Reflorestando a saúde intercultural  

21/03/2024

Compartilhe:

Por Geni Núñez 

Interculturalidade, literalmente, refere-se ao encontro entre culturas, ou seja, qualquer relação entre pessoas e/ou grupos sociais culturalmente diversos poderia ser definida como tal1. No entanto, historicamente, nem sempre esse contato ocorreu de modo saudável. Ao contrário, temos múltiplos exemplos de como a colonização foi e continua sendo violenta no contato intercultural. Mediada pela violência, essa “interculturalidade negativa” buscou o extermínio de povos, suas línguas, costumes, modos de vida, espiritualidade e territórios1

Apesar disso, essa não é a única interculturalidade possível e temos vastos exemplos disso, sobretudo entre povos originários, indígenas e quilombolas. Se expandirmos a noção de interculturalidade para além das relações entre humanos, vemos que esses mesmos povos conseguiram manter uma relação com as florestas que sempre teve o respeito à diversidade como um fundamento2. Ao contrário do que a hegemonia afirma, a apropriação violenta, a exploração, o aniquilamento de outras formas de vida no mundo não são o único caminho possível. 

Um grupo querer se impor contra todos os demais do planeta não é algo inato, nem universal, pois, como dito, há outras formas de existência que testemunham o contrário.  

Minha aposta é de que são as cosmogonias, ideologias e matrizes de pensamento que orientam as práticas de um povo, portanto, se, como povos indígenas, nossas cosmogonias nos ensinam que o humano não é superior aos demais bichos, nem foi feito para dominar e explorar o planeta, se entendemos que não existe um único deus verdadeiro, então não é difícil ter uma prática que respeite essa diversidade. Como esperar essa mesma compreensão de uma ideologia que afirma que só há um único caminho, verdade, um único deus? Se ali tudo que não é autorreferente deve ser visto como o mal e demoníaco, se o que diverge deve ser convertido, o que esperar das práticas de quem tem esse tipo de fé?  

A própria divisão entre teoria e prática, pensamento e razão, mente e corpo é parte desta mesma monocultura de pensamento, afinal, nossas ideologias também são práticas que fazem parte de uma certa inter-relação de sentidos. Punições individuais são insuficientes se não ponderamos sobre qual ideologia inspirou tais práticas, pois, ainda que possam ser perpetradas de modo individual, estas práticas são, sobretudo, reflexo de uma imposição social, religiosa, política, histórica e econômica.  

Há condições históricas e políticas, como o racismo, o capitalismo, a misoginia e as demais opressões, que distribuem de modo desigual a vulnerabilidade que nos constitui, desde o acesso à alimentação, os cuidados de saúde, até o tempo de qualidade para descanso3. Nós, povos indígenas, somos tidos pela sociedade dominante como os “preguiçosos”, por nossa resistência à escravização (que persiste até hoje) e é uma ironia que quem escravizou não seja visto como “folgado”, e sim quem foi escravizado. Nossos modos de vida envolvem, sim, trabalhos diversos, de plantio, de cuidado das crianças, dos mais velhos, porém não são trabalhos que servem à acumulação de lucro. E assim como a terra, quando explorada à exaustão, fica machucada e quase infértil, também nós, que fazemos parte dela, precisamos de descanso para termos saúde. Como a terra, é necessário realizarmos, coletivamente, um reflorestamento da saúde que vá além de não ter doença, mas que inclua um encantamento do mundo, com o mundo. 

A luta por uma saúde intercultural envolve um engajamento transversal em diversas outras lutas que lidam com questões semelhantes, por isso, antes de nos perguntarmos como acolher o outro, o “diferente”, há que se retornar um passo atrás e repensar a própria ideia de outro e de diferença. Em alguns casos, a noção de “diferente” é usada como um contraste para aquilo que é visto como a norma, mas a diferença só é saudável se horizontal e recíproca4

Quem faz parte do “nós” e quem são “os outros”? Para povos indígenas, os demais seres também fazem parte deste “nós” e é por esta compreensão que os rios, as árvores, as montanhas também são nossa comunidade, são parentes.  

Isso não significa dizer que somos todos idênticos, pelo contrário, ao liberar a diferença de um binarismo, conseguimos expandi-la para além da comparação hierárquica. Talvez o maior risco de perpetuarmos opressões não esteja apenas naquilo que é explicitamente violento, mas justamente no que se faz em nome do bem, do amor, da família, da civilização e do desenvolvimento. É por aí que a tutela mais se efetiva em nosso contexto5

A interculturalidade é fundamental não apenas naqueles contextos em que nitidamente não se falam as mesmas línguas, por exemplo, mas em especial quando compreendemos que, mesmo falando a “mesma” língua, ela nunca é a mesma para todo mundo. Os sentidos e os significados que cada pessoa atribui a uma experiência são únicos e é só quando renunciamos ao lugar de quem, previamente, sabe mais e melhor do outro do que ele mesmo, que conseguimos nos encontrar de fato.  

Uma saúde que tenha a interculturalidade como guia, descentraliza sua própria referência e abre espaço para tudo aquilo que não é monocultura. Acolher o outro deixa de ser apenas um dever ou obrigação, um gesto de condescendência, mas um reconhecimento de que é apenas através disso que nós mesmos nos tornamos mais fortalecidos, pois toda nutrição coletiva se faz de diversidade, de concomitância, de floresta. 

Referências 

1. Albó, X. (2005). Cultura, Interculturalidade, Inculturação. São Paulo, SP: Loyola. 

2. Neves, E. G. (1999). O VELHO E O NOVO NA ARQUEOLOGIA AMAZÔNICA. Revista USP, (44), 86-111.  

3. Butler, J. (2017). Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto?. Tradução de Sérgio Niemeyer Lamarão e Arnaldo Marques da Cunha. 3ª ed. RJ: Civilização Brasileira, 288p.4. Kilomba, G. (2016). O racismo é uma problemática branca. In. Carta Capital. 

5. Santos, A. B. (Mestre Bispo). Colonização, quilombos, modos e significados. BSB, INCTI/UnB, 2015, 78 p. 


Geni Núñez é doutora no programa de pós-graduação interdisciplinar em ciências humanas (UFSC), na linha gênero e suas inter-relações com geração, etnia e classe. Mestre no programa de pós-graduação em psicologia social (UFSC), na linha processos de subjetivação, gênero e diversidades. Autora dos livros “Jaxy Jaterê: o Saci É Guarani” (Harper Kids, 2023) e “Descolonizando Afetos: Experimentações sobre Outras Formas de Amar” (Editora Planeta de Livros, 2023). Membro da Articulação Brasileira de Indígenas Psicólogos/as (ABIPSI) e da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Conselho Federal de Psicologia (CFP). 


Este conteúdo integra o projeto Inspira – Ações para uma Vida Saudável, que acontece de 10 a 21 de abril, com programações que estimulam reflexões sobre saúde e qualidade de vida. São mais de 170 atividades, a maioria gratuita e aberta a todas as pessoas, em 38 unidades do Sesc no estado de São Paulo. Consulta a programação em sescsp.org.br/inspira.

Conteúdo relacionado

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.