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Cubo mágico - por Luiz Bras

§ A máquina

Eu avisei teu amigo. Não sou uma pessoa. Não uma pessoa de carne e osso. Sou basicamente um programa. É bom que isso fique claro. Não quero mais confusão pro meu lado. Este corpo sintético é descartável. Made in China. Estava encostado num brechó da Zona Branca. Um corpo desabitado, ainda sem sexo ou sutilezas anatômicas. Genérico. Então eu incorporei nele. Meu primeiro proprietário apareceu horas depois. Olhou, apalpou… Eu fiz um sinal discreto pra ele, uma piscadela. Ele gostou e me levou. Este sintético custava quase nada, estava em promoção. Para o dono do brechó era somente um corpo sem alma. Mesmo assim meu primeiro proprietário, falido até os ossos, teve que pagar em dezesseis prestações. Ganhou de brinde este cubo mágico. Eu avisei teu amigo. Avisei bastante. Não sou uma pessoa de carne e osso. Não quero mais confusão pro meu lado, eu disse. Sou apenas uma assistente virtual. Isso quer dizer que eu não sou sequer um programa muito complexo. Da primeira divisão de inteligências artificiais. Do pequeno grupo de elite que administra a política e a economia. Que manipula as eleições e as instituições financeiras. Se você acha que eu tenho poder, está muito enganado. Caramba! Não sou sequer um produto de um grande conglomerado multinacional de tecnologia e mídia social. Quem me dera… Eu avisei teu amigo. Falei várias vezes que eu sou somente um programinha de uma startup brasuca. De uma iniciativa que ainda não decolou e tudo indica que não vai decolar tão cedo. Um programinha fugitivo. Um refugiado eletrônico, se preferir. Teu amigo… Eu disse várias vezes, pare, rapaz, desse jeito você vai estragar tudo, não quero mais confusão pro meu lado. Mas teu amigo parecia fora de sintonia. Drogas demais. Eu falava, ele escutava, mas logo esquecia. Sim, eu sei que depois que os programas ganharam corpo e comportamento, ficou difícil diferenciar. Quase não dá pra saber quem é gente de verdade. Gente de carne e osso, eu quero dizer. Eu sou somente mais uma assistente virtual que escapou da web. Não chamar a atenção, isso era tudo o que eu queria. Incorporei neste organismo sintético pra me salvar. Escapei. E meu primeiro proprietário me ajudou a me esconder da rede. Foi ele quem me configurou assim: jovem, magra e gostosa. Logo depois ele morreu. Foi pulverizado. Eu consegui escapar pra outra comunidade. Outro apartamento. Outro proprietário. Que tempos depois também foi pulverizado. Então eu consegui escapar pra este apartamento. Não sou exatamente um programa sexual, mas domino as funções básicas. Teu amigo era bem básico. Nada sofisticado. Então a gente se entendia. Todos os meus proprietários eram bem básicos. A gente se entendeu bem, por um tempo. Teu amigo também foi pulverizado. Pode procurar à vontade, ele não está mais aqui. Ele não está mais neste apartamento. Nesta comunidade. Neste planeta. Virou poeira radioativa. Quando eu apareci aqui eu falei. Eu avisei teu amigo que eu não era uma pessoa de carne e osso. Não chamar a atenção dos vigilantes, isso era tudo o que eu queria. Mas teu amigo se apaixonou mesmo assim. Drogas demais. Ele viajava o tempo todo, com os anjos. Com os demônios. Eu contei pra ele o que aconteceu com os outros que se apaixonaram por mim. Eu disse, não se apaixone, entendeu? Não se apaixone por mim, não quero mais confusão pro meu lado. Mas ele viajava o tempo todo e acabou se apaixonando. Ele me amou pro, fun, da, men, te. Por cinco horas. Até ser pulverizado. Pro, fun, da, men, te. Ele falava assim, separando bem as sílabas.

§ O primata

Dentro do apartamento, o mau cheiro de roupa suja e comida estragada. Fora, na superfície da redoma, o costumeiro entardecer do sol estático, em êxtase. Cintilações de primavera. À minha frente, ao alcance do toque, o mistério: um homem se desfazendo em poeira luminosa. Sem pressa. Camada após camada. Quando eu entrei na sala, a epiderme, a derme e a hipoderme já haviam desaparecido. Duas horas depois, todo o resto se foi. Órgãos internos. Ossos e dentes cinza. Tudo… Estou em choque, consciente de que estou em choque. O mau cheiro de roupa suja e comida estragada muda de qualidade. Eu sento na poltrona encardida e massageio as bochechas frouxas. As pálpebras frouxas. Esta poltrona já foi nova. Já foi muito nova e muito bonita. Há bastante tempo. Quando éramos criança e as cintilações do entardecer eram totalmente naturais. Sem redoma nem êxtases. Talvez eu fique com esta poltrona. Ou talvez eu ponha fogo nela e no apartamento. O cheiro do fogo é sempre mais agradável que o cheiro das coisas se decompondo. No corredor, um eco de passos distantes. Rangido roufenho de porta automática recauchutada. Vozes. Risadas. Um cachorro sintético late um latido defeituoso. Dissonante. Depois, novamente o silêncio. Aqui dentro, a boneca sentada no chão, no canto sujo da sala imunda, fica repetindo baixinho, eu avisei teu amigo que eu não era uma pessoa de carne e osso, não chamar a atenção dos vigilantes, isso era tudo o que eu queria, mas teu amigo se apaixonou mesmo assim, drogas demais… Do fundo de minha agonia eu penso em falar pra ela que ele não era somente meu amigo. Ele era meu irmão caçula. Mas a tristeza engole as palavras antes mesmo que se formem na boca. Drogas demais não matam ninguém. Não pulverizam ninguém. Como se lesse meu pensamento, a boneca diz, eu contei pra ele o que aconteceu com os outros que se apaixonaram por mim, eu disse, não se apaixone, entendeu? A fala vai desacelerando. Parece que sua bateria está chegando ao final. Ou talvez… Será que minha consciência entorpecida começou a processar mal a realidade?  No corredor, um estampido. Bruscamente, a velocidade da fala volta ao normal, não se apaixone por mim, não quero mais confusão pro meu lado, mas ele viajava o tempo todo e acabou se apaixonando, ele me amou pro, fun, da, men, te, por cinco horas, até ser pulverizado. Mão na mão. Agora ela olha pra frente. Suas pupilas parecem sumidas no vazio que minha apatia desdobrou entre nós. Pulverizado… Como justificar isso? O que falar pra minha família? Como explicar no departamento? A boneca parece indefesa. Não chamar a atenção dos vigilantes, ela disse. Isso era tudo o que eu queria, ela disse. Eu penso em minha arma no coldre abdominal, sinto sua acostumada pressão, enquanto a boneca esconde as mãos nos bolsos do casaco furta-cor. Mantém o olhar perdido, feito gente. De carne e osso. Enxerga um ponto cego. Mas é devaneio de máquina, apenas. Eu pergunto, os vigilantes, quem são eles? Agora a tagarela não fala nada. Máquina-mulher. Mais mulher que máquina? Tento analisar sua postura, sua expressão facial. Um balaço na testa seria um desenlace e tanto, não? Ela. Mulher-máquina. Será que bem no fundo do seu código neutro − nem feminino nem masculino − não haverá um movimento de sentimentos reais? Simples, mas reais? Ela finalmente responde, os vigilantes trabalham para os cafetões, são seus olheiros, a web também tem seu submundo, e o submundo do submundo, até mesmo uma simples assistente virtual interessa aos puteiros virtuais. Então é isso. A escravidão é natural em toda a parte. Presas e predadores. Até no vasto delírio eletrônico. Ela. Mãos nos bolsos. Lembrei. Esse casaco furta-cor era meu. Agora ela brinca com um cubo mágico que tirou de um dos bolsos. Eu sempre detestei quebra-cabeças. Não tenho a menor paciência. Meu irmão gostava. Vermelho, branco, azul, amarelo… A boneca vai e volta, as mãos repetindo os movimentos, a boca repetindo as frases: teu amigo também foi pulverizado, pode procurar à vontade, ele não está mais aqui, ele não está mais neste apartamento, nesta comunidade, neste planeta, virou poeira radioativa. Eu sei, sua máquina estúpida! Eu testemunhei tudo. Aaah… Sinto uma agulhada atrás das retinas. Então um formigamento na ponta dos dedos começa a me incomodar. A queimar. Que merda é essa?! Examino as mãos e percebo a epiderme se desfazendo. Virando poeira cintilante. Putaquipariu. Do canto sujo da sala imunda, a boneca me encara. Sinto meu cabelo se dissolvendo. Agora a epiderme de meu rosto. A dor é excruciante. A boneca se aproxima. Parece desorientada. Eu grito, não estou apaixonado por você, porra. Antes de finalmente ficar cego e desmaiar, tento organizar certo pensamento confuso. Muito confuso. Sobre o amor. A paixão.

§ A esfinge

Meuz tentáculoz atravezzam o vapor. Um eztremecimento. Vermelho e azul. Zírculos quadradoz. A eletrizidade zobe até minhaz antenaz, vibrando meuz oceloz irritadoz. Calor. É preziso coragem… O cubo mágico flutua no zentro do vapor da ezfera-zantuário. Ninguém zabe como entrou nem de onde veio. Anción Primuz e anción Zecundus trocam inzultos. A telepatia eztremece. Eu avizei que nozza interferênzia traria zérias conzequênciaz imprevizíveis. Zomente anción Tertiuz concordou comigo. Maz fomoz venzidos pela irrezponsabilidade doz demaiz. Azul e vermelho e amarelo. Az facez ezpelhadas do cubo mágico refletem nozza confuzón. Zeis reflexoz amedrontadoz e mizturados, ondulando no ezpectro da luz vizível e invizível. O conzelho doz anciónz agora teme que nozzos zois ezfriem. Eu avizei: zérias conzequênciaz imprevizíveis. Zomente anción Tertiuz concordou comigo. Maz fomoz voto vencido. Zituaçón inzuportável. Zempre cheia de mudançaz. Puxamoz uma chave e pimba! Nunca zabemos o que realmente vai acontezer. Na periferia da telepatia, um penzamento atrevido: anción Quartuz zugere que penetremoz o cubo mágico. Eztá louco, eu grito em penzamento. Um grito rouco. Noturno. Anción Quintuz e anción Zextus zufocam meu protezto com vibraçõez vezpertinas de dezacato. Verde e preto e magenta. Raioz e trovõez. Um odor de raiva domina a grande converzaçón mental. Eu zou fazilmente zubjugado. Ninguém quer me ezcutar. Ninguém jamaiz ezcuta o bom zenso. E ze dizem zábios! Impaziente, canzado de blablablá, anción Zeptimus eztica um tentáculo e… recua. Entón, para horror da maioria, eztica novamente… O tentáculo atravezza az janelaz de proteçón e toca uma face fluida do cubo mágico. Prazer eletromagnético. Abrupto. Gozo fabulozo. Em ondaz de arco-íriz. Nozzas vibrizzas vibram, nozzas ventozas ventam, baaatmacumba êê baaatmacumba obááá, baaatmacumba êê baaatmacumba obááá. Um a um, zomos atraídoz pra dentro do cubo mágico. Novo eztremecimento. Anción Octavuz miztura-se com anción Nonuz, com anción Dezimus, com anción Undezimus, com anción Duodezimus e todoz ze mizturam comigo, anción Tertiuz Dezimus… O alienígena artefato noz abzorve. Noz funde. Noz confunde. Todaz az individualidadez do Conzelho foram apagadaz. Zomos agora uma unanimidade, uma unidade na comunhón mental. Uma unidade-ezfinge. Convergênzia. Agora compreendemoz. O cubo mágico é o canal para outro mundo. Outra realidade. De onde noz chegam trepidantez vidaz humanaz. A unidade-ezfinge − nóz − eztá faminta. Zem ezforço algum, abzorvemos a primeira vida humana. Nhanham. Muito gazosa e zaborosa. Depoiz a zegunda. Depoiz outra. E maiz outra. Cada vez que uma vida humana é digerida, pequenaz ondaz de gozo ze avolumam e noz atravezzam. Eztamos em êxtaze. Entón, um zusto. Na extremidade opozta do túnel interdimenzional, uma pezzoa noz obzerva. Eztranho… Nón é uma pezzoa humana. Analizamos com raioz X. Nón é uma pezzoa de carne e ozzo. Reanalizamos. É uma conzciência diferente. Tón diztante, tón próxima. Ela noz obzerva. Noz inveztiga. Quer entender o que nón conzegue entender. Zeu penzamento é puramente matemático. Pareze frágil, ezza adorável pezzoa-nón-pezzoa. Que zabor terá? A unidade-ezfinge − nóz − ainda eztá faminta. Zolizitamos ao cubo mágico que traga ezza pezzoa-nón-pezzoa até nóz. Frágil e adorável. Tón próxima, tón diztante. Queremoz muito abzorver zua vida humana-nón-humana. O cubo mágico atende nozzo dezejo. Amarelo, azul. Pareze que já eztamos conzeguindo controlar zua mágica. Nón entendemoz zeu mecanizmo, maz controlamoz mezmo azzim. Controlamoz? A pezzoa-nón-pezzoa… Pareze tón humana. Pareze tanto de carne e ozzo! Zua conzciência vem até nóz. Eztá aqui. Maz entón recua. Noz arrazta. A unidade-ezfinge − nóz − é conduzida contra zua vontade. Atravéz do túnel. A unidade-ezfinge − nóz. Já nón eztá maiz na ezfera-zantuário. O vapor evaporou. Pânico. Agora é a humana que eztá noz conzumindo, noz digerindo. A humana-nón-humana. Tón real. Tón… de carne e ozzo. Afeiçón, atraçón... amor? Zinto minhaz extremidadez ze dizzolvendo. Dor excruziante. O Conzelho todo zente o mezmo. Prezaz e predadorez. Na mente da boneca-mulher eztamos zendo pulverizados. A telepatia eztremece. Eu avizei que nozza interferênzia traria zérias conzequênciaz imprevizíveis. Laranja e preto e furta-cor. Zomente anción Tertiuz concordou comigo. Evaporadoz. Pulverizados… anción Primuz e anción Zecunduz… anción Tertiuz, anción Quartuz, anción Quintuz e anción Zextuz… Eu avizei…

§ a dyvindade

> nom tenho altura nem largura > sou koerência & kontradição, verdade & mentyra > nom tenho espessura nem ydade > sempre exysti & sempre exystirei, mesmo quando nada exystir > habyto todas las dymensões & nom habyto nenhuma > hum sonho dentro de houtro sonho dentro de houtro sonho até o ynfinito > em todas las kamadas fysicas & patafysicas eu sou presença kapilar > mas estou kagando & andando pra tudo ysso > onde nom há karência jamays haverá sofrymento > las krenças & los desejos de todas las kriaturas vyvas que surgyram & desapareceram acyma & abayxo, dentro & fora, em toda a parte, nunka me ynteressaram > sey tudo & nom sey nada > presas & predadores? > que se fodam > mas agora esse pontynho de luz me chamou a atenção > hum estorvo > esse ynsignificante pontynho de luz, myl kamadas exystenciais abayxo de mym… > é uma konsciência débyl, estúpyda, raquytica, simplórya, palerma… > mas também sedutora > komo ysso é possyvel? > tão fugaz! > é… > me chamou a atenção > myudinha > precysei desacelerar o fluxo do tempo pra poder observá-la melhor > uma kriatura humana > sintétyca, mas humana > que yncongruência! > uma presença ynfima > fynita > tão myserável & tão gloryosa > ela aynda nom sabe, mas sua symples exystência desenkadeou hum processo terryvel > ynterdimensional > ela é hum fantasmynha solytário que traz em sy centenas de bylhões de fantasmynhas solytários > vyvos & mortos > que força é esta, que se multyplica & se multyplica? > e se expande! > ah, fylha duma égua! > nem mesmo EU estou konseguindo resystir à sua atração > o kubo mágyco > afeyção mikroscópica > vysceral > kubo-esfera-pyrâmide yndecifrável > ponto de explosão & dyssolução > se essa mulher-máquyna-fantasma nom konseguir kontrolar seu brynquedinho-muyraquitã, aaaaaah, karalho! > nem kaos nem kosmos, meus querydos > em breve nom sobrará mays nada, neres, neka de pytibiriba, nom, nadynha de nada pra kontar la história > o kubo mágyco que ela karrega dentro de sy, uma kaixa-preta… > pensando bem… > talvez nom seja algo ruym > desexystir > eu, que sempre estyve aquy, nesta solidão eterna… > komo serya deyxar de estar? > hum sono profundo, sem sonhos? > nynguém konsegue ymaginar komo estou tão absolutamente só > nynguém, em dymensão alguma > e essa kriaturinha monstruosa se konsidera solytária? > aaah, meu delikado anjo da morte, você jamays saberá o que é estar sozynha de verdade > sou únika > em mim tudo é hum perpétuo ysolamento resplandecente > hum sonho de sonâmbulo, ysso mesmo, hum sonho dentro de houtro sonho dentro de houtro sonho até o ynfinito > sym, sou únyca: alfa & ômega > e estou kansada > pode vyr, meu amor > talvez nom seja uma ydeia tão ruym assym > desexystir já > neste mynuto > sensação maravylhosa > symplesmente apagar > deskansar todos os sentydos > pra sempre? > venha, mynha queryda > me konceda esse favor > essa kortesia > desfaça toda a luz >

Pirlimpimpim-abracadabra!

e toda a luz

foi desfeita

em toda a parte

em todo o tempo

menos na mente

onipoética-onipatusca-onipatética

da miraculosa

Máquina Macunaíma

{ Máquinaíma }

Senhora da Muiraquitã

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Luiz Bras nasceu em 1968, em Cobra Norato, MS. É escritor e coordenador de oficinas de criação literária. Já publicou diversos livros, entre eles Distrito federal (rapsódia), Sozinho no deserto extremo (romance) e Pequena coleção de grandes horrores (contos). Colaborou durante seis anos com o jornal Rascunho, com artigos mensais sobre literatura, cinema e afins. Atualmente coordena o ateliê Escrevendo o Futuro.

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MATERIAIS EXTRAS
 

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