Camila Morgado celebra carreira marcada pela versatilidade

31/08/2023

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EM CARTAZ NO SESC SANTO AMARO COM A FALECIDA, DE NELSON RODRIGUES, ATRIZ CAMILA MORGADO FALA SOBRE PROCESSO CRIATIVO, FAMA E CONSTRUÇÃO DE PERSONAGENS

Leia a edição de setembro/23 da Revista E na íntegra

Por Danny Abensur

Faz duas décadas que o nome Camila Morgado não passa mais despercebido à atenção do público. Depois de conquistar seu primeiro papel na TV, já como protagonista da série A casa das sete mulheres (2003), a atriz nascida em Petrópolis (RJ) ganhou projeção a ponto de não mais conseguir andar na rua sem ser abordada. De lá para cá, Camila colecionou experiências de interpretação em vários formatos – como novelas, filmes, minisséries para a TV e séries em plataformas de streaming –, dando vida a personagens dramáticas e cômicas.

Nas séries Bom dia, Verônica (2020) e Sentença (2022), por exemplo, a atriz vive, respectivamente, uma dona de casa vítima de violência doméstica e uma advogada criminalista com o dilema de defender uma assassina. No cinema, Camila já interpretou uma militante comunista no dramático Olga (2004), mas também embarcou na comédia como a ex-milionária Jane, em Até que a sorte nos separe 2 e 3 (2013 e 2015). No mundo das novelas, passou de vilã xenófoba em América (2005) à integrante de um relacionamento amoroso que envolvia quatro pessoas, em Avenida Brasil (2012), e, mais recentemente, viveu a recatada Irma, no remake de Pantanal (2022).

Mas, “o teatro é uma necessidade”, como Camila diz. Formada na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro (RJ), a atriz se inspirou, ainda, por mestres do palco como Monah Delacy, Gerald Thomas e Antunes Filho (1929-2019). Apesar da intensa carreira no audiovisual, Camila faz questão, de tempos em tempos, de voltar à sala de ensaio. “Eu preciso me colocar de novo numa situação que não me dê muito conforto”.

Depois de 11 anos distante dos palcos – seu último espetáculo foi Palácio do fim (2012), com direção de José Wilker (1944-2014), montagem que tocava nas feridas da guerra do Iraque – a atriz acaba de estrear em A Falecida, adaptação do diretor Sergio Módena para uma das tragédias cariocas de Nelson Rodrigues (1912-1980), obra que completa 70 anos em 2023. Na peça, interpreta a adoecida e frustrada Zulmira, que sonha com um enterro de luxo. A atriz recebeu a Revista E no camarim do teatro do Sesc Santo Amaro, onde A Falecida fica em cartaz até 1º/10, e compartilha detalhes do seu processo criativo, além de relembrar curiosidades de uma carreira versátil e refletir sobre os desafios de interpretar um texto de Nelson Rodrigues.

Assista a um vídeo com trechos deste Depoimento

formação

Na minha família não tem ninguém voltado ao teatro ou à música. Meu pai é comerciante e minha mãe, dona de casa. Eu lembro que assisti a uma peça de teatro, em Petrópolis (RJ), e fiquei encantada. E aí eu vi que tinha o curso da Monah Delacy [atriz, diretora e escritora brasileira] e me matriculei. De repente, fui para o Rio de Janeiro. Fiz alguns cursos livres e entrei na CAL [Casa das Artes de Laranjeiras, centro de formação e treinamento em artes cênicas]. Tive sorte, porque fiz minha formatura com o [diretor e dramaturgo] Gerald Thomas [que dirigiu o espetáculo de conclusão de curso]. Quando me formei, então já conhecia o Gerald. E tinha o CPT [Centro de Pesquisa Teatral do Sesc São Paulo, no Sesc Consolação]. Eu era louca pelo Antunes Filho. Prestei o teste e ele me convidou para fazer parte. Fiquei só um ano com Antunes e, logo em seguida, entrei para a companhia do Gerald Thomas, a Companhia de Ópera Seca. Eu sinto que trabalhar com essas duas pessoas foi uma pós-graduação, um mestrado, um doutorado. Porque se respirava teatro o dia inteiro. E foi ali que a minha vida mudou, onde comecei a ver que era realmente aquilo que eu gostaria de fazer para o resto da minha vida. Não sei se como atriz ou dando aula, ou trabalhando com alguma coisa muito próxima. Mas teria que ser aquilo. Eles foram os mestres que me formaram.

oportunidade

Eu não fazia ideia de que ia parar na TV. Tinha 22 anos quando cheguei a São Paulo. Era tudo tão grandioso que eu ficava um pouco perturbada. Era muito prédio, muito concreto, muita gente. E eu amava aquilo tudo. Era um mundo novo se abrindo. Não pensava que iria conseguir entrar para a TV, porque trabalhava muito – tanto com o Antunes, quanto com o Gerald. O que acontecia é que, às vezes, iam muitos produtores de elenco assistir a gente. Até que aconteceu. Eu já tinha feito alguns testes. Tive várias respostas muito engraçadas também: “Sua voz é muito grossa. Não vai dar certo”, “Você não é atriz de TV”, eu escutei. A nossa profissão é assim. Até que a Frida [Richter, produtora de elenco] foi me assistir no teatro e me chamou para fazer um teste. Ali, eu conheci o [diretor] Jayme [Monjardim], que se encantou com a minha voz [risos]. E falou: “Eu queria muito que você entrasse na terceira fase de uma novela que estou fazendo”. E não aconteceu. Porque novela é uma coisa muito viva. A terceira fase não aconteceu, e ali foi minha primeira frustração. Eu falei: “Vou continuar aqui no teatro”. Mas, logo depois, ele me chamou para fazer um outro teste, que já era para a [minissérie] A casa das sete mulheres.

público

Quando me deram a notícia [da aprovação para o papel de Manuela, de A casa das sete mulheres], demorou um tempo para cair a ficha. De repente me falaram: “Você vai fazer a protagonista”. A partir dali a minha vida mudou radicalmente, porque a televisão é algo muito forte no nosso país. A gente assiste à televisão. Nossa dramaturgia é feita também pelas telenovelas – o que me dá muito orgulho. Uma vez eu estava dirigindo até o Projac – eu dirigia muito mal – e acabei batendo no carro da frente. Eu já saí pedindo desculpas: “Moço, me desculpa, eu tô errada. Eu vou pagar”. Ele falou: “Não acredito que é você!”. Aí chamou a família inteira: “Vem ver! Olha quem bateu no nosso carro”. E aí eu tirei foto com ele, com os filhos, com a esposa. Não paguei! Ele não me deixou pagar. O ator tem sorte – tanto de teatro quanto de TV, de cinema, de série – porque o público comenta. Porque você “invade” a casa das pessoas. Assim como no teatro, a gente faz o espetáculo com a plateia. É imediato.

A sala de ensaio é o lugar mais lindo, porque você vê o processo acontecendo com você, com os seus amigos, com o diretor, com a equipe. Porque é um tempo diferente.

Camila Morgado

método

Eu tinha vários diários. No começo, lembro que o meu caderno de A casa das sete mulheres era imenso de anotações. Eu não deixava ninguém pegá-lo porque poderiam me ver, ver como eu penso. Eu ficava com vergonha. Em Olga, era uma quinquilharia, uma pasta com vários amuletos, caderno, diário. E eu me lembro de ficar com aquilo como se fosse um grande tesouro. Eu acho que isso tudo são formas [de trazer confiança para o trabalho do ator], porque a gente fica muito inseguro, a nossa profissão deixa a gente muito exposto. Imagina: um set montado e você errando, dá muita aflição. É horrível. Ainda mais em Olga, que a gente gravou em película. Quando você errava, você sabia que estava desperdiçando aquele rolo. Isso tudo dava pânico. Então, eu acho que é uma paranoia, e para conter a neurose, a gente vai construindo esses amuletos. Hoje em dia – eu adoro envelhecer, porque a gente vai ficando mais tranquila pra certas coisas – o meu processo está mais leve.

personagens

Isso o Antunes [Filho] me ensinou: a gente tem que trabalhar com os nossos cinco sentidos justamente para fazer surgir esse sexto sentido, que é intuição, quando você escuta aquela voz, quando o personagem fala. Porque ele fala mesmo pela gente. É claro que não é um espírito que encosta. A gente não vira outra pessoa. Mas, de repente, começa a enxergar um pouco mais pelo ponto de vista de outra pessoa. Isso acontece. No ensaio de A Falecida, no Rio de Janeiro, eu comecei a ficar muito resfriada. Na cena final da Zulmira, ela já está com muita falta de ar. Eu tive uma crise de asma tão galopante, que tive que usar bombinha. Aí eu fui ao médico e falei: “Eu resolvi fazer uma consulta com um pneumologista porque estou com medo: no último ensaio, eu entrei numa crise de asma, e meu personagem tem tuberculose”. Ele começou a rir: “Ah, lá vêm vocês, atores. Vocês entram no personagem”. Aí, eu pensei como a gente é frágil, porque, de certa maneira, eu entrei. Eu comecei a tossir muito. A gente é totalmente racional, mas a nossa profissão é mais forte, porque ela lida comesse mundo psicológico que a gente não tem controle.

formatos

O teatro, a TV, o cinema e as séries são linguagens e lugares muito diferentes, mas eles se complementam. A televisão tem essa coisa de você ter que ter cartas na manga muito rapidamente, porque a gente grava várias cenas em um único dia. Você tem que ter uma elasticidade emocional muito grande e tem que acessá-la. Isso acaba te ajudando quando você está num processo de ensaio, porque você joga uma carta, não funciona, joga outra, não funciona, e aí você vai aprimorando. O teatro tem uma coisa que eu estava precisando. Eu estava fazendo [a novela] Pantanal e me veio essa voz: “Camila, volta pro teatro!”. Porque o teatro é uma necessidade. Chega uma hora em que você fala: “Preciso me colocar de novo numa situação que não me dê muito conforto. Preciso ir para a sala de ensaio”. Porque esse processo que a gente tem no teatro é difícil de achar na TV. A sala de ensaio é o lugar mais lindo, porque você vê o processo acontecendo com você, com os seus amigos, com o diretor, com a equipe. Porque é um tempo diferente. A gente vê aquilo crescendo, vê que o erro é fundamental para poder chegar a algum lugar. O tempo é outro. Um tempo que, às vezes, é necessário. E eu estava precisando disso.

zulmira

É horrível falar essa palavra, porque ela é muito clichê, mas [o Nelson Rodrigues] tem personagens que são presentes. É um presente para o ator. Porque é um mundo fantástico, um universo interno tão profundo, que fala de preconceito, de fantasmas que as pessoas guardam, de recalques, de culpa, de um mundo psicológico que é riquíssimo. Eu acho que é por isso que o Nelson é tão amado ou odiado, porque é um mundo difícil de assistir: ele vai em pontos que são cruciais. E seus personagens femininos são gloriosos. Eu tenho muito carinho [pela Zulmira], porque ela é muito rica. Ela é de uma infinidade de afetos. Ela passa pela culpa, pela ganância de conseguir um enterro de luxo. E a Zulmira carrega uma característica que eu acho que é muito atual para as mulheres e para todas as pessoas que são excluídas, que não são ouvidas, que foram deixadas de lado. A Zulmira faz parte desse grupo de mulheres. Esse personagem que, em algum momento, pensa na morte como uma forma de ascensão, porque talvez, pela morte, ela vai ser lembrada. Você traz para os dias de hoje, e tudo que a gente está falando reverbera na realidade das pessoas que são excluídas, essa luta constante que a gente tem para poder ser escutada. É tão potente. Essa peça foi escrita em 1953. E a gente está em 2023.

Assista ao vídeo com trechos da entrevista com a atriz Camila Morgado:

Captação de vídeo: Guilherme Barreto. Edição: Riff Produtora.

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