Patricia Hill Collins: questionar para mudar

02/03/2026

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Socióloga estadunidense reflete sobre negritude, memória, hip-hop e os caminhos para uma transformação coletiva

Leia a edição de Março/26 da Revista E na íntegra

POR AGNES SOFIA GUIMARÃES

Para a socióloga estadunidense Patricia Hill Collins, a música, a memória, os afetos e os modos de narrar o mundo são ferramentas para interrogar estruturas sociais. Além de permitir reconhecer desigualdades, tais reflexões também permitem imaginar futuros menos estreitos, especialmente para as comunidades negras e não brancas em todo o mundo.

Ao longo de mais de três décadas, a professora emérita do departamento de sociologia da Universidade de Maryland (Estados Unidos) construiu uma obra que se tornou referência para a compreensão dos enredamentos entre raça, gênero, poder e imaginação política. Primeira mulher negra a presidir a Associação Americana de Sociologia, Patricia tem sua trajetória marcada pela conjunção entre o rigor acadêmico e a imaginação política do feminismo negro.

Desde a obra Pensamento negro feminista (1990), marco no qual sistematiza um campo teórico que nasce das experiências e epistemologias das mulheres negras, até Política sexual negra (2004) e Do Black Power ao hip-hop (2006), Collins tem insistido que as margens podem ser lugares de opressão, mas também espaços de onde afloram territórios de invenção crítica. Seus livros articulam análises sociológicas rigorosas com uma sensibilidade ética que convida à desobediência intelectual.

Em novembro de 2025, Patricia esteve no Sesc 24 de Maio para apresentar a palestra “Mantendo a batida: paisagens sonoras do ativismo negro”, realizada em parceria com o centro internacional de estudos avançados em ciências humanas e sociais Maria Sibylla Merian Centre Conviviality-Inequality in Latin America (Mecila) e o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Durante a explanação, ela explicou o conceito de “paisagens sonoras”, que ajuda a analisar as apropriações políticas da música, sobretudo aquelas criadas pelo movimento negro nos Estados Unidos e no Brasil. 

Neste Depoimento, a socióloga apresenta a música como um campo de reafirmação de identidades negras e de defesa dos direitos fundamentais. Também exalta a ousadia política das boas perguntas, que guiaram experiências diaspóricas e transgressoras na pesquisa, e que podem contribuir para o fortalecimento de uma sociedade mais questionadora e capaz de enfrentar as opressões estruturais que atravessam raça, gênero, classe e territórios marginalizados. 

música
Quando pensamos em ativismo, esquecemos que as ideias viajam de maneira que os corpos, às vezes, não podem viajar. É o caso do hip-hop, que alcança subúrbios americanos, brasileiros e outras regiões do mundo, contribuindo para um celeiro de formas de construir movimentos negros e para moldar o orgulho de identidades marginalizadas. Sons atravessam fronteiras com muito mais liberdade: ritmos, vozes, silêncios, performances. A música não precisa de tradução para revelar o que está acontecendo entre pessoas negras em diferentes partes do mundo. Por isso, defendo o poder das paisagens sonoras, porque é uma ideia que mostra uma conexão entre experiências marcadas por colonialismo, escravidão, diásporas, migrações e reinvenções identitárias. A música é linguagem, corpo, território e memória, que une o que muitas vezes encontramos em polos opostos da geopolítica. 

libertação
No hip-hop, vejo tanto violência simbólica quanto libertação. As mulheres negras, especialmente as jovens, têm reivindicado esse espaço com uma força impressionante. Elas transformam o corpo em território de autonomia, recusam narrativas moralizantes e afirmam que liberdade é decidir o que fazer da própria vida. A arte que produzem é conhecimento: poesia, ritmo, crítica social, imaginação política. Há dor, mas há também alegria e uma ética de sobrevivência que se expressa no gesto de reclamar um lugar dentro de um universo que nem sempre as reconhece. Isso, para mim, é uma das grandes promessas da cultura negra contemporânea.

negritude
O que mais me anima no hip-hop hoje é a afirmação de uma negritude que não pede desculpas. É uma forma de posicionar identidades que não solicitam permissão para existir, criar ou sonhar. Uma negritude que entende que a justiça não é apenas uma pauta institucional e séria, e que reivindica um estilo de vida, um modo de estar no mundo que exige coragem, lucidez e alegria. Sim, alegria. Porque, há beleza em descobrir novos caminhos, novas imagens, novas danças, novas perguntas até mesmo nos momentos mais estarrecedores da sociedade. A partir desse processo de encontrar essas frestas de alegria em meio à luta, também reafirmo um exercício que persigo até hoje: criar perguntas capazes de revelar pessoas e comunidades que movem novos futuros.

perguntas
Antes de qualquer bom exercício acadêmico e político, precisamos admitir que muito do nosso trabalho vem da sofisticação das boas perguntas. Muitas vezes, você pode ter uma pergunta ruim e um jeito eloquente de responder a uma pergunta ruim. Mas o que dá trabalho mesmo é saber encontrar a pergunta certa. E ter noção disso foi meu ponto de virada intelectual. Foi o que abriu as portas para que eu percebesse que eu era uma pessoa em um processo muito maior de ideias e ações, que eu tinha que fazer minhas contribuições, mas não podia pensar que eu tinha todas as perguntas certas nem todas as respostas certas.

Muitas vezes, você pode ter uma pergunta ruim e um jeito eloquente de responder a uma pergunta ruim. Mas o que dá trabalho mesmo é saber encontrar a pergunta certa.

trajetória
Minha vida intelectual se organiza em pontos de parada, momentos em que sou obrigada a respirar, olhar para trás e perguntar: “onde estou agora?”. A cada livro, aula ou palestra, percebo que escolhas não são eternas. Há quem saiba, desde os 4 anos, que será médico; não foi meu caso. Eu estava sempre escolhendo de novo. E, olhando hoje para minha trajetória, percebo que sou responsável por minhas ideias, tal como outros são responsáveis pelas deles. É um lugar difícil: você passa a entender que sua obra importa não só para você, mas para as pessoas que a encontram no mundo.

impermanência
Reconhecer-se no próprio trabalho não é uma responsabilidade que extrapola qualquer movimento narcisista. Toda vez que alguém acredita ter encontrado “a verdade”, está cometendo um erro. O máximo que alcançamos são verdades parciais, moldadas pelo que podemos ver, pelo que sabemos naquele momento da vida, pelo que nos é possível alcançar. Aos 17 anos, eu via só um pedaço do mundo; aos 27, outro; aos 57, outro. É um movimento de mão dupla o que sustenta o trabalho intelectual e o liga ao ativismo. Além disso, evita que nossa prática vire apenas um ritual vazio.

repertórios
Aprendi, ao longo de muitos encontros e pesquisas, que nossa formação intelectual começa muito antes de chegarmos à academia. Muitas das pessoas que admiram meu trabalho me contam histórias de infância, episódios que moldaram seus sentidos de justiça. Eu também tenho as minhas. E, com o tempo, comecei a escolher ambientes, comunidades e projetos que ressoam com quem somos. É uma forma de sustentar a coerência do trabalho quando o mundo insiste em nos empurrar para caminhos que não são nossos.

porvir
Hoje estou dedicada a projetos que olham para o futuro. Um deles, Still in the struggle: critical education and black activism [Ainda na luta: educação crítica e ativismo negro, em tradução livre], examina como educação, ativismo e produção de conhecimento se entrelaçam para transformar o mundo. Quero entender como ideias viajam, como se enraízam em movimentos, como se tornam práticas. E quero que meu trabalho continue convidando as pessoas a fazer o que eu sempre fiz: perguntar.  

Patricia Hill Collins construiu uma obra de referência para a compreensão dos enredamentos entre raça, gênero, poder e imaginação política.

Assista a trechos desse Depoimento com a socióloga Patricia Hill Collins realizado em novembro no Sesc 24 de Maio, em São Paulo. 

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