
Sem sair da metrópole, é possível explorar caminhos de terra, combinando atividade física, contato com a natureza e momentos de pausa (foto: Nilton Fukuda)
Leia a edição de Abril/26 da Revista E na íntegra.
POR LUNA D’ALAMA
São muitos os motivos que levam uma pessoa a fazer uma trilha: praticar uma atividade física, integrar-se a um grupo, silenciar a mente, respirar ar puro, chegar até uma cachoeira, praia ou topo de uma montanha. Percorrer esses caminhos ajuda também na conexão com o meio ambiente e na conscientização da importância de todo o ecossistema para a vida no planeta. A boa notícia é que não é preciso sair das cidades para encontrar esses oásis, uma vez que, em geral, os municípios brasileiros abrigam trilhas dentro do perímetro urbano, com distâncias variadas e trajetos de diferentes intensidades.
Desde o fim de fevereiro, quem é fã de caminhadas na natureza ganhou mais uma opção de lazer e atividade físico-esportiva na zona Leste da capital paulista, com a inauguração da Trilha dos Guaianás. Trata-se de um percurso de doze quilômetros que atravessa a Área de Proteção Ambiental (APA) Parque e Fazenda do Carmo e interliga o Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo, o Parque do Carmo – Olavo Egydio Setúbal, o Planetário Municipal do Carmo – Professor Acácio Riberi e o Sesc Itaquera. O nome da trilha faz referência às raízes do povo de etnia indígena que habitou a região da Serra do Mar e estendeu-se até o Rio de Janeiro. Dos Guaianás, também surgiu a palavra Guaianases, que batiza o distrito e a subprefeitura homônimos no extremo da zona Leste de São Paulo. A Trilha dos Guaianás tem início no Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo, em Itaquera, com formato circular, alta dificuldade, trechos de subida e mata fechada. Chega a uma altitude de 860 metros, contém placas de sinalização e pode ser concluída em cerca de quatro horas – dependendo do ritmo e das paradas.
Esse caminho ao ar livre faz parte do projeto Trilhas da APA do Carmo, que mapeou doze circuitos existentes nessa área e lançou, também em fevereiro, um guia chamado Mosaico de Trilhas da APA do Carmo, desenvolvido pelo Sesc São Paulo em parceria com a Fundação Florestal do Estado de São Paulo, a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, Conselhos Gestores Locais, movimentos sociais, organizações não governamentais (ONGs) e lideranças da sociedade civil. O material reúne informações aos visitantes, quais são as trilhas da região e as formas de acesso.
Para quem tiver interesse em desbravar esses doze caminhos naturais, o guia funciona também como um “passaporte”, que poderá ser carimbado a cada trajeto. Alguns são autoguiados, enquanto outros precisam de agendamento prévio. Os visitantes poderão solicitar o seu carimbo no local onde cada percurso começa. Há sinalização em todos os trechos, contendo 120 placas feitas à mão por conselheiros e pelo público espontâneo do Sesc. “As pessoas vão poder se identificar, conscientizar, engajar e experimentar a prática de trilhas como uma ferramenta de bem-estar e qualidade de vida”, destaca Amanda Martins Jacob, conselheira representante do Sesc Itaquera e uma das idealizadoras do Mosaico de Trilhas.

Entre preguiças e bromélias
Segundo Gustavo Feliciano Alexandre, gestor da APA Parque e Fazenda do Carmo, a APA onde se concentram os doze circuitos do Mosaico de Trilhas foi criada em 1989, na bacia do rio Aricanduva. No século 16, a área onde está a APA era conhecida como Fazenda Caaguaçu. Em 1722, chegaram monges fluminenses da Ordem dos Carmelitas (daí o nome Carmo), que ficaram no local até o início do século 20. A partir de então, o terreno – que ia de onde hoje está localizado o Sesc Itaquera até o atual estádio do Corinthians – foi desmembrado em várias glebas (porções de terra) e, nos anos 1950, parte foi adquirida pelo engenheiro Oscar Americano (1908-1974), que transformou o local em espaço de lazer. Com o falecimento de Americano, a Prefeitura de São Paulo comprou a área dos herdeiros, e a parte da fazenda onde ficava a sede foi transformada no Parque do Carmo, inaugurado em 1976.
“A população, então, mobilizou-se para impedir o funcionamento de um aterro sanitário, que havia sido implantado numa parte do terreno em 1983, e evitar que fossem construídos conjuntos habitacionais na área”, explica. Uma década depois, foi aprovado o Projeto de Lei nº 6.409/89 para a criação da APA, que completa 37 anos no dia 5 deste mês.
Nessa unidade de conservação, que compõe o maior remanescente de Mata Atlântica da zona Leste, abrigam-se espécies de árvores nativas como jequitibás, jatobás, embaúbas, bromélias, dentre outras. Também são encontrados animais como preguiças, esquilos, morcegos, cobras etc. “A APA tem ao todo 867 hectares, o equivalente a 1.200 campos de futebol. Em 2017, tive a ideia de criar a primeira caminhada ecológica nessa área – precursora da Trilha dos Guaianás, feita apenas uma vez por ano, no mês de aniversário da APA. Em 2019, o Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo, criado em 2003, abriu para a população geral. Hoje, existe até um mirante sobre o antigo aterro sanitário desativado”, conta Alexandre.
O projeto Trilhas da APA do Carmo teve início em 2025, com vistorias técnicas e reuniões. A nova Trilha dos Guaianás, por exemplo, agrega trechos de vários circuitos preexistentes. “Há alternativas para todas as pessoas e condicionamentos físicos: desde a Trilha da Jataí, de baixa dificuldade e com 850 metros de extensão, que podem ser percorridos em apenas sete minutos; até a dos Guaianás, com doze quilômetros, e a do Urubu, com quatro quilômetros, de dificuldade moderada e tempo médio de 1h30″, cita o gestor da APA.
Para fazer essas trilhas, Alexandre recomenda estar acompanhado e optar pelo uso de roupas e calçados adequados, protetor solar, repelente contra insetos, e levar capa de chuva, água e um pequeno lanche. Também não se deve pegar espécies da mata (como plantas, flores ou animais) nem deixar lixo pelo caminho, incluídas cascas de frutas. “São Paulo tem inúmeras áreas verdes para desfrutarmos. Quanto mais gente conhecer esses lugares e usufruir deles, maior será a preocupação em preservá-los”, completa.
Além de roteiros a pé na APA Parque e Fazenda do Carmo, há trilhas que podem ser feitas de bicicleta, como as conduzidas no Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo pelo coletivo Reserva Natural Park, que reúne praticantes de ciclismo em montanha. Criado em 2024 como instituto, o Reserva Natural Park agrega pessoas que curtem trilhas, natureza e bicicletas, com foco em lugares da zona Leste paulistana. “Ter trilhas dentro ou perto da cidade facilita a nossa logística, ajuda a incluir e conscientizar as pessoas, a difundir esse esporte radical. Além disso, o Parque Natural [assim como o do Carmo] é público, não cobra ingresso, tem um bom manejo do solo, e qualquer necessidade de resgate se torna acessível”, considera Thiago Oliveira, um dos sete membros à frente do grupo.
Dicas para trilheiros
Para especialistas e trilheiros, ao fazer as caminhadas, é importante respeitar os limites e o ritmo do próprio corpo, ainda que o praticante esteja em grupo. Recomenda-se verificar o histórico médico e condições de saúde antes da largada, atentar-se às condições climáticas (evitando dias de chuva e vento forte) e, em caso de acidentes ou emergências, ligar 193 (Corpo de Bombeiros), 153 (Guarda Civil Metropolitana) ou 192 (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – Samu).
Segundo Amanda Alvernaz, trilheira e cofundadora do projeto Mulheres e Montanhas, em São Bento do Sapucaí (SP), a cerca de 200 km da capital paulista, fazer trilhas habitualmente pode ajudar no autoconhecimento, na transformação pessoal, na presença e no acolhimento de si e dos outros. “Criamos, em 2019, esse espaço para as mulheres se fortalecerem, ganharem autonomia e autoconfiança, e exercitarem a tomada de decisões a partir da prática de caminhadas, trail running (corrida em trilhas), pedaladas, escaladas e rapel. Andamos em conjunto, somos responsáveis pela segurança umas das outras, e ninguém fica para trás”, elucida. Ela também recomenda instalar no celular algum aplicativo de geolocalização, que funcione offline, para rastreamento de rotas e segurança.
Em sintonia com Amanda, está a paulista de Votuporanga (SP) Inah Ribeiro, à frente de uma agência na capital voltada ao ecoturismo e do projeto Trilhe Como uma Garota, ao lado da sócia e instrutora de rapel Dayane Medeiros. A iniciativa atende tanto homens quanto mulheres, mas as guias são sempre do gênero feminino. Os trajetos incluem locais em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. “Nesse tipo de aventura, você não vive individualmente, mas acompanha os outros, o grupo. É um apoio mental e físico: ninguém solta a mão de ninguém”, analisa Inah. Para a criadora do Trilhe Como uma Garota, a melhor época para a prática de trilhas em montanhas vai de abril a setembro, período de clima seco, ameno e com melhor visibilidade. “A natureza possibilita o reencontro com nós mesmos. Além disso, por um instante, você deixa de ser um indivíduo para vivenciar questões do grupo. É muito mais sobre o trajeto do que sobre o destino. E dali nascem amizades, momentos únicos e muita diversão”, enfatiza.

Direito ao lazer
No dia 16 de abril é celebrado o Dia Mundial do Lazer, que destaca o lazer como um direito humano fundamental e essencial à saúde, ao bem-estar e à transformação social. Na visão de Rosângela Martins, pesquisadora de parques urbanos, esses espaços e suas trilhas estão intimamente conectados a esse conceito de lazer. “Trilhas ligadas a parques incentivam a promoção da atividade física, são um atrativo turístico e uma forma de a população conhecer e valorizar a cidade onde mora. Também proporcionam uma experiência de pausa no centro urbano. Isso também tem a ver com políticas públicas de saúde, com a criação de grupos e a promoção de atividades comunitárias”, explica a pesquisadora.
Rosângela, que também é conselheira do Parque Piqueri, no Tatuapé (zona Leste de São Paulo), acredita que, além da evidente proteção ambiental, os parques contam a história de uma cidade, têm valor cultural, histórico e arqueológico. “Quando falamos em direito ao lazer, é no sentido de as pessoas entenderem os seus direitos e oportunidades nesses ambientes naturais, e a importância da conexão com o meio ambiente”, finaliza.
Caminhos verdes
Sesc São Paulo conta com trilhas urbanas nas unidades de Itaquera, Interlagos e Bertioga

Pessoas interessadas em trilhas podem frequentar três unidades do Sesc São Paulo (Itaquera, Interlagos, na capital paulista, e Bertioga, no litoral) para praticar atividade física em meio à vegetação nativa.
Em Itaquera, a Trilha da Samambaiaçu é autoguiada com placas e pode ser feita pelo público de quarta a domingo, das 9h às 17h. O agendamento de grupos com acompanhamento de educadores ambientais está disponível às quartas e quintas-feiras, às 10h ou às 14h. Nela, o visitante poderá observar, no caminho de 800 metros, juçaras, embaúbas, paus-ferros e paus-jacarés, além de animais como esquilos, saguis, lagartos, artrópodes, aves e insetos diversos.
Já no Sesc Interlagos, a Trilha Billings é autoguiada e conta com sinalizações de percurso para orientar o público espontâneo. A visita pode ser realizada conforme o horário de funcionamento da unidade, sem necessidade de agendamento prévio, respeitando as orientações disponíveis ao longo do trajeto. Para grupos de adultos e de crianças a partir de 6 anos, há possibilidade de agendamento prévio para atendimento mediado, realizado às quartas, das 14h às 16h, e às quintas e sextas, das 10h às 12h.
No litoral, a Reserva Natural do Sesc Bertioga reúne duas trilhas em 60 hectares de floresta urbana protegida: a Trilha do Sentir, que tem quase um quilômetro de extensão e conta com uma estrutura em deck por dentro da mata, com três opções de trajeto (120m, 450m e 960m); e a Trilha do Tucum, com 370 metros de comprimento e percurso a pé pelo chão da floresta. A Reserva Natural abriga mais de 600 espécies de plantas e animais, e os dois circuitos proporcionam a observação de uma amostra da biodiversidade presente no bioma Mata Atlântica. A Trilha do Sentir possui recursos de acessibilidade, além de placas em relevo e escultura tátil com amostras de espécies da fauna e flora locais. Também há peças de comunicação com informações em braile, mapas táteis e vídeos com audiodescrição e interpretação em Libras.
Confira destaques da programação:
ITAQUERA
8ª Caminhada Histórico-Ecológica da APA do Carmo
Saída do Jardim de Inverno da unidade. Dia 4/4, sábado, às 9h30. Grátis, com distribuição de senhas meia hora antes. Atividade não indicada para menores de 15 anos.
Trilha da Samambaiaçu
A caminhada ecológica, com grau de dificuldade baixo, será acompanhada por agentes de educação ambiental do Sesc. Ponto de encontro: Jardim de Inverno. Dia 5/4, domingo, às 10h. Grátis, com distribuição de senhas meia hora antes. Livre.
Trilha dos Guaianás
Com o gestor da APA Gustavo Feliciano Alexandre e agentes de educação ambiental do Sesc. Dia 4/4, sábado, às 8h. Grátis.
INTERLAGOS
Projeto Observando os Rios
Com educadores do Sesc. Dia 18/4, sábado, às 10h. Grátis.
BERTIOGA
Trilha do Sentir – Reserva Natural Sesc Bertioga
Com educadores do Sesc.
Dias 5 e 19/4, domingos, às 10h. Grátis.
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