
POR BIANCA MONTEIRO GARCIA
ILUSTRAÇÕES CATARINA COSTA
estudo de caso
quando chamo você
seu nome escapa
no canto da boca
quando chamam você
é o sobrenome que trazem
na ponta da língua
os amigos defendem o sobrenome
dizem que você não carrega
no rosto a marca
embora carregue sim
mas pra enxergar
é preciso pôr a lupa
– aos seus olhos –
a cortina
uma fresta
e a luz
com seu truque

fonética
uma língua universal pra dizer
calor
uma língua universal pra dizer
atrito
é arbitrária a língua
dizem os linguistas
se digo casa
não trago no som
a ideia de abrigo
se digo você
vibro a falta
nas cordas vocais
fricciono os dentes
no lábio inferior
boca e língua
proclamam seu corpo
selado o acordo
novas formas de dizer
a falta
novas formas de dizer
o impossível
língua-alvo
tardes brancas
manta e jazz
fumaça e suor
seiva e saliva por um fio
nossa língua um truque
não separa o não do sim
uma língua uma ilha
dois falantes balbuciam
uma ilha uma língua
afogada na urgência
uma língua extinta

fome
escrevo agora os dias
de uma estação suspensa
no tempo azul
o agridoce
evoca seu gosto
cisão protocolar
o gesto em sépia
você me alfabetizou
na colisão dos cômodos
e no riso
dos dias úteis
almoços caros
tocam a campainha
em marmitas de isopor
o restaurante é a minha casa
a minha casa é a nossa cidade
florianópolis não saiu do papel
percorremos a ilha
no canto do meu quarto
a luz atravessa a cama
lâmina e lágrima
o fim está próximo
vamos naufragar
retorno aos dias
das tardes vermelhas
beijo as linhas
dos seus olhos
os fios emaranhados
abrandam a canção
do tempo
no seu rosto grisalho
desejo e falta
não contamos as horas
ancora no agora
este silêncio mineral
você trouxe a fome
fabricamos a sede
fabricamos o pote
à beira de um sorriso
a máquina captura
o auge de um quase

teimosia
jogo tarô e leio horóscopo
quando as coisas vão mal
corro pra cartomante
com ânsia de futuro
escuto o que quero
o resto jogo fora

Bianca Monteiro Garcia (Rio de Janeiro, 1994) é poeta, editora da Macabéa Edições e integra a Gerência de Livro e Leitura da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. É autora do breve ato de descascar laranjas (Macabéa; 7letras, 2023), vencedor do Prêmio Jabuti 2024 na categoria de poesia estreante, e de Um esporte radical (Fictícia, 2023). Participou do World Poetry Day Festival, em Washington, representando a jovem poesia brasileira. Seus poemas foram traduzidos para o espanhol e publicados em revistas literárias como Círculo de Poesía, Altazor, Fundación Cultural Esteros e La Otra. Em 2024, foi incluída na lista Forbes Under 30 entre os nomes de destaque no campo literário.
Catarina Costa (Rio de Janeiro, 1996) é poeta, editora, ilustradora, designer e mestranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publicou Fluorescentes (7letras, 2022) e tem poemas em publicações impressas como Revista Uso, Cadernos do CEP, Inimigo Rumor e periódicos on-line. Ministrou oficinas de poemas na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Universidade Federal Fluminense. Atualmente, dá aulas de pintura, é uma das curadoras do CEP 20.000 e faz parte da equipe editorial da Macabéa Edições.
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