A ferro e fogo

30/04/2026

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Nascido próximo de uma siderúrgica na periferia de Ouro Preto (MG), Jorge dos Anjos pavimenta com a arte um caminho para desvendar sua ancestralidade

POR DIEGO OLIVARES
FOTOS NILTON FUKUDA

A paisagem da cidade de Ouro Preto (MG) que primeiro vem à memória do escultor Jorge dos Anjos quando se lembra de sua terra natal não é exatamente aquela dos cartões-postais, com ruas de paralelepípedo, construções de arquitetura colonial e igrejas barrocas. “Eu nasci perto de uma fábrica de alumínio no bairro de Saramenha, do outro lado da montanha. Meu pai trabalhava nessa fábrica e quase todos os dias eu ia levar a marmita para ele”, conta, aos 69 anos.

A visão dos metais sendo moldados pelo fogo ficou gravada na sua retina e foi fundamental para a formação de sua linguagem enquanto artista. Riscadura de fogo, sua primeira exposição individual na cidade de São Paulo, em cartaz no Sesc Pompeia, é um atestado da potência dessa linguagem, com direito a imponentes esculturas em chapas de aço com cerca de três metros de altura, pinturas em lona, desenhos que utilizam a pólvora como matéria-prima, entre outras atrações [leia mais em Arte em grande escala].

Contar sua própria história por meio da arte foi uma lição que Jorge dos Anjos aprendeu ainda adolescente com um de seus professores, Nello Nuno (1939-1975), nome histórico entre os artistas plásticos mineiros. Nuno sempre fez questão de incentivar os alunos a encontrarem suas assinaturas autorais, como uma maneira de conquistar o próprio espaço. Para Dos Anjos, que começou a carreira como pintor, essa busca não se limitou ao ateliê, mas também incluiu muitas horas numa sala de terapia.

“Eu não sabia nada do meu passado, da minha família, dos meus avós, dos meus bisavós”, reconhece. As pinturas que fazia nos anos 1960 e 1970, primeiramente como estudante e depois professor da Escola de Arte Rodrigo Melo Franco de Andrade, da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), eram um reflexo dessa investigação. “Fui me interessando cada vez menos pela paisagem em si de Ouro Preto, e mais pelas coisas que a compunham: os tropeiros, os burros que carregavam os alimentos vindos do interior, as pombas em cima dos telhados. Também pintava a fábrica de Saramenha e seus operários”, enumera.

No início da década de 1980, algo dentro dele começou a ganhar voz. “Com 24 anos, eu já tinha três filhas e me vi no meio de muita coisa. Precisava ganhar dinheiro para cuidar da família e já vendia minhas pinturas, mas achava que estava me desviando dos meus objetivos artísticos. Foi um período muito difícil”, conta. “Naquele momento de caos, fui fazer terapia e, durante o tratamento, comecei a desenhar. Eram desenhos em que eu tentava colocar para fora meus sentimentos, por isso saíam formas caóticas, recortadas, sobrepostas. Alguns desses desenhos chegavam a onze metros de comprimento”.

Durante aquele processo de autoconhecimento, Jorge dos Anjos escolheu a escultura em metais como foco principal de trabalho, algo que permanece desde então. “Comecei a desenhar no aço e recortar esses desenhos, depois fui para as gravaduras a ferro e fogo, e aos poucos o caos foi se organizando dentro de mim, assim como nas minhas obras. Fui revisitar a minha história e encontrar aquele menino cujo pai trabalhava numa siderúrgica, mas que não queria trabalhar lá de jeito nenhum. Queria ser artista”. 

Como inspiração para as obras que viriam depois, voltou ainda mais no tempo, mergulhando em sua ancestralidade, estabelecendo diálogo com a herança afro-brasileira que carrega para preencher de significado sua arte, em que imagens ligadas ao candomblé e à umbanda aparecem frequentemente. Uma de suas peças mais conhecidas, por exemplo, é o Portal da memória, dedicada a Iemanjá e instalada na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, que ganha uma peça similar na exposição atual. “O espaço da religião é onde a memória é preservada e resgatada”, define.

Ao longo da carreira que já ultrapassa cinco décadas, Jorge dos Anjos participou de exposições individuais e coletivas em diversas instituições como o Palácio das Artes, também na capital mineira, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Musée Dapper (França) e na Bienal de Valência (Espanha), entre outras, além de contar com trabalhos na Pinacoteca de São Paulo e no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Para o artista, de alguma forma, Riscadura de fogo é a celebração dessa trajetória. “Sinto que minha história inteira está ali”, resume.  

Arte em grande escala
Em nova exposição, obras de Jorge dos Anjos dialogam com o espaço idealizado por Lina Bo Bardi

Obras que ocupam a Área de Convivência do Sesc Pompeia

O encontro do projeto arquitetônico do Sesc Pompeia, criado por Lina Bo Bardi (1914-1992), com as obras de Jorge dos Anjos na exposição Riscadura de fogo parecia destinado a acontecer. As estruturas dos antigos galpões de uma fábrica da zona Oeste de São Paulo, adaptados para se tornarem centro de cultura, esporte e lazer no desenho de Lina, se revelam o cenário ideal para as esculturas em grande escala à base de ferro e aço do artista mineiro.

“Parece que aquele lugar foi feito para abrigar as obras do Jorge. É como se houvesse uma espécie de loucura temporal e as obras fizessem parte do projeto original”, brinca Lorraine Mendes, pesquisadora da exposição. “A ideia era mesmo fazer um diálogo entre essa ocupação dele e o espaço concebido pela Lina. Foi um exercício muito prazeroso pensar nos melhores encaixes”, completa o curador Lucas Menezes.

Logo na entrada de Riscadura de fogo, um conjunto de 21 esculturas formado por estruturas verticais, realizadas a partir de chapas de aço recortadas e soldadas em planos paralelos, cada uma chegando a mais de três metros de altura, estabelece uma presença imponente. O trabalho é uma das obras comissionadas especialmente para a mostra, que forma o catálogo juntamente com pinturas, vídeos e peças emblemáticas da carreira de Dos Anjos, como a instalação Casa de ferraria uma experiência imersiva criada em 2017 que retrata o processo de queima a ferro quente sob feltro, criando imagens que conversam com símbolos africanos.

“O Jorge faz um acordo sincrético entre uma visualidade afro-brasileira e a herança de arte com a qual ele convive em Minas Gerais”, destaca Lorraine, citando a influência do estado natal e da herança ancestral na linguagem do artista. “Ele compreende uma gramática visual muito própria, mas que também dá conta de algo com que a gente convive, mas não reconhece como constituinte de uma identidade nacional. É como se fossem coisas separadas que o Jorge transforma em unidade nas suas obras de uma maneira sublime e inteligente”.

A trajetória de mais de 50 anos que culmina na exposição é resultado de algo que o curador chama de “teimosia”, termo que remete a um artista fiel à visão que estabeleceu para sua arte. “Ele é alguém extremamente dedicado ao processo de experimentar, de criar, de estar no ateliê dele sempre em produção”, relata Menezes. “Ele está pouco preocupado em atender a uma demanda externa, a um modismo ou àquilo que está saindo com mais força no mercado, e sim com esse processo dele, com uma coerência no trabalho”.

Conforme conquistou projeção, Dos Anjos ganhou status de referência para artistas das gerações mais novas, como Dyana Santos, convidada a colaborar na atualização da instalação Para Oxum, originalmente montada em 2015. Estruturada por tubos metálicos conectados por esferas
e atravessada por elementos em metal, borracha e pedra-sabão, a obra ganha agora a companhia do curso d’água que faz parte da área de convivência do Sesc Pompeia e dos objetos metálicos elaborados por Dyana, que remetem a elementos da diáspora africana. “O convite do Jorge para essa composição é uma prova da sua teimosia de acreditar no próximo passo e num caminho que se abre a partir do seu trabalho”, finaliza Lorraine.

POMPEIA
Riscadura de fogo
Até 2/8 de 2026. Terça a sábado, das 10h às 21h. Domingos e feriados, das 10h às 18h. Grátis.

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