O finlandês mais brasileiro do mundo

29/08/2023

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Por Duda Leite

Mika e seu irmão Aki Kaurismaki são dois dos mais importantes cineastas contemporâneos finlandeses. Em 1989, Mika veio ao Brasil pela primeira vez, para apresentar sua comédia Helsinki Napoli All Night Long no Festival do Rio de Janeiro. Ele havia planejado ficar uma semana, acabou morando no Brasil por 30 anos. Seus filmes são difíceis de ser classificados: híbridos de documentário com elementos narrativos, sempre bem-humorados. Em 1986, Mika conheceu o cineasta Samuel Fuller, considerado um dos pais do chamado Cinema Independente. Ficaram amigos próximos. Fuller já era venerado por um grupo seleto de cineastas que incluía o francês Jean-Luc Godard, o alemão Wim Wenders e o norte-americano Jim Jarmusch.

Em 1994, a esposa de Sam Fuller, a atriz alemã Christa Lang Fuller, descobriu que Sam havia estado no Brasil em 1954 para buscar locações para um projeto chamado Tigrero, que seria filmado no vilarejo de Santa Isabel do Morro, no Mato Grosso, e traria no elenco John Waye, Ava Gardner e Tyrone Power. Armado com uma câmera de 16mm, Fuller ficou fascinado pelos indígenas Karajá, que viviam na região. O filme seria produzido pela 20th Century Fox, porém seu presidente, Darryl F. Zanuck cancelou o projeto devido ao alto custo do seguro para trazer as estrelas hollywoodianas para o meio da Amazônia. Era arriscado demais. Quarenta anos depois, Christa teve a ideia de convidar Mika para dirigir um documentário sobre o filme que nunca existiu, trazer Sam acompanhado por Jim Jarmusch de volta ao Mato Grosso e exibir as imagens para os Karajá. O resultado foi Tigrero – O Filme Que Nunca Existiu (1994), que está em cartaz exclusivamente na plataforma Sesc Digital.

Leia abaixo a entrevista com o diretor finlandês Mika Kaurismaki, via Zoom, de sua produtora em Helsinki.

DUDA LEITE Como você veio parar no Brasil?

MIKA KAURISMAKI – Minha primeira vez no Brasil foi em 1989. Fui para a última edição do Fest Rio. Meu filme Helsinki, Napoli All Night Long (1987), que também tem Samuel Fuller e Jim Jarmusch no elenco, foi o filme de encerramento. Foi o último filme exibido no Fest Rio. Fui lá para ficar uma semana e apresentar o filme. O que era para ser uma viagem de uma semana, acabou virando trinta anos. Sempre gostei do Brasil, desde criança. Mas, durante essa semana, decidi que queria viajar mais, conhecer o Amazonas, o Nordeste. Viajei para o Amazonas,  conheci Manaus, Belém, fiz o circuito completo. Me lembro que a inflação era muito alta. Eu tinha uma mochila cheia de dinheiro para uma viagem de três semanas. A cada dia, o dinheiro valia menos. E, durante essa viagem, decidi que queria fazer um filme no Amazonas. Voltei no ano seguinte para fazer um filme de ficção chamado Amazonas (1990). Filmamos com os indígenas e com os garimpeiros. Foi muito interessante. Depois desse filme, acabei ficando no Brasil. Tenho casa no Brasil até hoje, em Salvador. Escuto muita música brasileira. E meus filhos mais novos são finlandeses e brasileiros. Minha filha mais velha é baiana.

DUDA – Você continua vindo sempre ao Brasil?

MIKA – Sim, sempre. Eu saí do Brasil em 2017, porque o clima político começou a mudar. Senti que não queria mais ficar aí. Nos mudamos para Lisboa. Moramos por lá dois ou três anos, e depois voltamos para a Finlândia.

DUDA – Como você conheceu Samuel Fuller?

MIKA – Eu e meu irmão, (o também diretor) Aki, fundamos um festival na Lapônia chamado, Midnight Sun Festival, há 36 anos. É um festival conhecido no mundo inteiro. E, como sou grande fã, resolvi convidar Sam Fuller para a primeira edição, que aconteceu em 1986. Ele aceitou o convite. Estudei cinema na Alemanha, em Munique. Lá conheci Wim Wenders, que havia feito um filme chamado O Amigo Americano (1977), onde o Sam Fuller fazia um papel. Vi a retrospectiva completa dele no arquivo da Cinemateca de Munique, e fiquei apaixonado. Sam era o pai do cinema independente. Para todos nós: Wenders, Jim Jarmusch, Jonathan Demme, todos. Samuel Fuller era o Cinema Independente. Ele escreveu, produziu e dirigiu todos os seus filmes. Então, quando Sam veio à Finlândia ficamos amigos. Depois tive a ideia de fazer a comédia Helsiniki / Napoli. E ele fez um dos papeis principais. Naquela época, Jim Jarmusch também estava em Berlim. Passou um tempão lá. Ele veio me visitar durante as filmagens. E soube que Samuel Fuller também estava no filme. Me perguntou se poderia apresentar o Sam Fuller para ele, porque também era fã dele. Fomos jantar um dia. Ficamos amigos do Sam até os últimos dias da sua vida. Carreguei ele para o carro, para levá-lo ao hospital, em Los Angeles. Estava filmando em Hollywood, L.A. Without a Map, e senti que ele estava mal de saúde. Sam queria fazer uma pequena participação no filme, mas não conseguiu. Já estava muito doente. Estava visitando algumas locações e de repente lembrei que precisava ligar para o Sam. Liguei para ele, e ele me disse para ir lá. Parei as filmagens esse dia e fui lá, onde ele morava, naquela casa famosa nos Hollywood Hills. Quando cheguei lá, Sam tinha colocado uma música do Jean Sibelius, um compositor clássico finlandês. Passamos a tarde juntos. Foi o último dia dele. Fiquei muito amigo do Sam e da Christa. E meu filme Amazônia, foi lançado na França, e teve uma sessão em Paris. Sam e Christa foram assistir e depois fomos jantar. Sam começou a contar sobre a experiência dele na Amazônia, quando ele esteve lá em 1954. Para buscar as locações para seu filme Tigrero. Eu não sabia nada disso. Ele contou histórias, que havia filmado com uma câmera em 16mm, mas com uma lente especial. Filmou as aldeais, as paisagens, e eu perguntei: “você ainda tem esse material?”. “Sim, tenho lá na minha garagem”. Duas semanas depois, ele me mandou uma caixa com esse material. Christa deu a ideia de fazermos um filme revisitando essa aldeia onde ele foi. Gostei da ideia de cara. A primeira coisa que fizemos foi começar a pesquisar onde ele havia estado. Ele não se lembrava mais, mas sabia que havia sido no Mato Grosso. E se lembrava do Rio das Mortes. Falou sobre os Xavantes. Então a primeira coisa, foi encontrar onde ele havia estado. Conhecia um indigenista chamado João Américo Peret, que trabalhava por lá e conhecia várias partes. Peret era um dos indigenistas mais renomados do Brasil. Trabalhou com os Irmãos Villas Boas. Ele já havia me ajudado no filme sobre a Amazônia. Mostrei as imagens do Samuel, para ele me ajudar a localizar. Assistimos ao material, e a primeira imagem que mostrei para ele, o João virou pra mim e disse: “Ah, eu já fui lá, eu conheço isso.” Ele conhecia o menino que estava no filme. Um menino que está com uma flecha, em uma árvore. O João viveu três anos com os Karajá.

DUDA – Que coincidência!

MIKA – Sim, ele conhecia todo mundo lá. O João havia estado lá nos anos 1950. Ele me disse que se lembrava que um produtor e diretor americano que havia estado lá porque ele sempre fumava charuto. O Sam fumava sem parar. Depois Peret ajudou a gente a conseguir o contato com os indígenas. Naquela época, pensei que seria bom ter alguém acompanhando o Sam. E pensei no Jim Jarmusch, por vários motivos. Primeiro, porque ele era um grande fã do Sam. E Jim Jarmusch também era um cineasta independente. Jim tinha a mesma idade de Sam quando este foi a primeira vez para a Amazônia. Além disso, os dois tinham o cabelo cinza, o que era visualmente interessante. Um mais baixo e um mais alto. Como o Gordo e o Magro.  

DUDA – A imagem do Jim Jarmusch com aquela camiseta dos Ramones no meio dos índios ficou bem interessante. Como você convenceu o Jim Jarmusch?

MIKA – Jim adorou a ideia. Me disse que queria fazer essa viagem com o Sam. Fomos visitar os Karajá e foi uma experiência maravilhosa. E para os Karajá foi bem especial, porque não havia nenhuma imagem, nem fotografias dos seus avós e parentes. Então a projeção desse material foi muito emocionante, como dá para ver no filme. Mas a aldeia tinha mudado um pouco, então Sam sempre ficava em dúvida se estávamos no lugar certo. Durante a projeção do filme, tivemos absoluta certeza. Os próprios Karajá se lembraram, inclusive um pajé mais velho, que tinha aproximadamente a mesma idade do Sam Fuller.

DUDA – Aquele momento em que o pajé mais velho se reconhece foi espontâneo?

MIKA – Sim, não tínhamos como saber antes. Sam tinha muitas dúvidas se alguém ia se lembrar de alguma coisa. Mas, quando alguns indígenas reconheceram seus avós, ele teve certeza. Isso foi muito importante para o filme. Mesmo depois das filmagens, continuamos muito próximos deles. Eles nos apoiaram muito durante as filmagens. Eles puderam ver como havia sido a vida dos avós deles.

DUDA – O que mais te chamou a atenção no modo de vida dos Karajá?

MIKA – Eles viviam muito próximos do homem branco. A cultura branca tentava invadir o tempo todo. Quando fui à Amazônia, numa aldeia Ianomâmi, eles eram bem mais fechados. A ligação com os Karajá era mais fácil, até pela língua. Eles falavam português. Eles já conheciam o modo de vida, portanto era mais fácil fazer contato. Eu também via a luta deles para preservar sua cultura. Era muito fácil ir para a cidade. A situação deles é muito delicada. Naquele momento estavam todos reunidos e todos participaram do filme. Eles eram muito curiosos, sempre queriam saber mais. Foi muito bom.

DUDA – Você manteve contato com alguém da aldeia?

MIKA – Eu tinha através do Peret, que também já se foi, em 2012. Ele sempre me trazia notícias. Ele sempre os visitava. Peret escreveu livros sobre as lendas dos Karajá. Deixamos uma parte do equipamento com os Karajá, porque estavam interessados em fazer filmes. Deixamos para eles fazerem os filmes deles. O Peret me disse que havia visto alguma coisa que eles tinham filmado com o equipamento. Eles filmaram os professores na escola, tinha um rapaz que estava muito interessado e havia começado a filmar com vídeo. Mas, nunca mais voltei lá infelizmente. Sempre quis voltar, mas isso nunca aconteceu. Gostaria muito de saber como está agora.

DUDA – Quando conversei com a Christa e com a Samantha, elas disseram que seria muito interessante fazer um Tigrero Redux, para ver como eles estão agora. Acho que seria um ótimo momento para voltar lá para filmar com eles novamente.

MIKA – Sim, também acho. Eu falei sobre isso com o Jim aqui em Helsinki. E ele disse, vamos! Porque essa experiência também foi muito importante para ele. Ele teve a ideia de fazer o filme Dead Man quando estava lá. Ele me disse que se não tivesse feito Tigrero, provavelmente nunca teria feito Dead Man.

DUDA – A Christa me contou que, quando ela e o Sam voltaram para Paris, onde estavam morando na época, ela chegou a conclusão de que eram eles os selvagens. Você também sentiu isso?

MIKA – Sim, senti. Na época, o espaço reservado para eles estava ficando cada vez menor, por isso também o filme era importante. Para os jovens, era importante mostrar a cultura Karajá. É muito importante preservar a cultura deles. Os jovens que não tinham trabalho na aldeia, tinham que buscar trabalho na cidade. Essa vontade de ser autossuficiente, viver com a natureza. Essa é a história dos indígenas. É triste, porque a situação piorou muito nos últimos quatro anos. Os indígenas não tiveram mais paz. Muitos se mataram porque não quiseram mais viver nesse mundo. Eles sabem como é conviver com a natureza. O homem branco ainda não sabe.

DUDA – Havia uma preocupação etnográfica de mostrar como viviam os indígenas?

MIKA – Eles já estavam meio “civilizados”. Então, eu não tinha essa preocupação. Ao contrário de quando fiz meu primeiro filme, Amazonas, com os Ianomâmi em Boa Vista. O Davi Kopenawa Ianomâmi me disse que eu podia ir lá filmar na aldeia deles. Mas, quando cheguei lá, pensei que não queria filmar lá. Não queria ir lá com minha equipe de homens brancos e equipamentos. Porque aquilo iria acabar prejudicando a cultura deles. Poderia ser interessante, mas acho que não seria bom para eles. Por isso, decidi não filmar com os Ianomâmi. Eu quis filmar em uma aldeia perto de Manaus. Porque lá haviam indígenas que já estavam vivendo na cidade. Junto com eles, reconstruímos uma aldeia completa. Assim, os indígenas que já estavam “civilizados” queriam mostrar para os filhos como era a aldeia deles. Foi um processo bem interessante, porque os filhos aprenderam a construir a aldeia. Foi uma decisão importante, para não quebrar a paz dos Ianomâmi, com essa invasão branca. Encontrei com o Davi Kopenawa aqui na Finlândia, e fazia muito frio. Ele quase morreu aqui em Helsinki. Pensei, imagina se ele levar doença para a aldeia dele. É interessante visitá-los, é muito bonito, mas ao mesmo tempo temos que tomar  muito cuidado. Para deixá-los em paz. Acho que a maioria deles quer continuar a viver do jeito deles com a sua cultura.

DUDA – Uma das minhas cenas favoritas em Tigrero é a cena final, quando Sam vai embora na canoa, chacoalhando aquele instrumento musical. Como surgiu aquela cena?

MIKA – Esse momento foi muito estranho. Sam estava muito cansado. Ele havia ficado uma semana no sol. Mesmo estando de chapéu, estava muito cansado. Foi um clima muito surreal. Ele virou mesmo um indígena. Foi muito intenso, quando ele diz que agora estava indo para um país não-civilizado. Para ele, foi muito importante voltar para o Brasil. Para todos nós, mas senti que o Sam estava muito feliz de ter votado. O chocalho foi uma ideia que tivemos rapidamente. Dei pra ele, e ele começou a tocar. Essa cena não estava pensada para ser o fim do filme. Eu senti na hora que era o final.

DUDA – Gostaria de falar agora sobre o lançamento do filme no Festival de Berlim, onde o filme ganhou o Prêmio da Crítica. Como foi exibir o filme no Festival?

MIKA – Foi ótimo! Fomos lá com o Sam e a Christa. O Sam curtia muito a atmosfera do Festival. E, claro, o filme foi muito bem recebido. Muitos amigos vieram assistir ao filme, muitos colegas, como Wim Wenders. O filme viajou muito depois de ganhar um prêmio em Berlim. Foi distribuído em muitos Festivais. E continua viajando até hoje. A única coisa triste é que não foi distribuído – até agora – no Brasil. Também fiz alguns filmes sobre música brasileira, que foram melhor recebidos fora do Brasil, do que dentro.

DUDA – Você fez vários documentários sobre música brasileira. Como foi essa sua fase brasileira, com os documentários musicais?

MIKA – Morei no Rio e conheci muitos artistas nessa época. Tive um bar em Ipanema, chamado MIKA’s BAR. Tinha show de música popular brasileira todos os dias. Foi ótimo. Era todo dia um artista diferente. Eram 300 shows por ano, durante dois ou três anos. Conheci todo mundo, desde João Donato até Seu Jorge. Quem abriu o bar foi o João Donato. Miúcha também cantou lá. Seu Jorge começou lá. Yamandu, o violonista tocou pela primeira vez no Rio lá. Eu adoro música brasileira desde pequeno. Meu filme Brasileirinho foi muito bem recebido no Brasil. Foi lançado em cinemas. Encontrei com o Lula aqui em Helsinki e o Ministro do Exterior, Celso Amorim, e eles conheciam o Moro no Brasil. O Lula disse que esse filme deveria ser mostrado para brasileiros, nas escolas. É cultura brasileira. O Brasil é um país tão grande. Foi muito importante ver essas culturas e tradições diferentes. São tantas manifestações culturais que dá para fazer vários filmes. É curioso que ninguém ainda tenha feito. Talvez por ser algo muito perto.


TIGRERO – O FILME QUE NUNCA EXISTIU
Dir.: Mika Kaurismäki | Brasil, Finlândia | 1994 | 75 min | Documentário | Livre

Em 1993, Samuel Fuller leva Jim Jarmusch em uma viagem ao Brasil, subindo o rio Araguaia até a vila de Santa Isabel do Morro, onde 40 anos antes o famoso produtor Zanuck havia enviado Fuller para explorar uma locação e escrever um roteiro para um filme baseado em um tigrero, um caçador de onças, que seria estrelado por John Wayne.

Assista gratuitamente em sescsp.org.br/cinemaemcasa

Disponível até 20.10.2023

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