
Quanto mais tempo passa da despedida do único homem chamado de “bruxo dos sons” na música brasileira, mais perguntas surgem (foto: Ricardo Ferreira)
Leia a edição de Março/26 da Revista E na íntegra
POR JULIO MARIA
O saxofonista francês Samy Thiébault parecia ter o poder da levitação em meio a todos os anjos, santos e diante do próprio Jesus Cristo crucificado. Um pouco à frente do baterista Arnaud Dolmen e ao lado da cantora Cynthia Abraham, seus solos prendiam a atenção das cerca de 500 pessoas, sentadas nos bancos de madeira, entregues como se acompanhassem um sermão dominical. Era noite de sábado, 13 de setembro de 2025, quando, em meio a um dos instantes mágicos do show de Samy, um “bruxo” sobrevoou a Igreja da Sé pela última vez.
Hermeto Pascoal morreu longe dali, na cidade do Rio de Janeiro, entre o terceiro e o quarto tema de Samy. Assim que a notícia chegou discretamente, pelos celulares, a presença do “bruxo” tornou-se palpável no som do saxofonista, visivelmente influenciado pelo pensamento de Hermeto. A morte do alagoano pairou no concerto do músico francês até o final, quando a produtora Lu Araújo, diretora do festival sacro planetário Mimo, disse, com uma alegria resignada nos olhos, que não parecia velar alguém: “Estamos aqui graças a ele. Obrigada, Hermeto.”
O multi-instrumentista e compositor alagoano já vinha dando sinais da partida. Aos 89 anos, estava internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro (RJ), ouvindo os últimos sons de sua vida (e ninguém pode afirmar categoricamente que, enquanto morria aos poucos, não criava com eles suas últimas músicas): apitos agudos em mi bemol de monitores cardíacos e, um pouco mais grave, a bomba de infusão; abre e fecha de porta e vozes de enfermeiras. A causa da morte não foi revelada e ninguém se preocupou muito com ela. Quem conheceu Hermeto diz que ele morreu de tanto viver. E acabou vivendo e morrendo em vários lugares ao mesmo tempo.
Um comunicado escrito pela família na noite da despedida sugere que Hermeto apareceu em outro canto: “Com serenidade e amor, comunicamos que Hermeto Pascoal fez sua passagem para o plano espiritual, cercado pela família e por companheiros de música. No exato momento da passagem, seu grupo estava no palco, como ele gostaria: fazendo som e música. Como ele sempre nos ensinou, não deixemos a tristeza tomar conta: escutemos o vento, o canto dos pássaros, o copo d’água, a cachoeira, a música universal segue viva…”
A musicista Aline Morena, que foi casada com Hermeto por doze anos, conta que viu o alagoano minutos depois de saber de sua morte, quando estava assistindo à TV em casa, em Curitiba (PR). Para Morena, a alma de Hermeto foi se despedir: “Ele surgiu sorridente, leve. Estava feliz e me deu um aceno, como se dissesse até logo”.

Música pelos poros
A onipresença física de Hermeto Pascoal é a menor delas. Seu pensamento sobre o que é música considerava qualquer som, organizado ou não. E é ele que fica. Do ronco dos porcos à locução de um jogo de futebol feita por Osmar Santos. Dos apitos da chaleira de uma fazenda às batidas nas construções urbanas de São Paulo. Tudo poderia ser usado como um fragmento melódico, uma porção rítmica ou até um tema inteiro. Em entrevista realizada em 2019, em sua casa, no bairro de Bangu, zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, Hermeto se permitiu silenciar quando o fotógrafo começou a tirar as fotos. Seguiu apenas ouvindo o ritmo dos disparos da máquina, tentando capturar um sentido neles. “Que som bonito, vou fazer uma música com isso”, disse. Ao final da entrevista, presenteou o fotógrafo com uma partitura de um tema que fez ali, na hora, usando os sons da máquina fotográfica como inspiração.
O bruxo libertou a música brasileira criativa dos conceitos de improvisação desenhados pelos jazzistas. Se não fosse sua passagem pelo Quarteto Novo ou a gravação de discos solo como o primeiro, Hermeto, de 1970, e A Música Livre de Hermeto Pascoal, de 1973, muitos brasileiros estariam, ainda, tentando ser John Coltrane (1926-1967), Miles Davis (1926-1991) e Jaco Pastorius (1951-1987). A partir de Hermeto, maracatus, frevos, baiões e choros se tornaram matéria-prima até para compositores que nunca pisaram no Nordeste. Mais do que falar de seu país, Hermeto criou a ideia musical de um Brasil.
Entendê-lo não é simples, mas algumas perguntas podem ser feitas. Quem foi o homem que Miles Davis chamou de crazy albino (albino maluco)? Que diabos era, de fato, a música agênero que Hermeto batizou de “universal”? Crítico do ensino formal, ou da forma de se ensinar o ensino formal, o que o músico propunha quando dizia para prestarmos atenção em todos os sons? Belo e feio, estranho e dócil, tormenta e acalanto. Se a música era feita pela vida, tudo isso deveria soar, muitas vezes, em uma mesma criação.
Hermeto dizia que “músicos que precisam ensaiar não são músicos”. Uma frase perigosa, que abre a janela para a ideia de que ele não gostava de ensaios e de que tudo o que fazia surgia como mágica. “Temos de entender esses mistérios”, disse o bandolinista Hamilton de Holanda. “Ele queria chamar atenção para o fato de que os ensaios não deviam prender os músicos em ideias determinadas”, completa. Também se sabia que “Hermeto ensaiava tanto que a música saía pelos poros”, recorda o baixista Arismar do Espírito Santo.
Arismar, um dos músicos mais influenciados por Hermeto, atingiu tamanho ponto de criação ao lado do alagoano que os improvisos que os dois faziam em um show se sobrepunham ao próprio repertório. “Toquei com ele em 1993. Ele, eu e (o baterista) Nenê. Fizemos 24 shows pela Europa. Éramos três loucos”, lembra. Os músicos ensaiaram até o ponto de jogarem todos os ensaios fora. O repertório tinha 28 músicas que nunca chegavam ao final. “Eu não vou tocar nenhuma”, dizia Hermeto, segundo o baixista.
Vitor Nuzzi, biógrafo e autor do livro Quebra tudo! A arte livre de Hermeto Pascoal (Kuarup, 2024), conta que o músico ensaiou muito para conceber o “som universal” que propôs no início dos anos 1970. O aparente desprezo por ensaios exaustivos, para Nuzzi, “se referia a quem se prende a ensaios” para chegar ao palco protegido por aquilo que é decorado, e não sentido. “Hermeto dizia que as pessoas ensaiam para ensaiar, não para tocar.”
Outra dura fala de Hermeto dizia respeito ao ensino musical. Mesmo sendo homenageado por instituições como a Julliard School de Nova York [a mesma que negou à Nina Simone (1933-2003) o curso de piano clássico no início dos anos 1950, e que teve jovens como Miles Davis, Henry Mancini (1924-1994), Phillip Glass e Chick Corea (1941-2021) como alunos], Hermeto dizia que estava tudo errado. Aos 87 anos, em 2023, ele foi nomeado doutor honorário da Julliard durante uma cerimônia no Alice Tully Hall, do prestigiado Lincoln Center, também na cidade estadunidense de Nova York.
Hermeto queria dizer que os jovens não deveriam estudar? Não. Então, que os professores poderiam castrar suas criatividades? Talvez, se eles fossem maus professores. Itiberê Zwarg, baixista que ficou ao lado de Hermeto por 48 anos, lembra: “Ele estudou muito, a vida inteira. Deixava os instrumentos sobre a cama, olhava para eles e escolhia um para estudar naquele dia. E eram instrumentos que não tinham nada a ver, tecnicamente, um com o outro, quase antagônicos, como flauta, trompete e cavaquinho. Ele, que nunca teve professor, era contra o estudo convencional. Dizia que era preciso aprender a aprender”.

O bruxo não tinha paciência com instituições que submetiam alunos a provas sobre escalas, modos gregos, campo harmônico, modulações, digitação e regras
de composição. “A arrogância era a coisa que o tirava do sério”, diz Aline Morena. Preferia ver as crianças brincando com as teclas de um piano, jovens arriscando-se no desconhecido e professores revelando o grande segredo a seus alunos: “Não existe nota errada”.
O resultado de um ensino padronizado, para ele, era a origem de uma geração de músicos padronizados. E, por sua vez, de ouvintes padronizados. Em uma de suas últimas entrevistas, publicada no jornal Valor Econômico, no dia 11 de abril de 2025, Hermeto cravou: “O jazz errou. Ficou tudo igual”, opinião que deu título ao texto publicado. Na ocasião, também disse: “Quando os amigos me chamavam para ouvir discos de jazz nos anos 1960, era uma tortura. Chegava uma hora em que eu queria ir embora. Aquilo era tudo igual, não me dizia nada”.
Sua indignação, mais uma vez, não era com o jazz ou com os jazzistas. Mas com a veneração cultural a um gênero que, apoiado pelo surgimento espontâneo de tantos gênios, passou a vender um sonho aos jovens aspirantes a músicos de todo o mundo: pague caro, decore algumas regras e torne-se o novo Duke Ellington (1899-1974). “Tudo o que é decorado não é criação”, dizia Hermeto. “O que ele queria era que você mergulhasse no escuro e encontrasse sua própria voz”, acredita Hamilton de Holanda.
Construir e desconstruir
E no palco? Quem era Hermeto Pascoal? Estar ao seu lado era estar exposto aos riscos trazidos por arroubos que poderiam fazer uma música ser transformada sem aviso, diante de uma plateia? Elis Regina (1945-1982), para muitos, foi prejudicada por Hermeto em uma histórica apresentação improvisada durante o Festival de Montreux de 1979.
Sem ensaiar, eles mostraram, de improviso, três músicas, “Corcovado”, “Garota de Ipanema” e “Asa Branca”. Ao desconstruir a harmonia original e propor outros caminhos, Hermeto, segundo os críticos, teria tentado “derrubar” Elis ao vivo. “Eu duvido que ele tenha feito isso para derrubá-la”, conta Ney Matogrosso. “Se tentou, caiu do cavalo”, acrescenta. O próprio Hermeto comentou sobre esse fato, em 2015, desconstruindo o argumento de que teria sido uma atitude para prejudicar a intérprete: “Eu senti que poderia fazer as músicas daquele jeito porque era com a Elis. Só ela poderia cantar comigo assim”.
Estar ao lado de Hermeto Pascoal em um palco deu ao bandolinista Hamilton de Holanda outra percepção de vida. “Nunca vi alguém com a mesma capacidade de mudar de humor em uma mesma frase musical com tanta rapidez”, recorda. O show que fizeram juntos aconteceu em Brasília, com o violonista Marco Pereira. O bruxo havia acabado de perder Ilza, o amor de sua vida, a companheira que esteve a seu lado por quase cinquenta anos.
“Eu sinto arrepio de lembrar. Ele chegou triste, puxou a música ‘Menina Ilza’ e, em um determinado momento, seu humor mudou completamente e a música ficou alegre. As pessoas cantavam juntas a letra que havia sido distribuída pela produção”, conta Hamilton. Generosidade é a palavra que vem a Arismar quando lembra do multi-instrumentista. “Ele era capaz de deixar de fazer um solo em uma música para ceder seu espaço para outro músico, como fez comigo na gravação do tema “Quiabo” [do álbum Hermeto Pascoal e Grupo, de 1982]. Mandou tirar o improviso dele para colocar o meu. Nunca vi ninguém fazer isso.”
A imagem de Hermeto, a do homem insondável, também não nasceu do nada. Ela foi construída por anos, com tempo e estratégia. Nos primeiros discos nos quais ele aparece como músico, não há nada fora do lugar, nenhuma pista das transgressões que tão logo ele cometeria. Com Clóvis Pereira gravou, apesar do nome, o comportado álbum Ritmos alucinantes em 1956. Dois anos depois, juntou-se a um grupo grande como sanfoneiro para gravar o LP Batucando no morro, de Pernambuco do Pandeiro (1924-2011), um veterano que já havia tocado com César Faria (1919-2007), pai de Paulinho da Viola, Pixinguinha (1897-1973) e Benedito Lacerda (1903-1958).
Os sons começaram a sair do conservadorismo que guardam todas a tradições quando Hermeto atingiu o que se tornaria, até ali, o auge de seu sertanismo criativo. Como parte do Quarteto Novo, ao lado de Heraldo do Monte na guitarra, Airto Moreira na percussão e Theo de Barros na viola e no violão, o alagoano compôs uma das formações mais estonteantes dos registros da música brasileira. “A música instrumental brasileira existe antes e depois do Quarteto Novo”, analisa o autor da biografia de Hermeto Pascoal, Vitor Nuzzi. Hermeto havia tocado antes em grupos como o Som 4 (com Azeitona no baixo, Papudinho no trompete e Edison na bateria) e com o Sambrasa (com Humberto Clayber e Airto Moreira).
A grande virada no som veio a partir de 1970, com o jazz como uma influência que Hermeto não reconhecia em suas entrevistas. Enquanto grupos como Mahavishnu Orchestra e Weather Report, além de autoridades como o guitarrista John Scofield e o trompetista Miles Davis (que enlouqueceu com o crazy albino a ponto de chamá-lo, em vão, para tocar a seu lado) investiam no fusion – a versão mais roqueira do jazz –, Hermeto lançava seu primeiro álbum solo por um selo de Nova York, o Buddha Records.
Toy Lima, produtor de festivais de jazz, se lembra de estar em um camarim no Jazz à Vienne, na França, ao lado do baixista Dave Holland, do pianista Herbie Hancock, do guitarrista Bill Frisell e do baterista Billy Hart quando surgiu uma conversa com o nome de Hermeto Pascoal. “Todos se curvaram. É um daqueles momentos que dá um orgulho danado de dizer que somos do Brasil.”
O jazz estava na gênese de Hermeto por sua natureza. E, ao descobrir que havia um lugar de excelência para as ideias musicais supostamente sem fronteiras nos Estados Unidos, Hermeto, alagoano de Lagoa da Canoa, município de Arapiraca, encorajou-se a fazer o mesmo pela música que havia dentro de si. Mesmo que, às vezes, essa música nem música fosse. “Quando pequeno, ele ouvia as pessoas falando e achava que elas estivessem cantando. A fala humana era música para ele”, lembra Toy na biografia escrita por Nuzzi.
E como viam Hermeto fora do universo do jazz? “Nunca cantei com ele, mas sei que era um gênio”, conta Ney Matogrosso. Alceu Valença, um pernambucano com o mesmo discurso disruptivo em outras sertanices, compartilha: “Ele era um artista genial, pena que tivemos pouca convivência. Ah, lembrei: um dia perguntei a ele o que ele gostava de ouvir, e ele respondeu algo que eu respondo até hoje: ‘nada, para não me influenciar’”.
Se não existe música sem conclusão, com Hermeto, e talvez só com ele, isso tenha sido diferente. O destino poderia até ser proposto, mas o caminho era o melhor, o mais divertido. Ele começava um tema muitas vezes lendo uma partitura até que tropeçava em um brinquedo e ficava ali, como uma criança sentada no quintal, rodeada de outros brinquedos, sem dar a mínima para os chamados da mãe.
Para ver no Sesc
Produções sonoras e visuais
Parceria de Hermeto Pascoal com o Sesc São Paulo consolidou-se para além dos palcos

Com um álbum lançado pelo Selo Sesc, uma exposição em homenagem à sua produção visual e uma coleção de outros momentos no Sesc São Paulo, Hermeto Pascoal esteve em muitas programações das unidades nas últimas décadas.
Em 2017, aos 81 anos, lançou o álbum duplo No mundo dos sons (Selo Sesc) após quinze anos sem gravar com o seu grupo. Na ocasião, selecionou 18 composições próprias e inéditas, com arranjos que também levam sua assinatura e foram elaborados especialmente para o disco. Nelas, o alagoano homenageia os amigos Carlos Malta, Edu Lobo, Tom Jobim (1927-1994), Astor Piazzolla (1921-1992) e Thad Jones (1923-1986), entre outros.
Em 2024, a exposição Ars Sonora – Hermeto Pascoal, no Sesc Bom Retiro, reuniu desenhos, objetos e instalações, que apresentaram um panorama da produção visual do artista, celebrando sua trajetória e legado.
A relação com a música e a arte o levou a ser um dos consultores no momento da criação do Parque Orquestra Mágica, uma área de 1.000 m² com escorregadores, trepa-trepas e labirintos em forma de instrumentos musicais, localizado no Sesc Itaquera, na capital paulista.
Ouça o álbum No mundo dos sons, e confira conteúdos em vídeo sobre a participação de Hermeto nas programações do Sesc em: sesc.digital
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