Revista do Centro de Pesquisa e Formação n.12 – Dossiê: Patrimônio Cultural Imaterial e Desenvolvimento sustentável: Desafios e Convergências – ISSN 2448-2773

01/07/2021

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Revista do Centro de Pesquisa e Formação n.12 – Dossiê: Patrimônio Cultural Imaterial e Desenvolvimento sustentável: Desafios e Convergências

Expediente

SESC – SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO
Administração Regional no Estado de São Paulo

PRESIDENTE DO CONSELHO REGIONAL
Abram Szajman

DIRETOR DO DEPARTAMENTO REGIONAL
Danilo Santos de Miranda

SUPERINTENDENTES
TÉCNICO-SOCIAL: Joel Naimayer Padula
COMUNICAÇÃO SOCIAL: Ivan Giannini
ADMINISTRAÇÃO: Luiz Deoclécio Massaro Galina
ASSESSORIA TÉCNICA E DE PLANEJAMENTO: Sérgio José Battistelli

GERENTES
CENTRO DE PESQUISA E FORMAÇÃO: Andréa de Araújo Nogueira
ARTES GRÁFICAS: Hélcio Magalhães

REVISTA DO CENTRO DE PESQUISA E FORMAÇÃO
EDITOR: Marcos Toyansk
ORGANIZADORA DO DOSSIÊ: Giovanna Benjamin Togashi
REVISÃO: Sérgio Molina
ILUSTRAÇÃO DE CAPA: Veridiana Scarpelli
PROJETO GRÁFICO: Denis Tchepelentyky
DIAGRAMAÇÃO: Leila Schöntag

EQUIPE SESC
Rafael Peixoto e Rosana Elisa Catelli


Apresentação

Por Danilo Santos de Miranda, Diretor do Sesc São Paulo

O desenvolvimento sustentável e o patrimônio cultural imaterial constituem um par de conceitos cada vez mais integrados, nos instigando a refletir sobre o nexo entre saberes, tradições e práticas culturais, mercantilização da cultura e as múltiplas dimensões da sustentabilidade. À crescente busca por harmonizar nossa relação com bens naturais e territórios com a dimensão imaterial do patrimônio, somam-se condicionantes econômicas em um contexto desafiador de crise mundial.

Muitas mudanças têm ocorrido nos últimos anos, assinalando tendências que combinam a polissemia da sustentabilidade com as complexas relações entre cultura e economia. Essa interdependência tem se intensificado, destacando a importância dos elementos culturais intangíveis na formação de um modelo desenvolvimentista sustentável. Os exemplos de entrelaçamentos entre práticas, saberes, representações e sustentabilidade se multiplicam.

A premissa que constitui o ponto de partida do tema desta edição é a convicção de que patrimônio cultural imaterial e desenvolvimento sustentável estão imbricados e merecem análises que assim os considerem. Organizado pela pesquisadora de pós-doutorado Simone Toji, em colaboração com o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, o presente dossiê reúne artigos que debatem a relevância da construção de ações mais consistentes e integrativas, trazendo experiências de diversas localidades que buscam retratar a complexidade e multiplicidade do tema.

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Dossiê: Patrimônio Cultural Imaterial e Desenvolvimento Sustentável: Desafios e Convergências

Patrimônio cultural imaterial e desenvolvimento sustentável: uma introdução

Por Simone Toji

O conceito de patrimônio cultural imaterial vem ganhando força nos últimos anos. Desde que a política federal de patrimônio cultural imaterial foi inaugurada no Brasil pelo Decreto 3.551 de 2000, instituindo o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, e que a Unesco promulgou a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, em 2003, ideias e práticas associadas a essa terminologia têm progressivamente influenciado discussões e ações nos mais variados campos de atividade, disciplinas e fóruns governamentais, acadêmicos e da sociedade civil.

A emergência do debate em torno do conceito de patrimônio cultural imaterial faz parte de um movimento mais abrangente de ampliação do próprio sentido de patrimônio cultural, que até tempos atrás se restringia ao reconhecimento de edificações, conjuntos urbanos e monumentos. No Brasil, o conceito figura desde a Constituição de 1988, que passou a definir o patrimônio cultural brasileiro como aquele constituído dos “bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira” (BRASIL, 1988, art. 216). Em âmbito internacional, o conceito de patrimônio cultural imaterial também surgiu como resposta às limitações e questionamentos de programas voltados ao patrimônio cultural edificado. Assim foi criada a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial de 2003, que define o patrimônio cultural imaterial como “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas — junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados — que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural” (UNESCO, 2003, art. 2)

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Difícil travessia: a consolidação das políticas de patrimônio cultural no século XXI

Por Celia Maria Corsino

RESUMO
Este texto tem como objetivo traçar um breve histórico do processo de institucionalização da política de patrimônio imaterial no Brasil e apresentar desafios da gestão pública na consolidação do campo junto ao patrimônio cultural material. Questiona a separação ainda existente entre patrimônio material e imaterial e advoga por uma ideia ampla de patrimônio com a articulação dos saberes e fazeres de sujeitos situados sociohistoricamente. Ressalta que o patrimônio é um só e que este campo tem sido abordado por políticas internacionais, entre elas, a dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) da Unesco, sendo um dos desafios do Século XXI. Conclui afirmando que o campo do patrimônio cultural de natureza imaterial já se consolidou no Brasil, mas é ainda frágil e seus alicerces podem ser abalados com mudanças bruscas de orientação política, especialmente neste momento de extinção do Ministério da Cultura. Finaliza chamando a atenção pelas perdas de mestres e esfacelamento de grupos culturais neste momento da pandemia de Covid-19.

Palavras-chave: Política de Patrimônio Imaterial. Legislação. Salvaguarda. Patrimônio Cultural.

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Sustentabilidade cultural na política federal de salvaguarda

Por Rívia Ryker Bandeira de Alencar

RESUMO
Tendo como foco as diversas dimensões sociopolíticas nas quais os bens culturais imateriais registrados como Patrimônio Cultural do Brasil são produzidos e reproduzidos, busco refletir sobre a compreensão do conceito de “sustentabilidade cultural” apresentado pela política federal de salvaguarda desenvolvida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A sustentabilidade cultural é um dos objetivos principais dessa política, ao lado da autonomia dos detentores na gestão de seu patrimônio e articulação interinstitucional. Contudo, os diferentes contextos nos quais estão situados grupos, comunidades e indivíduos que praticam e transmitem os bens culturais imprimem processos complexos de mobilização, prospecção e diagnóstico que exigem a ampliação das ações restritas ao campo da cultura para a conquista da almejada sustentabilidade.

Palavras-chave: Patrimônio Cultural Imaterial. Salvaguarda. Sustentabilidade Cultural.

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Patrimônio, democracia e desenvolvimento: as políticas de preservação do Iphan após a criação do MinC

Por Marcelo Cardoso de Paiva

RESUMO
Fundado em 1985, o Ministério da Cultura representa um novo capítulo na história do Brasil no que diz respeito às políticas culturais e à própria democracia brasileira. Celso Furtado, Francisco Weffort e Gilberto Gil, seus mais renomados ministros, articularam, em diferentes medidas, políticas culturais, participação social e desenvolvimento econômico à agenda política brasileira. Este artigo tem como foco a discussão dos potenciais e dos efeitos reais do MinC sobre a inclusão social e o desenvolvimento econômico por meio das políticas de preservação conduzidas pelo Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Palavras-chave: Políticas Culturais. Patrimônio Cultural. Iphan. MinC.

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Comercialização “boa” e “má”: dilemas normativos entre as racionalidades do patrimônio

Por Chiara Bortolotto

RESUMO
Concebido como um “patrimônio vivo” e imaginado como agente de mudança política, econômica e social, o patrimônio cultural imaterial traz para o primeiro plano novos desafios, que vão muito além daqueles convencionalmente associados à preservação. Com base na observação dos encontros dos órgãos estatutários da Convenção da Unesco para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, exploro as controvérsias geradas pelos “riscos de comercialização excessiva” entre responsáveis políticos e administradores internacionais do patrimônio. Argumento que a narrativa oficial da Unesco, que consiste em identificar “maus” tipos de comercialização como apropriação indevida, está de fato vinculada a preocupações que dizem respeito à Propriedade Intelectual, apesar de esta ter sido originalmente excluída do âmbito de competência da Convenção. Essa orientação situa o mecanismo do Patrimônio Cultural Imaterial entre diferentes patrimonializações, o que dificulta, para os atores encarregados da implementação da Convenção, a integração do uso comercial do patrimônio salvaguardado.

Palavras-chave: Unesco. Patrimônio Cultural Imaterial. Mercado. Desenvolvimento Sustentável. Propriedade Intelectual.

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O viver caiçara: um patrimônio cultural ameaçado pela política ambiental na Jureia (SP)

Por Adriana de Souza de Lima e Dauro Marcos do Prado

RESUMO
O presente artigo visa apresentar uma narrativa a partir do diálogo entre o patrimônio cultural e o viver caiçara. Entre eles está uma política ambientalista que viola direitos tanto das comunidades tradicionais como da própria legislação ambiental no estado de São Paulo. Por isso, reivindicamos o reconhecimento das práticas culturais e do modo de vida das comunidades tradicionais caiçaras. Apresentamos o fandango como bem cultural já patrimonializado. A partir de diferentes pesquisas que reconhecem outras dimensões do viver caiçara, mostramos suas contribuições para a cultura brasileira, bem como a conservação da natureza. Aqui detalhamos o sistema agrícola caiçara no interior de um contexto de fortes pressões sobre o território onde vivemos há séculos.
Reivindicamos a valorização e proteção normativa como modo de encerrar a invisibilização dos bens culturais caiçaras, bem como a negligência histórica que resultou na expulsão de diversas comunidades na Jureia. A organização comunitária caiçara tem se articulado em projetos com universidades públicas, mediante parcerias que lançam bases para novas formas de trabalhos colaborativos também com instituições voltadas à proteção da cultura material e imaterial, e para enfrentarmos as violências já sofridas ao longo de décadas.

Palavras-chave: Caiçaras. Jureia. Política Ambiental. Patrimônio Cultural.

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Patrimônio Cultural Imaterial, conservação e desenvolvimento sustentável em territórios quilombolas do Vale do Ribeira–SP

Por Laudessandro Marinho da Silva e Raquel Pasinato

RESUMO
Trazemos neste texto uma breve contribuição apresentada no workshop sobre patrimônio imaterial e desenvolvimento sustentável, na mesa de debate sobre o tema “Usos do desenvolvimento sustentável: participação social, meio ambiente e território”. Nessa mesa o autor e a autora fizeram abordagens a partir de seus lugares de fala atrelados às suas lutas contra o racismo ambiental que permeia as relações entre as políticas ambientais, legislações e os povos e comunidades tradicionais. Contamos um pouco sobre o caso dos quilombos do Vale do Ribeira e como o sistema agrícola praticado pelos quilombolas se tornou um patrimônio cultural brasileiro. Também discutimos quais os passos dados, o que esse sistema representa para a conservação do bioma Mata Atlântica e a sustentabilidade dos territórios quilombolas enquanto espaços de bem-viver que promovem desenvolvimento sustentável. O reconhecimento de seus territórios é sinônimo da manutenção da vida nas dimensões material e imaterial.

Palavras-chave: Território. Quilombo. Racismo Ambiental. Agricultura tradicional.

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Salvaguarda do patrimônio cultural imaterial na China contemporânea: entre sustentabilitdade e mercantilização

Por Philipp Demgenski

RESUMO

Este artigo trata da questão da sustentabilidade no contexto da preservação e mercantilização do Patrimônio Cultural Imaterial (PCI) na China contemporânea, oferecendo uma visão global das diferentes formas de mercantilização do PCI que podem ser observadas hoje nesse país. Ademais, envolve-se no debate entre acadêmicos, especialistas, oficiais e alguns praticantes sobre a definição de quais formas de mercantilização são aceitáveis e consideradas alinhadas com a noção de PCI e o que poderia ser classificado como “mercantilização excessiva”. Mostra, além disso, que a dependência a curto prazo das demandas do mercado (com frequência orientadas por políticas estatais) levanta questões importantes no que diz respeito à sustentabilidade dessa abordagem de preservação.

Palavras-chave: Patrimônio Cultural Imaterial. China. Mercantilização. Sustentabilidade.

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Sustentabilidade e planos de salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial na Grécia

Por Panas Karampampas

RESUMO
Este artigo se propõe a examinar como a resposta dos atores e das instituições patrimoniais à “crise” econômica grega intensificou seu envolvimento com o Patrimônio Cultural Imaterial em conexão com o mercado. A sustentabilidade tornou-se uma questão-chave nos planos de salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial para rejuvenescer o mercado local e garantir a continuidade de trabalhos tradicionais ameaçados. Este estudo etnográfico é baseado em trabalho de campo na Grécia, com grupos praticantes do patrimônio e representantes do Ministério da Cultura grego (MC), que conceberam a estratégia do Patrimônio Cultural Imaterial nacional para o país. A partir da implementação da Convenção na Grécia, que ocorreu durante a crise econômica, a própria crise tornou-se parte do contexto desta pesquisa. Por meio do estudo de dois casos, demonstraremos como os atores patrimoniais na Grécia promovem técnicas tradicionais e seus produtos sob o selo de Patrimônio Cultural Imaterial e sob os termos do desenvolvimento sustentável.

Palavras-chave: Grécia. Turismo. Cooperativa. Planos de Preservação. Desenvolvimento Sustentável. Patrimônio Cultural Imaterial.

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Artigos

Espíritos e divindades em festa: algumas leituras sobre cultura japonesa e okinawana em São Paulo

Por Victor Hugo Kebbe

RESUMO
Pretendo neste artigo apresentar algumas noções cosmológicas presentes no calendário ritual okinawano que podem ser úteis para compreendermos alguns aspectos da cultura japonesa e okinawana praticadas em São Paulo. Eventos como o Festival das Estrelas (Tanabata Matsuri) e o Dia de Finados (Obon) são centrais para entender como os japoneses, okinawanos e seus descendentes no Brasil percebem e experimentam o mundo. Além disso, como veremos, diante o longo histórico dos deslocamentos entre Japão e Brasil ao longo dos anos, observamos uma série de hibridismos e ressignificações.

Palavras-chave: Japão. Okinawa. Obon. Tanabata. Cosmologia.

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Sistemas alimentares, mediação cultural e ambiguidades em tempos de carestia

Por Rubens Leonardo Panegassi

RESUMO
Os hábitos alimentares fazem parte da vida cotidiana das sociedades humanas. Por isso, a História da Alimentação se exprime pela investigação dos usos e costumes das sociedades. O que envolve a análise de comportamentos tradicionais, herdados, mas também o reconhecimento da associação desses comportamentos a fenômenos de adaptação, ou mesmo de invenção cultural. Por sua vez, o afastamento dos hábitos alimentares cotidianos configura um espaço privilegiado para análise dos embates entre as expectativas inerentes aos esforços por reproduzir os hábitos cotidianos e as resoluções concretas de adaptação. A colonização da América portuguesa foi acompanhada por um esforço sistemático por reproduzir os modelos alimentares de referência dos povos colonizadores. Este artigo pretende recuperar o caminho percorrido por um sistema cultural para a escolha de um alimento substituto, proveniente de outro sistema cultural, e as estratégias utilizadas para superação das limitações culturais existentes para sua incorporação.

Palavras-chave: Alimentação. Cultura. Pão. Substituição.

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Cultura livre na internet: do software livre aos comuns

Por Leonardo Foletto

RESUMO
Este texto busca discutir a perspectiva da cultura livre, do início da internet até a sua terceira década de vida. Para isso, percorre a história do compartilhamento na rede, das primeiras iniciativas de troca par a par de arquivos até a perseguição dessa prática, tornada “pirataria” e criminalizada por grandes atores da intermediação cultural. Discute a chegada do streaming e das redes sociais digitais como elementos que mudaram a forma de acessar e compartilhar conteúdo na internet para então problematizar a questão de iniciativas identificadas à cultura livre oriundas do copyleft, como o Creative Commons. Destaca a ideia dos comuns digitais e como ela dialoga, em um sentido ainda mais amplo, com a cultura livre. Finaliza trazendo ideias e iniciativas que buscam alternativas ao cultivo de bens culturais livres à margem da busca proprietária da cultura predominante no Ocidente.

Palavras-chave: Cultura Livre. Internet. Acesso à Cultura. Propriedade Intelectual. Tecnologia.

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Sexo, sangue & balas: a conexão Brasil–Europa–EUA no cinema popular de C. Adolpho Chadler

Por Rodrigo Pereira

RESUMO

Este artigo refaz a trajetória do ator, diretor e produtor C. Adolpho Chadler, pseudônimo do carioca Cícero Adolpho Victorio da Costa (1940– 2000). Num curto período, entre 1967 e 1973, esse misterioso produtor, diretor e ator, com posições políticas assumidamente de direita e frequentemente apontado como um espião do Serviço Nacional de Informações (SNI), estruturou uma linha de montagem que produziu doze filmes — ou seja, uma média de dois por ano. O artigo explora especialmente os filmes que ele dirigiu: sete longas-metragens e um curta de um filme em episódios. Todas os títulos mimetizaram subgêneros populares europeus que reciclavam, a partir do uso da violência e do erotismo, fórmulas consagradas por Hollywood (o western, o policial, o filme de espionagem e o terror). A análise de sua obra é feita a partir da cobertura da imprensa da época, em críticas, reportagens e até notas sociais, e toma por base a teoria a respeito da dicotomia entre Nacional e Universal proposta por Ortiz Ramos (1983).

Palavras-chave: Cinema Brasileiro. História do Cinema. Gêneros Cinematográficos. Crítica de Cinema.

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Gestão Cultural

A política externa dos Institutos Culturais: uma análise da diplomacia cultural sob a dimensão sociológica da cultura

Por Juliana Costa Bitelli e Yasmin Abdalla

RESUMO
O presente estudo busca relacionar a produção de eventos culturais — sobretudo a partir da perspectiva da figura do gestor cultural — à preservação do patrimônio, seja ele material ou imaterial. A partir do estudo de caso da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), evento que tem no Centro Histórico de Paraty o território elementar na construção de sua programação e de sua marca, a intenção das autoras é avaliar se há indícios de que a Flip se relaciona com a preservação de seu entorno e como se dá esse relacionamento. Esta investigação se deu a partir de um desenho qualitativo de pesquisa, tendo como destaques a análise documental e a realização de entrevistas em profundidade com diferentes agentes culturais envolvidos na relação entre evento, cidade e população.

Palavras-chave: Eventos Culturais. Patrimônio Cultural Material. Patrimônio Cultural Imaterial. Gestão Cultural.

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Formação de leitores nas bibliotecas do Sesc São Paulo: conceitos e práticas

Por Juliana Santos

RESUMO
Este artigo traz reflexões sobre alguns conceitos e práticas de mediação de leitura presentes nas bibliotecas do Sesc São Paulo. Ao abordar essas temáticas, este estudo pretende contribuir com o debate sobre formação de leitores e a ampliação do acesso aos bens culturais na área da leitura.

Palavras-chave: Bibliotecas. Formação de Leitores. Clubes de Leitura.

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Censura, teatro e golpe: um panorama das artes cênicas no Brasil pós-2016

Por Albervan Reginaldo Sena, Elaine Pereira Aguiar, Igor Augustho Mattos Kijak, Tamara Batista Borges

RESUMO
Este trabalho se propõe a uma análise histórica, política e social que envolve casos de censura ao teatro no Brasil, especialmente após o ano de 2016, em que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff marcou o início de um intenso processo de polarização política no país, que culminou nas eleições de 2018 e na ascensão do governo Bolsonaro, marcado pelo conservadorismo e pela institucionalização de mecanismos de cerceamento da liberdade de expressão artística e do pensamento, além da perseguição moral e política aos artistas do país.

Palavras-chave: Cultura. Censura. Política. Conservadorismo. Liberdade de Expressão. Teatro.

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Entrevista

Entrevista com Cristina Amescua Chávez

Centro de Pesquisa e Formação: Como surge a ideia do Patrimônio Cultural Imaterial no contexto dos países da América Latina?

Cristina Amescua Chávez: Acho necessário entender que, diferentemente de outras regiões do mundo, a América Latina comporta uma enorme diversidade de enfoques para trabalhar e entender a questão da cultura, dada a enorme diversidade cultural que caracteriza muitos dos nossos países. Essa diversidade cultural acarreta diferenças tanto na maneira de pensar as culturas como na própria definição de cultura. Aqui vou me referir particularmente ao caso mexicano, que, no meu entender, apesar das muitas diferenças, guarda grandes paralelismos com o caso brasileiro.

No caso do México, por um lado, as culturas indígenas foram muito importantes na definição da ideia de nação, construída durante o início século XX — na verdade, desde o século XIX. Isso fez com que se construíssem instituições para trabalhar a questão cultural, com altos orçamentos, sobretudo naquilo que hoje chamamos Patrimônio Material, para o restauro de centros históricos, sítios arqueológicos, e dar conta da grandeza da herança indígena do México. Cabe destacar que, no nacionalismo mexicano, a ideia era construir uma nação alicerçada nesse passado indígena grandioso, mas capaz de se projetar para o futuro. Em grande medida, isso levou a desconsiderar, em termos reais, os povos indígenas existentes naquele momento. Quer dizer, aqueles povos deviam ser assimilados à ideia do mexicano, e não conservar suas particularidades. Isso teve impactos muito fortes em termos de perda de língua, de muitas tradições, festas, saberes próprios daqueles povos indígenas presentes no México. Mas, por outro lado, a força de instituições como o Instituto Nacional de Antropologia e História ou a própria Secretária de Educação Pública, que buscavam promover e construir essa ideia do nacional, permitiu construir uma tradição antropológica e arqueológica muito forte no México, ao mesmo tempo em que o país aderia à ideia, que também permeava outros lugares da América Latina, de construir a partir de baixo, reconhecendo a importância da diversidade, opondo-se ou resistindo àquela ideia de aculturação. Isso favoreceu o surgimento de todos esses movimentos meio institucionais, meio extrainstitucionais que conseguiram o pleno reconhecimento da riqueza cultural que a diversidade significa. É por isso que a antropologia mexicana em particular, e também a latino-americana — a brasileira também teve um papel fundamental —, se empenharam numa redefinição da palavra, do conceito de cultura para incluir justamente todos os produtos, todos os significados que os grupos humanos constroem coletivamente para explicar o mundo, para estar nele, orientar sua ação etc. — ou seja, a cultura no seu sentido amplo.

(…)

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Resenha

Um panorama da música brasileira na visão de seus artistas

Por Sergio Molina

Resenha do livro: MORI, Elisa; STROETER, Guga (org.). Uma árvore da música brasileira. São Paulo: Edições Sesc, 2020.

Na parede sala da casa do músico Guga Stroeter em São Paulo, ainda nos anos 1990, o pôster emoldurado da “árvore do jazz” (The Jazz Tree), que ele havia adquirido em uma loja de discos em Amsterdã, sempre chamou a atenção de amigos que o visitavam. A curiosidade que despertava, mesmo naqueles que não eram aficionados pelo jazz, foi o ponto de partida para imaginar um projeto semelhante no âmbito da música brasileira, que Guga e Elisa Mori — pesquisadora e sua parceira nessa empreita- da — inicialmente batizaram de “Árvore genealógica da música popular brasileira”.

Na introdução desta publicação agora viabilizada pelas Edições Sesc (2020), Guga conta que ele e Elisa logo entenderam que era prudente não entrar na (velha) polêmica do que seria “legitimamente brasileiro”, preferindo, então, o que “aconteceu no território brasileiro e contou com a participação de artistas brasileiros, então a música é brasileira”.

A escolha frutificou, e esse critério serviu como norte para a curadoria, a aventura de tentar dar conta da farta e diversificada coexistência de gêneros e estilos que aqui foram acolhidos, semeados, entrecruzados, colhidos e retransfigurados. Um país que, do ponto de vista estrutural, “parece ainda em construção e já é ruína” (como disse uma vez Caetano Veloso) e que, ao mesmo tempo, do ponto de vista de seu fértil bioma cultural, é palco aberto para sugestivas reinvenções que vêm se espraiando por, e para além, de sua vastidão territorial.

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Poesia

Conheço um país

Por Francesca Cricelli

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Narrativas Visuais

A-luz-cinante (2019)

Por Nego Júnior

Registro documental em bailes, shows e eventos de samba-rock no estado de São Paulo. “A-luz-cinante” é um olhar fantasioso sobre as pistas, casais, trios e multidões conduzidas pelo estilo, pelo movimento, pela cultura.

A técnica da luz nas imagens reflete parte dessa inventividade do artista ao assistir a esses giros e rodopios de uma cultura aglutinadora de origens negras, tanto o samba quanto o rock são oriundos da musicalidade e expressão corporal africana, que após diversas mutações se consolida como cultura samba-rock e segue sua jornada influenciando outras eclo-
sões artísticas e culturais.

Além disso o artista funde ambientes e exteriorizações ao conectar ele- mentos das pistas nos bailes de samba-rock às giras, xirês nos terreiros das religiões de matriz africana. Nesse contexto, a frase do poeta periférico Lews Barbosa se faz presente e marcante: “Todo baile black tem um pouco de terreiro”.

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