Sob a lente da ciência de Soraya Smaili

30/04/2026

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Professora e pesquisadora Soraya Soubhi Smaili compartilha visões de uma trajetória dedicada ao ensino, à pesquisa, à gestão universitária e à divulgação científica

Leia a edição de Maio/26 da Revista E na íntegra

POR RACHEL SCIRÉ
FOTOS NILTON FUKUDA

Soraya Soubhi Smaili tinha cerca de dez anos quando colocou os olhos em um microscópio pela primeira vez. Ela mesma havia montado o instrumento a partir de peças colecionadas em fascículos vendidos em banca de jornal. “Fiquei curiosa para enxergar o mundo assim, porque a microscopia, na verdade, é como se você fosse o próprio cérebro decodificando as estruturas, a partir de uma lupa”, explica. 

Essa experiência seria o primeiro despertar da cientista, professora titular da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), formada em Farmácia-Bioquímica pela Universidade de São Paulo (USP) e com mestrado, doutorado e livre-docência em Farmacologia pela Unifesp. Depois do pós-doutorado na Thomas Jefferson University e no National Institutes of Health, nos Estados Unidos, Soraya se especializaria em microscopia de organismos vivos, área em que atua até hoje, coordenando pesquisas que investigam o câncer, a morte celular e as doenças neurodegenerativas.

A professora também ajustaria o foco para assumir outras responsabilidades no universo acadêmico, em especial, ao integrar a congregação que transformou a Escola Paulista de Medicina em Unifesp, em 1994. Em 2013, se tornaria a primeira mulher a assumir a reitoria da instituição, cargo que ocupou até 2021, depois de ser reeleita. Desde então, coordena o Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência), órgão vinculado à Unifesp que busca fortalecer a conexão entre universidade, ciência, sociedade e Estado para o desenvolvimento do país. 

Nesta Entrevista, concedida no Sesc Vila Mariana na ocasião da adesão do Sesc São Paulo à campanha “Remédio: não usou, descartou!”, realizada pelo Grupo Mulheres do Brasil em parceria com o Projeto Ciência na Saúde, Soraya fala sobre suas experiências na pesquisa e na gestão universitária, a presença de mulheres na ciência e a importância da divulgação científica no combate à desinformação.

Você vem de uma família formada por imigrantes libaneses que atuavam na área do comércio. Como surgiu seu interesse pela área da ciência?
Na minha infância, quando tinha por volta de dez anos de idade, me interessei por uma coleção de fascículos vendidos semanalmente em bancas de jornal chamada “Os cientistas: a grande aventura da descoberta científica”, que incluía peças para montar kits científicos. Depois dos seis primeiros números, montei meu primeiro microscópio, comecei a olhar as lâminas e fiquei curiosa para enxergar o mundo assim porque a microscopia, na verdade, é como se você fosse o próprio cérebro decodificando as estruturas, a partir de uma lupa. Foi o meu primeiro despertar. Entrei na Faculdade de Ciências Farmacêuticas na Universidade de São Paulo em 1982 e tive contato com a Farmacologia, uma disciplina que me deixou muito entusiasmada. No terceiro ano, realizei a iniciação científica, algo extremamente importante para os estudantes, porque mostra como a pesquisa pode ser um dos caminhos. Foi durante esse estágio que eu realmente tive o desejo de seguir a carreira acadêmica como cientista. Depois do pós-doutorado, me especializei em microscopia, área em que trabalho com mais ênfase até hoje, mas se trata de uma microscopia muito sofisticada de organismos vivos. Então tudo depende realmente de um estímulo, que pode acontecer na infância ou na juventude. A ciência promove a curiosidade.

Suas pesquisas atuais envolvem temas como morte celular, neurodegeneração e envelhecimento. Como elas se relacionam à busca de tratamentos para câncer, Parkinson e Alzheimer?
Quando falamos em biologia celular, ou farmacologia da biologia celular, estamos tratando de qualquer organismo vivo, porque todos têm essa estrutura básica que é a célula. Estudamos as células em uma condição bem específica, células em cultura, que podem ser culturas de neurônio, de músculo, de um sistema, de uma glândula. Essas células têm suas funções e utilizamos alguns fármacos para o estudo dos processos biológicos, fisiológicos da célula, assim como para os processos patológicos, alterações que acontecem em algumas células e levam a doenças, por exemplo, o que acontece com células do neurônio, no caso das doenças degenerativas, ou com as células anômalas, no caso de um tumor. Outro mecanismo básico que estudamos é a morte celular, porque todas as células têm um ciclo como o nosso: nascem, vivem e depois têm um processo de envelhecimento e de morte. Conhecer como as células morrem ajuda a modular como ocorrem os processos na doença de Parkinson, na doença do Alzheimer, em que os neurônios sofrem bastante. A morte celular dos neurônios resulta em perda cognitiva, no caso do Alzheimer, ou perda de funções, no caso do Parkinson, principalmente a mobilidade. São doenças que não têm cura e o estudo em nível celular é muito importante, porque estamos em busca de novos fármacos que podem modular, controlar ou até mesmo retardar as doenças. Por outro lado, em células cancerígenas, queremos produzir a morte celular, então é importante conhecer esse processo, para eliminar tais células e impedir que causem danos ao organismo. Hoje, a biologia celular, a farmacologia celular, avançou muitíssimo, temos fármacos que agem especificamente naquela célula tumoral e não causam tantos efeitos indesejados, quanto os quimioterápicos de largo espectro. 

Como avalia a incorporação de conhecimentos tradicionais e da medicina popular na pesquisa de fármacos?
É muito importante, porque toda a origem da farmacologia vem do conhecimento popular. O primeiro princípio ativo isolado na história da farmacologia, no século 19, foi a morfina, que vem das sementes da papoula. Ao observar a utilização da papoula para produzir um efeito analgésico, que era comum em determinadas culturas, foi possível pegar as sementes, isolar os compostos, e até hoje isso é utilizado como um potente analgésico. Outro exemplo é o curare, utilizado por indígenas da América Latina e América Central. É uma planta com a qual faziam um macerado e colocavam na ponta de flechas, pois tinha um efeito paralisante no animal, durante a caça realizada para alimentação. Pesquisadores observaram que existia uma substância que produzia essa espécie de paralisia muscular, da perna, do braço, em animais de grande porte, mas também em seres humanos. Esse fármaco isolado, a d-tubocurarina, passou a ser utilizada em cirurgias de grande porte para impedir movimentos involuntários, por exemplo, durante uma cirurgia de abdômen, uma cirurgia de peito aberto, em que é preciso deixar o paciente imobilizado, para que não tenha rompimento de vaso, nenhum movimento drástico durante a cirurgia. Então cada vez mais temos pesquisadores nas universidades buscando a sabedoria popular e fazendo a incorporação de saberes.

Você foi membro da congregação que promoveu a criação da Universidade Federal de São Paulo, em 1994, a partir da Escola Paulista de Medicina. Como foi participar desse processo?
A Escola Paulista de Medicina foi criada em 1933, inicialmente, só com o curso de Medicina. Depois vieram outros cursos: Enfermagem, Biomedicina, Fonoaudiologia. Na década de 1990, eu já era docente, e havia um sentimento muito forte de quem estava na liderança para deixar de ser uma escola isolada, que já era federal, mas não uma universidade. Então houve um movimento de toda a comunidade, principalmente do diretor da época, o professor Manuel Lopes, junto ao Ministério da Educação, que trouxe a possibilidade dessa transformação de Escola Paulista de Medicina para Unifesp. Naquele momento, era uma universidade da área da saúde, somente em São Paulo. Depois eu também participei ativamente de todo esse processo dos estatutos, da construção da Unifesp como universidade e, nos anos de 2002 a 2004, passamos a discutir a expansão da universidade para além da área da saúde, para se tornar uma universidade plena. Até 2012, foi uma expansão bastante ampla, passamos de cinco cursos de graduação para 54, um processo de crescimento de mais de 1000%, em termos de números de estudantes. Triplicamos o número de professores, dobramos o número de programas de pós-graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado. Tudo isso trouxe um ambiente de grande ebulição, porque foram muitas discussões de conhecimentos que começaram a se entrecruzar. Hoje, temos sete campi, distribuídos em nove institutos e faculdades.

Em 2012, você se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de reitora da Unifesp, foi reeleita e ficou no posto até 2021. Quais foram os principais desafios enfrentados ao assumir esse cargo?
Nos primeiros anos, o principal desafio foi reorganizar a universidade, em razão da expansão que havíamos feito em um curto espaço de tempo. O risco era não só perder a autonomia de cátedra, mas a capacidade de organizar e produzir conhecimento de qualidade. Conseguimos reorganizar estatutos, regimentos, regramentos internos, organogramas. Fizemos uma reforma administrativa de grande porte, com as estruturas condizentes com a universidade, porque até então ainda eram estruturas que atendiam à Escola Paulista de Medicina, e conseguimos dar este caráter de universidade para a Unifesp, que se tornou uma universidade plena no decorrer da nossa gestão. Também pudemos instituir uma cultura de planejamento e buscamos trazer diversos elementos para fazer planos pedagógicos institucionais dos cursos que tinham sido criados, e programas de desenvolvimento de infraestrutura, que chamamos de planos diretores. Cada campus hoje tem um plano diretor de infraestrutura e isso foi um diferencial para a Unifesp. Além disso, ampliamos os processos de pesquisa, de interação e integração entre pesquisadores, e alavancamos a extensão. Até certo ponto, quando entramos na gestão, a extensão era vista como cursos de especialização, mas é muito mais do que isso, como programas sociais, programas de educação na comunidade ou de portas abertas à sociedade, programas que foram amplificados durante as nossas gestões. 

Para Soraya, quando uma mulher assume um cargo de gestão, é importante que ajude a visibilizar outras mulheres que estão fazendo um trabalho de qualidade.

Como percebe a presença feminina, tanto na gestão acadêmica, quanto no próprio campo da pesquisa?
Vemos um crescimento das mulheres na ciência há algum tempo, em todas as áreas. No entanto, não vemos ainda mulheres em cargos de gestão. Quando uma mulher assume um cargo de gestão, é importante que ajude a visibilizar outras mulheres que estão fazendo um trabalho de qualidade, para que elas possam mostrar a sua capacidade. As gestões anteriores à nossa foram eminentemente conduzidas por homens. Quando assumimos, 70% dos cargos de gestão passaram a ser ocupados por mulheres. Conseguimos colocar mulheres em muitas áreas diferentes. Alguns, de maneira mais pejorativa, questionaram e eu dizia: “Sim, estou fazendo isso de propósito, porque tudo o que essas mulheres precisam é de uma oportunidade”. Temos muito orgulho. Criamos várias políticas internas, para mulheres, de combate ao assédio, mas também outras, como a que combate o racismo estrutural, que resultou depois na política Carolina Maria de Jesus, ou as políticas de direitos humanos em relação às perseguições, o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), que cuida da identificação dos desaparecidos na ditadura militar (1964-1985). Criamos várias cátedras, como a Cátedra de Sustentabilidade e Visões de Futuro, que debate meio ambiente e mudanças climáticas.

Atualmente, você coordena o Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência). Poderia contar sobre essa iniciativa?
O SoU_Ciência é de 2021, quando eu e um grupo de professores que participaram da minha gestão estávamos deixando a reitoria. Pensamos no aprendizado sobre os processos administrativos que acumulamos e que são complexos. Ser cientista também me favoreceu nesse aspecto, porque me ajudou a enxergar o orçamento com rigor, produzir processos administrativos dentro da universidade. Diante da grande crise sanitária da nossa geração, que foi a pandemia da covid-19, nos unimos para criar esse centro em que seria possível pensar, a partir de evidências científicas, trazer dados e informações de qualidade, favorecer políticas públicas. Ele envolve a produção de conhecimento, fornecido para a sociedade e para os formuladores de opinião. É um órgão complementar que apresenta dados, pesquisas, subsídios, auxilia a disseminação de informações e a compreensão da opinião pública. Foi um projeto bastante inovador, trazendo o modelo de think tank [laboratório de ideias] dentro da universidade, e se conecta com outras universidades, secretarias de Estado, ministérios, para a formulação de políticas que vão beneficiar a Educação Superior e a Ciência, Tecnologia e Inovação.

Como entende a percepção pública sobre a ciência na sociedade?
O cenário é preocupante. Nós temos muitas pessoas falando em ciência, mas que não sabem que a ciência tem um método. Elas falam sem conhecer os procedimentos, como se fosse uma questão de opinião — e não é uma opinião. A ciência precisa passar por determinados passos para que se possa afirmar que existem evidências científicas sobre um tema. É preciso ter uma hipótese, uma pergunta concreta, estabelecer um método, fazer os experimentos. Depois, analisar os resultados para dizer se faz ou não sentido o que está sendo buscado. E ainda assim não se pode dizer categoricamente que um fármaco possui um determinado efeito porque foi observado nos experimentos de quem pesquisa. Os resultados devem ser reproduzidos várias vezes, é preciso ter um conjunto de evidências científicas, informações que serão analisadas até que se possa apresentar para a sociedade e dizer que algum conceito mudou. Hoje, muitas pessoas, algumas mal-intencionadas, utilizam a ciência para deturpar o conhecimento e produzir desinformação, como aconteceu durante a pandemia da covid-19, em que tivemos certo número de profissionais, inclusive médicos e gente da área da saúde, combatendo a vacina, que diziam ser experimental. Mas as vacinas passaram por todo o método científico, pelos estudos pré-clínicos, feitos em células ou animais, e pelos estudos clínicos, feitos com segurança, em humanos voluntários, que deram consentimento para entrar na pesquisa, como eu mesmo fui voluntária na vacina de Oxford, coordenada pela Unifesp, na época. Esta vacina, depois dos estudos de fase três, foi submetida a um órgão regulador, que é a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], que autorizou o uso em humanos. Depois, ela ainda ficou em farmacovigilância, um período de dois anos que o fármaco é avaliado profundamente na sociedade, porque se houver um conjunto de indivíduos que apresentem qualquer malefício pelo uso do fármaco, ele tem que ser retirado do uso. Então as pesquisas têm fundamento, não são opiniões. Houve um uso da ciência nas redes sociais, na internet, que continua, para alimentar uma guerra de opiniões. 

Nós temos muitas pessoas falando em ciência, mas que não sabem que a ciência tem um método. Elas falam sem conhecer os procedimentos, como se fosse uma questão de opinião — e não é uma opinião.

De que maneira é possível contribuir para que a população se aproxime dos temas de saúde e ciência, buscando informações confiáveis?
A educação em ciência é o ponto-chave, desde os primórdios da formação da pessoa. Uma simples revista pode estimular o pensamento e a formação científica, como foi o meu caso. Além disso, é preciso ter a consciência de que tudo que nós temos e fazemos envolve a ciência, desde acender a luz até mandar uma mensagem pelo celular, porque não existe desenvolvimento tecnológico sem ciência e sem a ciência básica, principalmente. Por isso é importante realizar atividades como a campanha “Remédio: não usou, descartou”, que promove a conscientização e possibilita que menos medicamentos sejam descartados na água em que a gente bebe, que o animal de criação bebe ou que vai regar as plantações. Estamos falando sobre o meio ambiente, em como algumas ações podem modificá-lo e prejudicar a saúde humana. Tudo isso é embasado em pesquisa. Também é importante formar redes — neste caso, conectamos instituições como o grupo Mulheres do Brasil, as universidades, o Sesc São Paulo, para que o conhecimento possa ser difundido para a população. E ainda ter o envolvimento do poder público, que governantes reconheçam o papel político da ciência, não da política partidária, mas da ciência para o desenvolvimento da sociedade. Se tivermos esse grande ecossistema de informação de qualidade, de envolvimento com a ciência, certamente teremos uma sociedade melhor, mais desenvolvida e feliz. 

Como as experiências ao longo da sua trajetória transformaram a sua visão sobre o papel da ciência no Brasil?
No início, eu pensava muito na ciência em si, na busca pelo conhecimento, na minha curiosidade, em ler muito, entender e decifrar os processos biológicos, que é um desafio para todo cientista: fazer perguntas e buscar respostas. Conforme fui me envolvendo no movimento de pós-graduandos, de docentes e na própria universidade, percebi que isso era muito importante para que eu fizesse ainda mais pesquisa. E também o envolvimento com outras universidades, com o sistema público de universidades que é tão poderoso – 80% da pesquisa científica do país é feita em universidades públicas. Uma pesquisa do SoU_Ciência mostrou que a sociedade apoia as universidades públicas, não quer a privatização, no entanto, não conhece tudo o que a gente faz. Sabem que existe ensino, pesquisa, produção de conhecimento, mas têm pouca informação sobre extensão, por exemplo, os projetos sociais, a formação, a interação com diversos setores para produzir um bem para essa sociedade, a questão da inovação tecnológica, criação de patentes, interação com o chamado setor produtivo. Hoje, para mim, esse olhar está muito mais amplo. Vamos dizer que agora eu estou olhando por um grande microscópio, que tem muitas objetivas, muitas facetas, mas que na verdade faz parte de um mesmo microscópio, de uma mesma visão integrada do papel da ciência. 

Assista a trechos da Entrevista com a farmacologista Soraya Soubhi Smaili, realizada no Sesc Vila Mariana, em março de 2026.

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