Música plural brasileira

01/06/2026

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Celso Tavares, gerente na TV Cultura, celebra retorno do Bem Brasil, que reestreia no canal e no SescTV com shows no Sesc Itaquera (foto: Nadja Kouchi)

Leia a edição de Junho/26 da Revista E na íntegra

POR MARCEL VERRUMO

As manhãs de domingo ganham uma variedade de sonoridades com a reestreia neste mês do icônico programa Bem Brasil, exibido ao vivo, a partir das 12h, na TV Cultura e no SescTV. Assim como no projeto original – criado em 1991 e exibido até 2008 –, a proposta é ampliar o espaço para uma diversidade de músicos, sejam eles consagrados ou em ascensão, de diferentes origens e estilos. Os shows são realizados nas dependências do Sesc Itaquera, na zona Leste da capital paulista, de onde também é possível assistir às apresentações presencialmente, de forma gratuita.

Gerente de produção do programa na época e hoje responsável por uma equipe de gestão integrada de operação e produção do novo projeto, Celso Tavares celebra o retorno do programa à grade televisiva. O Bem Brasil foi um marco na história da televisão. As gravações ocorriam na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo (1991-1995) e, posteriormente, nas unidades do Sesc Interlagos (1995-2005) e Pompeia (2005-2008). “O sucesso do Bem Brasil era, entre outros motivos, porque ele falava com a família, unia todos em um horário muito bom. Também era um bom produto e um belo evento presencial”, recorda Tavares.

Caetano Veloso, Charlie Brown Jr., Bezerra da Silva (1927-2005), Barão Vermelho, Daniela Mercury e Zé Ramalho, entre outros, passaram pelos palcos do projeto, chegando aos lares de milhões de brasileiros, em um momento de alta penetração da televisão aberta no país. 

Neste Depoimento, Tavares relembra momentos de criação do programa e de seus primeiros anos, e compartilha as expectativas para o seu retorno. Também aborda os desafios de produzir a atração em um novo contexto midiático, marcado por uma multiplicidade de telas, e destaca o compromisso da TV Cultura, que tem como presidente Maria Angela de Jesus e como vice-presidente Beth Carmona, em produzir conteúdos alinhados à educação e à cidadania.

“Eu acho que o sucesso do Bem Brasil era, entre outros motivos, porque ele falava com a família, unia todos em um horário muito bom. Também era um bom produto e um belo evento presencial. A gente pensava em grandes nomes, mas também naqueles que a mídia não mostrava muito. Desde o início, o caminho sempre foi de apelo popular diverso, mostrando a diversidade regional e de gênero.”

(foto: Nadja Kouchi)

Bem Brasil
O programa, que é um patrimônio da TV Cultura, nasceu em maio de 1991. A TV Cultura tinha alguns programas musicais com certa segmentação, de música sertaneja raiz, de jazz. Na época, eu era gerente de produção e estávamos pensando em ter mais um programa musical. Entendíamos que éramos uma emissora pública e que faltava alguma atividade cultural aos finais de semana na cidade de São Paulo, que poderíamos oferecer algo à população. Nesse período, a Cidade Universitária [campus da Universidade de São Paulo (USP) no bairro do Butantã, na região Oeste da capital paulista] tinha um fluxo de famílias muito grande aos finais de semana. Então, surgiu a ideia de fazermos um evento de música gratuito para a população, que também fosse transmitido como um programa da TV Cultura. 

estreia
Depois de um acordo com a reitoria da USP, fizemos uma intervenção no anfiteatro, criamos um cenário, investimos em uma tenda branca muito bonita e estreamos. O Bem Brasil decolou com muita rapidez. Levávamos artistas de muito peso, as pessoas gostavam de participar. Foi um sucesso e, em 1995, o crescimento do programa levou a TV Cultura a buscar uma parceria com o Sesc. O Bem Brasil passou a ser transmitido do Sesc Interlagos e, a partir de 2005, foi transferido para o Sesc Pompeia. A gente já teve Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Titãs. Na época, o Wandi Doratiotto participava do [grupo musical] Premeditando o Breque, era um músico conhecido, que fazia publicidade e tinha certo humor na própria interpretação. A gente achou que ele cairia muito bem como apresentador. E realmente caiu como uma luva. O programa virou um evento que proporcionava o que nós buscávamos, que era unir as famílias nas manhãs de domingo, e atingiu o alvo perfeitamente.

sucesso
O espaço na televisão para a música não era grande e a gente oferecia isso. Uma das funções da TV Cultura é mostrar a diversidade cultural do Brasil. Exibir um programa musical era algo que, com certeza, daria certo. Eu acho que o sucesso do Bem Brasil era, entre outros motivos, porque ele falava com a família, unia todos em um horário muito bom. Também era um bom produto e um belo evento presencial. A gente pensava em grandes nomes, mas também naqueles que a mídia não mostrava muito. Desde o início, o caminho sempre foi de apelo popular diverso, mostrando a diversidade regional e de gênero.

retorno
A TV Cultura tem muitas marcas icônicas: o Roda Viva, que está fazendo 40 anos; o Rá-Tim-Bum (1990-1994), o Castelo Rá-Tim–Bum (1996-1997), o Cocoricó (1996-2013), o Mundo da Lua (1991-1992). Estamos trabalhando para reativar algumas dessas marcas e o Bem Brasil estava na nossa meta. Queríamos voltar com o programa [as exibições foram encerradas em 2008] e surgiu a possibilidade de uma parceria com o Sesc. Temos uma expectativa muito boa para relançar esse produto. Hoje, trabalhamos com o conceito de ecossistema. Você tem uma multiplicidade de telas, então, o Bem Brasil vai estar presente no streaming, no YouTube. Temos uma área de digital bem estruturada e pretendemos estar em todas as telas. Com a TV 3.0, que vai ser uma união de televisão com internet, é preciso estar extremamente atento a isso. Haverá uma dinâmica maior de imagens e um detalhamento mais rico e diverso. Haverá uma unidade móvel de vídeo 4K, contando com câmeras fixas, duas gruas, câmera móvel e um drone para imagens aéreas. A ideia é captar o clima de lazer que o ambiente propõe, onde famílias se encontram e relaxam ao som de boa música e muito verde. A curadoria atual é feita a quatro mãos, pela TV Cultura e pelo Sesc. Temos uma lista que vai do pop ao samba, do pagode ao forró. Buscamos a diversidade não só em termos de gênero, mas também de regiões. Pensamos em mostrar a diversidade da música no Brasil, que é admirada no mundo inteiro.

TV Cultura
Fazemos uma televisão com compromissos de cidadania, de formação de cidadãos. Temos obrigação de dar espaço na mídia para quem não está tendo espaço. Se você olhar a TV aberta hoje, você tem um espaço pequeno para atrações musicais, a não ser eventos específicos e que viram grandes shows, mostrados pelas redes maiores. Mas você praticamente não tem um programa musical fixo na grade. Com o Bem Brasil, a ideia é voltar a ter isso. A nossa obrigação é abrir esse espaço. Como TV pública, temos a consciência de que somos diferente do que é uma TV privada e com a característica comercial. Temos obrigações e compromissos com a sociedade, com a população, e isso nos move em termos de programação. Sempre houve a preocupação da TV Cultura em ser um espaço para a cultura, considerando a cultura em um sentido amplo.

Belchior (1946-2017) em apresentação no Bem Brasil, realizada no Sesc Interlagos (foto: Acervo Sesc Memórias)

televisão
A televisão aberta é uma mídia de massa. Eu, particularmente, acho que o Brasil conseguiu uma integração de um país continental por meio da televisão. Hoje, as classes A e B assistem muito menos, porque estão mais presentes no streaming do que na TV aberta. Mas mesmo com a competição com essas plataformas, a televisão ainda tem um papel muito grande nas classes C e D. A TV aberta, eu vou dizer isso até o fim, é o entretenimento mais barato que existe: você compra um aparelho e ele não custa mais nada. Mas o mundo midiático está cada vez maior, por isso a gente quer estar em todo ecossistema. A gente não pode ficar restrito.

carreira
Estou completando cinco décadas na televisão. Sou graduado em Comunicação pela FAAP [Fundação Armando Alvares Penteado], nos anos 1970. No segundo ano da faculdade, comecei a trabalhar como redator na antiga TV Tupi. Depois, vim para a TV Cultura, fui produtor, diretor de programa. Então, comecei a acumular cargos executivos e passei a trabalhar em outras empresas [Celso trabalhou na MTV Brasil, Rede Bandeirantes
e Globo, além de ter sido vice-presidente da FremantleMedia, produtora e distribuidora na qual produziu conteúdos para uma variedade de emissoras nacionais e internacionais]. Depois de cerca de 35 anos, voltei para a TV Cultura, que é uma casa da qual tenho lembranças incríveis. Televisão é o que eu quis fazer desde que eu me inscrevi para o vestibular. Talvez eu seja uma das poucas pessoas que fizeram exatamente o que queriam e estão trabalhando nisso até hoje. Eu sei fazer outras coisas? Talvez até saiba, mas, depois de tanto tempo, digo que sei fazer televisão e tenho vocação para isso.

compromisso
A televisão tem um lado de entretenimento muito grande e bastante utilizado pelas TVs privadas. Na TV pública, obviamente que trabalhamos com entretenimento, mas temos um compromisso com a educação, com a informação, com a formação de cidadania. A TV pública, cada vez mais, tem que ser uma prestadora de serviço para a população. Essa é a função da TV Cultura desde quando ela foi criada nos anos 1960. Eu vejo a televisão dessa forma. Por isso que, para mim, foi muito importante voltar para TV Cultura depois de grandes experiências em TVs privadas. Aqui, uno a minha vocação com o meu ideal. 

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