
Nos palcos e nas telas, a atriz corporifica personagens marcadas por múltiplas opressões que incidem sobre o feminino (foto: Nilton Fukuda)
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POR MARCEL VERRUMO
Após representar uma milionária em uma telenovela, a atriz Malu Galli retorna aos palcos de teatro com o espetáculo Mulher em fuga e dá corpo à Monique, mulher que mora em uma periferia e enfrenta uma série de dramas familiares. Transitando entre personagens com marcadores sociais tão díspares, a artista acredita que alguns dos pontos em comum entre suas recentes representações sejam as vivências caracterizadas por opressões e os desejos de operar mudanças: “falar do universo feminino, infelizmente, é falar de opressão na maioria das vezes, porque essa é a nossa realidade”.
Com mais de quatro décadas nas artes cênicas, Malu iniciou sua carreira aos dez anos n’O Tablado, tradicional escola de teatro do Rio de Janeiro. Após os primeiros trabalhos como atriz, também dirigiu, produziu e escreveu suas próprias obras. Dedicou-se ao cinema, à televisão e, mais recentemente, a produções para plataformas de streaming. No entanto, mesmo após experienciar outros espaços, a atriz confessa que o teatro continua sendo o local para onde retorna após transitar por outras realidades, um ambiente familiar no qual sente a necessidade de estar.
Ao lado do ator Tiago Martelli, Malu esteve em cartaz em Mulher em fuga no Teatro Raul Cortez, no Sesc 14 Bis. O espetáculo segue temporada em palcos de outros estados brasileiros e é baseado em livros do escritor francês Édouard Louis, com dramaturgia de Pedro Kosovski e direção de Inez Viana. Neste Depoimento, realizado durante a temporada em São Paulo, a atriz relembra suas primeiras experiências no teatro, compartilha vivências na televisão e revela o desejo de realizar seu próprio show de música.
teatro
O teatro faz parte da minha vida desde que eu era criança. Comecei a estudar n’O Tablado [escola de artes cênicas do Rio de Janeiro] aos dez anos, mas já atuava em casa com meus primos antes, ia a peças infantis. A atriz que eu sou é uma atriz que foi forjada no teatro, no teatro de grupo, no teatro de pesquisa. O audiovisual entrou na minha história bem depois: comecei no cinema quando já tinha vinte anos; na televisão, com mais de 35. O teatro foi a minha escola de atuação, onde aprendi a me expressar, onde encontrei os meus amigos, os meus pares, os meus colaboradores. É para onde eu volto depois de viver outras experiências, um lugar onde tenho necessidade de estar. Cada vez mais, sinto o palco como um lugar muito familiar. Por mais desafiador que seja o trabalho, por mais que seja um lugar de desconforto, estar no palco, cada vez mais, me dá uma sensação de estar em casa.
televisão
Comecei a trabalhar na televisão com participações pequenas em programas esporádicos, sem uma personagem grande. Foi justamente o teatro que me deu a oportunidade de fazer televisão. Em 2006, eu estava fazendo a peça Gaivota – tema para um conto curto [baseada na obra de Anton Tchekhov (1860-1904)] no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. A Maria Adelaide Amaral [escritora e dramaturga] e a Denise Saraceni [diretora de televisão] foram assistir e me chamaram para fazer um teste para a minissérie Queridos amigos (Globo, 2008). Fiz um teste para uma personagem pequena; depois, me convidaram para fazer o teste para uma das protagonistas, a Lúcia. Passei e pude mostrar um trabalho mais consistente. Era uma personagem incrível, com um arco dramatúrgico maravilhoso. A partir daí, não parei mais. Isso mostra como sempre foi o teatro que me abriu as portas.
telenovela
Vale tudo (Globo, 2025) foi o trabalho mais intenso que fiz na televisão. Havia muita expectativa desde antes de a novela estrear, já na escalação do elenco, muita gente opinando. Depois, as pessoas acompanharam a novela toda, postaram opiniões na internet, nas redes. Foi muito desafiador e fui muito agraciada. Tínhamos um núcleo de trabalho muito amoroso, produtivo e empenhado, e foi agradável por esse lado; por outro, enfrentamos várias tempestades em alto mar. Fizemos um bom trabalho, tenho muito orgulho do que fiz. A Celina Roitman foi uma personagem muito desafiadora. Para um ator, o conflito é bem-vindo. Eu adoro personagens com muitas camadas, incoerências, isso é sempre muito fértil.

retorno
O convite para estrear a peça Mulher em fuga surgiu em 2024. O [ator] Tiago Martelli entrou em contato comigo para falar sobre a ideia desse projeto. Eu ainda não o conhecia nem havia lido algum livro do Édouard Louis, mas já tinha visto um artigo sobre o Mudar: método (Todavia, 2024), assistido a uma entrevista do autor. Foi muito interessante quando o Tiago me apresentou a proposta. A gente ainda não tinha um nome para a direção, mas algumas possibilidades, e falei: “claro, pode colocar meu nome”. Quando eu já estava gravando Vale tudo, ele me falou que estávamos com uma possibilidade de apresentação no Sesc, com a direção da Inez Viana. Fiquei superfeliz, pois tenho vontade de trabalhar com a Inez há muito tempo. Acabou que o final do meu trabalho na televisão coincidiu com o início dos ensaios para retornar ao teatro. O processo de preparação foi muito rápido. Fizemos os ensaios e levantamos a peça em um mês. Já vínhamos conversando sobre a dramaturgia com o Pedro Kosovski, estávamos fazendo reuniões. Quando chegamos na sala de ensaio, restava pouco tempo, mas já tínhamos uma ideia clara do recorte que iríamos fazer a partir dos dois livros do Édouard [Lutas e metamorfoses de uma mulher (Todavia, 2023) e Monique se liberta (Todavia, 2024)] e da abordagem.
adaptação
A escrita do Édouard Louis é muito direta. Ele tem uma forma clara, objetiva e simples de escrever, no bom sentido. Eu acho que é por isso que ele alcança tantas pessoas, que a obra está sendo tão lida no mundo todo. Li em uma tacada. Foi muito rápido e uma absorção profunda. Os temas presentes na obra do Édouard, como a opressão feminina, o apagamento feminino, são temas que me atravessam, que sempre me atravessaram. E a gente está em um momento do mundo em que isso está mais pungente. A gente estava ensaiando bem quando isso estava acontecendo, no país inteiro, a mobilização pelo fim do feminicídio, com aqueles casos tenebrosos surgindo por todos os lados; ao mesmo tempo, havia o crescimento da misoginia na internet, de grupos orquestrados disseminando ódio. Tudo isso é muito preocupante e é importante ter uma peça, nesse momento, para falar disso. E o bonito da obra do Édouard é que ele conta a história dele, uma história carregada de sentimentos e baseada na relação humana entre ele e a mãe, entre ele e a família, ao mesmo tempo em que escreve um gesto político, um manifesto, um estudo sociológico, uma crítica social contundente e original. Como é que pode, naquele livrinho, você ter tantas camadas? É muito apaixonante e a gente procurou trazer isso para a peça. Acredito que a peça emociona porque fala de aproximação entre mãe e filho, de relações familiares difíceis, ao mesmo tempo em que propõe reflexões políticas muito atuais.

personagens
Tanto as personagens impactam na minha forma de ver o mundo, como a minha forma de ver o mundo impacta a minha construção das personagens. É uma troca. Eu aprendo com elas, mas, ao mesmo tempo, elas são o que eu aprendo com o mundo. A Celina [de Vale tudo] e a Monique [de Mulher em fuga] são duas personagens oprimidas, com um desejo muito grande de mudança. A Monique opera essa mudança; a Celina, não. Foi muito bom, porque terminei a novela muito frustrada com a Celina que não saía daquele lugar e ficava patinando. Agora, eu venho para esse palco [em Mulher em fuga] e toco essa bateria, derrubo essa parede, dou meus gritos. Falar do universo feminino, infelizmente, é falar de opressão na maioria das vezes, porque essa é a nossa realidade. É uma realidade de apagamento, de opressão pelo patriarcado. São raros os papéis em que você faz uma mulher que reina absoluta, que é dona das suas vontades, livre e autônoma.
horizontes
Mulher em fuga circula por São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, e a gente quer seguir para outras capitais. Tenho um projeto de teatro aprovado em um edital, com a Silvia Gomez [dramaturga], o Gabriel Fontes Paiva [produtor] e o Alejandro Claveaux [ator]. Estou filmando Tiros no escuro para Prime Video [plataforma de streaming], um true crime [narrativa baseada em crime real]. Vamos apresentar em festivais o filme Querido mundo (2025), do Miguel Falabella, com o qual ganhei o [prêmio] Kikito de melhor atriz no Festival de Cinema de Gramado. Espero que venham mais trabalhos e me coloco à disposição do que vier, do que acontecer. E ainda tenho vontade de voltar a dirigir e o desejo de fazer um projeto de música: quero apresentar um show em que eu possa cantar – esse é um projeto que guardo no coração e espero realizar em breve.
Assista a trechos desse Depoimento com a atriz Malu Galli, realizado em janeiro de 2026, no Sesc 14 Bis.
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