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Denise Golgher

Pesquisadora fala sobre os avanços da biotecnologia aplicada à saúde e os desafios para as próximas gerações


Foto: Leila Fugii

 

Ph.D. em Biologia Celular pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, mestre em Bioquímica pela Universidade de São Paulo (USP) e consultora em biotecnologia, Denise Golgher recentemente deu uma palestra no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA). Já participou de dois estudos de mapeamento de empresas de biotecnologia no Brasil, nos anos de 2007 e 2011. Nesta entrevista, a pesquisadora fala sobre a importância da biotecnologia aplicada à saúde no Brasil e no mundo, novos diagnósticos e o cenário das startups do setor. “Hoje em dia, se você estuda biologia e tem o conhecimento de bioinformática, existem muitas oportunidades. A quantidade de informação biológica associada à inteligência artificial gera a possibilidade de fazer novos projetos (e aplicativos). Isso tudo é muito atraente para a geração mais nova”, diz.

 

Caminhamos rumo a uma interferência cada vez maior na genética humana?
Trabalho com pesquisadores que querem criar novos negócios em biotecnologia e empresas que querem gerar inovação, algumas vezes em genética humana. Tento acompanhar a literatura, mas minha área de formação é principalmente a de imuno- oncologia. Hoje, temos a capacidade de mudar a informação genética, o que envolve toda uma série de questões éticas. Temos tecnologias de edição genômica que possibilitam, em caso de fertilização in vitro, por exemplo, alterar aquele embrião como antes não era possível. Agora temos um problema: o que é bom para a saúde? Quer dizer, pensamos que podemos interferir quando se trata da saúde do ser humano, mas essa fronteira é tênue. Quem explora isso muito bem é o Siddhartha Mukherjee em seu livro O Gene [Companhia das Letras, 2016].

A partir dessas interferências, estamos conseguindo prolongar nosso tempo de vida?
Sim, estamos conseguindo prolongar o tempo de vida. Acho que a questão da biotecnologia pode ajudar muito, especialmente no que diz respeito a doenças genéticas raras. Para as crianças que nascem com essas doenças, temos uma série de terapias gênicas sendo desenvolvidas que podem prolongar a vida ou que prometem curá-las.

Que benefícios obtemos com pesquisas na área de biotecnologia para uma longevidade com qualidade?
Você tem na sua família e entre seus amigos várias pessoas que têm câncer ou que já tiveram a doença. Então, a quantidade de pessoas que vivem com câncer, atualmente, é muito maior. Existem alguns tipos de câncer para os quais se têm muitas opções de tratamento. Adicionalmente, temos um cenário de novas tecnologias para detectá-lo precocemente. Muita coisa mudou. Quanto mais cedo for o diagnóstico do câncer melhor. E, uma vez diagnosticado, você pode ter mais alternativas de tratamento. O que está em evidência na biotecnologia hoje é a pesquisa em imunologia de câncer. Essa, inclusive, é a área em que há maior investimento. É necessário questionar, no entanto. Qual é o custo para um sistema de saúde, de se prolongar a vida de pacientes com câncer, por dois meses, por exemplo? Às vezes gastam-se milhões e milhões para se prolongar vidas por dois meses. Isso pode ser bom, porém temos que pensar nos limites e na qualidade de vida.

O que seria a imunologia de câncer?
O que acontece com o câncer? Quando ele é diagnosticado e já se desenvolveu, já aprendeu a conviver com o sistema imunológico. De forma simplificada, o câncer só se desenvolveu, e está no seu organismo, porque ele ganhou uma batalha contra seu sistema imunológico. Mesmo assim, a gente sabe que pode estimular uma resposta imunológica contra o câncer. A imunologia de câncer é uma área de pesquisa que almeja virar essa balança, ou seja, estimular o sistema imunológico para que ele rejeite o câncer.

Isso quer dizer que a batalha dos cientistas está na prevenção à doença?
Há um investimento maior em novas drogas e terapias do que em prevenção. Tanto que um dos especialistas mais reconhecidos em câncer, Bert Vogelstein falou uma vez numa palestra: “Por que nossa cultura é assim? Se disser que tenho um método capaz de diagnosticar precocemente 30% dos pacientes, ninguém quer. Mas se disser que há um tratamento que pode curar 30% dos pacientes, todo mundo quer”. O resultado é esse: boa parte do dinheiro que move a pesquisa científica vem de indústrias farmacêuticas com foco em novas terapias e novas drogas porque o diagnóstico é menos valorizado.

Uma questão que surgiu após o mapeamento do genoma é a possibilidade de prevermos doenças genéticas e anteciparmos o tratamento. Isso é mesmo possível?
O que aconteceu ao longo do projeto Genoma é que uma primeira geração de empresas começou a fazer esse tipo de diagnóstico que detecta marcadores associados ao possível desenvolvimento de uma doença. O modelo de negócios desse tipo de empresa funcionava assim: sem precisar de um médico, você depositava um pouco de saliva num recipiente, a empresa fazia uma análise do seu DNA e, baseada no background genético da pessoa, dizia se você tinha esse ou aquele marcador, ou seja, se você tinha uma maior propensão a ter essa ou aquela doença. Na verdade, essas empresas não funcionaram muito bem e a grande maioria foi comprada porque detinham muita informação importante para a indústria farmacêutica. Uma dessas empresas sobreviveu: a 23andMe, financiada, em parte, pela Google. A questão é: vale a pena fazer todos esses diagnósticos? A grande maioria das pessoas acha que não vale a pena a não ser que se possa fazer algo a respeito. Por exemplo, isso vale a pena para casos de câncer hereditários, que representam 10% do total de tipos de câncer. Mas, não dá para fazer isso com Alzheimer ou Parkinson.

 


Foto: Leila Fugii

 

Por que essas empresas são vistas com interesse pela Google e outras do ramo?
Essas empresas são muito interessantes pelo tipo e quantidade de informações geradas. Hoje você tem a capacidade de sequenciar o DNA e o RNA, identificar marcadores de proteína. Algo sem precedentes, rápido e barato. Em muitos projetos em desenvolvimento estão sequenciando tudo. Qual o interesse? Por que uns ficam doentes e outros não?Porque uns vivem até os 100 anos e outros não? Se há empresas dedicadas ao estudo de envelhecimento, é possível avaliar o DNA das pessoas longevas – e seu microbioma, em alguns casos – para fazer uma análise e gerar conhecimento. Além disto, em muitos projetos, além do sequenciamento do DNA, RNA, microbioma, estão avaliando o que está acontecendo no sistema imunológico da pessoa. E essas empresas, Google, Facebook, entre outras, vão fazer isso melhor que ninguém porque o que fazem é cruzar informações e tentar gerar algum conhecimento a partir delas. Para ter uma ideia, a Holy Grail, empresa dedicada a biópsias líquidas, recebeu um investimento de milhões de dólares de Jeff Bezzos (Amazon) e Bill Gates. Essa startup tem a promessa de fazer biópsias líquidas (a partir da coleta de sangue) para detectar Alzheimer, câncer e outras doenças. Uma segunda geração de empresas, em um segmento um pouco diferente, segue a era do Genomic of Wellness (Genoma do Bem-Estar): marcadores que vão me dizer se terei uma performance melhor neste ou naquele esporte; se deveria comer mais disso ou menos daquilo.

Se já temos um diagnóstico precoce, a possibilidade da biópsia líquida e novos tratamentos, de que doenças vamos morrer nas próximas décadas?
O homem vai morrer por doença degenerativa ou câncer. Não adianta: se as suas células se multiplicam, quanto mais você vive, maior a multiplicação celular e maior a chance de morrer de câncer. Isso significa que quanto mais as suas células se multiplicam, maior a chance de ter uma mutação no DNA, o que pode causar um câncer. Isso não acontecerá do dia para a noite. Um tumor no intestino, por exemplo, é algo que pode levar dez anos para evoluir para um câncer. Se você faz uma colonoscopia e não tem nada, o médico fala: “Volte daqui a dez anos”. Outra coisa que sabemos: tratamentos para o Alzheimer ainda estãomais distantes do que tratamentos e possível cura de alguns tipos de câncer.

Que importância tem nosso estilo de vida para evitarmos a chance de adoecermos?
Há doenças com fatores hereditários e outras que têm a ver com um estilo de vida. A gente já sabe que se uma pessoa está constantemente estressada, há tendência a alguns tipos de doença e isso pode piorar. Se você tem uma dieta equilibrada, isso é melhor para a saúde. Porém, tem gente que é longevo e que só come hambúrguer e batata frita. Ou seja, a longevidade e o desenvolvimento de doenças não é algo unifatorial. É complexo. Todo mundo sabe, mas pouca gente faz o que é recomendado para ter uma vida saudável. Dá mais trabalho e as pessoas preferem tomar um remédio. O excesso de diagnósticos e de medicação é um problema atual. As pessoas tentam obter um desempenho, digamos assim, artificial.

No Brasil, como está o atual cenário da biotecnologia aplicada à saúde humana?
O Brasil não está bem. Primeiro porque temos pouquíssimas empresas em biotecnologia na área de saúde humana, pouquíssimas startups, e as poucas que existem não recebem um investimento adequado. Apesar de termos uma classe médica e de pesquisadores muito sofisticadas, poucas são as pesquisas que saem das nossas universidades que são ousadas. Na grande maioria das vezes, há um descolamento entre o que está sendo feito nas universidades e institutos de pesquisa, do que é de interesse comercial. Exemplo: se eu estiver fazendo uma nova droga para o câncer, não adianta que ela seja interessante para a pesquisa se não houver uma necessidade médica real. Se houver uma necessidade médica real, provavelmente haverá um interesse comercial para seu desenvolvimento. Outro problema é o da propriedade intelectual. Muitas vezes, você tem um projeto bom, mas só fez o depósito da patente no Brasil. Não adianta. Se você não fez um depósitointernacional, uma empresa que poderia se interessar pelo projeto e enxerga um potencial para venda deste novo candidato a droga não terá interesse.

Podemos dizer que há um descompasso entre os atores do setor de biotecnologia?
Sim. O setor de biotecnologia no Brasil é minúsculo, tem poucas empresas e das poucas que existem, podemos arriscar que duas serão casos de sucesso. A indústria farmacêutica no Brasil quase não inova porque é muito baseada em genérico. E, quando quer inovar, o faz a passos lentos. A base da biotecnologia é o mundo acadêmico. Se ele não está gerando tecnologias novas e interessantes, protegidas por boas patentes, e se não há um investimento consistente, você não vai ter um setor de biotecnologia. Acredito que os hospitais privados – estou fazendo, no momento, um projeto de economia da inovação a respeito – têm o potencial para gerar bons projetos. Caso do Albert Einstein, que tem uma diretoria de inovação para estimular novos projetos e startups, e do Sírio Libanês, que tem um prêmio para novas startups da área.

Há políticas públicas voltadas para a biotecnologia no Brasil?
O governo tem uma preocupação clara com a questão da biotecnologia aplicada à saúde humana, mesmo porque nosso déficit é absurdo nesta área, mas não há orçamento suficiente. A gente tem edital para isso e para aquilo, mas não há continuidade. Não há uma consistência. Em todo país em que o setor de biotecnologia é razoável, o governo teve um papel fundamental, com exceção da Suíça. Então, não adianta o Brasil querer fazer alguma coisa sem que o governo dê um passo. Ou seja, a iniciativa privada investe quando o governo se manifesta de maneira mais consistente.

Além dos Estados Unidos, que sai na frente nesse setor, que outros países estão se dedicando a pesquisas inovadoras em biotecnologia?
Recentemente foi publicado um livro do Michael Hopkins, em parceria com o professor Geoffrey Owen, sobre a indústria da biotecnologia na Inglaterra. Para ter uma ideia, o nome do livro é Science, The State& The City, Britain’s Struggle to Succeed in Biotechnology [Ciência, Estado & Cidade – O Esforço Britânico para Obter Êxito na Biotecnologia]. Quer dizer, até para a Inglaterra, que realiza pesquisas maravilhosas, estabelecer-se como um país relevante na biotecnologia demandou e ainda demandamuito esforço. Outros países que se destacam são China e Israel. Este último é o que mais investe em pesquisa per capta; tem uma cultura empreendedora de venture capital; e muitos pesquisadores. Eles fazem muitas startups. Então, este miniecossistema existe em Israel e o mais interessante é que o país não tem uma indústria farmacêutica que inova. No entanto, o governo israelense investe muito em pesquisa. Ou seja, você tem dinheiro para pesquisa e uma cultura empreendedora.

A chegada de novas tecnologias está atraindo cada vez mais jovens também para essa área de biotecnologia da saúde?
Certamente. Você olha para muitas startups dessa área e elas estão cheias de garotada fazendo aplicativos voltados para saúde – um segmento que tem investimento.Outra coisa que você tem é essa intersecção entre ciência da computação e biologia, o que é maravilhoso. Hoje em dia, se você estuda biologia, pode se especializar em bioinformática, realizar projetos multidisciplinares com especialistas em inteligência artificial. Temos aí uma quantidade de informação que pode ser gerada e a possibilidade de fazer novas startups. Isso tudo é muito atraente para a geração mais nova.

 

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