Revista do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo nº 20 – Dossiê: Gestão Cultural em Contextos Tradicionais

01/04/2026

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Revista do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo nº 20 – Dossiê: Gestão Cultural em Contextos Tradicionais

Expediente

SESC – SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO
ADMINISTRAÇÃO REGIONAL NO ESTADO DE SÃO PAULO

PRESIDENTE DO CONSELHO REGIONAL
Abram Szajman
DIRETOR DO DEPARTAMENTO REGIONAL
Luiz Deoclecio Massaro Galina

SUPERINTENDENTES
TÉCNICO-SOCIAL Rosana Paulo da Cunha
COMUNICAÇÃO SOCIAL Ricardo Gentil
ADMINISTRAÇÃO Jackson Andrade de Matos
ASSESSORIA TÉCNICA E DE PLANEJAMENTO Marta Raquel Colabone
ASSESSORIA JURÍDICA Carla Bertucci Barbieri

GERENTES
ESTUDOS E DESENVOLVIMENTO João Paulo Leite Guadanucci
ARTES GRÁFICAS Rogério Ianelli
CENTRO DE PESQUISA E FORMAÇÃO Andréa de Araújo Nogueira

REVISTA DO CENTRO DE PESQUISA E FORMAÇÃO
EDITORES Marcos Toyansk e Gabriela Borges Sebastião
ORGANIZADORAS Dulci Lima e Ana Carolina Alves de Toledo
PREPARAÇÃO DE TEXTO E REVISÃO DE PROVAS Silvia Almeida
ILUSTRAÇÃO DE CAPA Danilo Kallon
PROJETO GRÁFICO Denis Tchepelentyky
DIAGRAMAÇÃO Leila Schöntag

EQUIPE SESC
Bruno Salerno Rodrigues, César Albornoz, Emily Fonseca, Flavia Prando, Ian Herman,
José Mauricio Lima, Juliana Torres, Karina Leal , Livia Bastos dos Santos, Mauricio Trindade,
Rafael Peixoto, Silvia Hirao e Walter Cruz


Apresentação

Gestão cultural em contextos tradicionais

Por Luiz Deoclecio Massaro Galina, Diretor do Sesc São Paulo

A reflexão sobre as culturas tradicionais mostra-se crescentemente indissociável do reconhecimento e da valorização da pluralidade de vozes que conformam o tecido social. Articular diferentes perspectivas teóricas e abordagens empíricas possibilita iniciar o debate sobre as dinâmicas de visibilidade, participação e salvaguarda de expressões culturais historicamente marginalizadas, oferecendo subsídios para o avanço das investigações no âmbito das culturas chamadas populares.

É com esse horizonte que a presente edição reúne contribuições que examinam as culturas não-hegemônicas a partir do campo da gestão cultural, mobilizando análises acerca de práticas, políticas e experiências que problematizam e ampliam as formas de compreender os processos de produção, mediação e circulação cultural (…)

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Dossiê: Gestão Cultural em Contextos Tradicionais

A Cultura como Boi de Guia

Por Ivan Vilela

RESUMO
Sempre nos é muito fácil lembrar de escritores europeus, quer sejam franceses, ingleses ou alemães, mas torna-se extremamente difícil nos lembrarmos de escritores oriundos da Bolívia, do Paraguai, da Costa do Marfim ou mesmo da Colômbia.

Pergunto, primeiramente, se isso não denotaria uma educação etno-cêntrica à qual fomos e ainda somos iniciados, embora a combatamos sistematicamente em nossas ideias e textos? Curioso é que a reproduzimos o tempo todo em nossos discursos e julgamentos.

Por vivermos em um país que se manifesta, antes de qualquer outra coisa, por meio da multiculturalidade, esse olhar etnocêntrico no qual fomos educados acaba por emergir, muitas vezes sem o percebermos, em nossas atitudes ou pensamentos. Isso aponta para um desvio etnocêntrico de construirmos nossa formação de maneira parcial, não percebendo o todo e sempre pensando na visão da totalidade do mundo por uma ótica que nos foi ensinada como referencial.

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Ainda sobre a arte que chamamos de popular

Por Claudinei Roberto da Silva

RESUMO
É possível que o interesse sobre as manifestações simbólicas dos grupos sociais historicamente marginalizados ganhe o destaque atual como uma consequência do surgimento e da radicalização de processos, que, promovidos por esses mesmos grupos, tornam possível o aprofundamento das noções de democracia nas sociedades onde atuam.

Palavras-chave: Arte; Arte popular; História, descolonização; Empoderamento.

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Linguagens e Narrativas Tradicionais dos Povos Originários do Alto Rio Negro (AM)

Por John Alexandre Dias Restrepo

RESUMO

As linguagens e narrativas tradicionais dos povos indígenas do Alto Rio Negro, especialmente dos Dessano e Tukano, são essenciais para a preservação cultural e a identidade desses grupos. Transmitidas oralmente, essas narrativas não apenas preservam a história e os valores, mas também funcionam como formas de resistência cultural em um mundo globalizado. O artigo explora a importância da oralidade, dos rituais como o Kuarup e da memória coletiva na formação da identidade indígena dos povos Tukano e Dessano. Além disso, destaca a interconexão entre arte, mito e história, enfatizando a relevância da transmissão oral e a gestão cultural participativa para garantir a continuidade das tradições.

Palavras-chave: Oralidade; Cultura Indígena; Identidade; Resistência.

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Antropologia e culturas populares no Brasil

Por Caio Csermak

RESUMO
O artigo analisa a relação entre a Antropologia e os estudos de folclore e cultura popular, mostrando que, apesar dos distanciamentos entre essas áreas, há uma convergência na produção de conhecimento sobre outros grupos sociais, buscando tanto inventariar a diversidade como pensar a diferença. A partir dessa constatação, o artigo analisa como se deu, no Brasil, a relação entre a Antropologia e a produção de intelectuais, artistas e militantes ocupados com os temas e fenômenos do folclore e das culturas populares. São desveladas as tensões entre folcloristas, modernistas e cientistas sociais, bem como a recente emergência de sujeitos coletivos das culturas populares como agentes políticos e produtores de conhecimento. O artigo conclui que tal processo resultou na emergência de novas perspectivas que reconhecem a pluralidade epistemológica e se pautam pelo protagonismo de sujeitos coletivos que antes figuravam apenas como objeto de estudo.

Palavras-chave: Culturas populares; Folclore; Antropologia; Diferença.

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Gestão Cultural em Contextos Tradicionais – Sesc São Paulo (2016–2025)

Por Dulcilei C. Lima e Flavia Prando

RESUMO
Entre os cursos de gestão cultural desenvolvidos pelo Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, destaca-se o curso de Gestão cultural em contextos tradicionais, que aborda como diferentes disciplinas – sociologia, artes, música, história e antropologia – discutem conceitos como cultura, memória, folclore, popular e erudito, identidade e alteridade. Pensado de modo interdisciplinar e introdutório, o curso foca práticas culturais existentes, criando ferramentas para refletir criticamente sobre formas de produzir e gerir manifestações populares, ampliando seu diálogo com diversos setores da sociedade. Esta comunicação analisa as três edições realizadas, seus conteúdos e impactos, relacionando-os ao atual cenário das discussões sobre patrimônio imaterial e gestão das culturas populares. Pretende-se, assim, contribuir com o aprimoramento das futuras edições, aproximando o curso dos novos contextos políticos e sociais que envolvem as manifestações tradicionais.

Palavras-chave: Gestão cultural; Contextos tradicionais; Culturas populares; Sesc São Paulo.

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Artigos

Fios Históricos que Tecem o Cenário Circense Atual e suas Múltiplas Realizações e Possibilidades

Por Daniel de Carvalho Lopes e Marco Antonio Coelho Bortoleto

RESUMO
A definição do que é circo continua incitando discussões e revelando a multiplicidade de formas de produção do espetáculo e outras práticas circenses. Não há dúvidas de que os saberes circenses continuam fluindo pelas artérias culturais brasileiras com força e avidez e, por isso, puxamos aqui fios de sua trama histórica para colocar em destaque algumas realizações e também possibilidades que marcam a longa e profícua jornada do circo no contexto brasileiro até os dias atuais, evidenciando o quanto o passado atravessa o presente.

Palavras-chave: Circo; História; Contemporaneidade.

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Pedagogia do Corpo Esquecido

Por Maria Lucia Lee

RESUMO
A Pedagogia do Corpo Esquecido propõe diretrizes, ações e práticas para o equilíbrio do Corpo de Qi (Sopros), dimensão invisível do Ser, enraizada na gênese da vida, e na relação entre Céu e Terra, yin e yang, masculino e feminino. Chamado de esquecido por estar ausente da consciência cotidiana, esse corpo é resgatado por meio dos fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e da cultura oriental. Este texto resulta de anos de vivência, prática e ensino de artes corporais terapêuticas chinesas, que propõem uma reorientação do pensamento para níveis ampliados de consciência. A Pedagogia é experiencial e contextual, fundamentada em tratados clássicos da MTC e das artes corporais terapêuticas chinesas, sem perder de vista contribuições da medicina e da pedagogia ocidentais. Sua abordagem valoriza a singularidade de cada situação – espaço, tempo, pessoas envolvidas e propósitos – como elementos fundamentais no processo de equilíbrio e assimilação do Corpo de Qi, favorecendo uma ponte sensível e acessível entre Oriente e Ocidente.

Palavras-chave: MTC; Pedagogia; Artes Corporais; Oriente/Ocidente.

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Escritas Locais, Leituras Globais. A Arte e a Arquitetura Brasileiras nas Revistas Especializadas Internacionais (1943–1964)

Por Cecilia Braschi

RESUMO
Na leitura das revistas especializadas francesas, inglesas e brasileiras das décadas de 1940 a 1960, a historiografia da arquitetura e da arte brasileiras aparece como uma construção complexa, resultante do diálogo entre múltiplos relatos locais. Estreitamente ligados a cada contexto político e cultural de que provêm, esses relatos encontram nas revistas de arte e de arquitetura plataformas para testar sua validade em âmbito nacional e regional, e depois obter reconhecimento e legitimação internacionais.

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Gestão


Sociobiodiversidade, Cultura e Natureza: um Olhar sobre a Expressão Caiçara na Baixada Santista

Por Gabriela Santos Tibúrcio e Mariana de Andrade Dias da Silva

RESUMO
O artigo analisa a cultura caiçara na Baixada Santista como expressão da sociobiodiversidade, evidenciando a relação indissociável entre cultura, natureza e território. A partir de pesquisa qualitativa, que inclui revisão bibliográfica, trabalho de campo e entrevistas, o estudo destaca práticas tradicionais como a pesca artesanal, os mutirões, o Fandango e a produção de alimentos, saberes ecológicos ligados aos ecossistemas costeiros. Discute-se a cultura caiçara como forma de resistência sociocultural frente às pressões da urbanização, do turismo predatório e de políticas ambientais excludentes, ressaltando seu papel na conservação ambiental e na afirmação de identidades territoriais. Estudos de caso em Itanhaém e Bertioga evidenciam, respectivamente, os processos de fragilização e de rearticulação contemporânea da cultura caiçara, apontando caminhos para a gestão cultural e a salvaguarda do patrimônio imaterial no litoral paulista.

Palavras-chave: Sociobiodiversidade; Cultura; Natureza; Caiçara; Baixada Santista.

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Maternidade, Acessos e Prática de Atividade Física

Por Amanda Oliveira Souza Elias Spala, Felipe Del Mando Lucchesi, Jean Karam Saikali, Miguel Antônio dos Santos de Brito, Mônica Velasques, Rafael Pereira e Guimarães Santos.
Orientadora: Neide Santos
Tutora: Gabriela Borges Sebastião

RESUMO
A prática regular de atividade física está relacionada à busca por uma melhor qualidade de vida, seja considerando aspectos físicos, sociais ou emocionais. Com jornadas acumuladas de trabalho, torna-se um desafio para mulheres a inserção e a permanência em programas de atividade física regular, com ou sem orientação profissional. Nesse sentido, este estudo identificou mulheres com filhos de até 12 anos de idade, associadas ou não o Sistema S, em específico ao Sesc (Serviço Social do Comércio), e analisou as motivações, os comportamentos e os fatores que influenciam a participação ou não de mulheres na prática regular de atividade física, considerando a relação direta entre maternidade e condições de acesso.

Palavras-chave: Atividade Física; Maternidade; Acesso.

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A Gestão Participativa na Abordagem Pedagógica das Práticas Esportivas no Terceiro Setor

Por Aderlucia Nascimento da Silva, Erik Luiz Bostelmann Truccolo, Gustavo Moura Leal, Jackes Silva Ferreira
Orientador: Felipe Pitaro
Tutora: Ana Carolina Toledo

RESUMO
O artigo propõe analisar a compreensão e a aplicação da gestão participativa por educadores e gestores em projetos esportivos do Terceiro Setor. Tais projetos utilizam o esporte como ferramenta pedagógica e formativa, com o objetivo de gerar benefícios sociais. Os educadores e monitores, por estarem na linha de frente e em contato direto com os participantes, são essenciais para a concretização dos objetivos e das diretrizes pedagógicas. Nesse contexto, a gestão participativa é apresentada como uma metodologia capaz de fortalecer as relações institucionais, ao distribuir responsabilidades e ampliar os espaços de diálogo e participação entre os diversos atores. O estudo visa, portanto, identificar fatores que facilitam ou dificultam sua implementação e sugerir alinhamentos para sua efetividade.

Palavras-chave: Terceiro Setor; Educadores(as) Sociais; Gestores Esportivos; Gestão Participativa.

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Entrevista

Maria Nadir dos Santos: A Voz da Mussuca, o Ecoar de um Canto Ancestral

Por Osvaldice de Jesus Conceição

Referência nas tradições afrodiaspóricas sergipanas, a mestra brincante Maria Nadir dos Santos compartilha conosco sua trajetória de amor, resistência, estratégia e luta, como realizadora e fomentadora dos grupos culturais da Mussuca.

Maria Nadir dos Santos nasceu e reside até os dias atuais na Mussuca, comunidade quilombola da cidade de Laranjeiras (SE). Marisqueira, trabalhadora rural, doméstica, brincante, cantora, compositora, fomentadora cultural e mestra de tradições afrodiaspóricas, dona Nadir reúne habilidades que revelam sua personalidade forte e sua singularidade artística, qualidades que a tornaram uma das mestras das culturas afropopulares brasileiras mais conhecidas do estado sergipano.

Sua irreverência, destreza e vitalidade no palco refletem a mulher forte de uma vida inteira. Em certa medida, seu modo de vida lhe proporcionou condicionamento para os palcos, uma vez que, ao longo de muitos anos, dona Nadir conciliou as apresentações culturais com os trabalhos braçais que precisava realizar para seu sustento e o sustento de seus dez filhos. Sua disposição física e fôlego para cantar, tocar ganzá e sambar simultaneamente sempre chamou a atenção do seu público.

Aos 77 anos de idade, dona Nadir é uma das mestras atuantes de folguedos mais antigas de Sergipe. No entanto, seus joelhos já não são os mesmos de alguns anos atrás, devido a problemas de saúde mencionados por ela. Atualmente a mestra necessita do suporte de uma bengala para realizar as apresentações, o que compromete sua performance, mas não abala a maestria do seu cantar, que continua ecoando e encantando seu público. Dona Nadir se mantém firme e não abdica do seu lugar de cantora principal das tradições culturais da Mussuca.

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Resenha

O Beabá Visual das Mudanças Climáticas como Arma Antinegacionismo

Por Reinaldo José Lopes

Resenha do livro: BONPOTE; BRÉS, Anne; MARC, Claire (org). Para
entender (quase) tudo sobre o clima. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2025.

Para quem tem como tarefa profissional apresentar as descobertas científicas mais recentes para a população, a última década de debate público sobre a crise climática global tem algo de surrealista, no pior sentido possível. A sensação é de ter despencado buraco negro adentro, caindo num mundo invertido em que o chão virou o teto, o dia virou noite e vice-versa. E é por isso que a simplicidade e a clareza de Para entender (quase) tudo sobre o clima são tão estimulantes num momento como este.

A fonte central do desconforto de ter ido parar num mundo às avessas a que me refiro é simples. De um lado, faz pelo menos três décadas que a literatura científica primária (ou seja, as revistas especializadas em que os pesquisadores publicam os dados de seus estudos, após revisão feita por outros cientistas da mesma área) não mostra dúvida nenhuma sobre a natureza das mudanças climáticas que hoje nos afetam.

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Poesia

Quando o Bicho Sobe à Superfície

Por Luiza Mussnich

a temperatura faz as roupas cismarem
em desabitar os corpos
o bicho que escondemos
o ano todo
o tempo todo
mostra suas curvas, suas listras, seus desenhos
nos faz dançar, desejar, uivar
nessa época crescem as garras, os pelos, os impulsos

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