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02/03/2026

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Para uma criança dos anos 1980, a TV era um portal para universos inimagináveis. Uma profusão de histórias e personagens, desenhos animados, filmes e até aqueles noticiários, longuíssimos e sisudos, que enchiam de realidade o fluxo da imaginação infantil. A grade de programação da TV era tão fixa e rígida que era comum combinarmos horários de encontros para depois do Jornal Nacional. Aos domingos, minha mãe me buscava na casa do meu pai sempre depois d’Os Trapalhões. A programação alcançava naquele momento grande parte do país, promovendo uma integração nacional “simbólica”, criando narrativas comuns e construindo um imaginário palpável e, na mesma medida, restrito, dando rosto e voz para os mesmos protagonistas de sempre. 

Corta para 2026. Nesse mundo pós-pandêmico, a tecnologia evoluiu tanto e a linguagem audiovisual está tão impregnada no nosso cotidiano que fica difícil imaginar o mundo sem elas em todos os lugares. As histórias agora são chamadas de narrativas, as telas estão por todos os lados.

Desde 2011, uma nova palavra é repetida por nós: estamos na era dos streamings. Assistimos a conteúdo sob demanda, na hora em que quisermos, na tela que tivermos à mão. As restrições de tempo e espaço foram superadas. As fitas VHS e os DVDs passaram a se chamar mídias analógicas e, agora, tudo é conteúdo digital. Todo mundo tem um filme para comentar, uma série para se distrair, mas ninguém pode contar o final das histórias para não “dar spoiler”.

A vida com streamings é boa. Ainda que a gente passe horas tentando descobrir em qual plataforma (como a gente chama os antigos canais) está aquele filme sensacional de que ouviu falar e quer ver. Ainda que passe bastante tempo olhando as prateleiras dessas “locadoras virtuais” procurando algum título e, às vezes, não assista a nenhum.

E quando alguma notificação no celular nos interrompe e a gente para um filme no meio, ele permanece no ponto certo, como era na fita VHS. Isso sem nem precisar rebobinar para devolver à locadora, como fazíamos nos anos 1980.

As plataformas de streaming, aliás, têm combinado o jogo com o público e lançado o último capítulo da novela ou episódio da série em dia e horário estipulados para todo mundo ver junto, cada um na sua tela. Guardadas as devidas proporções e adaptações tecnológicas, quer gerar “estado de cinema”, em que a audiência mergulha coletivamente naquela realidade e se sente intimamente conectada, criando uma sensação renovada de comunidade. Ao final, estamos nas redes sociais reclamando do final oficial, inventando outros desfechos ou ainda considerando maravilhoso que um país tenha parado para discutir o mesmo assunto.

Cinema, TV e streaming seguem vivos, convivendo, transpondo gerações e equipamentos, criando formas de contar histórias, de difundir informações e conectar pessoas. Hoje em narrativas mais plurais e representativas, mas ainda no início de um caminho longo para que a linguagem audiovisual seja mais equânime e em que todas as pessoas tenham seus imaginários construídos, assistidos, valorizados e acessíveis. 

André Queiroz é graduado em Audiovisual pela Universidade de São Paulo e atua como gerente-adjunto da Gerência Sesc Digital.

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