
Artistas e arte-educadoras reconhecem o espaço como sujeito autoral e propõem ampliar entendimento do fazer artístico (obra O limite do meu talento (2012), de Sidney Amaral)
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POR MARCEL VERRUMO
Com o território, seus povos e histórias, curadores de arte têm revelado narrativas. No processo de concepção da 4ª edição do projeto Frestas – Trienal de Artes, em exibição no Sesc Sorocaba [leia mais em Escutar a terra], a equipe curatorial transformou os caminhos da cidade, localizada a 105 km da capital paulista, em fontes de inspiração. “Fizemos duas imersões em 2024, nas quais andamos pelas ruas de Sorocaba. Nesse processo, tentamos entender a cidade e construir um diálogo com seus movimentos, tecendo relações entre arte, educação e comunidade”, conta a arte-educadora Luciara Ribeiro, da equipe curatorial.
Moradores, prédios, rios e outros sujeitos locais foram observados e ouvidos durante as caminhadas pelo município. “Tivemos a oportunidade de reconhecer múltiplas atuações e, a partir delas, expandir o processo curatorial. Acredito realmente nas possibilidades de interlocução e como elas se desenvolvem no contexto das artes contemporâneas”, complementa a também curadora Naine Terena, arte-educadora.
Convidado a criar para a Trienal, o artista visual Douglas Emilio buscou os sentidos emanados por sua cidade-natal. Rumou ao rio Sorocaba à procura de cores, formas e movimentos que inspirassem sua criação. O resultado é a instalação Dança um Rio onde eu nasci (2026), na qual ressoam singularidades do lugar. Ao considerar a participação ativa do espaço na criação da obra, a equipe curatorial e Emílio reconheceram o próprio rio Sorocaba como um coautor do trabalho, juntamente com o artista.
Segundo Khadyg Fares, arte-educadora e curadora do Frestas, o território pode ser ouvido não apenas como um elemento passivo, mas também como um contador de histórias. Ou, em outras palavras, parte de uma ideia segundo a qual não são apenas os seres humanos que produzem arte. “Estamos tentando desviar de tradições hegemônicas que suprimiram e silenciaram algumas narrativas, que foram quase solapadas, e pensar maneiras mais horizontais de contar histórias. Queremos tensionar esses lugares tradicionais”, defende Khadyg.
A escuta do território no fazer artístico contemporâneo também pode ocorrer pela consideração dos sentidos artísticos produzidos por ruas, casas e outras construções arquitetônicas, documentos que compõem a sua história. Na Trienal, a Capela João de Camargo também assina a autoria da instalação Sete cantos para Pai João de Camargo (2026), com o artista Moisés Patrício. “A gente tem que pensar a capela como um elemento dentro da cidade, um lugar de confluência, de sacralização e de ritualização de vida. Nós a convidamos para estar com a gente como uma autora, mas ela já tem uma autoria dentro da cidade”, sintetiza Khadyg.
O trabalho curatorial da exposição foi influenciado por autores como o professor e artista indígena Tadeu Kaingang, a socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui e o pensador quilombola Nêgo Bispo [Antônio Bispo dos Santos (1959-2023)]. Em comum, todos eles apresentam uma forma de olhar para o mundo afastada de uma visão que separa os seres humanos dos demais seres. “Entendemos que não é possível pensar a história de modo centralizado no ser humano. Precisamos contemplar outros sujeitos que construíram caminhos e sentidos. A gente quer olhar para um rio, por exemplo, não apenas considerando-o como natureza ou objeto, mas como um ente com história, força e conhecimentos. Precisamos valorizar o que está nesses autores”, finaliza Luciara.







Escutar a terra
Frestas – Trienal de Artes 2026 propõe diálogo com saberes de quem forjou o território de Sorocaba e região

Mais de 80 artistas, coletivos e iniciativas comunitárias do Brasil e do exterior apresentam suas criações na 4ª edição do Frestas – Trienal de Artes, realizada até 16/8 no Sesc Sorocaba, no interior paulista. Com curadoria das arte-educadoras Luciara Ribeiro, Naine Terena e Khadyg Fares, a exposição reúne dezenas de nomes que compõem a cena cultural e a história de Sorocaba e região, criando um espaço de encontro entre sujeitos, linguagens e conhecimentos.
Neste ano, a mostra é intitulada do caminho um rezo, destacando o caminhar como uma ação com dimensão espiritual, política e produtora de conhecimentos; um gesto que não se faz sozinho, mas em diálogo com a comunidade, por meio de um entrelaçamento entre o corpo, o espaço e a memória. A concepção reverbera o pensamento do professor e artista indígena Tadeu Kaingang, bem como as reflexões da socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui e do pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo.
A potência do caminho e do território também se manifesta nas ações educativas da exposição, as quais têm como proposta conectar o público a saberes historicamente produzidos em aldeias, quilombos, comunidades e entornos. O programa educativo, aliás, é nomeado de Sendarias, referência a sendas, caminhos e atalhos. Além de Silvia e Kaingang, integra as ações a quilombola e educadora Joana Maria, filha de Nêgo Bispo.
Em sua quarta edição, o Frestas foi realizado pela primeira vez em 2014, inspirado no projeto Terra Rasgada, desenvolvido pelo Sesc Sorocaba nos anos 1990 em diálogo com artistas do território. O nome faz uma referência à palavra “sorocaba”, que em tupi-guarani significa “lugar da rasgadura”. Em suas três edições anteriores, o projeto se consolidou como uma plataforma de projeção e valorização de artistas da cidade e região.
Sesc Sorocaba
Frestas – Trienal de Artes 2026
Até 16/8 de 2026. Terça a sexta, das 9h às 21h30. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30. Grátis0. Saiba mais em sescsp.org.br/frestas
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