
Atriz, produtora e cronista reflete sobre a angústia como combustível para o ofício e define o teatro como lugar de busca pela perfeição inatingível (foto: Evelson de Freitas)
Leia a edição de Maio/26 da Revista E na íntegra
POR MARINA PEREIRA
O rumo que a vida de Denise Fraga tomou é uma surpresa não só para ela, que nunca havia imaginado na infância se tornar uma atriz, mas também para seus pais. “Eu me lembro da época em que descobri que pessoas escrevem livros, que atores são pessoas normais, às vezes, filhos de uma professora e um contador, como eu”. Nascida no subúrbio do Rio de Janeiro, em Lins de Vasconcelos, a “menina de bairro”, como ela diz, descobriu um novo universo quando iniciou a sua trajetória no teatro: “Era um mundo se abrindo, mas eu me sentia pouco municiada. Fui aprendendo e saboreando tudo o que me era apresentado”.
Considerada uma contadora de histórias por trabalhos icônicos tanto na TV, como o quadro Retrato falado, do programa Fantástico (TV Globo), quanto nos palcos, com o espetáculo Eu de você, em cartaz desde 2019, Denise acredita que a angústia é um combustível para quem atua. Com dois longas no streaming, a tragicomédia sobre eutanásia Sonhar com leões (Globoplay, 2024) e o drama Livros restantes (Prime Video, 2025), que aborda o encontro humano, as memórias e os retalhos da vida, a atriz celebra como o humor permite uma conexão que vai além do riso: “Eu adoro quando consigo fazer alguém rir e, ao mesmo tempo, essa pessoa entrar em um estado de reflexão. O que eu mais amo ouvir do público é ‘eu não sabia se eu ria ou se eu chorava’”.
Neste Encontros, Denise comemora a sua relação próspera com o teatro, reflete sobre o distanciamento interpessoal que a era digital tem gerado e compartilha a vontade de ocupar novos espaços.
DO DESENHO À CENA
Sempre fui uma criança muito sensível, tímida, chorava sem saber o porquê. Eu falava com as árvores, conversava com o banco, e a minha mãe ficava meio preocupada com aquilo. Como eu gostava de desenhar, ela me matriculou no curso de pintura do bairro com um professor que pintava a óleo. Passei no vestibular para estudar Comunicação Visual, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas o curso só iniciaria em agosto e, durante o primeiro semestre daquele ano, comecei a fazer cursos livres. Ao fazer um curso de teatro, tudo mudou na minha vida porque, apesar da minha timidez, eu sentia um certo conforto em estar naquele lugar. Na verdade, eu achava uma voz. Um lugar onde eu podia falar, onde eu podia me expressar. Na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna [a mais antiga escola profissionalizante de teatro da América Latina, fundada em 1908], eu falei: “Eu acho que vou ter que fazer esse negócio aí”.
TEATRO ESCOLA
Desde o início, eu sentia que o teatro era o meu lugar. Trabalhei por dois anos no grupo Tapa, a convite do professor Renato Icarahy. Montamos depois um grupo com ex-alunos da escola, e fizemos muitos projetos. Eu tinha um fusquinha 64, nós o enchíamos de cenário e fazíamos uma peregrinação pelas escolas do Rio de Janeiro. Era o Moacir Chaves quem nos dirigia, encenador e diretor teatral, e ele propunha para a escola, dentro do ensino de literatura, pesquisar Martins Penna (1815-1848), França Júnior (1838-
-1890) ou esses autores da comédia clássica brasileira da virada do século que, na minha opinião, é o que há de melhor do teatro clássico brasileiro. Então foi uma escola em vários sentidos. Existia muita formação de público. Se a turma quisesse, podia ver a gente montar o cenário, se maquiar. E isso realmente virava um grande evento do fazer teatral. Após dois anos de formada, eu já fazia papéis pequenos na televisão, fazia TV Pirata, mas sempre com o teatro em paralelo. Quando vi, eu era atriz.
ALÉM DO HOLOFOTE
Sinto que ter tido a vivência em grupo teatral desde o início, participar de todas as etapas de uma produção, das dificuldades, foi muito bom porque me tirou do holofote. Essa admiração que a gente tem pelos artistas, de colocá-los em um certo pedestal. Nunca acreditei nisso. Sinto que nós somos operários do teatro. Claro que o ator tem um encantamento. É essa figura que cria um magnetismo com o público. Sempre peço que eu seja magnética, que eu tenha poder de captura, de contadora de histórias. E sempre penso que, se tudo der errado, não vou parar de fazer teatro, porque foi assim que começamos, sem dinheiro nenhum. Chegamos a rifar um relógio da tia de uma das atrizes para conseguirmos algum dinheiro para comprar tecido para o figurino e o que precisasse naquela primeira peça. Depois, soubemos que o relógio nem funcionava.
CANTEIRO DE OBRA
O teatro é um canteiro de obra aberto. Toda noite, o público, de alguma maneira, te diz uma coisa nova a respeito daquela fala, daquela cena, e eu sou muito obcecada por isso. Quem trabalha comigo sabe que eu falo assim: “Amanhã vamos tentar aquele tempinho ali”. E eu acho isso a grande sacada do teatro. O teatro é essa busca pela perfeição que você nunca vai atingir. Mas essa busca te leva, você tem o dia seguinte. No cinema, por exemplo, há algo que eu chamo de “síndrome da ideia posterior”. Eu estou tomando banho, depois de um dia de filmagem, e falo no chuveiro a fala do jeito que eu devia ter feito. Mas não dá para mudar, porque o filme já está filmado e não vai acontecer aquela gravação novamente. No teatro, eu tenho o dia seguinte.

ANGÚSTIA CRIATIVA
Ser artista é ter um braço dado com a insatisfação. Essa foi a minha primeira frase na busca por definir a angústia criativa. A angústia é o combustível de um ator. Nós somos inquietos por natureza. Hoje, eu tenho a coragem de me chamar de artista, mais do que atriz, porque eu sinto que eu crio junto. As nossas últimas duas peças foram uma união de forças em uma sala de ensaio. O teatro, cada vez mais, vai ser esse lugar onde você pode voar. É um lugar que você realmente lida com esse poder da imaginação a toda prova para dizer o que se quer dizer. É como se tivesse eu, Denise, que entrou lá na Comunicação Visual, pintando esse quadro móvel que inclui a plateia, que faz daquilo um encontro, uma experiência coletiva. Eu sinto que isso foi algo que foi me forjando, foi acontecendo comigo, muito movida por essa angústia. De alguma maneira, é salvador você fazer arte por pura angústia. Talvez eu seja romântica, utópica, mas eu acho que a gente tem um ofício que permite transformar a angústia em beleza.
EU DE VOCÊ
Foi um divisor de águas na minha vida, porque se tornou um exercício de disponibilidade, de presença, de curiosidade pelo outro. Eu já sou uma pessoa que tem vontade de escutar. É só ter um pouquinho de paciência que surge uma história. Todo mundo é único de algum jeito. Eu tenho realmente uma fé de que eu, ao encontrar alguém, vou descobrir ali algo que vai ser muito interessante, que vai me divertir, me dar prazer no outro. Essa é a proposta do Eu de você. Eu quebro essa parede, saio da peça e vou para a plateia, não querendo trazer a pessoa para o palco, mas me enfiar entre as gentes. Olhando no olho de um e de outro, incluo a pessoa na cena que estou fazendo. Me faz ter fé numa nova maneira de fazer teatro, que se estendeu para outros cantos.
RETRATO FALADO
Foi uma experiência inacreditável. Foram 9 anos, 176 mulheres representadas na TV Globo, no Fantástico, programa com uma grande audiência, e a gente fazendo algo que era uma criação nossa. O programa era uma ideia do [diretor e marido] Luiz Villaça muito banal: “Alguém conta uma história e você representa, a pessoa contando e você fazendo uma história real”. Aprendi muito ao representar esse comportamento feminino de lidar com os dias. Às vezes, eram depoimentos muito difíceis. Falávamos sempre nas reuniões de roteiro que tínhamos que ter muito cuidado porque não podíamos rir da pessoa retratada. Tínhamos que rir com ela. E aquilo era muito bonito. Era uma homenagem, não uma chacota. Houve um momento em que a editora Globo queria lançar um livro sobre o programa. Eu me propus a escrever e foi um prazer enorme. Vi que estava nascendo uma voz escrevente em mim.

POR INTEIRA
Eu sou uma comediante. O humor invade a minha fala, a minha vida. Adoro quando consigo fazer alguém rir e, ao mesmo tempo, essa pessoa entrar em um estado de reflexão. O que eu mais amo ouvir do público é “eu não sabia se eu ria ou se eu chorava”. Sinto que dei uma pessoalidade ao meu trabalho nas últimas peças, principalmente no Eu de você. Eu represento, faço um personagem quando preciso, mas nunca deixo de estar ali. Não consigo mais não estar presente em cena. E isso, na verdade, é uma pequena cilada que arrumei para mim mesma porque não consigo mais mentir. Não consigo mais fazer um personagem sem que eu tenha que estar muito inteira ali. É um delírio bom, nesse sentido, é uma felicidade. Porque isso me recruta uma presença que faz eu saborear muito mais o ofício maravilhoso que eu tenho.
VIDA NO CINEMA
Lancei o filme Sonhar com leões, que fala sobre o direito de morrer, sobre eutanásia, por meio de uma tragédia comédia maluca. Fomos para muitas associações de psiquiatria, de luto, de cuidados paliativos, de suicídio; li muitas entrevistas, o que me fez pensar em uma pequena tese de que a gente não gosta de falar da morte porque, quando a gente fala da morte, a gente precisa se debruçar sobre a urgência que a vida tem. Esse bilhete único que é a nossa passagem por aqui. A vida oferece muita coisa e a gente está muito distraído de si. A vida digital distrai você de si mesmo. Distrai você, inclusive, da sua maior missão aqui, que é ser livre, que é ser feliz. A gente nasceu para isso, mas está esquecendo.
A atriz Denise Fraga esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 26 de março. A mediação do bate-papo foi da psicóloga Rani Bacil Fuzetto, que integra a Gerência de Ação Cultural do Sesc.
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