Um painel da história da Terra

23/02/2026

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Ao longo de bilhões de anos, a vida na Terra passou por rupturas profundas que redesenharam completamente seus rumos. Em “Extinções: como a vida resiste, se adapta e evolui”, lançado no Brasil pelas Edições Sesc São Paulo, o paleontólogo britânico Michael J. Benton revisita esses episódios decisivos da história natural para mostrar como grandes colapsos foram também momentos de transformação radical.

Desde muito cedo, Benton se interessa pelas formas de vida do passado. Aos sete anos, ao descobrir os dinossauros, percebeu que o planeta já havia sido habitado por mundos irreconhecíveis em relação ao atual. Esse espanto inicial atravessa sua trajetória e sustenta a escrita de Extinções, um livro que combina precisão científica, vastidão temporal e uma sensibilidade rara para narrar histórias que se estendem por 4,5 bilhões de anos.

O livro propõe uma leitura menos convencional das extinções em massa. Em vez de tratá-las apenas como eventos de aniquilação, Benton argumenta que elas funcionam como forças propulsoras da evolução. Para explicar esse processo, ele apresenta o conceito de “vantagem do ocupante do cargo”: a ideia de que ecossistemas estabelecidos têm uma inércia que protege as espécies dominantes e bloqueia as demais. Quando esse equilíbrio é rompido por uma extinção, nichos inteiros se tornam disponíveis — e aquilo que antes era improvável passa a ser possível.

É nesse contexto que o autor analisa, por exemplo, a ascensão dos mamíferos. Segundo Benton, seu sucesso não decorre de uma superioridade inerente em relação aos dinossauros, mas das oportunidades que surgiram após a extinção do fim do Cretáceo, que abriu espaço para que outros grupos ocupassem papéis ecológicos antes inacessíveis e se diversificassem de maneiras inesperadas.

Publicado em edição de capa dura, Extinções é organizado em quinze capítulos distribuídos em seis partes, que acompanham as grandes eras geológicas, do Pré-Cambriano aos tempos atuais. A narrativa começa com a formação da Terra e passa pelos primeiros sinais de vida complexa nos oceanos primitivos, quando organismos como os ediacaranos — seres sem boca conhecida, sem olhos e sem paralelos diretos no mundo moderno — habitavam o fundo marinho.

O livro avança então pela explosão cambriana, período em que a diversidade biológica se ampliou rapidamente, e se detém nos cinco grandes colapsos reconhecidos pela paleontologia: o fim do Ordoviciano, as crises do Devoniano, o colapso do Permiano (o mais severo de todos, responsável pela extinção de cerca de 90% das espécies marinhas), o evento do fim do Triássico e a extinção que marcou o desaparecimento dos dinossauros não aviários há 66 milhões de anos. Em cada um desses momentos, Benton acompanha não apenas a perda, mas também os longos e complexos processos de reconstrução que se seguiram.

A narrativa se constrói, ainda, como um catálogo fascinante de formas de vida hoje extintas. O leitor encontra criaturas que desafiam categorias familiares, como o Dickinsonia, um organismo achatado e segmentado que podia atingir mais de um metro de comprimento; o Anomalocaris, predador cambriano de olhos compostos que confundiu cientistas durante décadas; o Hallucigenia, cuja reconstrução inicial foi invertida; e o Dunkleosteus, um peixe blindado gigante que dominava os mares do Devoniano. Mesmo após os dinossauros, aves predadoras de grande porte — conhecidas como “aves do terror” — circularam pela América do Sul, revelando a persistência da experimentação evolutiva.

Ao apresentar esses mundos perdidos, Benton lembra que a história da vida nunca foi linear, progressiva ou previsível. O presente é apenas um instante dentro de uma sequência muito mais ampla de transformações, marcada por desaparecimentos, reinvenções e adaptações contínuas.

Publicado originalmente em 2023 pela Thames & Hudson, Extinções chega agora ao Brasil em tradução de Cássio Leite. O livro convida o leitor a olhar para o passado profundo não como uma simples enumeração de espécies extintas, mas como uma chave fundamental para compreender a diversidade da vida hoje — e os processos que a tornaram possível.

Veja também: 

:: trecho do livro 

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