Silenciosa pulsação de Luis Fernando Verissimo

30/04/2026

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Os percursos do escritor que usou do humor para esmiuçar o mundo e captou mais de cinco décadas do cotidiano brasileiro em suas obras

Leia a edição de Maio/26 da Revista E na íntegra

POR MANUELA FERREIRA

Na pacata vida privada do escritor Luis Fernando Verissimo (1936-2025), alguns sons eram sempre bem-vindos: o de seu inseparável saxofone, que aprendeu a tocar na adolescência; o das celebrações a cada gol do Internacional, time do peito; o das risadas da esposa, Lúcia Helena, e dos filhos Fernanda, Mariana e Pedro; o das brincadeiras com os netos, Lucinda e Davi, e o do ruído festivo trazido pelos amigos à sua casa na rua Felipe de Oliveira, bairro Petrópolis, em Porto Alegre (RS). Um dos autores mais lidos do país passou a vida observando tudo ao seu redor e, com sutil precisão, traduziu em palavras o que via. Foram mais de 80 títulos publicados, além de textos para jornais, revistas e roteiros para televisão. 

Sua obra captou mais de cinco décadas do cotidiano brasileiro e o imortalizou em crônicas, romances, contos e cartuns, apresentando personagens que se tornaram ícones do imaginário nacional, como a Velhinha de Taubaté, o Analista de Bagé, o detetive Ed Mort e a Família Brasil. Boa parte dessa produção veio ao mundo na mesma residência onde ele cresceu e criou os filhos, uma casa que pertenceu ao seu pai, o escritor Erico Verissimo (1905-1975). No casarão projetado nos anos 1930, também foi escrita a maioria dos 34 livros do pai, entre os quais a trilogia O tempo e o vento (1949-1962), e o romance Incidente em Antares (1971). 

Esboços e ensaios
Da biblioteca, seu lugar preferido desde garoto, e com a constante companhia da mãe, Mafalda (1913-2003), e da irmã, Clarissa, Luis Fernando viu de perto a consolidação da figura paterna entre os maiores nomes da literatura brasileira. Mais tarde, não apenas continuaria a tradição literária familiar, mas conquistaria com a sua escrita, com inconfundível leveza e perspicácia, um reconhecimento popular inédito. “Meu pai era um tímido que adorava ter a família e os amigos por perto. Era realmente calado, mas gostava de ouvir uma boa conversa. Era, de fato, um grande observador. Bem-humorado, mas não piadista. Acho até que ele gostava mais de rir do que de fazer rir. Nós, os filhos, sempre nos divertíamos quando alguém perguntava como era conviver com alguém tão engraçado dentro de casa, sem imaginar que ele era tão quieto”, revela a jornalista e escritora Fernanda Verissimo. 

A face mais reservada era a mesma que abastecia a sagacidade da escrita do criador de As cobras (1975), habilidade que ganhou corpo a partir de 1962, quando Verissimo viveu na capital fluminense e trabalhou como tradutor e redator publicitário. Ao retornar a Porto Alegre, em 1967, ingressou no jornal Zero Hora, no qual começou no setor de revisão de textos. A qualidade e agilidade de seu trabalho logo lhe renderam um espaço maior e, em 1969, passou a assinar sua própria coluna, estreando com crônicas sobre futebol. Nesse período, ele também dividia sua rotina entre uma agência de publicidade e o semanário de humor Pato macho, do qual foi cofundador. Concebida como uma publicação irreverente, que atacava a elite local, o periódico teve vida curta, sendo censurada e encerrada após poucas edições. 

Por meio de imagens e palavras, Luis Fernando Verissimo fez do humor um exercício para refletir sobre o cotidiano e a humanidade (foto: Andrew Sykes).

Composição do olhar
Somente aos 37 anos veio o primeiro livro, a coletânea O popular, reunião de escritos publicados em diversos veículos, como a Folha da manhã e a revista Senhor. Na capa, o escritor anunciava, com seu estilo inconfundível: “O nome deste livro é O popular. São crônicas, ou coisa parecida. O nome do autor é Luis Fernando Verissimo. Que também é o culpado pelos desenhos”. 

Já o fascínio pelo jazz começou bem antes da estreia literária. Em função dos compromissos do pai, que também foi professor de uma universidade estadunidense, Verissimo concluiu parte do ensino médio nos Estados Unidos. Aos 16 anos, iniciou os estudos de saxofone e, a partir de então, a música se tornaria uma constante.

Nos anos 1960, passou a se apresentar profissionalmente nos bailes e festas da capital gaúcha, como integrante do Renato e seu Sexteto, chamado por ele como “o maior sexteto do mundo” – eram nove músicos no total. Em 1995, tornou-se membro-fundador do conjunto Jazz 6. Com o grupo, dessa vez apelidado pelo artista de “o menor sexteto do mundo”, por contar com cinco integrantes, viajou pelo país e lançou cinco álbuns. “Ele dizia que, se pudesse escolher uma profissão, gostaria de ter sido músico. Também era um grande fã de MPB. Nossa casa sempre foi muito cheia de música, ele gostava de volume alto e, querendo ou não, crescemos ouvindo jazz e MPB. Nesse sentido, o ritmo da casa era mesmo pautado pelo ritmo musical de cada dia”, recorda Fernanda.

A primogênita enumera as lições proporcionadas pela herança familiar. “Ter vivido na casa de dois grandes escritores me ensinou que a escrita pode ser uma profissão, um ofício que, além do talento, exige também uma boa dose de esforço e de conhecimento. Meu pai era um grande leitor, e a importância de ler para escrever bem também foi uma grande lição. O olhar de meu pai sobre o mundo, assim como o de meu avô, era o olhar de um humanista, de um homem que reconhecia e denunciava os horrores que nos cercam sem nunca ter se tornado um cínico. Acho que essa é uma boa lição, porque é muito mais fácil escolher o cinismo num mundo como o nosso”, afirma.

Do rabisco à forma
A veia musical de Luis Fernando Verissimo manifestou-se tanto na composição quanto na performance. Sua incursão no universo cancioneiro inclui a letra de “Parceria em marcha lenta”, escrita com Magro Waghabi (1943-2012), um dos cantores do MPB4 e gravada pelo grupo em 1989. Os poemas do autor também se transformaram em canção, pelo pianista gaúcho Arthur Faria, interpretada pela dupla Kleiton & Kledir, na faixa “Olho mágico”, presente no álbum Com todas as letras (2015). Verissimo ainda se aventurou em relatos de viagens, literatura infantil, roteiros para televisão e romances. O primeiro deles, O jardim do diabo (1987), confirmou seu entusiasmo pelo policial noir, gênero que já havia lhe inspirado a criar, em 1979, um de seus personagens mais famosos: o detetive Ed Mort, investigador particular que se mete em todo o tipo de enrascada pelas ruas do Rio de Janeiro.  

Foi por meio dos contos e crônicas, entretanto, que se tornou um dos autores mais queridos do Brasil. “Cronista é aquele maluco autorizado pela direção da redação a mudar o papo, encontrar outras palavras e maneiras de enfileirá-las. Meio jornalismo, meio crônica, meio passatempo, meio páginas definitivas para a literatura. Verissimo era a mais completa tradução do novo cronista, e com um plus a mais em relação aos que o sucederam. Era capaz de usar o mesmo texto gostoso ao estilo da turma de Rubem Braga (1913-1990), mas agora para tratar de assuntos da atualidade, como um filme, uma sessão do STF [Supremo Tribunal Federal], um jogo do Brasil”, analisou o jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos, em artigo publicado no jornal O Globo, em 30 de agosto de 2025.

Rigor e humor
Ao narrar histórias do cotidiano em obras de destaque no mercado editorial brasileiro, Luis Fernando Verissimo cimentou sua relação com o público. Ele se tornou presença constante em vários jornais e revistas e, a partir dos anos 1980, passou a entregar aos leitores, em média, ao menos um livro por ano, invariavelmente um best-seller. Com as redes sociais, contudo, o autor passou a viver um fenômeno curioso, a atribuição de escritos não assinados por ele – o chamado hoax [palavra em inglês que significa fraude, trote]. Sobre o assunto, ele escreveu, em coluna publicada em 24 de março de 2005, no jornal Zero Hora. “O incômodo, além dos eventuais xingamentos, é só a obrigação de saber o que responder em casos como o da senhora que declarou que odiava tudo o que eu escrevia até ler, na internet, um texto meu que adorara, e que, claro, não era meu. Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita, mesmo quando não merece. O texto que encantara a senhora se chamava ‘Quase’ e é, mesmo, muito bom.”

A verdadeira autora de “Quase” é a escritora, jornalista e produtora cultural Sarah Westphal, que, após enviar um fax para o escritor para desfazer o engano, recebeu como resposta, na coluna da semana seguinte, um inesperado e adorável incentivo. Verissimo escreveu: “Apareceu a autora do “Quase”, o texto que rola na internet atribuído a mim e que eu, relutantemente, tenho que repetir que não é meu. Ela se chama Sarah Westphal Batista da Silva, tem 21 anos, é de Florianópolis, escreveu o texto ‘inspirada por um menino que não me namorou, mas quase…’, mandou o texto por e-mail a várias amigas e dois anos depois teve a surpresa de vê-lo impresso com a minha assinatura. A Sarah está no quarto semestre de medicina, mas sonha em largar a faculdade e começar a escrever. Olha aí, editores. Ela nem começou e já foi traduzida na França”. 

O saxofone acompanhou Verissimo desde seus 16 anos e foi uma das grandes paixões do escritor, que integrou diferentes grupos de jazz (foto: Acervo de Luis Fernando Verissimo/Unisinos).

Suavidade intrínseca
Sobre o simpático desfecho da história, Sarah Westphal Batista da Silva trouxe detalhes na edição 85 do podcast Rádio Novelo Apresenta. “Fico sem palavras até hoje. Não é muito legal? Eu nunca imaginei que isso poderia acontecer.” A anedota confirma outra característica do escritor amplamente celebrada: a generosidade. É o que aponta a jornalista e escritora Vanessa Barbara, fã declarada do autor, que teve a oportunidade de passar um dia na residência da família Verissimo. O ano era 2013 e o encontro teve a companhia do cineasta Angelo Defanti, responsável pelo roteiro de O clube dos anjos (2020), adaptação do romance homônimo de 1999, e diretor do documentário Verissimo (2023).

“Como eu já tinha lido muita coisa sobre ele, sobretudo por meio de suas crônicas, a visita se encaixou perfeitamente na figura que eu já fazia dele: um sujeito introvertido, observador e engraçado, com todo um universo de associações dentro dele. Acho que fiquei impressionada com a sua generosidade, a paciência em aguentar a nossa abordagem desajeitada e aleatória”, lembra. Ela guarda na memória, ainda, um gesto singular, que reforça a grandeza do escritor. “Como eu sabia que um dos livros preferidos dele era O grande Gatsby, levei de presente a tradução que fiz para a Penguin-Companhia das Letras. Ele abriu na última página e conferiu a minha tradução do finzinho do livro. Depois comentou que esse finzinho era famosamente difícil de traduzir [“E assim avançamos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado”] e elogiou as minhas escolhas. Ou seja: generosidade”, recorda Vanessa.  

Assista ao episódio Humor é coisa séria, da série Super Libris, dirigida por José Roberto Torero, com participação do escritor Luis Fernando Veríssimo, no canal do Youtube do Sesc.

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