção nacional de títulos que não necessariamente estarão em seus acervos. Além disso, a proposta também fixa uma participação mínima de 10% de filmes nacionais no catálogo das plataformas, e estabelece uma janela mínima de 9 semanas entre a estreia dos filmes nos cinemas e sua disponibilidade no streaming, entre outros pontos.

Coproduzido pelo Globoplay, Ainda estou aqui fez sucesso nas bilheterias e no Oscar, antes de ser exibido no streaming (foto: Video Filmes).

Atualmente, empresas como a Netflix, Amazon, Disney e HBO Max não contribuem com o FSA e dedicam em média apenas 2,7% de seu acervo às produções feitas no Brasil, de acordo com o Panorama do Mercado de Vídeo por Demanda no Brasil 2025, divulgado pela Ancine no último mês de dezembro. 

Para Amora, o sucesso de O agente secreto (2025), indicado ao Oscar, atesta a relevância de criar políticas públicas eficientes de incentivo ao audiovisual. “O Brasil está colhendo hoje os resultados de uma política que deu certo. Se você olhar a trajetória do Kleber [Mendonça Filho, diretor do filme], ela está diretamente atrelada ao fundo setorial e à possibilidade de experimentação que só um cinema independente de interferências de empresas estrangeiras pode proporcionar”, argumenta. 

No meio desse embate entre abundância e escassez, liberdade de escolha e padronização algorítmica, o audiovisual brasileiro se vê diante de um paradoxo. Nunca se produziu tanto conteúdo, nunca houve tantas telas disponíveis e, ainda assim, permanece a sensação de que algo corre o risco de se perder pelo caminho. Se todo bom roteiro se sustenta em um conflito forte, o avanço do streaming oferece ao cinema nacional um drama dos bons: com múltiplos protagonistas, interesses cruzados e final ainda em aberto. 

Cinema que ilumina
Festival no Cinesesc joga luz sobre filmes ainda inéditos elogiados internacionalmente, e obras de cineastas consagrados para buscar conexões

As virgens suicidas (1999), longa-metragem de estreia da cineasta Sofia Coppola, será exibido no Cinesesc durante a Mostra Farol (foto: Paramount)

O cinema está presente em todas as unidades do Sesc São Paulo, com exibição de filmes, festivais e apresentações especiais que mobilizam o público cinéfilo durante todo o ano, além do Cinesesc, tradicional espaço da capital dedicado à sétima arte.

Neste mês, o Cinesesc estreia a Mostra Farol. Em sua primeira edição, o festival tem como objetivo apresentar filmes inéditos de novos cineastas e títulos antigos de diretores consagrados que dialogam com a proposta da curadoria, pensada para apresentar caminhos diversos que conectam passado e futuro do cinema. 

Entre os onze longas recentes, a programação traz Palestina 36 (2025), de Annemarie Jacir, e O dia de Peter Hujar (2025), de Ira Sachs. Já a seleção de autores conhecidos tem nomes como Sofia Coppola, Paul Verhoeven, Beto Brant, Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), Richard Linklater e Yorgos Lanthimos, entre outros.

A animação Papaya (2025), da cineasta paulista Priscilla Kellen, é o destaque do Cineclubinho, em exibição que integra a Mostra. A trama traz como protagonista uma pequena semente de mamão apaixonada pela ideia de voar que precisa continuar se movendo para evitar enraizar-se.

Está previsto também o curso A primeira cineasta da história, sobre a pioneira francesa Alice Guy Blachè (1873-1968), ministrado pela produtora, preservadora e pesquisadora audiovisual Vivian Malusá.

Em março, outros filmes da Mostra Farol entram no Sesc Digital, plataforma gratuita de streaming do Sesc São Paulo. Os títulos serão disponibilizados a partir do dia 19/3 e incluem os longas de estreia dos diretores Kleber Mendonça Filho, Crítico (2007); Anna Muylaert, Durval discos (2002); e Pedro Almodóvar, Pepi, Luci e Bom (1982). Baixe o aplicativo e acesse a plataforma gratuita com filmes, séries e outros conteúdos em: app.sesc.digital

A EDIÇÃO DE MARÇO DE 2026 DA REVISTA E ESTÁ NO AR!

Para ler a versão digital da Revista E e ficar por dentro de outros conteúdos exclusivos, acesse a nossa página no Portal do Sesc ou baixe grátis o app Sesc SP no seu celular! (download disponível para aparelhos Android ou IOS).

Siga a Revista E nas redes sociais:
Instagram / Facebook / Youtube

A seguir, leia a edição de MARÇO na íntegra. Se preferir, baixe o PDF para levar a Revista E contigo para onde você quiser!

Conteúdo relacionado

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.