
Em tempos de relações mediadas por celulares e outros dispositivos eletrônicos, incentivar brincadeiras coletivas e atividades ao ar livre é desafio para qualificar as infâncias
Leia a edição de Maio/26 da Revista E na íntegra
POR LUNA D’ALAMA
FOTOS NILTON FUKUDA
Ao ver o novo tablet da menina Bonnie, o dinossauro Rex exclama no trailer de Toy story 5, animação que estreia em junho nos cinemas: “Extinção de novo, não!”. A iminência do abandono é o medo do réptil verde de plástico e de seus companheiros Woody, Jessie e Buzz Lightyear ao presenciarem a chegada da vilã LilyPad, uma tela interativa em formato de sapo capaz de “roubar” a atenção da garota por horas seguidas. Os brinquedos, então, precisam superar suas diferenças e se unir contra a ameaça digital.
O conflito entre o tempo que as tecnologias e as brincadeiras clássicas ocupam na vida das crianças também é pauta para muitas famílias, escolas e espaços de convivência. Na casa da terapeuta integrativa Bruna Pacheco, mãe de Frederico, de 6 anos, o uso de telas é limitado aos finais de semana e a algumas atividades pedagógicas no colégio. “Ele não tem celular nem tablet, não segura nada na mão. Vemos juntos filmes e animações na TV”, conta Bruna.
Graduada em Jornalismo, a também terapeuta aponta que uma das questões mais problemáticas em relação às telas é justamente a falsa sensação de segurança, pois permitir que uma criança navegue sozinha na internet pode deixá-la exposta a temas e produtos inadequados para sua faixa etária. Bruna também observa mudanças de comportamento no filho quando ele ultrapassa o limite ideal à frente da televisão. “Frederico fica agitado, disperso, não presta atenção quando falo, nem consegue se concentrar”, avalia.
Bruna acrescenta que ter uma rotina previsível e bem definida contribui para os pequenos a se regularem, o que inclui estabelecer dias, horários e tempo de uso de telas. “Isso ajuda a modular as quebras de expectativas, frustrações e instabilidades nas crianças. Não é nosso dever demonizar ou proibir as telas, mas moderar o uso. O ser humano se regula a partir da presença física, da conexão relacional e dos vínculos com os outros”, destaca.

Equilíbrio diário
Especialistas e pesquisas científicas têm mostrado que os algoritmos das plataformas digitais e a estrutura alinhada à busca incessante por engajamento nas redes sociais foram feitos para causar vício, seja em crianças, adolescentes, adultos ou idosos. Estudos também indicam a queda na compreensão de leitura, na capacidade de concentração e na cognição em geral. O excesso de telas pode tornar, ainda, os usuários mais ansiosos, irritados e impacientes.
Segundo a pediatra Ana Escobar, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro Meu filho tá online demais – Equilibrando o uso das telas no dia a dia familiar (Manole, 2024), a partir da pandemia de covid-19 houve uma explosão no uso de dispositivos eletrônicos por crianças e adolescentes. “Tenho visto no consultório mais casos de ansiedade, depressão, isolamento, transtornos psicológicos que levam a comportamentos autolesivos, miopia, obesidade, sedentarismo, colesterol alto e diabetes tipo 2 nessas faixas etárias”, relata a médica.
Com mais de quatro décadas de experiência profissional, Ana concorda que é impossível viver hoje sem a tecnologia, mas complementa que é preciso impor limites e restrições. A Sociedade Brasileira de Pediatria indica zero tela recreativa para menores de 2 anos, até uma hora por dia para crianças entre 2 e 5 anos, no máximo 2h por dia dos 6 aos 10 anos, e até 3h diárias dos 11 aos 18 anos – com pausas regulares, e nunca “virar a noite” conectado. “Para ter o próprio celular, o recomendado é que já seja adolescente (a partir dos 13 anos) e, para entrar numa rede social, que tenha 16 anos”, detalha a médica.

A profissional também é favorável ao controle e à supervisão parentais em relação ao conteúdo, com bloqueios, filtros e uso de classificação indicativa em plataformas e aplicativos. Já do lado das crianças e dos adolescentes, é fundamental que eles não se fechem nos quartos, mas vejam os vídeos e joguem online na sala, com toda a família vendo e ouvindo o que se passa – sem fones. “A educação digital na era eletrônica começa em casa, em diálogos e reflexões sobre seus riscos, potenciais e prejuízos”, analisa a pediatra.
Para Ana, encontrar um meio-termo entre o domínio tecnológico e uma vida física e mentalmente saudável é a chave para adultos e seus filhos. “Essa responsabilidade parte das famílias, mas deve ser compartilhada pelas escolas, pelos governos, pelas plataformas e por toda a sociedade”, defende a médica, que integrou o movimento Desconecta, para proibir celulares e outros aparelhos eletrônicos nas escolas públicas e privadas do país, medida em vigor desde janeiro do ano passado, com a Lei Federal nº 15.100/2025. Essa legislação tem como objetivo melhorar o aprendizado e a saúde mental de crianças e adolescentes, e permite aparelhos em salas de aula apenas para fins pedagógicos, inclusão ou questões de saúde. O primeiro ano sem celulares nas escolas já revelou alunos mais atentos, concentrados, participativos, questionadores, integrados aos colegas e com melhor desempenho.
ECA Digital
Outro marco da mobilização que envolve a relação de crianças e telas é o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), em vigor desde março, que atualiza o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e determina controle parental e verificação de idade para além da autodeclaração – isto é, com comprovação documental – no acesso a plataformas, redes sociais e aplicativos. Impõe ainda regras rígidas a redes e jogos, incluindo a proibição da rolagem infinita do feed, do início automático de vídeos, de notificações com apelo emocional, da sugestão de conteúdos por algoritmos e de publicidades a menores de idade, protegendo-os contra conteúdos nocivos e inadequados para cada faixa etária. Especialistas, porém, ainda veem essa nova lei com cautela, pois é difícil saber como ela será controlada e como funcionará na prática.
Segundo a educadora e pesquisadora Sarah Menezes Rocha, que desde 2019 integra a organização não governamental Aliança pela Infância, responsável pela Semana Mundial do Brincar [leia mais em Encontros potentes], o ECA Digital, por si só, não vai resolver todos os problemas parentais e infantojuvenis, mas cria um ambiente mais seguro, limites claros e punições para as empresas de tecnologia, que monetizam e lucram com o uso das redes e dos aplicativos. Carolina Vilaverde, especialista em Digital na área de Sensibilização da Sociedade na Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, concorda que o ECA Digital é um ponto de virada para a proteção e segurança de crianças e adolescentes no meio online. “Temos acompanhado a implementação da lei e de seus decretos, dialogado com a sociedade civil, especialistas e o governo federal sobre o uso das tecnologias e seus impactos”, salienta.
Na visão de Carolina, o ECA Digital reconhece a importância do desenvolvimento infantil e da condição de crianças e adolescentes como seres em processo de crescimento, amadurecimento e autonomia. “Com a nova lei, também passamos a discutir fenômenos como o sharenting [termo em inglês que junta as palavras share = compartilhar e parenting = paternidade], ou seja, a exposição e o compartilhamento excessivos de fotos e vídeos de crianças feitos por seus pais ou cuidadores, prática que toca em questões sensíveis como o direito à privacidade. De posse de informações para verificação de idade, é preciso que as plataformas garantam a proteção desses dados. E as famílias devem cumprir o papel de supervisão e mediação ativas, enquanto as escolas precisam incorporar o letramento sobre o uso da internet”, ressalta.
A pesquisa Panorama da primeira infância: O que o Brasil pensa, vive e sabe sobre os seis primeiros anos de vida, realizada em 2025 pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o instituto Datafolha, revelou que 78% das crianças de até 3 anos no país têm acesso diário a TV, celular, tablet ou computador. “Quando olhamos para a faixa dos 4 a 6 anos, o número chega a 94%. Isso significa que as telas fazem parte do cotidiano das crianças, algo que interfere diretamente na maneira como elas se desenvolvem e se relacionam com o mundo ao redor”, aponta Carolina.
Uso consciente
A mobilização para combater o uso excessivo de telas por crianças também está presente em outros países. Na Europa, a Grécia vai proibir redes sociais para menores de 15 anos a partir de janeiro de 2027, enquanto, desde 2023, a Suécia desistiu do projeto de uma educação 100% digital e voltou a comprar livros didáticos impressos. Já a Comissão Europeia deseja que o Tik Tok desabilite a função de rolagem infinita e estabeleça uma quantidade máxima de vídeos que os usuários podem ver por dia. O objetivo da medida, que poderá se estender a outros aplicativos no futuro, é tornar o uso das plataformas menos viciante.
A pedagoga, doutoranda e pesquisadora das infâncias Camile Viana, mãe de Safira, de 8 anos, optou por restringir o acesso da filha às telas e tem repensado sua própria relação com esses dispositivos. “Durante a semana, desinstalo o Instagram e só o reinstalo na sexta. Acho que isso me ajuda a ficar mais focada, a ler, a escrever minha tese”, conta. A pedagoga diz que Safira faz aulas de dança e também lê muito, assim como ela. “Quando saímos para compromissos mais longos, levamos brinquedos numa mochila, um kit com caderno, lápis de cor, tesoura, cola. Assim, ela se ocupa de forma independente, se envolve sozinha”, revela.

Essa preocupação constante em casa é compartilhada pela professora de ensino fundamental Fernanda Rodrigues, mãe de Bento, de 9 anos, e Laura, de 5. Os dois estudam de manhã e utilizam telas à tarde. Laura vê mais desenhos na TV, enquanto o irmão tem mais acesso a jogos. “Percebo que as crianças, não só as minhas, estão perdendo a capacidade de esperar, o ócio criativo necessário para inventar uma brincadeira. Querem estímulos o tempo todo”, analisa. Fernanda controla o que o filho joga no celular por meio do aplicativo Family Link. “Alerto Bento sobre os perigos de conversar com estranhos, de pessoas se passarem por outras na internet. E para mim, não há nada melhor para sair da tela do que praticar esportes e atividades físicas: Bento faz tênis e natação, e Laura tem aulas de jazz e balé. Outro aliado nosso são os livros. São recursos para termos mais saúde e bem-estar no dia a dia”, relata Fernanda.
A potência do brincar
A educadora e pesquisadora Sarah Menezes Rocha, da Aliança pela Infância, entende que crianças e adolescentes necessitam de vínculos, pessoas, contato com artes, culturas e territórios diversos. “Tudo isso nasce de trocas reais, afeto, atenção, presença, cuidado, escuta. E uma das maneiras mais potentes de produzir essas interações na infância é por meio do brincar, um excelente contraponto ao excesso de telas. Nas brincadeiras, criamos regras, negociamos, lidamos com as diferenças, imaginamos juntos, exercitamos a diplomacia, enfim, aprendemos a conviver”, reforça Sarah.
Na avaliação da pesquisadora e mestra em Educação, os vínculos não nascem da convivência física, mas da presença. “As telas competem pela nossa atenção, e disponibilidade significa tempo compartilhado sem pressa, com trocas de olhares, afetos e conversas. Se a gente oferece vídeos demais, tira a oportunidade de crianças e adolescentes exercitarem a criatividade e imaginarem [do latim, ‘formar imagens mentais’] por si mesmos”, explica. Assim, mais do que controlar o uso de telas, pais, responsáveis e educadores devem garantir que os pequenos tenham experiências de encontros com o mundo real e com pessoas de várias idades. “Essas vivências intergeracionais são muito positivas. Os vínculos nos ajudam a compreender o ser humano. As soluções precisam ser coletivas e, para que as crianças saiam das telas, é necessário oferecer uma vida melhor para elas aqui fora. Começando por cidades que ofereçam parques, praças, clubes e espaços recreativos como opções de lazer”, arremata Sarah.

Encontros potentes
De 28 a 31 de maio, 35 unidades do Sesc São Paulo participam da 18ª edição da Semana Mundial do Brincar, que traz como tema “A Potência dos Encontros”

Entre os dias 23 e 31 de maio, a Aliança pela Infância promove no Brasil e em mais de 40 países a 18ª edição da Semana Mundial do Brincar (SMB), com programação gratuita e voltada para bebês, crianças de 0 a 12 anos e adultos responsáveis, que poderão participar de brincadeiras, oficinas, palestras, debates, vivências, experiências sensoriais, rodas de conversa, apresentações de teatro e música, e diversas outras atividades lúdicas e interativas.
No Sesc São Paulo, parceiro da Aliança pela Infância, as ações em rede se concentram em 35 unidades da capital, Grande São Paulo, interior e litoral. Ao todo, 142 atividades estão previstas para acontecer entre os dias 28 (Dia Mundial do Brincar) e 31 deste mês. O tema escolhido este ano é “A Potência dos Encontros”, um convite para lembrar que as múltiplas infâncias surgem na conexão humana, nas relações e em diferentes territórios, com respeito e diálogo.
O Espaço de Brincar (voltado a pequenos de 0 a 6 anos, acompanhados de seus cuidadores) de cada unidade participante funcionará como ponto central da iniciativa nesse período. Segundo Flavia Carvalho, Gerente da Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc São Paulo, o tema desta edição converge com diretrizes dos programas socioeducativos do Sesc São Paulo. “A SMB convida o público infantil e seus cuidadores a reconhecerem, nas diferenças, as riquezas que constituem as infâncias e, no coletivo, a responsabilidade de cuidar, escutar e construir junto. As atividades valorizam o brincar como direito, expressão cultural e prática fundamental para a convivência, a participação e a construção de sentidos compartilhados”, destaca. Veja a programação completa em sescsp.org.br/semanamundialdobrincar.
Confira destaques:
VILA MARIANA
Corpos que Brincam, Culturas que Dançam
Vivência de danças, músicas e brincadeiras das culturas populares do Norte e Nordeste do Brasil. Com o Movimento Vem Brincar Cacuriá. De 26 a 29/5, às 10h e às 14h. Grátis. 60 vagas.
BELENZINHO
Tecendo comunidades de brincar na natureza
Vivência possibilita criar pequenas comunidades de brincar e reflete a profundidade das conexões ao brincar com elementos vivos.
Dias 29/5 , das 14h às 16h; e 30/5, das 10h às 12h. Grátis. 30 vagas.
CAMPINAS
Menos Tela e Mais Brincar Junto
Palestra sobre a importância de crianças e adultos brincarem coletivamente no dia a dia, reduzindo o tempo de todos em frente às telas.
Dia 30/5, às 15h. Grátis.
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